{"id":2822,"date":"2010-01-26T00:00:00","date_gmt":"2010-01-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2010-01-26T12:18:49","modified_gmt":"2010-01-26T12:18:49","slug":"os-pecados-do-haiti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2010\/01\/os-pecados-do-haiti\/","title":{"rendered":"Os pecados do Haiti"},"content":{"rendered":"<p>A democracia haitiana nasceu h\u00e1 um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia n\u00e3o recebeu sen\u00e3o bofetadas. Era uma rec\u00e9m-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Tr\u00eas anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a hist\u00f3ria do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um pa\u00eds menos injusto.<\/p>\n<p>O voto e o veto<\/p>\n<p>Para apagar as pegadas da participa\u00e7\u00e3o estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil p\u00e1ginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permiss\u00e3o para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, Ren\u00e9 Pr\u00e9val, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Pr\u00e9val tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monet\u00e1rio ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano n\u00e3o o tenha eleito nem sequer com um voto.<\/p>\n<p>Mais do que o voto, pode o veto. Veto \u00e0s reformas: cada vez que Pr\u00e9val, ou algum dos seus ministros, pede cr\u00e9ditos internacionais para dar p\u00e3o aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, n\u00e3o recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:<br \/>\n\u2013 Recite a li\u00e7\u00e3o. E como o governo haitiano n\u00e3o acaba de aprender que \u00e9 preciso desmantelar os poucos servi\u00e7os p\u00fablicos que restam, \u00faltimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores d\u00e3o o exame por perdido.<\/p>\n<p>&#8216;Cavalheiro bem apessoado&#8217;, de Pierre Louis Riche. O \u00e1libi demogr\u00e1fico<\/p>\n<p>Em fins do ano passado, quatro deputados alem\u00e3es visitaram o Haiti. Mal chegaram, a mis\u00e9ria do povo feriu-lhes os olhos. Ent\u00e3o o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual \u00e9 o problema:<br \/>\n\u2013 Este \u00e9 um pa\u00eds superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.<\/p>\n<p>E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os n\u00fameros. E comprovou que o Haiti \u00e9, com El Salvador, o pa\u00eds mais superpovoado das Am\u00e9ricas, mas est\u00e1 t\u00e3o superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quil\u00f3metro quadrado.<\/p>\n<p>Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf n\u00e3o s\u00f3 foi golpeado pela mis\u00e9ria como tamb\u00e9m foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o Haiti est\u00e1 superpovoado&#8230; de artistas.<\/p>\n<p>Na realidade, o \u00e1libi demogr\u00e1fico \u00e9 mais ou menos recente. At\u00e9 h\u00e1 alguns anos, as pot\u00eancias ocidentais falavam mais claro.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o racista<\/p>\n<p>Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o pa\u00eds at\u00e9 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as d\u00edvidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender planta\u00e7\u00f5es aos estrangeiros. Ent\u00e3o Robert Lansing, secret\u00e1rio de Estado, justificou a longa e feroz ocupa\u00e7\u00e3o militar explicando que a ra\u00e7a negra \u00e9 incapaz de governar-se a si pr\u00f3pria, que tem &#8220;uma tend\u00eancia inerente \u00e0 vida selvagem e uma incapacidade f\u00edsica de civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Um dos respons\u00e1veis da invas\u00e3o, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: &#8220;Este \u00e9 um povo inferior, incapaz de conservar a civiliza\u00e7\u00e3o que haviam deixado os franceses&#8221;.<\/p>\n<p>&#8216;A reuni\u00e3o&#8217;, de Aland Estime. O Haiti fora a p\u00e9rola da coroa, a col\u00f3nia mais rica da Fran\u00e7a: uma grande planta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, com m\u00e3o-de-obra escrava. No Esp\u00edrito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na l\u00edngua: &#8220;O a\u00e7\u00facar seria demasiado caro se os escravos n\u00e3o trabalhassem na sua produ\u00e7\u00e3o. Os referidos escravos s\u00e3o negros desde os p\u00e9s at\u00e9 \u00e0 cabe\u00e7a e t\u00eam o nariz t\u00e3o achatado que \u00e9 quase imposs\u00edvel deles ter pena. Torna-se impens\u00e1vel que Deus, que \u00e9 um ser muito s\u00e1bio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro&#8221;.