{"id":1833173,"date":"2024-03-19T16:43:22","date_gmt":"2024-03-19T16:43:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1833173"},"modified":"2024-03-19T16:53:40","modified_gmt":"2024-03-19T16:53:40","slug":"haiti-as-ondas-da-liberdade-nao-poderao-ser-retidas-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2024\/03\/haiti-as-ondas-da-liberdade-nao-poderao-ser-retidas-para-sempre\/","title":{"rendered":"Haiti: as ondas da liberdade n\u00e3o poder\u00e3o ser retidas para sempre"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Voc\u00ea pode ter visto o Haiti nos notici\u00e1rios. Os servi\u00e7os do Estado colapsaram. A capital foi invadida por gangues. Centenas de milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas. O primeiro-ministro, Ariel Henry, foi impedido de regressar ao pa\u00eds porque homens armados amea\u00e7aram invadir o aeroporto internacional. Ele, ent\u00e3o, renunciou. Os EUA est\u00e3o tentando criar uma for\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Mas as quest\u00f5es-chave raramente s\u00e3o colocadas nos principais relatos da crise: O que quer o povo haitiano? Como eles est\u00e3o se organizando? E por que eles enfrentam a atual crise?<\/p>\n<p>Essa forma plana de informar sobre os acontecimentos torna, n\u00e3o s\u00f3 o povo haitiano, mas tamb\u00e9m os leitores ou ouvintes em observadores passivos\u2014ou, pior, em c\u00famplices ativos. Ela n\u00e3o deixa espa\u00e7o, a n\u00e3o ser para pensarmos na inevitabilidade da viol\u00eancia ou na necessidade de uma interven\u00e7\u00e3o, porque algo tem de ser feito. Em qualquer um dos casos, essa maneira de narrar os factos garante que pouco haver\u00e1 que possa impedir outra interven\u00e7\u00e3o militar, apoiada pelos EUA, no Estado caribenho.<\/p>\n<p>Mas se cont\u00e1ssemos a hist\u00f3ria completa e respond\u00eassemos \u00e0s quest\u00f5es-chave, essa apatia transformar-se-ia em raiva, e a aquiesc\u00eancia em antipatia.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A crise do Haiti \u00e9 real<\/strong>. Os servi\u00e7os b\u00e1sicos est\u00e3o paralisados, as exig\u00eancias de mudan\u00e7a s\u00e3o respondidas com cassetetes e tiros, e a morte e o deslocamento\u00a0 de pessoas de um lugar para outro s\u00e3o horrivelmente quotidianos. <strong>Mas \u00e9 uma crise externa, n\u00e3o interna. A incapacidade de se auto-governar, n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica distintiva do povo haitiano. Eles sofreram mais de dois s\u00e9culos de intensos esfor\u00e7os imperialistas para destruir a sua autonomia governamental e minar a sua soberania.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Em 1791, o povo do Haiti\u2014composto fundamentalmente por povos escravizados trazidos de toda a \u00c1frica para produzir a\u00e7\u00facar para o paladar europeu e riqueza para o Imp\u00e9rio Franc\u00eas\u2014levantou-se, libertou-se e liderou uma revolu\u00e7\u00e3o que abalou o mundo. No dia de Ano Novo de 1804, eles fundaram a primeira Rep\u00fablica negra do mundo.<\/p>\n<p>Nos dois s\u00e9culos que se seguiram, a Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana foi brutalmente punida: com san\u00e7\u00f5es, invas\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es e repetidas mudan\u00e7as de regime \u00e0 conta das pot\u00eancias ocidentais. Durante 122 anos, com o cano de uma arma apontado \u00e0 cabe\u00e7a, o Haiti pagou \u00e0 Fran\u00e7a as d\u00edvidas da sua liberta\u00e7\u00e3o. Em 1915, os EUA invadiram o Haiti e ocuparam-no durante 19 anos, a ocupa\u00e7\u00e3o mais longa da hist\u00f3ria dos EUA at\u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o americana no Afeganist\u00e3o. Os EUA deixaram no seu rastro uma elite local obediente e uma s\u00e9rie de regimes fantoches violentos que serviram os interesses dos monopolistas norte-americanos.