{"id":4234,"date":"2010-11-01T00:00:00","date_gmt":"2010-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-11-01T11:50:20","modified_gmt":"2010-11-01T11:50:20","slug":"dez-anos-da-resolucao-1325-no-brasilx-o-exemplo-de-clara-charf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2010\/11\/dez-anos-da-resolucao-1325-no-brasilx-o-exemplo-de-clara-charf\/","title":{"rendered":"Dez anos da Resolu\u00e7\u00e3o 1325 no Brasil: o exemplo de Clara Charf"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 um momento hist\u00f3rico para o Brasil: tivemos duas candidatas a presidente (Dilma Roussef e Marina Silva) que juntas receberam a maioria dos votos na elei\u00e7\u00e3o. Agora temos a perspectiva de eleger a primeira mulher presidente, isso \u00e9 uma conquista\u201d, diz Clara Charf, uma das principais refer\u00eancias do movimento feminista no Brasil. No m\u00eas em que se comemora os 10 anos da Resolu\u00e7\u00e3o 1325 da Organiza\u00e7\u00e3o Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que trouxe uma s\u00e9rie de propostas para combater a viol\u00eancia contra as mulheres e dar a elas maior participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ela concede entrevista exclusiva em que fala sobre sua hist\u00f3ria de luta e os avan\u00e7os da aplica\u00e7\u00e3o da norma no Brasil. <\/p>\n<p>Atual presidente do conselho da ONG Mulheres pela Paz, aos 85 anos de idade, Clara Charf tamb\u00e9m \u00e9 conhecida como vi\u00fava do ex-combatente de esquerda Carlos Marighela, assassinado por agentes da ditadura na d\u00e9cada de 70. Sua hist\u00f3ria de milit\u00e2ncia no movimento feminista e pacifista come\u00e7a bem antes de conhecer o emblem\u00e1tico personagem da resist\u00eancia armada no Brasil. J\u00e1 em 1945, Clara se engajava nos protestos contra a participa\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito brasileiro no final da Segunda Guerra Mundial. Ainda no final da d\u00e9cada de 50, participou da funda\u00e7\u00e3o da Liga Feminina do Estado da Guanabara, iniciando sua milit\u00e2ncia nos prim\u00f3rdios do movimento feminista no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Teve que se exilar em Cuba na \u00e9poca da ditadura, retornando ao Brasil apenas com a anistia no final da d\u00e9cada de 70. Teve participa\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o da prefeita de S\u00e3o Paulo, Luiza Erundina (1988 a 1991). Mas foi com a iniciativa da indica\u00e7\u00e3o de 1000 mulheres para o pr\u00eamio nobel da paz de 2005 que Clara Charf consolidou seu papel como umas das principais lideran\u00e7as do movimento feminista no pa\u00eds, com proje\u00e7\u00e3o mundial. \u201cEla \u00e9 uma das poucas pessoas que se tornou uma refer\u00eancia para diversas correntes dos movimento de mulheres no Brasil, pois consegue trazer para o di\u00e1logo as v\u00e1rias tend\u00eancias do feminismo\u201d, explica Vera Vieira, diretora executiva da ONG Mulheres pela Paz. <\/p>\n<p>Em 2003, Clara Charf foi escolhida para coordenar o processo de sele\u00e7\u00e3o das brasileiras que fariam parte do grupo de 1000 mulheres que concorreram ao Nobel da Paz de 2005. Ela foi contatada pela ONG sui\u00e7a Peace Women Across the Globe (PWAG) para levar adiante o processo no Brasil que culminou com a escolha de 52 brasileiras que concorreram ao nobel.  Elas n\u00e3o levaram o pr\u00eamio, que foi para a Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, mas isso n\u00e3o foi motivo para que a rede formada pelas mulheres se desarticulasse. Pelo menos n\u00e3o no Brasil, onde Clara Charf e um grupo de mulheres ampliaram sua atua\u00e7\u00e3o com o objetivo de combater a viol\u00eancia contra as mulheres. <\/p>\n<p>A principal inspira\u00e7\u00e3o do grupo veio justamente da Resolu\u00e7\u00e3o 1325, mas com um conceito mais amplo que o de atuar apenas nos conflitos b\u00e9licos. \u201cCome\u00e7amos a compreender que a luta n\u00e3o se restringia \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de guerra. Por isso, passamos a falar em defesa da seguran\u00e7a humana e da justi\u00e7a\u201d, diz Clara