{"id":1773379,"date":"2023-10-13T11:28:15","date_gmt":"2023-10-13T10:28:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1773379"},"modified":"2023-10-13T11:28:15","modified_gmt":"2023-10-13T10:28:15","slug":"carlos-fino-em-entrevista-exclusiva-a-pressenza-2-2-a-guerra-na-ucrania-e-uma-nova-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/10\/carlos-fino-em-entrevista-exclusiva-a-pressenza-2-2-a-guerra-na-ucrania-e-uma-nova-ordem-mundial\/","title":{"rendered":"Carlos Fino em entrevista exclusiva \u00e0 PRESSENZA (2\/2): A guerra na Ucr\u00e2nia e uma nova ordem mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Fino<\/strong>\u00a0(*) entrevistado para a<strong>\u00a0PRESSENZA\u00a0<\/strong>por\u00a0<strong>Vasco Esteves<\/strong><\/p>\n<p>Carlos Fino nasceu em Portugal e foi durante 4 d\u00e9cadas rep\u00f3rter de r\u00e1dio e televis\u00e3o, correspondente de guerra, apresentador de servi\u00e7os noticiosos, conselheiro de imprensa. Esteve no Leste da Europa, no M\u00e9dio Oriente e no Brasil. Trabalhou sediado em Lisboa, Moscovo, Bruxelas, Washington e Bras\u00edlia. \u00c9 porventura o mais conhecido rep\u00f3rter portugu\u00eas em todo o mundo. Foi um jornalista premiado, escreveu livros e doutorou-se em Ci\u00eancias de Comunica\u00e7\u00e3o. Em 2022, regressou a Portugal para \u2013 como ele pr\u00f3prio diz \u2013 \u201cn\u00e3o estar mais na boca de cena da pol\u00edtica internacional e do jornalismo e levar uma vida mais tranquila\u201d com a sua mulher, procurando viver, \u00e0 boa maneira dos antigos, a sua \u201caurea mediocritas\u201d.<\/p>\n<p>Logo \u00e0 chegada a Portugal em 2022, no entanto, eclodiu a guerra da Ucr\u00e2nia, cujo desenrolar o choca profundamente. Manteve-se relutante em intervir, mas agora decidiu abrir uma exce\u00e7\u00e3o e dar esta entrevista exclusiva \u00e0 PRESSENZA sobre as suas experi\u00eancias no Leste da Europa e as poss\u00edveis ila\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas que esse saber, de experi\u00eancia feito, permitir\u00e1 fazer.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/10\/carlos-fino-em-grande-entrevista-exclusiva-a-pressenza-1-2-moscovo-e-o-desmoronamento-da-urss-e-da-jugoslavia\/\">Na primeira parte da entrevista, publicada h\u00e1 poucos dias, abordaram-se as experi\u00eancias de Carlos Fino em Moscovo e durante o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o desmembramento for\u00e7ado da Jugosl\u00e1via<\/a>.<br \/>\nNesta segunda parte, ele fala sobre a atual guerra na Ucr\u00e2nia, a Europa de Leste em geral, assim como sobre a desglobaliza\u00e7\u00e3o em curso e a nova ordem mundial emergente.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A atual guerra na Ucr\u00e2nia<\/strong><\/h3>\n<p><em>Pressenza:<\/em><\/p>\n<p><em>Falemos agora da atual guerra na Ucr\u00e2nia. Carlos, onde estava e qual foi a sua primeira rea\u00e7\u00e3o quando soube que as tropas russas tinham invadido a Ucr\u00e2nia no ano passado, em Fevereiro de 2022?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Carlos Fino:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Estava a regressar a Portugal vindo do Brasil. Eu vinha com a determina\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar mais na \u201cboca de cena\u201d da pol\u00edtica internacional e de levar uma vida mais tranquila. Nesse aspeto, esta entrevista \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o. Toda a minha vida foi \u201cgasta\u201d e dedicada \u00e0 pol\u00edtica internacional e ao jornalismo e eu queria afastar-me um pouco disso e fazer aquilo que os antigos chamavam de \u201caurea mediocritas\u201d, que \u00e9 estar aqui a desfrutar das coisas boas da vida, longe da grande cena. Mas fiquei chocado com o pr\u00f3prio