{"id":301687,"date":"2016-04-14T21:11:29","date_gmt":"2016-04-14T20:11:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/?p=301687"},"modified":"2016-04-14T21:11:29","modified_gmt":"2016-04-14T20:11:29","slug":"franca-luta-em-noites-despertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2016\/04\/franca-luta-em-noites-despertas\/","title":{"rendered":"A Fran\u00e7a luta em Noites Despertas"},"content":{"rendered":"<p>Como a ocupa\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as pelos jovens, contra a \u201creforma\u201d trabalhista, a desigualdade e a desesperan\u00e7a, pode acordar um pa\u00eds acossado por terror, Estado de Emerg\u00eancia e pol\u00edtica reduzida a simulacro<\/p>\n<p>Por Geoffrey Pleyers | Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Martins e In\u00eas Castilho<\/p>\n<p>H\u00e1 dez dias, desde 31 de mar\u00e7o, milhares de pessoas re\u00fanem-se todas as noites na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, em Paris, para compartilhar suas desilus\u00f5es com a pol\u00edtica institucional e para colocar em pr\u00e1tica formas de democracia direta em assembleias populares e centenas de pequenos grupos de discuss\u00e3o. Mais de 80 mil pessoas seguiram a assembleia geral online de \u00faltimo domingo, 3\/4, e milhares tomaram a pra\u00e7a, em v\u00e1rios dias. A \u201cNuit Debout\u201d (\u201cNoite Desperta\u201d) tornou-se agora um movimento nacional, com reuni\u00f5es em 15 cidades francesas, e algumas at\u00e9 mesmo t\u00e3o distantes quanto Bruxelas, Barcelona e Berlim.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do movimento na Fran\u00e7a n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, casual. Desde fevereiro, foram se reunindo todos os ingredientes para que emergisse um movimento semelhante aos Indignados da Espanha ou ao Occupy norte-americano, em 2011. Em seguida a uma discuss\u00e3o p\u00fablica em 23 de fevereiro, organizada pela revista ativista de esquerda Fakir, um grupo informal de dezenas de cidad\u00e3os imaginou uma ocupa\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a, depois da grande manifesta\u00e7\u00e3o de 31 de mar\u00e7o contra a proposta de reforma trabalhista do governo. Eles difundiram suas iniciativas com sucesso. Desde aquele dia, uma multid\u00e3o re\u00fane-se toda noite. As pessoas compartilham suas demandas e projetos em assembleias populares, conversam e celebram juntas, e criam \u201ccomiss\u00f5es\u201d horizontais para organizar seu movimento, para preparar a\u00e7\u00e3o, comunicar, cantar e trabalhar em quest\u00f5es espec\u00edficas (migrantes, nova economia, nova Constitui\u00e7\u00e3o\u2026). Partilham seus sonhos de outra sociedade e clamam por uma conflu\u00eancia de lutas.<\/p>\n<p><strong>Contra-reforma trabalhista detonou movimento<\/strong><\/p>\n<p>Uma frustra\u00e7\u00e3o latente, mesmo quando compartilhada por milhares de cidad\u00e3os, n\u00e3o \u00e9 suficiente para desencadear uma ampla mobiliza\u00e7\u00e3o. \u201cSomos muito gratos a essa lei por nos despertar de nossa letargia pol\u00edtica\u201d. Um detonador \u00e9 necess\u00e1rio, uma centelha que propicia a oportunidade para uma primeira sequ\u00eancia de mobiliza\u00e7\u00f5es. O pacote da \u201creforma\u201d dos direitos trabalhistas apresentado pelo governo franc\u00eas em fevereiro foi a fagulha perfeita. Tocou fogo na inj\u00faria acumulada nos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s progressistas contra as reformas neoliberais conduzidas pelo governo do Partido Socialista. Fixou uma meta comum; abriu um debate na m\u00eddia mainstream; facilitou o alastramento da mobiliza\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos c\u00edrculos do ativismo cl\u00e1ssico e promoveu a conflu\u00eancia entre sindicatos, estudantes e redes de cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>O