{"id":36216,"date":"2013-02-02T00:50:06","date_gmt":"2013-02-02T00:50:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=36216"},"modified":"2013-02-02T00:57:11","modified_gmt":"2013-02-02T00:57:11","slug":"a-justica-economica-segundo-martin-luther-king","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2013\/02\/a-justica-economica-segundo-martin-luther-king\/","title":{"rendered":"A justi\u00e7a econ\u00f4mica segundo Martin Luther King"},"content":{"rendered":"<p>Em meio aos debates sobre Lincoln, a escravid\u00e3o e a posse de Obama, Osagyefo Sekou, fundador da Igreja da Liberdade de Nova York, comenta neste artigo o papel hist\u00f3rico de Martin Luther King, que n\u00e3o somente dizia \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 injusti\u00e7a econ\u00f4mica: \u201cEu estou convencido de que a abordagem mais simples se provar\u00e1 a mais efetiva \u2013 a solu\u00e7\u00e3o para a pobreza \u00e9 sua aboli\u00e7\u00e3o imediata por uma medida j\u00e1 muito discutida: a renda garantida\u201d.<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria de Reverendo Osagyefo Sekou<\/p>\n<p>\u201cQuerida, eu sinto muito sua falta. Na verdade, muito para meu bem. Eu nunca havia percebido que voc\u00ea era parte t\u00e3o \u00edntima de minha vida\u201d, escreve um jovem estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, Martin Luther King Jr., \u00e0 sua amada, Coretta Scott. Eles separaram-se por alguns meses porque Martin teve que ir a Atlanta ap\u00f3s seu primeiro ano como estudante PhD na Escola de Teologia da Universidade de Boston. A carta de Martin come\u00e7a por partilhar a saudade que ele sente. Afiando a orat\u00f3ria que capturaria a consci\u00eancia de uma na\u00e7\u00e3o, escreve Martin: \u201cminha vida sem voc\u00ea \u00e9 como um ano sem primavera, que vem iluminar e aquecer a atmosfera saturada pela gelada brisa do inverno\u201d.<\/p>\n<p>Voltando-se para \u201calgo mais intelectual\u201d, Martin indica que havia terminado de ler o \u201cfascinante\u201d livro de Bellamy. Em abril de 1952, Coretta o enviou uma c\u00f3pia do romance socialista de Edward Bellamy, Looking Backward 2000-1887. Ela registrou o presente com uma nota expressando seu interesse pela rea\u00e7\u00e3o de Martin \u00e0 \u201cpredi\u00e7\u00e3o de Bellamy sobre nossa sociedade\u201d. Escrito em 1888, o romance de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica se passa no ano 2000. A protagonista da obra, Julian West, acorda de um cochilo de 130 anos para perceber que os Estados Unidos haviam se transformado numa sociedade socialista. West oferece uma cr\u00edtica assombrosa das pr\u00e1ticas religiosas do s\u00e9culo XIX:<\/p>\n<p>Na melosa carta de amor de julho de 1952, Martin agradece Coretta \u201cum milh\u00e3o de vezes\u201d por t\u00ea-lo apresentado a um livro \u201ct\u00e3o estimulante\u201d. Ap\u00f3s caracterizar Bellamy como um \u201cprofeta social\u201d, Martin faz uma confiss\u00e3o not\u00e1vel: \u201ceu sou mais socialista do que capitalista em minha teoria econ\u00f4mica\u201d. Ele continua por dizer que o capitalismo durou mais tempo do que deveria. Para o jovem estudante, o capitalismo \u00e9 \u201cum sistema que toma necessidades das massas para oferecer lux\u00farias \u00e0s classes abastadas\u201d. No entanto, Martin acredita que a profecia de Bellamy \u00e9 prematura porque \u201co capitalismo vai precisar de mais de meio s\u00e9culo para morrer\u201d. King celebra a nacionaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria que se d\u00e1 no romance. Ao passo que rejeita o marxismo e o materialismo dial\u00e9tico, ele divide com sua futura esposa que concorda com a tese b\u00e1sica de Bellamy.