desenrolar dos acontecimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Embora, em boa verdade, o desencadear das hostilidades fosse cada vez mais expet\u00e1vel, pois a Ucr\u00e2nia est\u00e1 situada precisamente na fronteira de duas grandes placas tect\u00f3nicas em termos geopol\u00edticos: o Ocidente e a R\u00fassia. Ela encontra-se, portanto, numa situa\u00e7\u00e3o muito delicada, que exigiria pol\u00edticos com grande conhecimento e capacidade para evitar que se chegasse a este ponto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">No entanto, dado o que se vinha passando desde 2014, primeiro com o afastamento pela for\u00e7a do presidente ucraniano que tinha sido eleito em escrut\u00ednio validado pela <a href=\"https:\/\/www.osce.org\/es\/\">OSCE<\/a>, e depois a cria\u00e7\u00e3o dum regime abertamente anti-russo em Kiev e que fazia ataques militares contra o Donbass (que n\u00e3o se queria sujeitar a essa mudan\u00e7a de 2014), uma situa\u00e7\u00e3o que se prolongou por 8 anos, com milhares de v\u00edtimas, era portanto cada vez mais expet\u00e1vel, e at\u00e9 inevit\u00e1vel, que a certa altura a R\u00fassia interviesse \u2013 como o veio a fazer.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>A guerra da Ucr\u00e2nia podia ter sido evitada pelo Ocidente?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Podia, claro, seria muito simples: bastava n\u00e3o fazer finca-p\u00e9 da entrada da Ucr\u00e2nia na OTAN, ou de ir postergando isso e de garantir o estatuto de neutralidade ao pa\u00eds. N\u00e3o tem nada do outro mundo: a \u00c1ustria manteve-se neutral desde o fim da 2\u00aa Guerra Mundial, s\u00f3 lucrou com isso. E, por outro lado, do ponto de vista interno, <strong>Kiev podia muito bem reconhecer a autonomia de Donbass, como Portugal reconhece a autonomia dos A\u00e7ores ou como a Espanha reconhece a autonomia da Catalunha. Isso teria evitado a guerra.<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Portanto, n\u00e3o acha que na Ucr\u00e2nia o Ocidente esteja a defender a democracia contra as ditaduras &#8212; ou pelo menos contra uma ditadura &#8211;, mas sim a defender os seus pr\u00f3prios interesses econ\u00f3micos, estrat\u00e9gicos, geopol\u00edticos\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">\u2026 sim, geopol\u00edticos, pelo menos como eles s\u00e3o entendidos pelas atuais dire\u00e7\u00f5es ocidentais. Mas n\u00f3s podemos imaginar uma outra orienta\u00e7\u00e3o, uma orienta\u00e7\u00e3o de reconhecer a legitimidade das preocupa\u00e7\u00f5es russas com a seguran\u00e7a. N\u00e3o vejo porque isso n\u00e3o poderia ter sido feito. A R\u00fassia tem obviamente preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a que podem ser atendidas e que at\u00e9 certo ponto s\u00e3o leg\u00edtimas e podem ser pelo menos objeto de negocia\u00e7\u00e3o. Mas agora, pelos vistos, a corrente neo-con[servadora] que domina em Washington entendeu que n\u00e3o, que esta guerra \u00e9 a maneira de enfraquecer ainda mais a R\u00fassia; por isso a guerra se tornou praticamente inevit\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000080;\">Defender a democracia, mas qual democracia? O atual regime de Kiev proibiu pelo menos 11 partidos ucranianos, quis impor o uso da l\u00edngua ucraniana mesmo em regi\u00f5es que s\u00e3o russ\u00f3fonas, proibiu canais de televis\u00e3o: os padr\u00f5es democr\u00e1ticos do regime ucraniano est\u00e3o longe da normalidade democr\u00e1tica europeia.