{"id":242112,"date":"2015-11-05T12:32:43","date_gmt":"2015-11-05T12:32:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/?p=242112"},"modified":"2015-11-05T12:33:21","modified_gmt":"2015-11-05T12:33:21","slug":"chomsky-nos-eua-eleicao-sem-alternativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2015\/11\/chomsky-nos-eua-eleicao-sem-alternativas\/","title":{"rendered":"Chomsky: nos EUA, elei\u00e7\u00e3o sem alternativas"},"content":{"rendered":"<p>POR NOAM CHOMSKY \u2013 ON 02\/11\/2015<\/p>\n<p>Fil\u00f3sofo dissidente v\u00ea pa\u00eds em desola\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica: temas centrais (inclusive a guerra) est\u00e3o vetados, conservadores apelam ao medo, \u201clibert\u00e1rios\u201d abra\u00e7am anarco-capitalismo. Ele simpatiza com Bernie Sanders.<\/p>\n<p>Entrevista a Abby Martin | Tradu\u00e7\u00e3o: In\u00eas Castilho | Imagem: Rubem Grilo<\/p>\n<p>Durante o longo ano que nos separa de 8 de novembro de 2016, as elei\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos ser\u00e3o, em todo o mundo, um foco central nos notici\u00e1rios. H\u00e1 dois motivos. Desde o fim da II Guerra, Washington procurou apresentar-se como a na\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica essencial, aquela onde a ideia de c\u00e9lebre de Abraham Lincoln \u2013 um governo \u201cdo povo, pelo povo, para o povo\u201d jamais cederia, podendo, espalhar-se pelo mundo\u2026 A segunda raz\u00e3o \u00e9 negativa. Os EUA sentem-se, desde os fracassos nas guerras contra o Afeganist\u00e3o e o Iraque, acossados. H\u00e1 semanas, a R\u00fassia voltou a ter presen\u00e7a geopol\u00edtica destacada no Oriente M\u00e9dio. Do ponto de vista financeiro, a China, principal credor do Tesouro norte-americano, parece disposta a amea\u00e7ar a hegemonia global do d\u00f3lar. Como reagir\u00e1 a na\u00e7\u00e3o que \u00e9, ainda, a mais poderosa do planeta?<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, o fil\u00f3sofo e linguista Noam Chomsky mostra que a curiosidade em torno das elei\u00e7\u00f5es norte-americanas segue v\u00e1lida \u2013 mas as quest\u00f5es deveriam ser outras. A velha democracia de Lincoln esvaziou-se. Nenhuma das quest\u00f5es que afetam o futuro da sociedade dos EUA estar\u00e1 em pauta no debate. Um sistema pol\u00edtico fossilizado, e sequestrado pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es que financiam as campanhas eleitorais, encarrega-se de evitar que cheguem aos eleitores o que realmente importa. Estabelecer uma tributa\u00e7\u00e3o mais justa, criar um sistema p\u00fablico de Sa\u00fade \u2013 nada disso ser\u00e1 debatido no pr\u00f3ximo ano, porque n\u00e3o interessa ao poder econ\u00f4mico, e o oligop\u00f3lio de m\u00eddia \u00e9 um c\u00e3o de guarda eficiente\u2026 Na entrevista, Chomsky revela como as chances de uma discuss\u00e3o cidad\u00e3 profunda s\u00e3o substitu\u00eddas pela mobiliza\u00e7\u00e3o do medo, inclusive o que move parte da popula\u00e7\u00e3o que \u201cteme ir a uma lanchonete desarmada\u201d\u2026<\/p>\n<p>Resta a geopol\u00edtica. O debate sobre os atos de Washington que aterrorizam o mundo \u2013 o programa absolutamente desumano e ilegal de assassinato de suspeitos, por drones, em pa\u00edses como o Paquist\u00e3o e o Y\u00eamen, por exemplo \u2013 tamb\u00e9m estar\u00e1 ausente. Nenhum candidato ousa atacar tais projetos.