{"id":303010,"date":"2016-04-16T15:34:45","date_gmt":"2016-04-16T14:34:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/?p=303010"},"modified":"2016-04-16T15:39:14","modified_gmt":"2016-04-16T14:39:14","slug":"o-estranho-silencio-de-washington-e-como-o-brasil-ficara-menor-se-o-golpe-aprovado-domingo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2016\/04\/o-estranho-silencio-de-washington-e-como-o-brasil-ficara-menor-se-o-golpe-aprovado-domingo\/","title":{"rendered":"O estranho sil\u00eancio de Washington e como o Brasil ficar\u00e1 menor se o golpe for aprovado domingo"},"content":{"rendered":"<p>Por Luiz Carlos Azenha | Publicado em 16 de abril de 2016<\/p>\n<p>Nova York, anos 80. Eu era correspondente da TV Manchete. O grupo imobili\u00e1rio japon\u00eas Mitsubishi compra 50% do Rockefeller Center, um s\u00edmbolo tur\u00edstico e empresarial dos Estados Unidos. A imprensa local n\u00e3o perdeu o simbolismo do fato, que veio na esteira de outros investimentos japoneses nos Estados Unidos. Sobrava poupan\u00e7a no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Um livro havia ati\u00e7ado o nacionalismo dos norte-americanos: Jap\u00e3o como n\u00famero um, de Ezra Vogel. Era a amea\u00e7a amarela, apresentada agora em tons mais diplom\u00e1ticos. Falar em decl\u00ednio dos EUA \u00e9 garantia de capturar a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s daquela onda semi-xenof\u00f3bica, havia um interesse clar\u00edssimo, expresso muitas vezes nas capas de jornais, especialmente no grande di\u00e1rio de neg\u00f3cios, o Wall Street Journal.<\/p>\n<p>Empresas americanas queriam abrir o mercado japon\u00eas. O argumento era de que, enquanto o grupo Mitsubishi podia comprar livremente o Rockefeller Center (um neg\u00f3cio que provou-se p\u00e9ssimo), empresas como o Walmart enfrentavam barreiras para entrar no Jap\u00e3o, que dava vantagens aos donos de biroscas locais.<\/p>\n<p>Resumo do filme: eram norte-americanos estimulando uma onda sobre a ascens\u00e3o inevit\u00e1vel do Jap\u00e3o \u2014 com a consequente decad\u00eancia dos Estados Unidos \u2014 para cobrar concess\u00f5es do governo japon\u00eas. Fique registrado: as previs\u00f5es provaram-se estapaf\u00fardias e os anos 90 foram a d\u00e9cada perdida para os japoneses.<\/p>\n<p>Passei, ao todo, quase 20 anos nos Estados Unidos. Glen Burnie, Maryland. Manhattan, Queens, Roosevelt Island, Nova York. Bethesda, Maryland (nas cercanias de Washington).<\/p>\n<p>Testemunhei mais de uma vez o fen\u00f4meno que descrevi acima: o est\u00edmulo ao nacionalismo com o objetivo de extrair concess\u00f5es de parceiros econ\u00f4micos. Hoje, a promessa mais importante do candidato republicano Donald Trump \u00e9 jogar duro com China. Logo a China, que com sua m\u00e3o-de-obra massiva e barata ajudou a salvar o capitalismo.<\/p>\n<p>Por outro lado, em minha carreira de correspondente n\u00e3o me lembro de ter feito uma \u00fanica reportagem em que norte-americanos tenham atirado concretamente contra seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Cobri, por exemplo, o esc\u00e2ndalo dos gastos do Pent\u00e1gono, que s\u00e3o denunciados desde os anos 80.<\/p>\n<p>O mais famoso epis\u00f3dio foi o da tampa de privada pela qual uma empreiteira teria cobrado 640 d\u00f3lares. Na verdade, tratava-se de um lavat\u00f3rio para um avi\u00e3o. Exageros \u00e0 parte, \u00e9 aceito nos Estados Unidos que existe um conluio entre parlamentares, fornecedores do Pent\u00e1gono e o Departamento de Defesa. As instala\u00e7\u00f5es militares se espalham por centenas de distritos eleitorais, garantindo interc\u00e2mbio de verbas e votos.<\/p>\n<p>Apesar disso, a atua\u00e7\u00e3o do FBI em casos de corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente discreta. Uma busca e apreens\u00e3o na sede do Pent\u00e1gono, transmitida ao vivo com helic\u00f3pteros pelas redes ABC, CBS e NBC, \u00e9 inimagin\u00e1vel. N\u00e3o porque n\u00e3o haja corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 porque jamais os Estados Unidos exporiam suas estranhas em p\u00fablico para o mundo, com repercuss\u00f5es \u00f3bvias para a pol\u00edtica externa. Discri\u00e7\u00e3o, sempre, \u00e9 o que rege o aparelho estatal.