pacote tamb\u00e9m proporcionou um calend\u00e1rio de mobiliza\u00e7\u00f5es, com marchas semanais e assembleias gerais em universidades e sindicatos \u2013 algo indispens\u00e1vel numa fase em que um movimento nascente n\u00e3o \u00e9 ainda capaz de fixar sua pr\u00f3pria temporalidade e agenda. Um novo ataque aos direitos trabalhistas era tudo de que os ativistas precisavam para iniciar um movimento vibrante. Eles nunca se esquecem de agradecer ao governo por esta proposta de \u201creforma\u201d. Como disse Fr\u00e9d\u00e9ric Lordon \u2013 um economista da esquerda radical e um dos iniciadores da \u201cNoite Desperta\u201d \u2013 em seu discurso no in\u00edcio do movimento, em 31 de mar\u00e7o: \u201csomos gratos a esta lei, por nos acordar de nossa letargia pol\u00edtica\u201d. [Nota de Outras Palavras: vale ler, em especial, seu ensaio sobre a necessidade de a esquerda pensar uma Europa sem euro].<\/p>\n<p><strong>Da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 contra-reforma \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de outra sociedade<\/strong><\/p>\n<p>O que distingue um movimento social de todas as demais formas de mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que ele n\u00e3o se foca numa reivindica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica (como a contra-reforma trabalhista), mas desafia alguns dos valores centrais de uma sociedade. Desde seu primeiro chamado, para protestos em 9 de mar\u00e7o, o foco das coaliz\u00f5es estudantis foi mais amplo que o combate \u00e0 contra-reforma trabalhista. Jovens entrevistados durante as marchas de protesto expressaram seu desapontamento com \u201cum governo que finge ser de esquerda, mas \u00e9 o contr\u00e1rio\u201d. Como no movimento dos Indignados (15M) na Espanha, ou no Occupy norte-americano, estuantes do ensino superior e m\u00e9dio denunciam a articula\u00e7\u00e3o entre as elites econ\u00f4micas, pol\u00edticas e a m\u00eddia. Intelectuais franceses progressistas j\u00e1 demonstraram que a \u201creforma\u201d proposta pelo governo n\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 alardeada cria\u00e7\u00e3o de novos empregos, mas ao crescimento ainda maior do poder do \u201c1%\u201d franc\u00eas. Um n\u00famero crescente de membros do Partido Socialista e de deputados denuncia abertamente os excessos neoliberais do presidente Fran\u00e7ois Hollande e de seu governo.<\/p>\n<p><strong>Sem alternativas na politica institucional<\/strong><br \/>\nA falta de alternativas entre os partidos estabelece um panorama muito favor\u00e1vel para a ascens\u00e3o de um movimento do tipo Indignados\/Occupy. A esquerda francesa tem denunciado a s\u00e9rie de contra-reformas neoliberais conduzidas pelo governo do Partido Socialista. O ataque aos direitos trabalhistas \u00e9 apenas mais um epis\u00f3dio, da sequ\u00eancia que incluiu um vasto conjunto de leis propostas pelo ministro social-liberal da Economia, Emmanuel Macrom, e o longo debate sobre a exclus\u00e3o da nacionalidade francesa para os cidad\u00e3os binacionais associados a ataques terroristas. H\u00e1 cinco anos, foi exatamente esta falta de alternativa pol\u00edtica entre os socialistas e o Partido Popular, de direita, que levou milhares de pessoas a ocupar a Plaza del Sol, em Madrid, e as pra\u00e7as de cada cidade na Espanha. Denunciava-se uma \u201cdemocracia sem escolha\u201d.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio franc\u00eas parece ainda mais sombrio, porque disputas e rachas internos tamb\u00e9m est\u00e3o devastando o Partido Verde e a Frente de Esquerda. A Frente Nacional, de Marine Le Pen, nacionalista e xen\u00f3foba, procura apresentar-se com a \u00fanica alternativa. Denuncia o Partido Socialista e os Republicanos (a direita convencional), como falsos oponentes, e parte de um mesmo jogo. Esta atitude repercutiu bastante entre os eleitores e tornou o partido o favorito, entre os mais jovens.