{"id":293047,"date":"2016-03-22T15:30:41","date_gmt":"2016-03-22T15:30:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/?p=293047"},"modified":"2016-03-22T15:30:41","modified_gmt":"2016-03-22T15:30:41","slug":"a-violacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2016\/03\/a-violacao\/","title":{"rendered":"A viola\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A lembran\u00e7a mais v\u00edvida que tenho do meu tio Romid \u00e9 a de um Natal em que veio nos visitar na zona 8 que era onde viv\u00edamos na capital guatemalteca. O tio Romid era o irm\u00e3o mais velho do meu Nanoj.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a vizinhan\u00e7a festejava e o baile era no apartamento de uma moradora. N\u00e3o lembro com clareza, mas nesse tempo eu tinha seis ou sete anos de idade e fugia dos bailes; todas as crian\u00e7as da vizinhan\u00e7a dan\u00e7avam, menos eu. Lembro bem do meu tio Romid, alto, magro, de olhos azuis, loiro, com seu t\u00edpico par de botas de caub\u00f3i, sua cal\u00e7a de lona e sua camisa quadriculada. N\u00e3o lembro se naquela visita levou fac\u00e3o na cinta ou pistola, sempre andava com sua pistola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estava em p\u00e9, encostada na parede vendo as pessoas dan\u00e7arem quando meu tio se aproximou e me tirou para dan\u00e7ar; eu sempre me negava a dan\u00e7ar, mas com meu tio n\u00e3o pude, me enfeiti\u00e7ou aquele homenzarr\u00e3o lindo e desde aquele instante a dan\u00e7a se tornou uma das minhas mais t\u00f3rridas paix\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqueles vizinhos do apartamento eram os \u00fanicos que tinham vitrola e uma gaveta cheia de discos de acetato nas quais se encontravam El Gran Combo de Puerto Rico, Fania All-Stars e El super Show de los V\u00e1squez. Essa \u00e9 a m\u00fasica que recordo quando penso naquele Natal. Bailando La Cartera, na vers\u00e3o de El S\u00faper Show de los V\u00e1squez. Puseram para tocar as can\u00e7\u00f5es Cuchupa\u00a0 e Don Goyo umas cinco vezes, e eu flutuava pelos ares levada pelas m\u00e3os do meu tio que varria o ch\u00e3o com suas botas de caub\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu tio Romid era casado, tinha quatro filhos e como meu Nanoj tamb\u00e9m perdeu a inf\u00e2ncia muito cedo e se fez homem entre pastos, pilhas de lenha, planta\u00e7\u00f5es de milho e feij\u00e3o. Ia com meu av\u00f4 e minha m\u00e3e cortar flor de algod\u00e3o na fazenda La Pangola, em La Gomera, Escuintla. Faziam parte dos grupos que saiam de Jutiapa em caminh\u00f5es para trabalhar nas fazendas do sul do pa\u00eds por temporadas; conta minha m\u00e3e que dormiam em galp\u00f5es que s\u00f3 tinham um teto de zinco, acomodados como podiam, homens de um lado, mulheres de outro, sobre o ch\u00e3o desnudo; quem tinha melhor situa\u00e7\u00e3o podia comprar e levava sua esteira. Minha m\u00e3e teve seu primeiro par de sapatos aos 14 anos, meu tio Romid se fez homem com seus p\u00e9s descal\u00e7os. Eu trato de imagin\u00e1-los e me despeda\u00e7o, fico agoniada s\u00f3 de pensar nessa inf\u00e2ncia de trabalho \u00e1rduo, car\u00eancias, mis\u00e9ria e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s ficamos sabendo que meu tio em uma das vezes que ficou b\u00eabado numa cantina em Comapa tinha matado com um tiro um amigo seu de toda a vida. Tinham ido juntos para a cantina e no calor das bebidas ambos sacaram as pistolas e quem disparou primeiro foi meu tio que fugiu. Meus pais o convenceram a se entregar e o acompanharam \u00e0 delegacia na capital. Foi enviado a uma pris\u00e3o de Puerto Barrios para cumprir a pena. Morreu l\u00e1 quando quis fugir depois de ter cumprido a maior parte da pena e s\u00f3 faltavam dois anos para ser libertado. Em algum lugar do cemit\u00e9rio de Puerto Barrios est\u00e3o os restos do meu tio Romid. Deixou quatro filhos \u00f3rf\u00e3os e uma esposa vi\u00fava. Eu me lembro dele assim, homenzarr\u00e3o bonito que n\u00e3o tinha mais de 35 anos. Cresci escutando hist\u00f3rias de caub\u00f3is que minhas tias e meu av\u00f4 contavam de seus irm\u00e3os, cresci imaginando meus tios como her\u00f3is inquebrant\u00e1veis e insuborn\u00e1veis. Duas