<\/p>\n<p>Acreditem: mesmo para experientes jornalistas norte-americanos, extrair um documento oficial vazado por uma autoridade \u00e9 uma impossibilidade. Acima da luta pol\u00edtica, est\u00e3o os interesses coletivos. N\u00e3o \u00e9 por acaso que eles come\u00e7aram na costa Leste da Am\u00e9rica do Norte e acabaram no Alasca.<\/p>\n<p><strong>ESCOLA DAS AM\u00c9RICAS x ESCOLA DE PROMOTORES E JU\u00cdZES<\/strong><\/p>\n<p>Fundada em 1946, funcionando inicialmente em uma base militar no Panam\u00e1, a Escola das Am\u00e9ricas ficou famosa. Seu objetivo, na guerra fria, era estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre as elites militares dos Estados Unidos e de todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Teve um papel crucial no futuro do continente. Atrav\u00e9s dela, Washington desenvolvia assets, o jarg\u00e3o utilizado para definir aliados que podem ter um papel crucial para a pol\u00edtica externa do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es desenvolvidas na escola foram essenciais para a influ\u00eancia de Washington em todo o seu quintal, especialmente na instala\u00e7\u00e3o de ditaduras anticomunistas nos anos 60 e 70.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, vivemos novos tempos. Ditaduras como aquelas n\u00e3o interessam mais. Vivemos no mundo do consenso forjado pela cultura e pela m\u00eddia.<\/p>\n<p>Hoje, como est\u00e1 comprovado pela an\u00e1lise das v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es de veludo que aconteceram no entorno da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e no Oriente M\u00e9dio, a influ\u00eancia externa na pol\u00edtica local se d\u00e1 atrav\u00e9s da sociedade civil, notadamente da atua\u00e7\u00e3o de jovens via internet.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos t\u00eam uma longa hist\u00f3ria de diplomacia civil. \u00c9 o outro lado das opera\u00e7\u00f5es clandestinas. N\u00e3o se trata de comprar cora\u00e7\u00f5es e mentes, mas de naturalizar a hierarquia que coloca Washington sempre numa posi\u00e7\u00e3o superior \u2014 pol\u00edtica, diplom\u00e1tica, econ\u00f4mica e culturalmente.<\/p>\n<p>Hoje os Estados Unidos s\u00e3o os maiores interessados na coopera\u00e7\u00e3o internacional com promotorias de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios motivos para isso. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso forjar uma legisla\u00e7\u00e3o internacional razoavelmente homog\u00eanea que reduza os custos de atua\u00e7\u00e3o das grandes corpora\u00e7\u00f5es. \u00c9 um consenso que interessa a Washington construir, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. \u00c9 o arcabou\u00e7o jur\u00eddico de um governo mundial sob tutela dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, existe uma \u00f3bvia assimetria que favorece os Estados Unidos. O pa\u00eds disp\u00f5e de um aparato policial e de intelig\u00eancia que \u00e9 mastod\u00f4ntico. Passa pelo FBI, pela CIA, pela National Security Agency (aquela que ouviu conversas de l\u00edderes mundiais, inclusive de Dilma Rousseff) e pelo Departament of Homeland Security.<\/p>\n<p>Quais foram as situa\u00e7\u00f5es concretas em que estas ag\u00eancias ajudaram o Brasil a investigar, por exemplo, as atividades da Boeing ou da Chevron?<\/p>\n<p>\u00c9 de uma obviedade gritante: a capacidade dos Estados Unidos de investigar e denunciar a corrup\u00e7\u00e3o alheia \u00e9 infinitamente maior que a de qualquer outro pa\u00eds em fazer o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a empresas baseadas nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como garantir que esta \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o seja assim\u00e9trica ou politicamente dirigida. Vivemos na Era da Informa\u00e7\u00e3o \u2014 os Panama Papers que o digam.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que teremos Delaware Papers? Delaware, para quem n\u00e3o sabe, \u00e9 um para\u00edso fiscal onde est\u00e3o instaladas as sedes de grandes corpora\u00e7\u00f5es norte-americanas, que assim tiram proveito de vantagens fiscais.