<\/span><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Ent\u00e3o esta guerra \u00e9, do lado ucraniano, uma \u201cguerra por procura\u00e7\u00e3o\u201d dos EUA contra a R\u00fassia, e que a Ucr\u00e2nia est\u00e1 de certa forma a ser sacrificada para objetivos que n\u00e3o s\u00e3o os seus\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">\u2026\u00e9 o que parece. No limite, esta \u00e9 uma guerra entre primos pela disputa da heran\u00e7a sovi\u00e9tica. Isto podia ter sido limitado a um conflito regional, e n\u00e3o ter sido transformado num conflito de princ\u00edpios de alcance mundial, que at\u00e9 pode levar \u00e0 3\u00aa Guerra Mundial e a uma cat\u00e1strofe nuclear. Isso n\u00e3o teria de ser necessariamente assim. Ali h\u00e1 outras coisas por detr\u00e1s. Dizer que se trata duma guerra da democracia contra a ditadura, \u00e9 um \u201ctour de force\u201d para efeitos de propaganda. A mim, sinceramente, de tudo o que leio, parece-me que o regime ucraniano n\u00e3o \u00e9 nem mais democr\u00e1tico nem menos corrupto que o regime russo.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Ent\u00e3o esta \u00e9 uma guerra que foi provocada at\u00e9 certo ponto pelo Ocidente e pela OTAN?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Pois, digamos que ela foi provocada sobretudo com a mudan\u00e7a de regime em Kiev, em 2014. No fundo, esta \u00e9 uma guerra civil, ou era-o at\u00e9 se transformar num conflito com a R\u00fassia, e potencialmente num conflito de ordem mundial. Mas, ao princ\u00edpio, era uma guerra interna dum pa\u00eds: havia uma parte do pa\u00eds que n\u00e3o se queria submeter \u00e0 outra parte. Portanto, como disse, uma luta de primos pela disputa da heran\u00e7a sovi\u00e9tica, com a agravante de que, da parte russa, h\u00e1 o argumento hist\u00f3rico: porque o Donbass foi russo desde o s\u00e9culo XVIII, pois praticamente todas as grandes cidades do Donbass foram fundadas pelos russos pelo menos desde o s\u00e9culo XVII, e falam russo, a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 russ\u00f3fona.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Imagine que Portugal, no final da sua fase imperial, perdia o Algarve, e o Algarve teria sido integrado na Espanha: a Espanha, em vez de aceitar a autonomia l\u00f3gica do Algarve, passava a impor a l\u00edngua espanhola no Algarve, proibia os canais em l\u00edngua portuguesa no Algarve e mandava ex\u00e9rcitos atacar os algarvios. Como iriam reagir os algarvios, e como iria reagir Lisboa numa situa\u00e7\u00e3o destas?<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Um outro territ\u00f3rio que tamb\u00e9m sempre quis ter uma certa autonomia, mas que isso nunca foi respeitado pela Ucr\u00e2nia, \u00e9 o da Crimeia. H\u00e1 poucos dias li que, quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica se desmembrou, em 1991, a Crimeia se tornou independente ainda antes da pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia. Foi a Ucr\u00e2nia que, quando uns meses mais tarde tamb\u00e9m se tornou independente, tentou integrar a Crimeia no seu seio. Esta entrou, depois saiu, voltou a entrar e de novo a sair porque, sempre que estava dentro da Ucr\u00e2nia, nunca conseguiu ver respeitada a sua autonomia pr\u00f3pria como lhe haviam prometido\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">H\u00e1 um contexto hist\u00f3rico tamb\u00e9m, h\u00e1 uma disputa secular com a R\u00fassia e a influ\u00eancia russa no Mar Negro. Basta recordar que, no s\u00e9culo XIX, houve duas guerras na Crimeia, com a interven\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a e da Inglaterra, assim como da Turquia contra a R\u00fassia pela disputa de influ\u00eancia naquela zona. O Mar de Azov tamb\u00e9m foi conquistado pelos russos no tempo de Pedro o Grande. A influ\u00eancia russa na zona veio e foi, e veio e foi, mas ela manteve-se predominantemente russa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Tamb\u00e9m \u00e9 um fator que se tem de ter em conta quando se analisa o