belezas da minha Jutiapa querida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia fez falta uma tia irm\u00e3 do meu Nanoj, minha tia Marina, cor de azeviche, com corpo de negra africana. Logo que nos mudamos para a capital emigrou, trabalhava como empregada dom\u00e9stica na capital. De vez em quando chamava por telefone, \u00e9 a pen\u00faltima das crias de tio Juan e tio Lilo. \u00c9 igualzinha \u00e0 minha m\u00e3e, s\u00f3 que em negro, s\u00e3o duas gotas de \u00e1gua com seis anos de diferen\u00e7a. A \u00fanica coisa que soubemos \u00e9 que havia ido para o norte, eu adiava esse norte porque tinha me tirado muitos de meus amigos de inf\u00e2ncia e tamb\u00e9m minha tia. Ironias da vida: \u00e9 nesse norte que vivo atualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha tia fez falta para n\u00f3s em tudo, nas reuni\u00f5es familiares, nos anivers\u00e1rios, nos partos de suas irm\u00e3s, nos batizados, nas brigas familiares, em tudo. Suas irm\u00e3s tampouco estiveram nos seus partos, nos anivers\u00e1rios dos seus filhos, nos dias comuns da conviv\u00eancia familiar que s\u00e3o os que fortalecem os la\u00e7os emocionais. N\u00e3o convivemos com os primos. A migra\u00e7\u00e3o nos tirou tudo isso e esse tempo \u00e9 irrecuper\u00e1vel. \u00c9 um vazio que ningu\u00e9m mais pode preencher. O mesmo acontece comigo, estou vendo crescer \u00e0 dist\u00e2ncia minha sobrinha, eu \u00e9 que deveria ensin\u00e1-la a jogar futebol e a andar de bicicleta.\u00a0 E n\u00e3o estou l\u00e1. N\u00e3o estive no parto de minha irm\u00e3 mais nova. N\u00e3o estou no dia a dia. Sou uma completa estranha para meus irm\u00e3os que deixei quando estavam entrando na adolesc\u00eancia. Minha fam\u00edlia j\u00e1 ouviu meu nome, mas n\u00e3o me conhece. Quanto nos tira a migra\u00e7\u00e3o, o que nem com todo o dinheiro do mundo se pode comprar. A conviv\u00eancia familiar e o amor n\u00e3o t\u00eam pre\u00e7o. Quando um membro de uma fam\u00edlia emigra \u00e9 como se um vaso se rompesse, e mesmo que se colem os cacos nunca fica igual. Assim aconteceu em nossa fam\u00edlia com a emigra\u00e7\u00e3o da minha tia Marina. Quando meus tios morreram nunca mais voltei a ver o sorriso de meus av\u00f3s, morreram junto com eles. E um pouco de minhas tias e de minha m\u00e3e tamb\u00e9m. \u00c9 como se tivessem arrancado de um golpe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tia tinha uns 25 anos quando emigrou. Enquanto eu estive na Guatemala veio nos visitar duas vezes. Do M\u00e9xico cruzou para os Estados Unidos e n\u00e3o gostou, ent\u00e3o ficou vivendo em Tijuana com seu esposo guatemalteco. Quando ela emigrou eles eram noivos e ele a seguiu at\u00e9 l\u00e1. Tiveram quatro filhos no M\u00e9xico. Passaram os anos e eu emigrei como ela, e um dia conversando por telefone, falando das saudades da terra e de vazios existenciais saiu a confiss\u00e3o de um dos segredos mais bem guardados da minha fam\u00edlia materna. Eu havia ouvido que minha tia, por ser negra, tinha ido morar com sua v\u00f3 (minha bisav\u00f3 Mamita) porque minha av\u00f3 a agredia fisicamente e a queimava com carv\u00e3o em brasa, n\u00e3o a suportava por ser negra (tal como aconteceu comigo com minha m\u00e3e, e como aconteceu com minha tia Aid\u00e9, tamb\u00e9m irm\u00e3 de meu Nanoj). N\u00e3o s\u00f3 a agredia, somo tamb\u00e9m a deixava sem comer como castigo. Minha tia teve uma inf\u00e2ncia infernal e ao ver isso minha bisav\u00f3 disse para minha av\u00f3 que era melhor ela ficar com a menina e minha av\u00f3 a deu pra ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto minha av\u00f3 vivia com seus filhos em Comapa que era o povoado, a menina morava com sua av\u00f3 em uma aldeia, mas queria estudar e minha bisav\u00f3 alugou pra ela um quarto na cidade para que frequentasse a escola prim\u00e1ria; por casualidade o quarto ficava em frente \u00e0 casa da minha av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagino o vazio e a dor da minha tia vendo seus irm\u00e3os com os pais , e ela do outro lado da rua vivendo sozinha em um quarto, e isso que era apenas uma menina. Mamita subia todos os dias e lhe levava comida. Mamita morreu e a