<\/p>\n<p>Mas ao menos, sugere Chomsky, os EUA est\u00e3o perdendo parte da capacidade de fazer mal ao mundo. O pr\u00f3prio esvaziamento de seu sistema pol\u00edtico, antes vibrante, reduz a capacidade do pa\u00eds para manter-se coeso e poderoso. A suposta democracia norte-americana reduziu-se a \u201cuma plutocracia, onde uma fra\u00e7\u00e3o do 1% mais rico \u00e9 quem decide\u201d.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es marcadas para daqui a um ano selar\u00e3o este decl\u00ednio? Ainda \u00e9 imposs\u00edvel saber, mas a entrevista de Chomsky \u2013 concedida \u00e0 jornalista Abby Martin, da Telesur e publicada a segur \u2013 fornece pistas instigantes. (A.M.)<\/p>\n<p>Qual a amplitude das escolhas poss\u00edveis, na disputa pela presid\u00eancia dos EUA? Parece haver grande uniformidade no apoio \u00e0 \u201cguerra ao terror\u201d, na postura diante da Am\u00e9rica Latina, nas san\u00e7\u00f5es contra o Ir\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 um candidato que realmente condene as pol\u00edticas de guerra, embora boa parte da opini\u00e3o p\u00fablica o fa\u00e7a. Por que ningu\u00e9m toca nesse assunto?<\/p>\n<p>O espectro \u00e9 amplo, mas num sentido estranho\u2026 Vai do centro \u00e0 extrema direita. H\u00e1 vinte anos, o Partido Republicano abandonou qualquer pretens\u00e3o de ser um partido pol\u00edtico normal. Comentaristas conservadores respeit\u00e1veis, como Norman Orstein, do American Enterprise Institute \u2013 um think thak de direita \u2013 descreveram o Partido Republicano como uma insurg\u00eancia radical que abandonou a pol\u00edtica parlamentar. Eles simplesmente n\u00e3o querem que aconte\u00e7a nada. Sua \u00fanica pol\u00edtica \u00e9 n\u00e3o fazer coisa nenhuma, a n\u00e3o ser soltar bombas. Isso n\u00e3o \u00e9 um partido pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ocorre que durante todo o per\u00edodo neoliberal, os partidos tradicionais moveram-se para a direita em todo o mundo, e os republicanos simplesmente foram muito al\u00e9m do espectro. Eles tornaram-se t\u00e3o dedicados aos interesses dos extremamente ricos e poderosos que perderam a capacidade de atrair o eleitorado normal. Por isso, tiveram que se voltar para outros setores, que antes n\u00e3o haviam sido mobilizados politicamente. Os fundamentalistas evang\u00e9licos, os nativistas que t\u00eam medo de perder seu pa\u00eds, pessoas t\u00e3o apavoradas que t\u00eam de carregar armas pra ir na lanchonete. Essa \u00e9 sua base, essencialmente. Quem examina as elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias dos republicanos percebe: qualquer candidato que tenha alguma apar\u00eancia de racionalidade n\u00e3o est\u00e1 sequer competindo.<\/p>\n<p>Os democratas tamb\u00e9m deslocaram-se para a direita. Hoje, os democratas mainstream s\u00e3o mais ou menos o que se costumava chamar de republicanos moderados. Algu\u00e9m como o ex-presidente Eisenhower seria considerado bem \u00e0 esquerda. Ele deixou bem claro, por exemplo, que qualquer um que questionasse os programas keynesianos do New Deal n\u00e3o fazia parte da vida pol\u00edtica norte-americana. Hoje, o \u00fanico candidato \u00e0 esquerda \u00e9 Bernie Sanders, mas seu programa assemelha-se ao de Eisenhower.