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal vai ajudar os Estados Unidos a processar nossa maior empresa, a Petrobras. Executivos da Embraer ser\u00e3o acionados no Brasil por pagar propina na Rep\u00fablica Dominicana. O almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, pai do programa nuclear brasileiro, foi preso por determina\u00e7\u00e3o do juiz S\u00e9rgio Moro. Dados relativos a opera\u00e7\u00f5es da Eletronuclear se tornaram p\u00fablicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, em nenhum momento apoiamos a corrup\u00e7\u00e3o ou o acobertamento de corruptos. Por\u00e9m, o MPF e a Justi\u00e7a brasileira n\u00e3o podem desconsiderar os aspectos geopol\u00edticos de sua atua\u00e7\u00e3o. O mundo mudou. Estamos todos interconectados. A guerra de informa\u00e7\u00e3o deixou de ser algo dos livros de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 preciso agir sempre com pondera\u00e7\u00e3o, com discri\u00e7\u00e3o e sem espet\u00e1culo. Nunca em defesa dos corruptos, mas da preserva\u00e7\u00e3o de algo que vai al\u00e9m da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia: h\u00e1 grandes interesses econ\u00f4micos em jogo e a ingenuidade pode custar car\u00edssimo.<\/p>\n<p>Exemplo? Uma empresa tem como um de seus principais bens a imagem que ela \u00e9 capaz de projetar no mercado internacional. A maior construtora brasileira, capaz de competir por obras em todo o mundo, ser\u00e1 enterrada pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Mas a Odebrecht n\u00e3o operou no v\u00e1cuo, como ficou demonstrado na contabilidade paralela que o Jornal Nacional omitiu: pol\u00edticos de praticamente todos os partidos operaram em cumplicidade com a empresa.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso acabar com a pr\u00e1tica, n\u00e3o destruir a empresa.<\/p>\n<p><strong>O IDEALISMO DO JUIZ MORO<\/strong><\/p>\n<p>O juiz S\u00e9rgio Moro \u00e9 obcecado por botar abaixo o sistema pol\u00edtico brasileiro. Isso est\u00e1 claro nas pr\u00f3prias palavras que escreveu sobre a Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas. Seria uma impossibilidade se o sistema pol\u00edtico fosse de fato representativo e n\u00e3o estivesse corrompido por rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua com os grandes financiadores.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o m\u00e9todo \u201crevolucion\u00e1rio\u201d de Moro pode, ao fim e ao cabo, trazer mais danos que benef\u00edcios ao Brasil. Assim como o MPF, o juiz desconsidera circunst\u00e2ncias geopol\u00edticas e econ\u00f4micas num momento de profunda crise mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de apaixonado pela Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas, o juiz Moro tamb\u00e9m demonstra uma grande admira\u00e7\u00e3o pela Justi\u00e7a dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em seus textos e despachos, ele frequentemente cita decis\u00f5es tomadas por juizes americanos.<\/p>\n<p>Talvez isso tenha se desenvolvido nas duas ocasi\u00f5es em que Moro foi estagiar l\u00e1. Em 1998, passou um m\u00eas na Harvard Law School, em Boston. Em 2007, foi fazer uma visita de tr\u00eas semanas bancada pelo Departamento de Estado.<\/p>\n<p>Citado pelo Washington Post, o advogado Carlos Zucolotto, amigo de Moro, disse ao jornal que o juiz do Paran\u00e1 tem admira\u00e7\u00e3o pelo rigor e efici\u00eancia da Justi\u00e7a dos Estados Unidos. \u201cEle est\u00e1 transmitindo uma experi\u00eancia da cultura norte-americana, de como os advogados de l\u00e1 se comportam em processos como este\u201d, disse Zucolotto ao jornal.<\/p>\n<p>Devemos dar um desconto ao amigo de Moro, que pode ter ficado entusiasmado ao dar entrevista ao jornalista Dom Phillips. Por\u00e9m, \u00e9 improv\u00e1vel que as breves passagens de Moro pelos Estados Unidos tenham dado a ele insight sobre o funcionamento real do sistema.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-2.png\" alt=\"silencio-washington-2\" width=\"565\" height=\"377\" class=\"alignnone size-full wp-image-303011\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-2.png 565w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-2-300x200.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 565px) 100vw, 565px\" \/><\/p>\n<p>Minha primeira reportagem nos Estados Unidos foi sobre o assassinato do mafioso Paul Castellano diante da churrascaria Sparks. Era, por sinal, a preferida de Paulo Francis, que costumava dizer que os mafiosos sabiam comer bem.