problema: h\u00e1 uma disputa hist\u00f3rica entre as grandes pot\u00eancias por estarem presentes e controlar o Mar Negro que, para os russos, \u00e9 o \u00fanico acesso que t\u00eam para o Mediterr\u00e2neo. Os russos sempre foram predominantes naquela zona. O que est\u00e1 por detr\u00e1s da atual guerra da Ucr\u00e2nia, tem tamb\u00e9m a ver com esses interesses estrat\u00e9gicos de alguns pa\u00edses ocidentais e dos EUA em controlar militarmente o Mar Negro: se a Ucr\u00e2nia entrasse na OTAN, os russos deixariam de ter acesso livre ao Mar Negro, por exemplo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Todos estes problemas poderiam, entretanto, a meu ver, ter sido resolvidos, duma forma muito simples: se tivesse sido reconhecida a neutralidade da Ucr\u00e2nia. Eu pessoalmente tenho muita pena, tenho v\u00e1rios amigos ucranianos, o pa\u00eds \u00e9 uma regi\u00e3o muito bonita, sobretudo a sul e no ocidente, mas ali h\u00e1 uma fragmenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: o Ocidente tem influ\u00eancia sobretudo na parte ocidental, que tradicionalmente est\u00e1 mais ligada \u00e0 Pol\u00f3nia e \u00e0 Alemanha, enquanto no sul do pa\u00eds (pelo menos desde os s\u00e9culos XVII-XVIII) dominam a l\u00edngua e as tradi\u00e7\u00f5es russas. Nestas circunst\u00e2ncias dum pa\u00eds t\u00e3o fragmentado do ponto de vista cultural, e at\u00e9 lingu\u00edstico, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel era manter a neutralidade.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Nesse aspeto, acho que os ucranianos perderam uma oportunidade hist\u00f3rica.<\/strong> Repare: a Ucr\u00e2nia nunca teve um territ\u00f3rio t\u00e3o grande como hoje, pois o seu territ\u00f3rio foi sempre disputado pelos imp\u00e9rios \u00e0 volta, ou pelo imp\u00e9rio polaco-lituano, ou pelo imp\u00e9rio russo, ou pelo imp\u00e9rio turco. Uma parte do atual territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia tinha sido russa e foi-lhe atribu\u00edda por Lenine; mais tarde, no termo da Segunda Guerra Mundial, Stalin fez quest\u00e3o de que a parte ocidental (a zona de Lviv, que antigamente pertencia \u00e0 Pol\u00f3nia) ficasse tamb\u00e9m integrada na Ucr\u00e2nia; depois, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nikita_Khrushchov\">Khrushchov<\/a> entregou a administra\u00e7\u00e3o da Crimeia a Kiev. <strong>Portanto, por v\u00e1rias circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas diferentes, a Ucr\u00e2nia chegou ao fim do s\u00e9culo XX, depois do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com um territ\u00f3rio imenso, sendo at\u00e9 o maior pa\u00eds da Europa. Se Kiev prosseguisse uma pol\u00edtica mais democr\u00e1tica e neutral, tinha a oportunidade hist\u00f3rica de se consolidar como um grande Estado europeu, oportunidade essa que, agora, desapareceu! <\/strong>A n\u00e3o ser que haja um colapso militar da R\u00fassia, a Ucr\u00e2nia j\u00e1 perdeu o Donbass e a Crimeia. E, se perder a guerra, arrisca-se tamb\u00e9m a perder a parte ocidental do pa\u00eds, pois os polacos acham que ela pertence historicamente \u00e0 Pol\u00f3nia. Portanto acho que foi um erro hist\u00f3rico do novo regime ucraniano que saiu da chamada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o do Maidan\u201d ter optado pelo confronto em vez de ter optado pela concilia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>S\u00f3 mais duas perguntas curtas sobre a Ucr\u00e2nia. A primeira: quem acha que destruiu os pipelines de g\u00e1s do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nord_Stream\">Nord Stream<\/a>, e com que inten\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Recomendo que voc\u00ea fale com o <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/02\/foram-os-eua-que-rebentaram-os-gasodutos-da-nord-stream\/\">Seymour Hersh<\/a> \u2026<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u2026 esse jornalista investigativo norte-americano disse que foi a CIA\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Acho que n\u00e3o precisamos de ir \u00e0 bruxa ou de nos perdermos em adivinha\u00e7\u00f5es: isso mesmo foi prometido pelo presidente norte-americano Biden em confer\u00eancia de imprensa, onde ele disse que os EUA encontrariam maneiras de os destruir se os russos interviessem\u2026<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Mas isso significa ent\u00e3o um ato de guerra militar contra a Alemanha e a R\u00fassia!<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">A Alemanha parece n\u00e3o ter feito muito para investigar quem \u00e9 que o fez.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Os alem\u00e3es j\u00e1 investigaram algo, mas fazem segredo completo sobre as suas conclus\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Sim, mas \u201cquem cala, consente\u201d, n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>E a outra pergunta curta \u00e9: como acha que vai terminar esta guerra? Que papel poder\u00e3o assumir a Ucr\u00e2nia e a R\u00fassia num p\u00f3s-guerra?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">As previs\u00f5es, normalmente, n\u00e3o saem certas. \u201cExpect the unexpectable\u201d. Como disse algu\u00e9m, ou \u201co mais prov\u00e1vel \u00e9 o que ningu\u00e9m previu\u201d! Enfim, podem acontecer v\u00e1rias coisas. Os russos, para j\u00e1, limitam-se a conter os ataques ucranianos e a dizimar o maior n\u00famero poss\u00edvel de soldados e de material b\u00e9lico ocidental na Ucr\u00e2nia. At\u00e9 que ponto os russos manter\u00e3o essa t\u00e1tica, ou se est\u00e3o \u00e0 espera do momento que achem apropriado para fazerem alguma contraofensiva, e at\u00e9 que ponto poder\u00e1 chegar essa eventual contraofensiva? <strong>Penso que os russos n\u00e3o est\u00e3o interessados em ocupar toda a Ucr\u00e2nia, mas que manter\u00e3o o controle sobre o Donbass e a Crimeia. Ser\u00e1 muito dif\u00edcil p\u00f4-los fora dessas duas regi\u00f5es.<\/strong> O que restar\u00e1 do Estado ucraniano depois da guerra? At\u00e9 que ponto conseguir\u00e1 este regime manter o elevad\u00edssimo n\u00famero de perdas humanas e de destrui\u00e7\u00e3o de infraestruturas? At\u00e9 que ponto a popula\u00e7\u00e3o ir\u00e1 aguentar isto sem haver alguma mudan\u00e7a de pol\u00edtica em Kiev? At\u00e9 que ponto os apoios ocidentais ir\u00e3o continuar? O que ir\u00e1 acontecer ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es norte-americanas em 2024? Muitas perguntas, muitas d\u00favidas, poucas respostas, nenhuma certeza. Em qualquer caso, n\u00e3o me parece vi\u00e1vel voltarmos ao \u201cstatus-quo\u201d anterior \u00e0 guerra.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Acha que, se o Trump ganhar as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica do Norte, a guerra da Ucr\u00e2nia ir\u00e1 terminar rapidamente?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Primeiro \u00e9 preciso saber se ele se consegue recandidatar. E, se o conseguir, se ganhar\u00e1. Isso \u00e9 uma inc\u00f3gnita. E o pr\u00f3prio Trump \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Embora seja verdade que, no per\u00edodo dele, n\u00e3o come\u00e7ou nenhuma guerra\u2026<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u2026ele n\u00e3o come\u00e7ou nenhuma guerra nova, mas continuou outras, por exemplo a interven\u00e7\u00e3o militar na S\u00edria. E come\u00e7ou uma guerra comercial contra a China. Enfim, meteu-se noutras guerras\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Isso depende dos interesses estrat\u00e9gicos norte-americanos, que podem estar agora mais interessados em se virar para o confronto com a China. O impasse ucraniano est\u00e1 cada vez mais caro\u2026<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_1773394\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1773394\" class=\" wp-image-1773394\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-do-Livro-de-CF-205x300.