<\/p>\n<p>Quanto a um candidato antiguerra, \u00e9 preciso perguntar o que isso significa. Por exemplo, Obama \u00e9 considerado um presidente antiguerra. Ele descreveu a guerra do Iraque como um erro estrat\u00e9gico, uma tolice. Mas isso \u00e9 uma postura semelhante \u00e0 dos generais russos no Afeganist\u00e3o nos anos 1980, que criticaram a invas\u00e3o como uma bobagem estrat\u00e9gica \u2013 \u201cvoc\u00eas est\u00e3o cometendo um erro\u201d \u2013, n\u00e3o uma cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica de guerra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ele promove um programa global de terror nunca imaginado antes: o programa de assassinatos por meio de drones, que veio \u00e0 luz agora, at\u00e9 certo ponto, devido aos vazamentos de informa\u00e7\u00f5es. Mas o que muita gente questiona \u00e9: voc\u00eas est\u00e3o matando muito civis. O programa dos drones assassina pessoas apenas por se supor que elas poder\u00e3o, algum dia, fazer um mal aos Estados Unidos. Por compara\u00e7\u00e3o, suponha, por exemplo, que o Ir\u00e3 come\u00e7asse a matar gente nos Estados Unidos por pensar que estas pessoas poderiam agredir seu pa\u00eds. Os editores do New York Times e do Washington Post, que publicam constantemente artigos clamando pelo bombardeio do Ir\u00e3, diriam que \u00e9 uma amea\u00e7a iminente. N\u00f3s aceitar\u00edamos este ato dos iranianos? A ideia de que temos o direito de usar for\u00e7a e viol\u00eancia conforme nossa vontade \u00e9 aceita mais ou menos por todo o espectro pol\u00edtico. Examine, por exemplo, as negocia\u00e7\u00f5es com Ir\u00e3. Virtualmente todos \u2014 presidente, l\u00edderes pol\u00edticos, comentaristas na imprensa, pacifistas \u2013 dizem que se n\u00f3s detectarmos alguma viola\u00e7\u00e3o dos acordos pelo Ir\u00e3, temos direito de usar for\u00e7a militar para atac\u00e1-los. Isso \u00e9 esdr\u00faxulo, em termos do direito internacional, mas \u00e9 virtualmente universal na pol\u00edtica institucional dos EUA. Voc\u00ea precisa ir longe nas margens pra encontrar algu\u00e9m que questione esta ideia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, entre os candidatos, a mais leve cr\u00edtica ao programa de assassinatos ou mesmo \u00e0 \u201cguerra ao terror\u201d. A cada quatro anos voc\u00ea \u00e9 levada a pensar que est\u00e1 participando da grande pr\u00e1tica democr\u00e1tica na tomada de decis\u00f5es, em que celebramos a elei\u00e7\u00e3o de l\u00edderes que governam por n\u00f3s. Como o poder funciona de verdade, em nossa sociedade?<\/p>\n<p>H\u00e1 estudos muito bons sobre isso, de cientistas pol\u00edticos mainstream. Um dos principais t\u00f3picos estudados na ci\u00eancia pol\u00edtica acad\u00eamica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a atitude das pessoas e as pol\u00edticas p\u00fablicas. Por exemplo, durante cerca de quarenta anos, uma consider\u00e1vel maioria do p\u00fablico pensou que os impostos deveriam subir, para os mais ricos \u2013 e agora, os impostos pagos por eles est\u00e3o caindo. Parte substancial do p\u00fablico, frequentemente uma grande maioria, julga que n\u00f3s dever\u00edamos ter um sistema nacional de sa\u00fade. Imposs\u00edvel. Quando a imprensa discute isso, diz que \u00e9 politicamente invi\u00e1vel, porque a ind\u00fastria farmac\u00eautica e o setor de seguros n\u00e3o ir\u00e3o aceitar. Basicamente, n\u00e3o importa o que o povo pensa. Cerca de 70% do p\u00fablico, os que est\u00e3o mais na base da pir\u00e2mide social, s\u00e3o desprivilegiados, suas atitudes n\u00e3o t\u00eam influ\u00eancia sens\u00edvel sobre as pol\u00edticas de seus pr\u00f3prios representantes.