<\/p>\n<p><strong>O Reverendo Martin Luther King Junior<\/strong><br \/>\nA casa de King em Sweet Auburn sempre foi atuante na pol\u00edtica racial e no radicalismo religioso. Seu pai, o vener\u00e1vel \u201cPapai\u201d King, fundou, em Sweet Auburn, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e trabalhou para melhorar as condi\u00e7\u00f5es educacionais do povo negro de Atlanta. O av\u00f4 e bisav\u00f4 de King eram pregadores do evangelho que criam que a igreja deve melhorar a situa\u00e7\u00e3o social da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Formado pelo cristianismo social negro segundo o qual a cristandade deve ocupar-se tanto da salva\u00e7\u00e3o pessoal quanto da social, King cresceu imerso na tradi\u00e7\u00e3o dos cl\u00e9rigos estadistas \u2013 Benjamin Mays, Mordecai Johnson e Howard Thurman. Thurman, Mays e Johnson fizeram peregrina\u00e7\u00f5es para a \u00cdndia para estudar os ensinamentos de Mahatma Gandhi. Eles eram grandes refer\u00eancias para o jovem estudante do Morehouse College. King sempre viajou com uma c\u00f3pia da reprimenda teol\u00f3gica de Howard Thurman \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o \u2013 Jesus e os Deserdados. Como p\u00f3s-graduando da Universidade de Boston, King conduziu, al\u00e9m da pr\u00f3pria peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia, um semin\u00e1rio sobre a filosofia da n\u00e3o-viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais para o final da carta, King afirma uma vis\u00e3o prof\u00e9tica. Com esperan\u00e7a, trabalho e ora\u00e7\u00e3o, King aspirava por \u201cum mundo sem guerras, uma melhor distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, e uma irmandade que transcenda a ra\u00e7a e a cor. \u00c9 este o evangelho que pregarei para o mundo\u201d.<\/p>\n<p>O furac\u00e3o da hist\u00f3ria testaria a resolu\u00e7\u00e3o do jovem te\u00f3logo. Do boicote aos \u00f4nibus em Montgomery \u00e0 marcha de Washington, da campanha de Birmingham at\u00e9 o Pr\u00eamio Nobel da Paz, King manteve firme seu comprometimento com a n\u00e3o-viol\u00eancia e o cristianismo social negro. Em 30 de setembro de 1961, King proferiu um serm\u00e3o com o tema \u201cPode um crist\u00e3o ser um comunista?\u201d em sua igreja batista. No serm\u00e3o, Martin levantou a quest\u00e3o da desigualdade. \u201cNingu\u00e9m precisa ser comunista para se preocupar com isso. Eu digo a voc\u00eas que s\u00f3 0,1 por cento da popula\u00e7\u00e3o desta na\u00e7\u00e3o controla quase metade da riqueza, e eu n\u00e3o me importo de dizer que h\u00e1 algo de errado nisso\u201d.<\/p>\n<p>Com Lincoln vigiando os nobres herdeiros da Proclama\u00e7\u00e3o da Emancipa\u00e7\u00e3o, o Reverendo Martin Luther King Junior deu testemunho para uma na\u00e7\u00e3o que impacientava-se com a opress\u00e3o racial e econ\u00f4mica. Durante o agora onipresente discurso \u201cEu Tenho um Sonho\u201d, King articulou a \u201cferoz urg\u00eancia do agora\u201d. Ele insistiu em apontar que os Estados Unidos n\u00e3o poderiam contentar-se enquanto o a mobilidade social do \u201cpovo negro \u00e9 aquela que vai de um gueto menor para um gueto maior\u201d.<\/p>\n<p>No celebrado discurso contra a Guerra do Vietn\u00e3, King lembrou-se de Coretta e falou de seu evangelho para o mundo. No dia 4 de abril de 1967, Martin subiu ao p\u00falpito da catedral do Protestantismo Liberal \u2013 a Igreja de Riverside. De maneira vagarosa e triste, ele apelou para que sua na\u00e7\u00e3o se libertasse de sua desorientada aventura no Sudeste Asi\u00e1tico:<\/p>\n<p>\u201celes perguntam-me, \u2018por que voc\u00ea est\u00e1 falando da guerra, Dr. King? Por que voc\u00ea se junta ao coro dos descontentes? Voc\u00ea n\u00e3o se v\u00ea prejudicando uma causa que pertence a seu pr\u00f3prio povo?