Charf. Logo ap\u00f3s a iniciativa do nobel, o grupo come\u00e7ou a percorrer o pa\u00eds com uma exposi\u00e7\u00e3o que contava e difundia a hist\u00f3ria das brasileiras indicadas ao pr\u00eamio. <\/p>\n<p>Da\u00ed foi surgindo o embri\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o que foi fundada juridicamente em 2008, a ONG Mulheres pela Paz, da qual Clara Charf \u00e9 fundadora e mant\u00e9m o cargo de presidente do conselho. \u201cEm 2005, j\u00e1 com 80 anos de idade, ela mantinha um dinamismo impressionante, viajava para todos os cantos do pa\u00eds e tamb\u00e9m para o exterior, foi para a Sui\u00e7a e para outros pa\u00edses, para representar a rede das mulheres brasileiras\u201d, lembra Vera Vieira.<\/p>\n<p>Apenas no in\u00edcio de 2010, Clara Charf diminuiu um pouco o ritmo de atividades, por conta de um problema de sa\u00fade (quebrou o f\u00eamur), mas n\u00e3o v\u00ea a hora de voltar \u00e0 ativa. J\u00e1 no final de agosto passado, ela participou de um semin\u00e1rio em S\u00e3o Paulo para reunir os ativistas da mais recente campanha realizada por sua ONG. A campanha \u201cMulheres pela Paz\u201d, realizada desde 2008, \u00e9 um dos exemplos de como a Resolu\u00e7\u00e3o 1325 vem sendo aplicada no Brasil. Diversas lideran\u00e7as femininas, indicadas ao nobel da paz, \u201cadotaram\u201d tr\u00eas jovens cada uma. As jovens passaram por um processo de capacita\u00e7\u00e3o e receberam um apoio para desenvolver projetos.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da comunicadora Mara R\u00e9gia di Perna, que \u201cadotou\u201d as tr\u00eas jovens para desenvolver oficinas e spots para r\u00e1dio com o tema \u201cpaz \u00e9 um combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres\u201d. O grupo atua nos nove estados da Amaz\u00f4nia Legal e veiculam os spots na R\u00e1dio Nacional da Amaz\u00f4nia e em r\u00e1dios locais. Outro exemplo \u00e9 o de Raimunda Gomes da Silva, do estados do Tocantins, que recrutou jovens da regi\u00e3o para realizar um trabalho de defesa da floresta e desenvolvimento do extrativismo como renda familiar. <\/p>\n<p>A ONG Mulheres pela Paz agora se prepara para lan\u00e7ar uma nova campanha que pretende atuar na quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica. \u201c\u00c9 a primeira vez que vamos fazer a\u00e7\u00f5es envolvendo tanto com mulheres quanto homens, para realizar a\u00e7\u00f5es no combate \u00e0 viol\u00eancia dentro das casas. \u00c9 um problema cultural grave que envolve os dois g\u00eaneros. Em m\u00e9dia a cada 15 segundos uma mulher \u00e9 espancada no Brasil\u201d, diz Vera Vieira. <\/p>\n<p>Enquanto a aplica\u00e7\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o 1325 ainda produz resultados abaixo das expectativas em diversos pa\u00edses e no \u00e2mbito mesmo da ONU, alguns exemplos como o de Clara Charf e da rede de mulheres brasileiras, s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es que podem apontar um caminho. Depois de 10 anos de exist\u00eancia, ainda n\u00e3o se verificou um aumento significativo da participa\u00e7\u00e3o das mulheres na inst\u00e2ncias decis\u00f3rias e nas miss\u00f5es de paz da ONU, mas em alguns pa\u00edses como o Brasil, a norma segue inspirando uma s\u00e9rie de projetos sociais. Leia a seguir a entrevista exclusiva concedida em 9 de outubro de 2010 por Clara Charf:<\/p>\n<p>Pergunta &#8211; O que representa o anivers\u00e1rio de 10 anos da Resolu\u00e7\u00e3o 1325 da ONU?<\/p>\n<p>Clara Charf &#8211; A Resolu\u00e7\u00e3o 1325 representa uma nova etapa na hist\u00f3ria da humanidade. Eu sou de um tempo que n\u00e3o existia nem a ONU. Antes as teses giravam em torno da luta entre Guerra e Paz. A partir do ano 2000, surgem novas teses. A partir da resolu\u00e7\u00e3o a luta pela paz incorporou outros elementos. A luta se ampliou, passamos a compreender que a luta n\u00e3o era apenas no combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. A luta era contra todos os tipos de viol\u00eancia e desigualdade. \u00c9 um conceito mais amplo, passamos a falar em seguran\u00e7a humana e justi\u00e7a. <\/p>\n<p>P \u2013 O que representou a articula\u00e7\u00e3o das 1000 mulheres para o nobel da paz de 2005?