<\/p>\n<p>Mas a revolu\u00e7\u00e3o haitiana avan\u00e7ou. Na d\u00e9cada de 1980, ela encontrou express\u00e3o no movimento social de massas <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Fanmi_Lavalas\">Lavalas<\/a> que levou ao poder o governo de Jean-Bertrand Aristide e o seu partido, o Fanmi Lavalas. Durante mais de trinta e cinco anos, a hist\u00f3ria da pol\u00edtica haitiana viu o poder do movimento Lavalas enfrentar tentativas implac\u00e1veis da elite interna e de militares estrangeiros para destru\u00ed-lo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Como presidente, Aristide exigiu repara\u00e7\u00f5es coloniais da Fran\u00e7a e implementou reformas que fizeram progressos no sentido de melhorar as condi\u00e7\u00f5es do povo haitiano. Para isso, ele seria deposto duas vezes: em 1991 e, pela segunda vez, sob a bandeira das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 2004, quando a For\u00e7a-Tarefa 2 do Canad\u00e1 assumiu o controle do Aeroporto Internacional Toussaint Louverture enquanto os fuzileiros navais dos EUA sequestraram Aristide e o levaram para a Rep\u00fablica Central Africana. Al\u00e9m disso, os l\u00edderes norte-americanos e os seus esten\u00f3grafos procuraram criar motiva\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias para as suas a\u00e7\u00f5es. Mas um telegrama da WikiLeaks, publicado em 2008, revelou a verdadeira motiva\u00e7\u00e3o do intervencionismo dos EUA no Haiti: impedir que \u201cfor\u00e7as pol\u00edticas populistas ressurgentes e que s\u00e3o contra a economia de mercado\u201d se estabelecessem.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Na sequ\u00eancia desse golpe, as institui\u00e7\u00f5es do Estado haitiano foram sistematicamente desmanteladas. ONGs com financiamento estrangeiro tomaram o seu lugar, a certa altura fornecendo 80% de todos os servi\u00e7os p\u00fablicos, ao mesmo tempo que sustentavam e lucravam com a mis\u00e9ria que prometiam enfrentar.<\/p>\n<p>Em 2009, o parlamento haitiano procurou aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo para 5 d\u00f3lares (o equivalente a 25 reais) por dia. Os EUA intervieram em nome dos interesses de empresas como Fruit of the Loom, Hanes e Levi\u2019s, bloqueando a respetiva lei. O aumento salarial, disse um funcion\u00e1rio da Embaixada dos EUA, era uma medida n\u00e3o realista destinada a apaziguar \u201cas massas desempregadas e mal pagas\u201d.<\/p>\n<p>O Haiti est\u00e1 sem presidente desde Julho de 2021, quando Jovenel Mo\u00efse foi assassinado, alegadamente por um grupo de mercen\u00e1rios colombianos. Foi ent\u00e3o empossado Ariel Henry como primeiro-ministro a mando dos EUA. Desde ent\u00e3o, ele n\u00e3o conseguiu realizar elei\u00e7\u00f5es, restaurar a ordem ou fornecer servi\u00e7os b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Para apoiar este governo impopular e ileg\u00edtimo, os EUA procuraram criar e financiar &#8212; mas n\u00e3o liderar formalmente &#8212; uma for\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o estrangeira. O Qu\u00eania foi o pa\u00eds selecionado\u2014e o seu presidente, William Ruto, concordou em comandar a for\u00e7a militar.