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"589\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-do-Livro-de-CF-205x300.jpg 205w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Capa-do-Livro-de-CF.jpg 593w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><p id=\"caption-attachment-1773394\" class=\"wp-caption-text\">Capa dum livro de Carlos Fino<\/p><\/div>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A Europa de leste<\/strong><\/h3>\n<p><em>Gostaria de fazer algumas perguntas sobre o Leste europeu em geral. Que outros pa\u00edses do Leste europeu cobriu com as suas reportagens?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Estive em praticamente todos os pa\u00edses da antiga \u201ccortina de ferro\u201d; em momentos cr\u00edticos e\/ou de transi\u00e7\u00e3o: Rom\u00e9nia, Checoslov\u00e1quia, Pol\u00f3nia, RDA, Hungria, Jugosl\u00e1via, Bulg\u00e1ria, Mold\u00e1via, Litu\u00e2nia, Est\u00f3nia, Let\u00f3nia, mas tamb\u00e9m Alb\u00e2nia, Ge\u00f3rgia, Ucr\u00e2nia, Arm\u00e9nia, Azerbaij\u00e3o, Nagorno-Karabahk, Chech\u00e9nia e ainda Afeganist\u00e3o (ap\u00f3s os ataques \u00e0s torres g\u00e9meas). E estive na ex-Jugosl\u00e1via mais de uma vez, mas n\u00e3o durante a guerra &#8211; j\u00e1 estava ent\u00e3o como correspondente da RTP em Washington (1998-2000).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em><span style=\"color: #000000;\">Quais foram os momentos ou as experi\u00eancias mais empolgantes que o Carlos viveu nesse per\u00edodo?<\/span><\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Mais impactantes para mim, pessoalmente e em termos positivos, foram certamente o Movimento Solidariedade na Pol\u00f3nia e a Revolu\u00e7\u00e3o de Veludo na Checoslov\u00e1quia.<\/strong> Lamento muito n\u00e3o ter estado na queda do Muro de Berlim, na altura eu estava de viagem para Moscovo e a RTP decidiu mandar outro jornalista para Berlim. Gostaria muito de ter podido partilhar esses momentos de alegria e de liberta\u00e7\u00e3o. Mas o Movimento Solidariedade na Pol\u00f3nia, com grande influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica e do Papa polaco da altura [o Papa Jo\u00e3o Paulo II],\u00a0o Wojty\u0142a, e depois tamb\u00e9m as mudan\u00e7as ocorridas na Checoslov\u00e1quia, foram os momentos que mais me ficaram marcados na mem\u00f3ria.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>O caso da Checoslov\u00e1quia, ali\u00e1s, \u00e9 absolutamente exemplar de como um pa\u00eds se pode dividir em dois a bem, sem guerras nem conflitos: na Ch\u00e9quia e na Eslov\u00e1quia.<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Pois, isso tamb\u00e9m podia ter acontecido na Ucr\u00e2nia. Mas nem era necess\u00e1rio chegar a isso, pois o Donbass de in\u00edcio fazia parte da Ucr\u00e2nia e n\u00e3o era necess\u00e1rio separar- se dela. Mas o caso mais sombrio talvez seja sido o da Rom\u00e9nia e das d\u00favidas como tudo aquilo teria sido orquestrado. Estou a falar da queda de <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nicolae_Ceau\u0219escu\">Ceau\u0219escu<\/a>, da liquida\u00e7\u00e3o dele e da sua mulher. Eu estava na Rom\u00e9nia nesse momento.