{"id":236142,"date":"2015-10-20T01:43:53","date_gmt":"2015-10-20T00:43:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/?p=236142"},"modified":"2015-10-20T01:44:12","modified_gmt":"2015-10-20T00:44:12","slug":"todos-somos-refugiados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2015\/10\/todos-somos-refugiados\/","title":{"rendered":"Todos somos refugiados"},"content":{"rendered":"<p><em>No fundo, todos somos refugiados que buscamos voltar a um m\u00edtico para\u00edso perdido original. Se somos persistentes, n\u00e3o haver\u00e1 muros nem barreiras nem enganos que possam deter nosso caminho.<\/em><\/p>\n<p>O ano de 2015 est\u00e1 sendo um ano especialmente complicado na Europa, tudo desde 2007, in\u00edcio da &#8220;crise&#8221; econ\u00f4mica nos Estados Unidos, quando come\u00e7aram as dificuldades em todo o mundo. Mas este ano temos vivido um primeiro semestre marcado pela trag\u00e9dia grega, que se n\u00e3o fosse pelas pen\u00farias enfrentadas pelos gregos, n\u00e3o passaria de um teatro do absurdo, com os desalmados da Troika e da Comiss\u00e3o Europeia chantageando do pior modo poss\u00edvel o governo grego de Syriza. Por agora h\u00e1 pouco a acrescentar ao que \u00e9 visto por todos; depois de alguns meses desde que o assunto deixou de ser manchete mundial.  Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que a atua\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes europeus \u00e9 p\u00e1reo com os personagens surreais de Fellini e os chefes da m\u00e1fia de Ford Coppola. Nem Mastroianni e Brando teria feito melhor.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m acreditava que, com a aceita\u00e7\u00e3o \u2013 sem convencimento- por parte de Tsipras do memorandum da Troika, se acabaria as grandes turbul\u00eancias, eis que come\u00e7ou o drama dos refugiados da S\u00edria e outros lugares. Novamente, reuni\u00f5es e mais reuni\u00f5es europeias do mais alto n\u00edvel, e novamente \u2013 com permiss\u00e3o dos pobres refugiados \u2013 atua\u00e7\u00f5es dos governantes que v\u00e3o desde \u201cO rei n\u00fa\u201d de Andersen, no melhor dos casos, ao personagem de Eli Wallach em \u201cOs sete magn\u00edficos\u201d, uma mescla do idiota que se cr\u00ea que conserva as apar\u00eancias e o miser\u00e1vel sem escr\u00fapulos que est\u00e1 disposto ao que quer que seja para obter o que deseja.<\/p>\n<p>Creio que j\u00e1 se explicou suficientemente que as pessoas que fogem da S\u00edria o fazem porque ali h\u00e1 uma guerra, e que essa guerra, que come\u00e7ou faz pouco tempo mais de 4 anos, foi fomentado desde o princ\u00edpio pela OTAN.  Ou seja, pa\u00edses como Hungria ou Cro\u00e1cia ajudaram a fomentar uma guerra S\u00edria, e agora se esquivam do dever de acolher ou ao menos ajudar os prejudicados.  N\u00e3o s\u00f3 lhes bombardearam suas casas sen\u00e3o que depois fecharam as fronteiras nos seus narizes.  Supostamente que nem a Hungria, nem a Cro\u00e1cia decidiram apoiar militarmente os rebeldes s\u00edrios por iniciativa pr\u00f3pria, mas eles, junto com outros pa\u00edses como Espanha, Fran\u00e7a, Alemanha e muitos outros, participam da estrutura militar liderada pelos Estados Unidos, que apoiou ativamente, fornecendo armamento e bombardeando diretamente sobre o territ\u00f3rio, aqueles que pegaram em armas contra o governo de Al Assad.<\/p>\n<p>Portanto, os governantes europeus n\u00e3o podem esquivar sua responsabilidade neste caso. Supostamente que qualquer pa\u00eds tem o dever de ajudar os refugiados como pode, e de fato os pa\u00edses da periferia passaram anos cuidando dos refugiados das guerras do Afeganist\u00e3o, Iraque, L\u00edbia e S\u00edria, mencionando os conflitos maiores que ocorreram.  No entanto, ningu\u00e9m agradece publicamente o trabalho realizado por na\u00e7\u00f5es que contam com muito pouco recurso das na\u00e7\u00f5es europeias, sendo que estas t\u00eam uma responsabilidade maior por sua participa\u00e7\u00e3o na OTAN.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um refugiado?  A resposta a esta pergunta n\u00e3o \u00e9 \u00fanica; a ACNUR daria a defini\u00e7\u00e3o \u201coficial\u201d ao tratar-se do organismo mundial mais especializado neste assunto, ainda que na Wikip\u00e9dia em espanhol encontramos uma defini\u00e7\u00e3o que para a maioria das pessoas seria razoavelmente adequada.  \u201cO asilo humanit\u00e1rio \u00e9 a pr\u00e1tica de certas na\u00e7\u00f5es de aceitar em seu solo imigrantes que se viu obrigado a abandonar seu pa\u00eds de origem devido ao perigo que corriam por causas raciais, religiosas, guerras civis, cat\u00e1strofes naturais, etc.  