<\/p>\n<p>CC &#8211; Mesmo n\u00e3o ganhando o nobel naquele ano, articulamos uma forte rede de mulheres pela paz no Brasil e em diversos pa\u00edses. Cada uma das hist\u00f3rias das brasileiras est\u00e1 retratada em livros, depois levamos a exposi\u00e7\u00e3o para diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Com isso, ajudamos a mostrar a evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da mulher, da consci\u00eancia humana. Cada uma delas tem uma contribui\u00e7\u00e3o importante na incorpora\u00e7\u00e3o da luta pela paz no dia-a-dia. E tudo isso foi fortalecido a partir da Resolu\u00e7\u00e3o 1325.<\/p>\n<p>P- Como a senhora consegue aglutinar diversas correntes do movimento de mulheres?<\/p>\n<p>CC &#8211; Dizem que sou uma figura que aglutina as correntes do movimento de mulheres e de outros movimentos. Acredito que isso acontece porque tenho uma longa hist\u00f3ria de milit\u00e2ncia. Comecei a atuar em 1945, desde o final da Segunda Guerra Mundial. Lutei contra a participa\u00e7\u00e3o do Brasil na guerra. \u00c9 uma luta muito antiga, nem havia o movimento de mulheres. Naquela \u00e9poca era dif\u00edcil que os outros me entendessem, perguntavam, o que eu tinha a ver, por exemplo, com os povos da Am\u00e9rica Latina. Hoje \u00e9 mais f\u00e1cil explicar para as pessoas a quest\u00e3o da solidariedade aos povos.<\/p>\n<p>P \u2013 Como a senhora analisa a op\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia armada na \u00e9poca da ditadura militar?<\/p>\n<p>CC &#8211; Naquela \u00e9poca ou voc\u00ea era a favor ou era contra o regime. Algumas pessoas tentavam atuar pela conscientiza\u00e7\u00e3o, e outras pegaram em armas, com o mesmo objetivo. A ditadura matou muita gente, perdi meu companheiro (Carlos Marighela). Tive que me exilar, vieram muitas experi\u00eancias positivas tamb\u00e9m. Fui para Cuba, conheci o povo cubano. Depois veio a anistia, voltou a democracia. Em cada momento fomos nos posicionando perante os problemas de cada \u00e9poca.<\/p>\n<p>P \u2013 Como v\u00ea a possibilidade de eleger a primeira presidente mulher no Brasil? <\/p>\n<p>CC &#8211; \u00c9 um momento hist\u00f3rico importante. Estou torcendo para que seja eleita a primeira mulher para a presid\u00eancia do pa\u00eds. \u00c9 uma experi\u00eancia muito forte, ainda mais para um pa\u00eds com dimens\u00f5es continentais como o Brasil. Coloca as mulheres em outro patamar em nossa na\u00e7\u00e3o. \u00c9 um salto muito grande que vem se acumulando desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, com a hist\u00f3ria da participa\u00e7\u00e3o das mulheres nos movimentos, nas associa\u00e7\u00f5es e nos partidos.<\/p>\n<p>P \u2013 Quais outros exemplos de avan\u00e7o na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das mulheres?<\/p>\n<p>CC &#8211; A indica\u00e7\u00e3o de representantes como Marina Silva e tamb\u00e9m de Luiza Erundina (ex-prefeita de S\u00e3o Paulo) no grupo das 1000 mulheres para o nobel tem a ver com essa evolu\u00e7\u00e3o. Elas representam a maior participa\u00e7\u00e3o feminina nas decis\u00f5es pol\u00edticas do pa\u00eds. Erundina foi a primeira prefeita de uma grande cidade depois da ditadura. A Marina tem uma origem simples, assim como a Erundina, e representa a politiza\u00e7\u00e3o da mulher na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. S\u00e3o verdadeiras guerreiras da paz, assim como tantas outras.<\/p>\n<p>&#8220;Este artigo faz parte do projeto de coopera\u00e7\u00e3o da Peace Women Across the Globe (PWAG), a German Women&#8217;s Security Council, o OWEN-Mobile Academy for Gender Democracy e Peace Promotion assim como o Global Corporation Council, organiza\u00e7\u00e3o guarda-chuva da IPS Deutschland&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista exclusiva com Clara Charf, presidente da ONG Mulheres pela Paz e organizadora da sele\u00e7\u00e3o das 52 brasileiras escolhidas para o Nobel da Paz em 2005. 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