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Quando o muro de Berlim caiu, fic\u00e1mos todos muito contentes. Mas na Alemanha t\u00ednhamos a consci\u00eancia de que aquilo era apenas o princ\u00edpio de grandes mudan\u00e7as que iriam acontecer em todo o Leste da Europa, que n\u00e3o se tratava, pois, de um fen\u00f3meno apenas local\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\"><strong>O Gorbatchov tirou o tapete ao Honecker<\/strong> [presidente da RDA, ou Alemanha Oriental at\u00e9 1989]! E, por um punhado de marcos, negociou com Kohl [chanceler da Alemanha Federal nos anos 80 e 90] a sa\u00edda das tropas sovi\u00e9ticas da Alemanha Oriental, <strong>permitindo assim a <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Reunifica\u00e7\u00e3o_da_Alemanha\">Reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha<\/a>, e isso contra a promessa \u2013 nunca cumprida pelo Ocidente! \u2013 de que n\u00e3o haveria expans\u00e3o da OTAN para o Leste da Europa.<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Mais tarde, o Gorbatchov fez uma \u00fanica exce\u00e7\u00e3o: autorizou a expans\u00e3o da OTAN s\u00f3 para o territ\u00f3rio de toda a Alemanha reunificada, desde que, na parte oriental da mesma, n\u00e3o se estacionassem armas at\u00f3micas\u2026<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Mas falemos agora das implica\u00e7\u00f5es geoestrat\u00e9gicas \u2013 demogr\u00e1ficas, econ\u00f3micas \u2013 desta abertura a leste, isto \u00e9, do fim da chamada \u201ccortina de ferro\u201d. Apercebemo-nos rapidamente de que, com o desmembramento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, se iria dar in\u00edcio a um grande fluxo migrat\u00f3rio de m\u00e3o-de-obra de leste para oeste, de pessoas que queriam mais dinheiro ou melhores condi\u00e7\u00f5es de vida ou de trabalho; e, ao mesmo tempo, uma migra\u00e7\u00e3o massiva de meios financeiros e econ\u00f3micos do capitalismo da Europa ocidental para a Europa de leste. A Europa de leste tinha m\u00e3o-de-obra mais barata, as firmas ocidentais compravam as f\u00e1bricas e as infraestruturas dos pa\u00edses de leste, investiam, mas tamb\u00e9m queriam o controle total sobre as mesmas.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Na Alemanha de Leste, que se assimilou e integrou a 100% na Alemanha Ocidental, esse processo de integra\u00e7\u00e3o foi mais r\u00e1pido e mais f\u00e1cil \u2013 mas tamb\u00e9m mais doloroso para as popula\u00e7\u00f5es afetadas; nos outros pa\u00edses do Leste da Europa, como tinham conservado a sua independ\u00eancia, a integra\u00e7\u00e3o capitalista foi mais lenta, mas tamb\u00e9m menos dolorosa, pois esses pa\u00edses mantiveram sempre um certo poder de decis\u00e3o e, portanto, um certo controle sobre o que se passava.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>A minha pergunta \u00e9: as pessoas que o Carlos encontrava na Europa de leste apercebiam-se que que estavam a ser objeto desses dois grandes \u201cterramotos\u201d, migrat\u00f3rio e econ\u00f3mico, ou estavam mais preocupadas com o seu dia-a-dia, com a sua sobreviv\u00eancia, ou at\u00e9 com o gozarem as novas liberdades conquistadas?<\/em><\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">O aspeto da liberdade \u00e9 muito importante. Agora que as pessoas tivessem uma no\u00e7\u00e3o dos movimentos tect\u00f3nios que iriam seguir-se, isso eu acho que n\u00e3o estava presente. O que mais as preocupava era o seu dia-a-dia e as coisas imediatas, como \u00e9 natural. S\u00f3 os pol\u00edticos \u00e9 que poderiam ter uma vis\u00e3o dos processos e das suas poss\u00edveis consequ\u00eancias. Mas, ao n\u00edvel do cidad\u00e3o comum, dava-se mais import\u00e2ncia \u00e0 liberdade de express\u00e3o, \u00e0 independ\u00eancia pol\u00edtica finalmente recuperada, \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es com o bem-estar, com