<\/p>\n<p>Em contrapartida, Deus havia posto um a\u00e7oite na m\u00e3o do capataz. Os escravos n\u00e3o se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos tamb\u00e9m por natureza, e a natureza, c\u00famplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que n\u00e3o mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o des\u00edgnio divino. Karl von Linneo, contempor\u00e2neo de Montesquieu, havia retratado o negro com precis\u00e3o cient\u00edfica: &#8220;Vagabundo, pregui\u00e7oso, negligente, indolente e de costumes dissolutos&#8221;. Mais generosamente, outro contempor\u00e2neo, David Hume, havia comprovado que o negro &#8220;pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras&#8221;.<\/p>\n<p>A humilha\u00e7\u00e3o imperdo\u00e1vel<\/p>\n<p>Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napole\u00e3o Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilha\u00e7\u00e3o infligida \u00e0 ra\u00e7a branca. O Haiti foi o primeiro pa\u00eds livre das Am\u00e9ricas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independ\u00eancia, mas tinha meio milh\u00e3o de escravos a trabalhar nas planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens s\u00e3o iguais, mas tamb\u00e9m dizia que os negros foram, s\u00e3o e ser\u00e3o inferiores.<\/p>\n<p>&#8216;Lavadeiras&#8217;, Watson Etienne. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ru\u00ednas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do a\u00e7\u00facar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a Fran\u00e7a, e um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o havia ca\u00eddo no combate. Ent\u00e3o come\u00e7ou o bloqueio. A na\u00e7\u00e3o rec\u00e9m nascida foi condenada \u00e0 solid\u00e3o. Ningu\u00e9m lhe comprava, ningu\u00e9m lhe vendia, ningu\u00e9m a reconhecia.<\/p>\n<p>O delito da dignidade<\/p>\n<p>Nem sequer Sim\u00f3n Bol\u00edver, que t\u00e3o valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplom\u00e1tico do pa\u00eds negro. Bol\u00edvar havia podido reiniciar a sua luta pela independ\u00eancia americana, quando a Espanha j\u00e1 o havia derrotado, gra\u00e7as ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a \u00fanica condi\u00e7\u00e3o de que Bol\u00edvar libertasse os escravos, uma ideia que n\u00e3o havia ocorrido ao Libertador. Bol\u00edvar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vit\u00f3ria, quando j\u00e1 governava a Grande Col\u00f4mbia, deu as costas ao pa\u00eds que o havia salvo. E quando convocou as na\u00e7\u00f5es americanas \u00e0 reuni\u00e3o do Panam\u00e1, n\u00e3o convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independ\u00eancia, enquanto Etienne Serres, um g\u00e9nio franc\u00eas da anatomia, descobria em Paris que os negros s\u00e3o primitivos porque t\u00eam pouca dist\u00e2ncia entre o umbigo e o p\u00e9nis. Por essa altura, o Haiti j\u00e1 estava em m\u00e3os de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os fam\u00e9licos recursos do pa\u00eds ao pagamento da d\u00edvida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obriga\u00e7\u00e3o de pagar \u00e0 Fran\u00e7a uma indemniza\u00e7\u00e3o gigantesca, a modo de perd\u00e3 por haver cometido o delito da dignidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do ass\u00e9dio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimens\u00f5es de trag\u00e9dia, \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria do racismo na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um recente artigo, o escritor e soci\u00f3logo uruguaio Eduardo Galeano tra\u00e7a um breve hist\u00f3rico da nascente e tortuosa democracia no Haiti. Come\u00e7a dizendo: &#8220;A democracia haitiana nasceu h\u00e1 um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia n\u00e3o recebeu sen\u00e3o bofetadas&#8221;. 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