<\/p>\n<p>Cobri todo o desmanche da m\u00e1fia de Nova York nos tribunais. N\u00e3o foi um espet\u00e1culo bonito de se ver, com \u00f3bvio cerceamento de defesa em nome de um \u201cbem maior\u201d.<\/p>\n<p>O promotor Rudolph Giuliani tinha claras pretens\u00f5es pol\u00edticas quando enfiou na cadeia o chef\u00e3o John Gotti.<\/p>\n<p>Giuliani sempre adorou uma pris\u00e3o espetaculosa que n\u00e3o dava em nada, por falta de provas. Tornou-se, l\u00e1 adiante, prefeito de Nova York.<\/p>\n<p>Provavelmente, Moro idealizou a Justi\u00e7a norte-americana da mesma forma que idealizou a Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a Justi\u00e7a dos Estados Unidos, que conheci na intimidade durante a cobertura de dezenas de casos, encarcera negros de uma maneira desproprocional e condenou dezenas de pessoas \u00e0 morte com provas question\u00e1veis.<\/p>\n<p>Desde os atentados \u00e0s Torres G\u00eameas, em 2001, advogados de defesa foram acusados de colaborar com r\u00e9us em casos relacionados ao terrorismo. Os EUA t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de advocacia radical, que desafia o Estado. Entrevistei Lynne Stewart, que foi presa por supostamente transmitir mensagens de um r\u00e9u a seus colaboradores. No futuro vai provar-se que ela foi v\u00edtima de intimida\u00e7\u00e3o estatal, vigilantismo contra o direito de defesa.<\/p>\n<p>Note-se que, na Lava Jato, Moro foi informado por uma empresa de telefonia que gravava um escrit\u00f3rio inteiro de advogados, pertence a Roberto Teixeira, que representa o ex-presidentre Lula. Mesmo informado, n\u00e3o recuou. Est\u00e1 clar\u00edssimo que Moro est\u00e1 disposto a solapar garantias constitucionais \u2014 neste caso na rela\u00e7\u00e3o advogado-cliente \u2014 para atingir seus objetivos.<\/p>\n<p><strong>N\u00c3O H\u00c1 MAIS BOBO NO FUTEBOL<\/strong><\/p>\n<p>A viagem que o Departamento de Estado bancou para Moro nos Estados Unidos \u00e9 muito tradicional. S\u00e3o tr\u00eas semanas de imers\u00e3o na sociedade americana, para troca de conhecimento. Conhe\u00e7o jornalistas que fizeram a viagem, v\u00e1rios. Os convites partem de consulados ou embaixadas norte-americanas, com tudo pago.<\/p>\n<p>O IVLP existe desde os anos 40. \u00c9 certamente o mais conhecido programa do vasto aparato da diplomacia civil dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o submetidas a lavagem cerebral, nem a hipnose por agentes da CIA.<\/p>\n<p>Repito: trata-se de naturalizar a ideia de que os Estados Unidos pairam sobre o Universo, express\u00e3o do Destino Manifesto.<\/p>\n<p>O ex-presidente Jos\u00e9 Sarney fez a viagem em 1964. A presidente Dilma Rousseff em 1992, quando ainda estava no Rio Grande do Sul. Gilberto Gil foi em 1989 e 1990. Provavelmente para garantir financiamento ao projeto, a turma do IVLP costuma dizer que j\u00e1 levou aos Estados Unidos 335 chefes de governo ou chefes de Estado antes deles assumirem o poder. O que justifica o nome: Programa de Visita\u00e7\u00e3o de Lideran\u00e7as Internacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 um bom aug\u00fario para o candidato Moro, se ele um dia quiser tirar a toga e encarar a carreira pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nas pe\u00e7as de propaganda do IVLP, h\u00e1 men\u00e7\u00e3o constante ao ex-primeiro ministro Tony Blair, que brit\u00e2nicos chamavam de \u201cc\u00e3ozinho de colo\u201d de George W. Bush.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-3.png\" alt=\"silencio-washington-3\" width=\"528\" height=\"193\" class=\"alignnone size-full wp-image-303018\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-3.png 528w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/silencio-washington-3-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/><\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o dos objetivos do programa \u00e9 clara:<\/p>\n<p>O IVLP \u00e9 o principal programa de interc\u00e2mbio profissional do Departamento de Estado. Atrav\u00e9s de visitas curtas aos Estados Unidos, l\u00edderes estrangeiros atuais ou emergentes, numa variedade de