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea sobe um pouco na escala, encontra um pouco mais de influ\u00eancia. Quando chega ao topo, \u00e9 onde as pol\u00edticas s\u00e3o feitas, e o topo significa uma fra\u00e7\u00e3o do 1% mais rico. \u00c9, portanto, um tipo de plutocracia com formas democr\u00e1ticas. E as elei\u00e7\u00f5es \u2013 bem, agora tornaram-se quase uma piada, mas sempre foi verdade que o financiamento de campanhas desempenha um papel substancial, n\u00e3o apenas para definir quem ser\u00e1 eleito mas que pol\u00edticas ser\u00e3o praticadas. Isso remete a cem anos atr\u00e1s, quando um grande gestor de campanhas pol\u00edticas Mark Anna, questionado sobre o que era importante para fazer uma campanha, respondeu que h\u00e1 tr\u00eas coisas: a primeira \u00e9 dinheiro, a segunda \u00e9 dinheiro, e esqueci qual \u00e9 a terceira (risos)\u2026 E isso \u00e9 bem verdade\u2026 Com a atual posi\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria da Suprema Corte, qualquer controle simplesmente foi para o espa\u00e7o, os gastos de campanha foram para bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>E as pessoas argumentam que os problemas devem-se a muita interfer\u00eancia do governo; que se deve ampliar o mercado; que o capitalismo precisa de liberdade, enquanto voc\u00ea afirma que, em qualquer cen\u00e1rio, o capitalismo \u00e9 incompat\u00edvel com a democracia.<\/p>\n<p>H\u00e1 um estudo recente do FMI sobre os lucros dos grandes bancos nos EUA. O setor financeiro tornou-se enorme durante o per\u00edodo neoliberal, abocanha quase metade dos lucros das corpora\u00e7\u00f5es. De onde vem esse lucro? Ficou claro que vem dos contribuintes. H\u00e1 uma garantia impl\u00edcita do Estado contra fal\u00eancias. N\u00e3o est\u00e1 na lei, mas todos compreendem que, se uma grande institui\u00e7\u00e3o financeira se vir em apuros, o governo a resgata \u2013 o que aconteceu repetidamente no per\u00edodo neoliberal. N\u00e3o houve grandes fal\u00eancias nos anos 1950 e 1960, quando as pol\u00edticas do New Deal come\u00e7aram a ser institu\u00eddas. Com a desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro, veio uma s\u00e9rie de crises financeiras. E cada vez que o p\u00fablico paga a conta, isso tem consequ\u00eancias. Por um lado, as ag\u00eancias de risco entendem que essas corpora\u00e7\u00f5es t\u00eam muito mais valor do que na realidade \u2013 porque ser\u00e3o sempre protegidas. Exatamente devido a isso, elas pagam taxas de juros favor\u00e1veis. Podem obter cr\u00e9dito barato e fazer transa\u00e7\u00f5es de risco que s\u00e3o lucrativas porque, se algo der errado, o contribuinte paga. Vem da\u00ed uma boa parte dos seus lucros. Isso \u00e9 capitalismo?<\/p>\n<p>H\u00e1 outro estudo do FMI sobre os subs\u00eddios do governo para empresas do setor de combust\u00edveis em todo o mundo, n\u00e3o apenas nos EUA. Estima-se que cheguem a 5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano.<\/p>\n<p>Mas o movimento ultra-liberal (libertarian) n\u00e3o diria, precisamente, que o governo est\u00e1 sendo usado como extens\u00e3o do mercado para proteger um certo tipo de capitalismo? Que precisamos de um governo livre de regula\u00e7\u00e3o, para deixar o capitalismo trabalhar por si mesmo?<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o dos libertarians dos EUA n\u00e3o tem nada a ver com a tradi\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria. \u00c9 um tipo de capitalismo de ultra-direita, que chamam de anarco-capitalismo. Se fosse permitido que isso funcionasse, toda a sociedade entraria em colapso, e ter\u00edamos uma tirania de institui\u00e7\u00f5es privadas sem qualquer responsabilidade ou presta\u00e7\u00e3o de contas. A concentra\u00e7\u00e3o privada de capital torna a sociedade totalmente fora de controle, para o p\u00fablico. Significa tirania absoluta. A \u00fanica