\u2019 E, quando eu os escuto, apesar de conhecer a origem dessa inquietude, me vejo muito entristecido. Essas perguntas significam que eles n\u00e3o conhecem a mim, meu compromisso, meu chamado&#8230; \u00c0 luz dessas tr\u00e1gicas incompreens\u00f5es, eu julgo de suma import\u00e2ncia expor com clareza a raz\u00e3o pela qual creio que o caminho iniciado na Igreja Batista da Avenida Dexter \u2013 a igreja em Montgomery, Alabama, onde comecei meu pastorado \u2013 trouxe-me at\u00e9 aqui. Eu estou aqui para fazer um apelo apaixonado para minha querida na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>A justi\u00e7a econ\u00f4mica segundo Martin Luther King<\/strong><br \/>\nUm dos movimentos mais ardentes de seu discurso sublinha os impactos da Guerra do Vietn\u00e3 na \u201cGuerra \u00e0 Pobreza\u201d. Um ano antes de seu discurso, King atentou para a pobreza que o norte dos Estados Unidos atravessava. Compreendendo que o fim da segrega\u00e7\u00e3o nas lanchonetes era s\u00f3 parte da solu\u00e7\u00e3o, King \u00e9 citado por colegas por ter dito que, ap\u00f3s chegar a uma lanchonete, o homem precisa de dinheiro para comprar um hamb\u00farguer. Acabar com a segrega\u00e7\u00e3o, de acordo com King, n\u00e3o custou um centavo \u00e0 na\u00e7\u00e3o, que deveria agora gastar muito dinheiro com programas de combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>Em 1966, King mudou-se para um conjunto habitacional no gueto de Chicago. A inten\u00e7\u00e3o de King e de sua organiza\u00e7\u00e3o, a Confer\u00eancia dos L\u00edderes Crist\u00e3os do Sul (SCLC, do ingl\u00eas), era a de usar a \u201cfor\u00e7a moral do movimento de n\u00e3o-viol\u00eancia para erradicar um sistema perverso que procura continuar colonizando milhares de negros num ambiente miser\u00e1vel\u201d. A campanha levou King a enfrentar a pobreza urbana e a priva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A contar desse momento, Martin trouxe para sua cr\u00edtica \u00e0 Guerra do Vietn\u00e3 a conex\u00e3o com a pobreza dos guetos estadunidenses.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma conex\u00e3o muito \u00f3bvia entre a Guerra do Vietn\u00e3 e a luta que empreendemos nos Estados Unidos. H\u00e1 alguns anos essa luta conheceu um momento brilhante. Parecia haver uma verdadeira esperan\u00e7a para o povo pobre, seja ele branco ou negro, em virtude do Programa Contra a Pobreza. Ent\u00e3o, veio o Vietn\u00e3. Os fundos necess\u00e1rios n\u00e3o ser\u00e3o investidos enquanto aventuras como a do Vietn\u00e3 continuarem a puxar homens e dinheiro como um tubo de suc\u00e7\u00e3o demon\u00edaco. Eu tornei-me, pois, obrigado a enxergar a guerra como uma inimiga dos pobres\u201d.<\/p>\n<p>Pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s esse discurso, King foi \u00e0 NBC participar do \u201cThe Frank McGee Sunday Report\u201d. L\u00e1, o Reverendo acrescentou sua voz \u00e0 dos dissidentes com base em sua convic\u00e7\u00e3o moral e sua obriga\u00e7\u00e3o ministerial. Durante a entrevista, ele recusou a acusa\u00e7\u00e3o de que o movimento pelos direitos civis estava morto. King argumentou que o movimento havia entrado numa nova fase \u2013 a da justi\u00e7a econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u201cPor 12 anos n\u00f3s lutamos para contra a segrega\u00e7\u00e3o legal e toda a humilha\u00e7\u00e3o que a cercava. Era uma luta por dec\u00eancia. Agora n\u00f3s buscamos igualdade genu\u00edna enfrentando quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas dur\u00edssimas. \u00c9 bem mais f\u00e1cil p\u00f4r fim \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o nas lanchonetes do que garantir um sal\u00e1rio. \u00c9 bem mais f\u00e1cil p\u00f4r fim \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o nos \u00f4nibus do que conseguir um programa que force o governo a gastar bilh\u00f5es de d\u00f3lares em bairros miser\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s reconhecer o n\u00famero desproporcional de afro-americanos morrendo nos p\u00e2ntanos vietnamitas, King comenta que afro-americanos tamb\u00e9m morriam, espiritual e psicologicamente, nos guetos estadunidenses.