Os refugiados se v\u00eam for\u00e7ados a fugir porque n\u00e3o disp\u00f5em da prote\u00e7\u00e3o suficiente por parte do governo de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. \u201d<\/p>\n<p>E nosso caso, sendo generosos no alcance, dir\u00edamos que um refugiado \u00e9 algu\u00e9m que se marcha de seu lugar (pa\u00eds, regi\u00e3o, etc.) porque encontra o futuro fechado nele, e decide provar abrir-se futuro em outro lugar. Assim, a maioria dos imigrantes atuais poderiam ser considerados refugiados, j\u00e1 que n\u00e3o se marcham por gosto, sen\u00e3o por obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou contar o caso de minha fam\u00edlia.  Os pais dos meus av\u00f3s decidiram marchar da R\u00fassia quando se iniciou a guerra civil nos primeiros anos ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917.  Meus av\u00f3s nascidos na R\u00fassia, cresceram movendo-se entre pa\u00edses europeus ou se sua \u00f3rbita.  Assim, minha m\u00e3e nasceu na S\u00e9rvia e meu pai no L\u00edbano, ainda que ambos foram criados na Alemanha e \u00c1ustria respectivamente.  Pouco depois de finalizar a Segunda Guerra Mundial, em 1950, meus av\u00f3s decidiram emigrar para Argentina com meus pais ainda pequenos. Eu nasci na Argentina, e h\u00e1 pouco mais de 20 anos marchei para a Europa.  Aqui, mais precisamente, em Barcelona, tive uma filha que \u00e9 a quarta gera\u00e7\u00e3o consecutiva a nascer em um pa\u00eds distinto. Tanto meus av\u00f3s como meus pais foram considerados refugiados pela ACNUR em seu momento (de fato esta organiza\u00e7\u00e3o nasceu para dar resposta \u00e0 crise migrat\u00f3ria posterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial), e foram acolhidos sem problemas pela Rep\u00fablica Argentina.  Venho de uma fam\u00edlia de refugiados que foram muito bem recebidos por seu pa\u00eds de destino.<\/p>\n<p>Ainda que tenha havido grandes migra\u00e7\u00f5es h\u00e1 mil anos, movendo na\u00e7\u00f5es inteiras de um lugar do planeta para outro muito distante, onde fundaram novas comunidades, no s\u00e9culo XX ser migrante a grandes distancias come\u00e7ou a ser algo mais frequente.  No final do s\u00e9culo anterior, gra\u00e7as ao progresso no transporte, e a partir do ano 2000, mover-se pelo planeta se converteu em algo relativamente f\u00e1cil.  SE a isto somamos o avan\u00e7o da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e das telecomunica\u00e7\u00f5es, que as migra\u00e7\u00f5es aumentem \u00e9 o mais l\u00f3gico e esper\u00e1vel.  A resposta que se deu a este fen\u00f4meno crescente por parte dos governos foi colocar barreiras nas fronteiras (com exce\u00e7\u00e3o do acordo de Schengen entre alguns pa\u00edses europeus, que agora mesmo est\u00e1 sob interdi\u00e7\u00e3o).  Assim, enquanto aumentam as facilidades para a circula\u00e7\u00e3o do dinheiro pelo planeta, beneficiando a quem mais dinheiro tem ou podem gerir, aumentam as dificuldades para o movimento das pessoas. <\/p>\n<p>Agora mesmo, o grande drama migrat\u00f3rio est\u00e1 situado no sudeste da Europa.  Contrariamente ao que se poderia supor, os refugiados podem entrar com relativa facilidade na Europa desde a Turquia, mas nos pa\u00edses do leste Europeu ao norte da Gr\u00e9cia as coisas come\u00e7am a se complicar.  Hungria tem defendido essa onda de rejei\u00e7\u00e3o dos imigrantes, seguido com menos alarde, mas igual firmeza por parte da Cro\u00e1cia e da Eslov\u00e9nia; estes tr\u00eas pa\u00edses s\u00e3o passagens para as ansiadas Alemanha e, em menor medida, \u00c1ustria, Escandin\u00e1via, etc.<\/p>\n<p>Contrariamente ao que sucedeu com a crise pol\u00edtica europeia na Gr\u00e9cia, desta vez Alemanha n\u00e3o defende aos desalmados, sen\u00e3o que sua postura resultou bastante rezo\u00e1vel.  Claro que esta postura \u00e9 fruto de sua necessidade de m\u00e3o-de-obra estrangeira, a qual se cobriria muito bem com os refugiados da onda atual, j\u00e1 que entre eles h\u00e1 muitos profissionais.  Mas ainda assim, devemos agradecer que \u201cFrau\u201d Merkel n\u00e3o atue, por uma vez, de chanceler de ferro.  Em qualquer caso, se a antrada massiva de refugiados se fizesse pelas costas espanholas, sseguramente este pa\u00eds atuaria igual ao que fez o hist\u00e9rico ministro h\u00fangaro, Viktor Orban, e o mesmo ocorreria com muitos pa\u00edses europeus do leste e do oeste.