coisa que protege a sociedade do capitalismo predat\u00f3rio \u00e9 algum n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que ela d\u00e1 suporte a institui\u00e7\u00f5es capitalistas, mas tamb\u00e9m protege a sociedade da destrui\u00e7\u00e3o total pelo sistema capitalista predat\u00f3rio, ao qual simplesmente n\u00e3o poder\u00edamos sobreviver, por raz\u00f5es \u00f3bvias. N\u00e3o se poderia cuidar das externalidades, dos efeitos da produ\u00e7\u00e3o sobre outros aspectos da vida social. Em pouco tempo, se destruiria o meio ambiente, detonando recursos e explodindo o volume de di\u00f3xido de carbono na atmosfera. Quem poderia fazer algo?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o haveria bens p\u00fablicos. H\u00e1 uma ideologia segundo a qual o mercado prov\u00ea liberdade de escolha, seria algo democr\u00e1tico. Sabemos que evidentemente n\u00e3o \u00e9 verdade. Suponha que eu queira chegar em casa esta noite: o mercado oferece escolhas de marcas de carro, mas n\u00e3o oferece o que quero realmente, que \u00e9 um sistema p\u00fablico de transporte. O mercado olha pra voc\u00ea como um consumidor individual de bens de consumo, ponto final. \u00c9 isso que queremos da vida, mais e mais gadgets? H\u00e1 muitas outras coisas na vida, que o mercado jamais oferecer\u00e1. Ent\u00e3o, o que \u00e9 chamado nos EUA de libertarianismo \u00e9 uma prescri\u00e7\u00e3o para o desastre completo. N\u00e3o penso que as pessoas que advogam em favor da proposta saibam disso. E devo dizer, \u00e9 muito antilibert\u00e1rio. O libertarianismo tradicional, que \u00e9 sempre de esquerda, opunha-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o senhor-servo, ao fato de algumas pessoas darem ordens e as outras receberem. Isso \u00e9 libertarianismo, n\u00e3o essa vers\u00e3o anarco-capitalista.<\/p>\n<p>Algumas semanas atr\u00e1s, militares dos EUA bombearam intencionalmente um hospital em Kunduz, Afeganist\u00e3o, e o governo achou suficiente pedir desculpas. H\u00e1 gente capaz de se apresentar para defender o establishment, dizendo que ou deve ter havido alguma boa raz\u00e3o, foi um acidente \u2013 sabemos que n\u00e3o \u2013, ou devia haver membros do Talib\u00e3 escondidos no hospital. Esse exemplo espec\u00edfico ilustra como o excepcionalismo norte-americano funciona?<\/p>\n<p>Precisamos ter cuidado com o termo excepcionalismo americano. N\u00e3o \u00e9 absolutamente excepcional: todo poder imperial comportou-se da mesma forma, \u00e0s vezes pior. \u00c9 apenas pr\u00e1tica imperial normal. Claro, \u00e9 excepcional, porque supostamente temos os mais altos ideais; ou seja, podemos cometer erros, mas sempre com os mais altos ideais\u2026 Esse \u00e9 o excepcionalismo norte-americano.<\/p>\n<p>Mas isso tamb\u00e9m vale para quase todo poder imperial. Quando os brit\u00e2nicos estavam destruindo o mundo, faziam isso sempre pelos mais altos ideais. Intelectuais renomados como John Stuart Mill, pessoas estim\u00e1veis descreviam a Inglaterra como um pa\u00eds ang\u00e9lico. Com os franceses, acontecia o mesmo \u2013 \u00e9 dif\u00edcil encontrar uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso do hospital de Kunduz, os detalhes acabar\u00e3o vindo \u00e0 tona, mas aparentemente os militares norte-americanos estavam tentando matar pessoas que consideravam l\u00edderes ou combatentes talib\u00e3s; ocorreu estarem no hospital, ent\u00e3o mataram todo mundo. H\u00e1 muita cr\u00edtica sobre matar a popula\u00e7\u00e3o em geral, mas, e quanto a matar pessoas tidas como alvos? Que direito temos de matar algu\u00e9m em outro pa\u00eds porque n\u00e3o gostamos dele? Eu tamb\u00e9m n\u00e3o gosto dos talib\u00e3s, mas isso me d\u00e1 o direito de ir l\u00e1 e mat\u00e1-los? Eles tamb\u00e9m t\u00eam o direito de nos matar, porque n\u00e3o gostam de n\u00f3s?