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, ocupar uma pra\u00e7a e propor mudar a pol\u00edtica a partir de baixo \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que resta aos cidad\u00e3os progressistas desapontados. Questionar a centralidade da democracia representativa e dar poder aos cidad\u00e3os, nas decis\u00f5es locais, \u00e9, na verdade, o principal objetivo das \u201cNoites Despertas\u201d. Os cidad\u00e3os nas ruas mant\u00eam dist\u00e2ncia de todos os partidos pol\u00edticos, denunciam fortemente a \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d do Partido Socialista e se op\u00f5em de maneira decidida \u00e0 Frente Nacional, em especial ao dar as boas-vindas aos imigrantes e refugiados que chegam ao movimento.<\/p>\n<p><strong>Juventude sem futuro?<\/strong><br \/>\nEmbora com diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica em 2011, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e o desemprego s\u00e3o realidades duras para muitos jovens na Fran\u00e7a de hoje. Em 2012, quando se elegeu, Fan\u00e7ois Hollande anunciou que a \u201cjuventude\u201d seria uma prioridade em seu mandato. Desde ent\u00e3o, os jovens t\u00eam se sentido abandonados, pouco ouvidos e atacados pelo governo. A \u201cgera\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria\u201d \u00e9 a primeira v\u00edtima da flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho e da crescente concentra\u00e7\u00e3o de riquezas.<\/p>\n<p>Em 31 de mar\u00e7o, o \u201cFrance Strat\u00e9gie\u201d, um think-tank adjunto ao gabinete do primeiro-ministro, publicou um relat\u00f3rio que confirma esta impress\u00e3o: 23,3% das pessoas entre 18 e 24 anos vivem em condi\u00e7\u00e3o de pobreza (eram 17,6%, em 2002); 23,4% dos que t\u00eam entre 15 e 24 anos est\u00e3o desempregados. Como destacou o Le Monde, \u201cPobreza, desemprego e padr\u00e3o de vida: a situa\u00e7\u00e3o dos jovens degradou-se, comparada com a de outros grupos et\u00e1rios\u201c.<\/p>\n<p>O que ultraja os jovens, mais ainda que suas condi\u00e7\u00f5es de vida atuais, \u00e9 o sentimento de que est\u00e3o sendo \u201cprivados de seu futuro\u201d. Eles expressam este sentimento na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica e nas redes sociais. \u201cO governo quer que acreditemos que n\u00e3o temos escolha, a n\u00e3o ser um futuro prec\u00e1rio. \u00c9 o que rejeitamos\u201d. Ressoa como um eco claro da situa\u00e7\u00e3o na Espanha e Portugal em 2011, onde as redes chamadas \u201cJovens sem futuro\u201d estiveram entre os principais iniciadores e protagonistas das mobiliza\u00e7\u00f5es de 2011. Cinco anos depois, na Fran\u00e7a, a reivindica\u00e7\u00e3o dos jovens por construir seu futuro est\u00e1 novamente em jogo. Como sintetizou algu\u00e9m de nome Florence, num tweet, \u201cPrecisamos pensar a sociedade de amanh\u00e3 com humanismo, liberdade, igualdade, fraternidade\u201d. Nas \u201cNoites Despertas\u201d da Fran\u00e7a, assim com nos movimentos p\u00f3s-2011, os jovens est\u00e3o se construindo como indiv\u00edduos, como gera\u00e7\u00e3o e como cidad\u00e3os que exigem muito mais democracia e um mundo mais justo.<\/p>\n<p><strong>As infraestruturas da mobiliza\u00e7\u00e3o: redes e calend\u00e1rio escolar<\/strong><br \/>\nSe o ultraje e o desejo de um mundo diferente est\u00e3o no n\u00facleo dos movimentos sociais, o in\u00edcio de uma mobiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m depende de \u201cinfra-estruturas\u201d que facilitem sua emerg\u00eancia e dura\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a isso, todos os sinais est\u00e3o verdes para uma vibrante primavera francesa.