<\/p>\n<p>O problema dos refugiados s\u00edrios \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio, neste ponto notar que, para os europeus \u00e9 um problema, dif\u00edcil \u00e9 imaginar como est\u00e3o vivendo as pobres v\u00edtimas que buscam um lugar onde assentar-se \u2013 \u00e9 atual, mas a resposta mencionada dos governos \u00e9 lamentavelmente muito antiga j\u00e1. A rejei\u00e7\u00e3o tradicional ao estranho, t\u00edpico dos per\u00edodos mais negros da hist\u00f3ria humana, que ainda hoje se mant\u00e9m em muitas pessoas na Europa e em outros lugares, se une \u00e0s enormes dist\u00e2ncias na qualidade de vida entre ricos e pobres, dist\u00e2ncia que se agigantou nas \u00faltimas 3 d\u00e9cadas, gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas neoliberais que t\u00eam sido implementadas em quase todo mundo. E se isso n\u00e3o fosse suficiente, dado que um dos resultados destas pol\u00edticas \u00e9 o aumento do desemprego, sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista &#8211; exacerbada em pa\u00edses como Espanha- e que este desemprego cresceu em propor\u00e7\u00e3o inversa \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o com a crise que come\u00e7ou em 2007, a rejei\u00e7\u00e3o ao &#8220;compeditor&#8221; \u00e9 maior mesmo entre certos estratos da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a luta cl\u00e1ssica entre pobres, fomentada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o do grande capital, que s\u00e3o, de novo, o \u00fanico benefici\u00e1rio \u2013 com o t\u00edpico olhar de curto prazo, que os caracteriza, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Neste ponto, enquanto penso em um final adequado para o artigo, me dou conta que a resposta dada pela maioria dos governos da civilizada Europa \u00e9 de um n\u00edvel de miserabilidade t\u00e3o grande, que n\u00e3o cabem palavras para express\u00e1-lo.  O mero fato de que devemos escrever sobre esta situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 uma mostra do fracasso estrondoso da suposta civiliza\u00e7\u00e3o europeia, que se pretendeu impor ao resto do mundo sob o manto de educados modais.  Ser\u00e1 que ainda existem indiv\u00edduos neste pequeno planeta n\u00e3o percebem que sempre estamos falando de pessoas?  Pessoas que nasceram crian\u00e7as, se criou como foi poss\u00edvel, com sofrimentos, mas tamb\u00e9m com alegrias, que t\u00eam algumas condutas impr\u00f3prias, mas tamb\u00e9m grandes sonhos, que aspiram a ser felizes se puderem, igual a qualquer de n\u00f3s.  Como temos nos enganado, para crer que a felicidade de uns se op\u00f5e a felicidade dos outros? \u00c9 que nunca acabaremos de crescer&#8230;? <\/p>\n<p>Assim, o que nos resta? Apelar ao melhor do ser humano, aquele que em momentos mais obscuros se salvou do desastre total, aquela empatia com o outro que foi chamada de irmandade, solidariedade, camaradagem, fraternidade, em distintos momentos da hist\u00f3ria.  D\u00e1 igual o nome que lhe colocamos: quando as pessoas s\u00e3o capazes de reconhecer-se nos outros, se rompem todas as barreiras.  Os \u201ccompetidores\u201d deixam de s\u00ea-lo, as pessoas abrem suas casas e podem, e p\u00f5e o melhor de si para ajudar a quem necessita.  Hoje s\u00e3o os refugiados, amanh\u00e3 poder\u00e3o ser outros, nos mesmos talvez.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 acontecendo.  Na crise de refugiados atual, enquanto uns levantam barreiras, outros abrem suas portas e seus cora\u00e7\u00f5es.  Ainda que o triunfo provis\u00f3rio pare\u00e7a dos primeiros, sempre acabam vencendo os \u00faltimos, que s\u00e3o aqueles que est\u00e3o assistidos por algo maior, algo que nos supera como indiv\u00edduos, algo que nos impulsiona desde o passado e nos succiona para o futuro.  Esse algo nos humaniza, nos faz crescer no interior, nos faz ser melhores pessoas.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 alguns meses um ataque criminoso acabou com a vida de alguns jornalistas, muitos diziam \u201cJe suis Charlie\u201d.  Hoje podemos dizer \u201ceu sou um refugiado\u201d, \u201ctodos somos refugiados\u201d.  Ainda que pare\u00e7a que somos diferentes, n\u00e3o nos deixam enganar pelas apar\u00eancias.  Somos um \u00fanico cora\u00e7\u00e3o batendo sincronizadamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fundo, todos somos refugiados que buscamos voltar a um m\u00edtico para\u00edso perdido original. 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