<\/p>\n<p>O Reverendo n\u00e3o somente dizia \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e0 injusti\u00e7a econ\u00f4mica. Essa foi sua \u00faltima cruzada. Tendo contado com o apoio do governo federal para alcan\u00e7ar os objetivos do movimento pelos direitos civis, a nova fase do movimento desafiava o governo a dedicar bilh\u00f5es de d\u00f3lares para acabar com a pobreza. Com esse objetivo, King e a SCLC lan\u00e7aram a Campanha do Povo Pobre. Em 1968, a Campanha do Povo Pobre questionava por que as grandes corpora\u00e7\u00f5es tinham lobistas, enquanto 35 milh\u00f5es de pessoas vivendo na pobreza n\u00e3o. Com a montagem de uma coaliz\u00e3o multirracial pelo povo pobre, a campanha planejava ir a Washington e ocupar a capital nacional at\u00e9 que o Congresso aprovasse uma lei garantidora de renda.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo livro, Where Do We Go From Here: Chaos or Community? [Para onde vamos daqui: caos ou comunidade?], King deu voz a ainda mais uma possibilidade socialista e democr\u00e1tica. \u201cEu estou convencido de que a abordagem mais simples se provar\u00e1 a mais efetiva \u2013 a solu\u00e7\u00e3o para a pobreza \u00e9 sua aboli\u00e7\u00e3o imediata por uma medida j\u00e1 muito discutida: a renda garantida\u201d, escreveu King. Durante uma de suas \u00faltimas reuni\u00f5es, ele pediu para que desligassem o gravador e disse que era um socialista democr\u00e1tico, apesar de que poderia diz\u00ea-lo em p\u00fablico sem perder ainda mais apoio popular.<\/p>\n<p>Com a bala do assassinato j\u00e1 polida e pronta para encher a na\u00e7\u00e3o de c\u00f3lera, King foi ao p\u00falpito sagrado do pentecostalismo negro. Em defesa dos trabalhadores do saneamento, King disse uma palavra sobre o pr\u00f3prio legado. Sempre ligando os pontos, ele fez um pedido aos que o escutavam na Igreja de Deus em Cristo de Mason Temple. Ele disse que duas grandes corpora\u00e7\u00f5es, Coca-Cola e Wonder Bread, n\u00e3o estavam tratando como deveriam as crian\u00e7as de Deus. E, ent\u00e3o, solicitou um boicote econ\u00f4mico a essas companhias. Em Trumpet of Conscience [Trombeta da Consci\u00eancia], King instigava a organiza\u00e7\u00e3o de deslocamentos em massa que ressaltassem a injusti\u00e7a econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Muito ap\u00f3s o silenciamento do profeta norte-americano, suas palavras mant\u00e9m uma precis\u00e3o assustadora. Nos \u00faltimos dois anos, cidad\u00e3o comuns de todo mundo \u2013 Egito, Palestina, Tun\u00edsia, Wall Street, Gr\u00e9cia, Paris e Londres \u2013 carregaram suas palavras e seu esp\u00edrito enquanto arriscavam as pr\u00f3prias vidas para libertarem-se da tirania e da pobreza.<\/p>\n<p><em>*O Reverendo Osagyefo Sekou \u00e9 escritor, documentarista, te\u00f3logo e intelectual p\u00fablico. Considerado um dos maiores l\u00edderes religiosos de sua gera\u00e7\u00e3o, Sekou \u00e9 o fundador da Igreja da Liberdade de Nova York.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Cristi para o portal Carta Maior<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio aos debates sobre Lincoln, a escravid\u00e3o e a posse de Obama, Osagyefo Sekou, fundador da Igreja da Liberdade de Nova York, comenta neste artigo o papel hist\u00f3rico de Martin Luther King, que n\u00e3o somente dizia \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":36217,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[113,42,165],"tags":[],"class_list":["post-36216","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-do-exterior","category-internacional-2","category-opiniao"],"yoast_head":"<!-- This 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