<\/p>\n<p>O governo franc\u00eas n\u00e3o poderia ter escolhido uma ocasi\u00e3o melhor para lan\u00e7ar sua proposta para uma \u201creforma\u201d dos direitos trabalhistas. O final de fevereiro e in\u00edcio de mar\u00e7o s\u00e3o o melhor per\u00edodo para iniciar uma mobiliza\u00e7\u00e3o de estudantes. Como \u00e9 o inicio do segundo semestre do calend\u00e1rio escolar anual [que vai de fevereiro a junho], as redes pessoais e de ativismo j\u00e1 est\u00e3o bem constitu\u00eddas e os exames finais ainda est\u00e3o distantes: sobram tempo e energia para a articula\u00e7\u00e3o e o protesto. O Maio de 1968, em Paris, bem como as grandes manifesta\u00e7\u00f5es estudantis de 2006 come\u00e7aram por volta deste per\u00edodo \u2013 e o mesmo, ali\u00e1s, ocorreu com o movimento dos Indignados, na Espanha, em 2011.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia de um movimento nunca \u00e9 t\u00e3o espont\u00e2nea como frequentemente parece, na m\u00eddia mainstream. A mobiliza\u00e7\u00e3o em torno da C\u00fapula do Clima, da ONU [em dezembro de 2015]; pequenas mobiliza\u00e7\u00f5es contra a decreta\u00e7\u00e3o do Estado de Emerg\u00eancia [p\u00f3s-atentados em Paris] e a viol\u00eancia policial na Fran\u00e7a; e diversas batalhas ecol\u00f3gicas que se espalharam pelo pa\u00eds permitiram aos ativistas construir conex\u00f5es e acumular experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O grupo de ativistas que prop\u00f4s e preparou o encontro na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, ap\u00f3s o protesto de 31 de Mar\u00e7o, jogou um papel-chave como \u201cempreendedores de mobiliza\u00e7\u00e3o\u201d, providenciando o espa\u00e7o no qual o movimento pode florescer. A organiza\u00e7\u00e3o de sociedade civil \u201cDroit Au Logement\u201d (\u201cDireito \u00e0 Habita\u00e7\u00e3o\u201d) j\u00e1 havia recebido autoriza\u00e7\u00e3o para instalar algumas barracas na pra\u00e7a, para protestar contra despejos e tinha condi\u00e7\u00f5es de oferecer apoio log\u00edstico e alguns conselhos \u00fateis para ativistas menos experientes que chegaram \u00e0 pra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Um movimento diferente?<\/strong><br \/>\nAs \u201cNoites Despertas\u201d seriam, ent\u00e3o, apenas um retorno de movimentos como o dos Indignados e o Occupy? As \u201cNoites Despertas\u201d emprestam seus c\u00f3digos, muito de sua vis\u00e3o de mundo e desejo de democracia participativa. O movimento de 2016, por\u00e9m, ainda precisa encontrar seus pr\u00f3prios caminhos, tanto porque o contexto pol\u00edtico \u00e9 diferentes do de cindo anos atr\u00e1s quanto porque deve levar em conta o que ocorreu com seus predecessores durante e ap\u00f3s as ocupa\u00e7\u00f5es de pra\u00e7as<\/p>\n<p>O entusiasmo generalizado por movimentos democr\u00e1ticos, que marcou o in\u00edcio dos anos 2010, parece distante. O clima pol\u00edtico \u00e9 agora muito mais solene, marcado por terror, Estado de Emerg\u00eancia, sucesso dos partidos de extrema direita e expans\u00e3o de seus valores. A Pra\u00e7a da Rep\u00fablica carrega a mem\u00f3ria dos ataques terroristas de 13 de novembro. Est\u00e1 a poucas quadras do Bataclan e da maior parte dos bares atacados naquela noite.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a e na Europa a guerra contra o terrorismo est\u00e1 no topo das agendas pol\u00edticas. A Frente Nacional, de extrema direita, seduz mais de 25% dos eleitores e atrai muitos jovens. O Estado de Emerg\u00eancia n\u00e3o reprime apenas potenciais terroristas. Ativistas ambientais foram presos em suas casas, em dezembro. Mu\u00e7ulmanos e jovens s\u00e3o frequentemente espancados pela pol\u00edcia e manifesta\u00e7\u00f5es estudantis recentes foram violentamente reprimidas. A \u201cNoite Desperta\u201d \u00e9 uma resposta a este ambiente. Ela permite que os cidad\u00e3os manifestam seu apoio a uma Europa aberta, defendam as demandas de migrantes e refugiados e os sa\u00fadem diretamente na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, assim como a ocupa\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as pelos Indignados espanh\u00f3is e pelos movimentos Occupy est\u00e1 no DNA das \u201cNoites Despertas\u201d, tamb\u00e9m est\u00e3o os limites e os desfechos destes movimentos anteriores. O projeto das \u201cNoites Despertas\u201d baseia-se nesta heran\u00e7a, mas precisa tamb\u00e9m reinventar o movimento e suas pr\u00e1ticas, para tentar escapar de alguns destes limites.