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 absolutamente questionado. O que \u00e9 questionado \u00e9 atacar um hospital, matar os pacientes, a equipe\u2026 Mas n\u00e3o \u00e9 a primeira vez. Uma das realiza\u00e7\u00f5es mais louvadas do ex\u00e9rcito americano no Iraque \u00e9 a conquista de Fallujah, em novembro de 2004. D\u00ea uma olhada no New York Times nos dias do ataque a Fallujah. No primeiro dia do ataque, h\u00e1 um foto na capa do Hospital Geral da cidade. Mariners atacaram o Hospital Geral, tiraram os pacientes de suas camas e os puseram no ch\u00e3o, algemaram-nos, puseram os m\u00e9dicos no ch\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Atacar hospital \u00e9 uma tremenda viola\u00e7\u00e3o do direito internacional. Os comandantes foram questionados: por que atacaram? Responderam que o hospital era uma ag\u00eancia de propaganda para os rebeldes. Como? Disseram que o hospital divulgava os n\u00fameros de mortos e feridos na guerra\u2026 E tudo bem, isso \u00e9 considerado um grande feito. Para al\u00e9m disso: o que os mariners est\u00e3o fazendo em Fallujah? Quer dizer, h\u00e1 marinheiros iranianos em Cambridge? O que a Marinha dos EUA est\u00e1 fazendo no Iraque?<\/p>\n<p>A invas\u00e3o do Iraque \u00e9 o maior crime deste s\u00e9culo. Teve efeitos horrendos, desencadeando conflitos sect\u00e1rios e dilacerando o pa\u00eds. Mas suponha que tivesse dado certo, que tivesse pacificado o Iraque e n\u00e3o houvesse esses desastres. Ainda assim seria um grande crime. Que direito temos de invadir outro pa\u00eds?<\/p>\n<p>Se voc\u00ea olha pra tr\u00e1s h\u00e1 um outro crime que nunca \u00e9 discutido. Nos anos 1990, as san\u00e7\u00f5es ao Iraque eram t\u00e3o severas que destru\u00edram virtualmente a sociedade. Eram aplicadas pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas e o diplomata internacional que as administrava era respeitado \u2014 Denis Halliday, um irland\u00eas. Renunciou com base no fato de as san\u00e7\u00f5es serem genocidas \u2013 palavra dele, n\u00e3o minha. Ele afirmou: as san\u00e7\u00f5es est\u00e3o destruindo a sociedade, fortalecem o ditador e for\u00e7am a popula\u00e7\u00e3o a depender dele para conseguir sobreviver; provavelmente, livram-no de ser deposto a partir de dentro. Isso ocorreu nos anos 90 e n\u00e3o \u00e9 considerado um problema \u2013 \u00e9 considerado democracia liberal. No momento em que o presidente dos EUA, George W. Bush e o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Tony Blair, decidiram invadir o Iraque a sociedade j\u00e1 estava semi-devastada. Ou seja, atacaram uma sociedade com um sistema muito fr\u00e1gil e obtiveram resultados horr\u00edveis. A pr\u00f3pria ideia de invas\u00e3o \u00e9 criminosa. Obama \u00e9 louvado porque a descreve como um erro. Ele a descreve como crime? Algu\u00e9m faz isso, a n\u00e3o ser longe, nas franjas do pensamento pol\u00edtico?