vida da minha tia tornou-se mais infernal ainda, teve que voltar a morar na casa da sua m\u00e3e e as agress\u00f5es aumentaram. Meu tio Romid a agrediu a violou durante anos e isso era sabido por toda a fam\u00edlia, mas ningu\u00e9m disse nada. Minha tia, por causa das viola\u00e7\u00f5es, ficou gr\u00e1vida. Nessa \u00e9poca minha m\u00e3e j\u00e1 tinha se juntado com meu pai e viv\u00edamos na capital. Ela foi levada para l\u00e1 e conseguiram pra ela um trabalho como empregada dom\u00e9stica. Minha tia perdeu a gravidez. A essa altura n\u00e3o sei se perdeu ou abortou, mas se abortou eu a felicito e apoio; tem meu respaldo absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco tempo depois de ter chegado \u00e0 capital, emigrou. Tenho lembran\u00e7as vagas dela naqueles dias, com seu cabelo afro penteado para cima com pentes tipo rastelo. Lembro-me de uma fotografia que a minha m\u00e3e tem, desse tempo, com uma blusa de seda cor de ch\u00e1 e uma cal\u00e7a branca. Sempre que escuto a m\u00fasica do grupo Miramar a recordo e uma dor profunda se retorce nas minhas entranhas, de negra, de mulher, de p\u00e1ria. Quis muito estar junto dela quando escutei o tremendo relato de sua vida em Comapa, mas estava a milhares de quil\u00f4metros e no\u00a0 telefone. Chorei em silencio enquanto a escutava e se remexia a imagem que tinha de meu av\u00f4 materno, do tio Lilo que \u00e9 o homem de quem eu aprendi integridade, dignidade e a respeitar minha palavra dada. O que sei de retid\u00e3o eu aprendi com meu av\u00f4 campon\u00eas e analfabeto. Penso no meu tio Romid e n\u00e3o consigo associar aquele homem bonito e bailador com um violador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 consegui falar do assunto com minha m\u00e3e e ela me disse que assim \u00e9 naquele lugar e que naqueles anos era pior. Com minhas tias n\u00e3o me atrevo a falar e muito menos com minha av\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso em minha tia e nas milhares de meninas que tiveram a inoc\u00eancia arrebatada e aqueles que continuam arrebatando a inoc\u00eancia e n\u00e3o consigo me repor deste insond\u00e1vel desconsolo de estar viva, porque tal como dissera Carolina V\u00e1squez Araya, \u201cuma menina violada perdeu n\u00e3o s\u00f3 sua integridade f\u00edsica, mas tamb\u00e9m o equil\u00edbrio emocional e, como consequ\u00eancia, sua capacidade de administrar suas emo\u00e7\u00f5es para levar uma vida saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma depois de uma viola\u00e7\u00e3o, a alma se torna um sem fim de part\u00edculas, n\u00e3o h\u00e1 piso firme para p\u00f4r os p\u00e9s. Fica o estigma, que se converte em mais um inferno e se respira com dificuldade porque j\u00e1 n\u00e3o se vive. Se trata apenas de sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o vou condenar nem apedrejar minhas tias, nem minha m\u00e3e, nem minha av\u00f3 pela viola\u00e7\u00e3o da minha tia, porque isto \u00e9 um sistema patriarcal onde a viola\u00e7\u00e3o, como outras vexa\u00e7\u00f5es s\u00e3o permitidas ou vistas como normais porque a mulher continua sendo catalogada como um ser inferior e sem direitos.\u00a0 Ou seja, isso n\u00e3o acontece em apenas uma fam\u00edlia, seus ra\u00edzes t\u00eam s\u00e9culos e acontece em todos os estratos da sociedade. Sempre acodem \u00e0 minha cabe\u00e7a milhares de perguntas. O que faremos n\u00f3s como sociedade para que isto n\u00e3o continue acontecendo? Que papel n\u00f3s desempenhamos como indiv\u00edduos e sociedade no patriarcado e na viol\u00eancia de g\u00eanero? Como podemos ser parte da solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span id=\"result_box\" class=\"short_text\" lang=\"pt\"><span class=\"\">Tradu\u00e7\u00e3o<\/span><\/span> Dialogos do Sul<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.dialogosdosul.org.br\/a-violacao\/22032016\/\">http:\/\/www.dialogosdosul.org.br\/a-violacao\/22032016\/<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a mais v\u00edvida que tenho do meu tio Romid \u00e9 a de um Natal em que veio nos visitar na zona 8 que era onde viv\u00edamos na capital guatemalteca. 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