<\/p>\n<p>Desde 2011, as demandas de horizontalidade e o desejo de criar formas de democracia participativa fora dos marcos da pol\u00edtica institucional confrontou os atores, movimentos e pra\u00e7as com os limites de movimentos estruturados de maneira d\u00e9bil e com resultados menos claros do que gostariam muitos ativistas. Ser\u00e1 poss\u00edvel \u201cmudar o mundo sem tomar o poder\u201d, abra\u00e7ando o ativismo, a horizontalidade e as iniciativas cidad\u00e3s, ou deve-se \u201cocupar o Estado\u201d e entrar no jogo eleitoral para construir uma sociedade democr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Em 2011, os Indignados espanh\u00f3is e os ativistas do Occupy rejeitaram claramente a segunda hip\u00f3tese. Desde ent\u00e3o, diversos atores dos movimentos de 2011 decidiram cruzar a ponte e participar da arena institucional. Alguns alimentaram o sucesso do novo l\u00edder do Partido Trabalhista da Gr\u00e3-Bretanha, Jeremy Corbyn, e a vibrante campanha de Bernie Sanders \u00e0 presid\u00eancia dos EUA. Na Espanha, o novo partido Podemos mostra que os movimentos populares podem criar novas realidades pol\u00edticas \u2013 mas, ao passar do ultraje \u00e0 pol\u00edtica partid\u00e1ria, Pablo Iglesias e seus colegas contrariaram alguns de seus valores origin\u00e1rios, como a rejei\u00e7\u00e3o de l\u00edderes, a primazia da din\u00e2mica cidad\u00e3 e a recusa a aceitar muitas das regras da pol\u00edtica partid\u00e1ria e do \u201cjogo\u201d eleitoral.<\/p>\n<p>No contexto internacional, depois de alguns anos marcados por esperan\u00e7as de mais democracia, justi\u00e7a social e dignidade, baseando-se particularmente na cultura e pr\u00e1ticas horizontais, estes movimentos vivem hoje sob o poder sem disfarces das elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Em pa\u00edses como Turquia e Egito, os atores das \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d das pra\u00e7as s\u00e3o agora v\u00edtimas de repress\u00e3o violenta.<\/p>\n<p>As \u201cNoites Despertas\u201d, que come\u00e7aram em Paris, em 31 de Mar\u00e7o, podem tirar proveito da experi\u00eancia dos movimentos e ocupa\u00e7\u00f5es de pra\u00e7as que sacudiram o mundo desde 2011. Precisam, por\u00e9m, inventar seu caminho, a partir do sucesso e limites das experi\u00eancias anteriores. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel antecipar o futuro de tal mobiliza\u00e7\u00e3o, mas reunir milhares de cidad\u00e3os, de distintas gera\u00e7\u00f5es, para reafirmar que \u201coutro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d; recepcionar migrantes e refugiados; estabelecer trabalho coletivo, em torno de projetos alternativos baseados em democracia cidad\u00e3, mais justi\u00e7a social e dignidade \u2013 tudo isso representa um \u00eaxito consider\u00e1vel, num contexto fortemente marcado pela regress\u00e3o social e o ambiente repressor do Estado de Emerg\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a ocupa\u00e7\u00e3o de pra\u00e7as pelos jovens, contra a \u201creforma\u201d trabalhista, a desigualdade e a desesperan\u00e7a, pode acordar um pa\u00eds acossado por terror, Estado de Emerg\u00eancia e pol\u00edtica reduzida a simulacro Por Geoffrey Pleyers | Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Martins e 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