<\/p>\n<p>\u00c9 chamada de guerra burra, uma palavra esperta\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 como os generais alem\u00e3es que disseram, depois de Stalingrado: \u00e9 realmente est\u00fapido fazer uma guerra em duas frentes, dever\u00edamos ter destru\u00eddo a Inglaterra primeiro\u2026<\/p>\n<p>Acho interessante que as pessoas, ao lembrar que n\u00e3o encontramos armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, julguem que, se estas existissem, teria sido racional invadir e ocupar um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se a preocupa\u00e7\u00e3o fosse com armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, haveria modos de proceder: os inspetores da ONU fazem um \u00f3timo trabalho. Uma quest\u00e3o semelhante surgiu no caso do enriquecimento de urano do Ir\u00e3. De acordo com os EUA, o Ir\u00e3 representa uma grande amea\u00e7a para o mundo. Isso \u00e9 muito mais uma obsess\u00e3o norte-americana e de Israel, e a maior parte do mundo n\u00e3o enxerga dessa forma. Mas vamos supor que Ir\u00e3 seja uma amea\u00e7a: h\u00e1 maneiras simples de lidar com isso, na verdade muito populares. O melhor modo seria trabalhar no sentido de instituir uma zona livre de armas nucleares na regi\u00e3o. Isso tem o apoio de quase todo o mundo e \u00e9 fortemente apoiado pelo Ir\u00e3 \u2013 na verdade o pa\u00eds era o maior advogado da ideia.<\/p>\n<p>Nem sequer se reconhece que Israel tem armas nucleares.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o problema. Os EUA n\u00e3o permitir\u00e3o, porque n\u00e3o querem que as armas nucleares de Israel sejam abertas para inspe\u00e7\u00e3o. Em consequ\u00eancia, bloqueamos a maneira \u00f3bvia de lidar com o problema, apoiada virtualmente pelo mundo inteiro. A quest\u00e3o surge a cada cinco anos, por ocasi\u00e3o da confer\u00eancia de revis\u00e3o do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TnP). Esse \u00e9 o mais importante acordo de controle de armamentos que h\u00e1; se ele entrar em colapso, ficaremos mal, todo mundo vai ter armas nucleares, e us\u00e1-las. Mas os Estados Unidos empenham-se tanto em proteger as armas nucleares de Israel que est\u00e3o dispostos a colocar em risco o tratado. Voc\u00ea ouve uma palavra sobre isso fora da literatura a respeito do controle de armas nucleares? Eu leio alguns artigos, mas de gente distante, bem al\u00e9m das margens. Nada que venha do mainstream.<\/p>\n<p>Uma grande quantidade de energia \u00e9 empregada em a\u00e7\u00f5es que visam eleger pessoas consideradas capazes de encontrar solu\u00e7\u00f5es para os problemas que enfrentamos. Em que acha que devemos focar nossa energia?<\/p>\n<p>Na campanha de Bernie Sanders. \u00c9 impressionante, ele est\u00e1 se saindo bem, fazendo coisas boas e corajosas e organizando um monte de gente. Essa campanha deveria ser voltada para sustentar um movimento popular que usasse a elei\u00e7\u00f5es como uma esp\u00e9cie de incentivo, para em seguida ir adiante. A \u00fanica coisa que vai trazer uma mudan\u00e7a significativa s\u00e3o movimentos populares cont\u00ednuos e dedicados, que n\u00e3o prestem aten\u00e7\u00e3o ao ciclo eleitoral \u2013 \u00e9 uma extravag\u00e2ncia que ocorre a cada quatro anos e \u00e9 preciso se envolver, ent\u00e3o tudo bem, eles se envolvem. Mas ent\u00e3o seguimos adiante. Se isso for feito, conseguiremos fazer mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Fonte: Outras Palavras<\/p>\n<p>wn<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR NOAM CHOMSKY \u2013 ON 02\/11\/2015 Fil\u00f3sofo dissidente v\u00ea pa\u00eds em desola\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica: temas centrais (inclusive a guerra) est\u00e3o vetados, conservadores apelam ao medo, \u201clibert\u00e1rios\u201d abra\u00e7am anarco-capitalismo. Ele simpatiza com Bernie Sanders. 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