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A inseguran\u00e7a nas ruas de Porto Pr\u00edncipe se tornou a desculpa perfeita para Henry, Ruto e Biden. Mas os gangues de rua n\u00e3o surgem do nada. Eles s\u00e3o em grande parte compostos por antigos e alguns atuais policiais e militares. Alguns trabalham para setores das elites pol\u00edticas e empresariais do Haiti. As suas armas v\u00eam inteiramente do exterior, particularmente dos EUA e da vizinha Rep\u00fablica Dominicana. Os EUA\u2014surpreendentemente, j\u00e1 que se trata de um pa\u00eds que alega uma preocupa\u00e7\u00e3o altru\u00edsta com a seguran\u00e7a do Haiti\u2014continuam a rejeitar as reivindica\u00e7\u00f5es de um embargo de armas.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Henry foi finalmente for\u00e7ado a deixar um cargo que ocupava sem qualquer mandato democr\u00e1tico. Mas o plano imperialista dos EUA para o Haiti permanece: construir uma lideran\u00e7a local disposta a acolher uma nova interven\u00e7\u00e3o estrangeira. A participa\u00e7\u00e3o queniana nessa for\u00e7a foi adiada por acontecimentos recentes, mas a vontade mant\u00e9m-se firme e forte.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos ainda pretendem enviar africanos para massacrar afrodescendentes a 12 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia\u2014por um pequeno pre\u00e7o a ser pago ao Presidente queniano. O Supremo Tribunal do Qu\u00eania j\u00e1 declarou inconstitucional essa interven\u00e7\u00e3o, mas o seu governo est\u00e1 determinado a levar por diante a agenda.<\/p>\n<p>O envio de for\u00e7as policiais quenianas para esta miss\u00e3o no Haiti, seria uma afronta ao esp\u00edrito do pan-africanismo. Esse envio reflete tamb\u00e9m a confian\u00e7a dos Estados Unidos em estados seus clientes e vassalos, dispostos a cumprirem as suas ordens, e amea\u00e7a agravar as j\u00e1 devastadoras condi\u00e7\u00f5es de vida enfrentadas por milh\u00f5es de haitianos.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que pode parar este ciclo de interven\u00e7\u00e3o negligente e violento, ser\u00e1 um movimento internacional massivo, combinando for\u00e7as pol\u00edticas, desde as de bases at\u00e9 \u00e0s globais.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Tal como em Cuba, que vem sendo sufocada por ousar tra\u00e7ar o seu pr\u00f3prio destino, e tal como na Palestina, onde as bombas, as balas e a fome procuram destruir a esperan\u00e7a do povo palestino em se autodeterminar, o Haiti representa um terreno-chave na guerra do imperialismo contra a humanidade. Cada derrota \u00e9 tamb\u00e9m a nossa. \u00c9 por isso que a Internacional Progressista est\u00e1 comprometida com a soberania e a liberta\u00e7\u00e3o total do Haiti.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/click.actionnetwork.org\/ss\/c\/u001.qUXRBnqZ7T8nxbpAcIVwoURyDjCpb4b-E75oUG1HWLV7qVa_JLpTzBAXSOwS0xU4wDYnCZrwdek5TBE0aGJAVBh0B_ebjWu8uW5bZhG38klcaetAeNUbss4PSTPUSLgdaK_rlodVQ2DK6jheHZNlhPl7lMxlIkv65I42YKuwbCRwjJMSortOAfhcFM76fGVNf0gx_c_QnLkWNeStJOEkNzgUUvaJApFQlCw7eJzbksrIDzinKb9SkWg1EnR2MeQ2iPWXKuvV2tF3icu2dQ9zVF5HMpPFABHielcif8h38DC5kCcLmzKv-THhgdIJU-k-hy0kMbd7_1TiHTxLqSAA44VW5aY95eEMNmuOUdgmlxM6lXaGCTHU9t40qD0gs3gYC83pPJO_IYTg-2n-oVsu1srGmMFnWgLNIYtWVrrdmJ7aSCg77OhMLs3-ZywR14-BtZmrdBNWGDrSwlbouXL6cg\/44r\/E5UhLKEFSbmInPQe81MBKg\/h2\/h001.d3Pz-murfVhc2BRQkLC4uxcA5gkPQP3LjczO3F0Gmss\">Junte-se<\/a> a n\u00f3s na oposi\u00e7\u00e3o a mais uma interven\u00e7\u00e3o estrangeira.<br \/>\nAs ondas da liberdade que chegam ao Haiti, n\u00e3o poder\u00e3o ser retidas para sempre.<\/p>\n<p>Solidariamente,<\/p>\n<p><strong>O Secretariado da <a href=\"https:\/\/progressive.international\/\">Internacional Progressista<\/a><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea pode ter visto o Haiti nos notici\u00e1rios. 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