campos profissionais, experimentam o pa\u00eds em pessoa e cultivam relacionamentos duradouros com colegas norte-americanos. Os encontros profissionais refletem os interesses dos visitantes e apoiam os objetivos da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>N\u00c3O VIVEMOS NO V\u00c1CUO<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 importante ter clareza: n\u00e3o vivemos no v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>O ex-presidente Lula, dentro de circunst\u00e2ncias tornadas poss\u00edveis por um boom de commodities, armou com o ex-ministro Celso Amorim uma pol\u00edtica externa que, longe de garantir completa soberania ao Brasil, ofereceu ao menos um caminho para que o capitalismo brasileiro tirasse proveito de vantagens geogr\u00e1ficas e competisse pelo mercado da Am\u00e9rica Latina com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>A Washington desagrada especialmente a ideia de que a energia da Am\u00e9rica do Sul \u2014 do Brasil, Venezuela e Bol\u00edvia \u2014 seja utilizada de forma priorit\u00e1ria para induzir o desenvolvimento local.<\/p>\n<p>Como bem sabem os industriais paulistas usu\u00e1rios da energia barata que vem do g\u00e1s boliviano, sem energia confi\u00e1vel e de valor razoavelmente previs\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 futuro.<\/p>\n<p>O controle das fontes e a determina\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o desta energia \u00e9 central para a capacidade de competir por mercados, sempre dentro da l\u00f3gica do capitalismo.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos buscam uma diversifica\u00e7\u00e3o de fontes de energia que os livrem da depend\u00eancia do petr\u00f3leo do Oriente M\u00e9dio. Miram, obviamente, nos lugares geograficamente mais pr\u00f3ximos: costa da \u00c1frica e Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Venezuela, Bol\u00edvia e Brasil t\u00eam algo em comum: elites locais associadas ao projeto dos Estados Unidos de conten\u00e7\u00e3o dos BRICs, em particular R\u00fassia e China.<\/p>\n<p>Depois do interesse pela energia, h\u00e1 \u00f3bvia tentativa dos Estados Unidos de controlar a cadeia tecnol\u00f3gica, essencial para garantir a submiss\u00e3o econ\u00f4mica alheia.<\/p>\n<p>As decis\u00f5es do Brasil de construir um submarino nuclear em parceria com a Fran\u00e7a e os ca\u00e7as militares em parceria com a Su\u00e9cia desagradaram aos Estados Unidos. Foram perdidos neg\u00f3cios imediatos e fornecimento de pe\u00e7as a longo prazo. Perdeu-se o controle do cliente. Para o Brasil, fazia sentido: as decis\u00f5es se inseriam no projeto brasileiro de exercer sua soberania de forma menos limitada.<\/p>\n<p>Quando se tornou secret\u00e1ria de Estado de Barack Obama, Hillary Clinton prometeu trocar as custosas interven\u00e7\u00f5es militares no Exterior pelo eficaz soft power, do qual o Brasil tem a melhor \u201ctecnologia mundial\u201d, desenvolvida pelo Itamaraty. H\u00e1 pistas de que isso j\u00e1 esteja acontecendo.<\/p>\n<p>O presidente Barack Obama, depois de visitar Cuba, passou por Buenos Aires para encontrar-se com o novo presidente Maur\u00edcio Macri, sinalizando a retomada do tradicional jogo dos Estados Unidos na regi\u00e3o: equilibrar o Brasil com a Argentina, aproveitando-se da antiga desconfian\u00e7a que o Brasil desperta na vizinhan\u00e7a, por seu tamanho e potencial econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio de Obama, que fez apenas uma refer\u00eancia an\u00f3dina \u00e0 crise brasileira, \u00e9 sintom\u00e1tico de algo maior e muito mais importante: o desabamento daquela arquitetura diplom\u00e1tica projetada por Lula, Celso Amorim e o Itamaraty, se acontecer, deixaria o Brasil menor. No cruel jogo de poder que existe nos bastidores sorridentes da diplomacia, um Brasil menor interessa aos Estados Unidos. Grosseiramente, seria o equivalente a vencer uma guerra sem dar um \u00fanico tiro. \u00c9 o que pode acontecer domingo, se aprovado o processo de impeachment.<\/p>\n<p>Fonte: VioMundo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Carlos Azenha | Publicado em 16 de abril de 2016 Nova York, anos 80. Eu era correspondente da TV Manchete. 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