o que se podia ou n\u00e3o comprar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Havia sempre um fasc\u00ednio muito grande pelo consumo, basta s\u00f3 pensarmos na velha imagem dos habitantes do Leste com a cara encostada ao vidro da montra do Ocidente\u2026 Ainda hoje existe esse fasc\u00ednio, e \u00e9 isso que movimenta alguns ciclos pol\u00edticos como por exemplo na Mold\u00e1via, na Ge\u00f3rgia, etc. Essa ideia, \u00e0s vezes exagerada, do bem-estar ocidental e da sedu\u00e7\u00e3o que ele exerce. Esse bem-estar n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o deslumbrante quanto eles pensam nalguns casos, \u00e9 quase sempre mais duro de conseguir do que parece \u00e0 primeira vista.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\"><strong>A (des)globaliza\u00e7\u00e3o em curso, uma nova ordem mundial<\/strong><\/h3>\n<p><em>\u00c9 o que est\u00e1 a acontecer agora na Alemanha de leste. Passados j\u00e1 mais de 30 anos sobre a reunifica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 muitas pessoas desiludidas com as experi\u00eancias por que passaram, porque as promessas do Ocidente n\u00e3o foram muitas vezes cumpridas.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas olhemos para o que veio 20 anos mais tarde: essa abertura ao Leste alargou-se, entretanto, a outros pa\u00edses, desta vez asi\u00e1ticos como a China ou a India. J\u00e1 estamos numa fase posterior, aonde a m\u00e3o-de-obra barata se procura agora na China ou na India, e os investimentos come\u00e7am a ir tamb\u00e9m mais para a \u00c1sia. Houve, portanto, uma n\u00edtida expans\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que &#8212; e isto \u00e9 uma coisa que me intriga deveras! &#8211;, depois do in\u00edcio da guerra da Ucr\u00e2nia, parece ter tudo voltado um bocado atr\u00e1s: a expans\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a terminar, ou pelo menos a retrair- se, nota-se uma contra\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio global, uma desglobaliza\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 uma certa necessidade de re-industrializa\u00e7\u00e3o por parte dos pa\u00edses ricos (caso dos EUA, por exemplo). Ao mesmo tempo, est\u00e3o-se a criar novos blocos e uma nova guerra- fria. Em todo o mundo se assiste a um recrudescimento dos nacionalismos, por exemplo atrav\u00e9s de boicotes contra outros pa\u00edses, de protecionismos, ou do enfraquecimento de organismos internacionais: puseram a R\u00fassia fora do G8, as Na\u00e7\u00f5es Unidas est\u00e3o a perder a sua import\u00e2ncia, a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 dividida e em parte paralisada \u2026 O que \u00e9 que se passou com a guerra da Ucr\u00e2nia, o que \u00e9 que est\u00e1 por detr\u00e1s disto tudo que explique esta grande viragem? ,<\/em><\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 que estamos, como muitos m\u00e9dia ocidentais afirmam, numa luta das democracias contra as ditaduras, ou ser\u00e1 tudo culpa do Trump que, como presidente, iniciou guerras comerciais e financeiras contra a China e a Europa? Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Bom, isso \u00e9 uma pergunta muito global, eu nunca me distingui por ser um analista de pol\u00edtica internacional, sou \u2013 fui &#8211; sobretudo um rep\u00f3rter e jornalista antes do mais. Com essa quest\u00e3o t\u00e3o vasta, voc\u00ea est\u00e1 a dar-me um cr\u00e9dito que eu n\u00e3o tenho. S\u00f3 posso repetir aqui alguns lugares-comuns, por exemplo sobre a preocupa\u00e7\u00e3o norte-americana em particular &#8212; e ocidental duma maneira geral \u2013 de que o poder da China possa representar um encurtamento, uma retra\u00e7\u00e3o do poderio e dos interesses ocidentais, e no fundo a preocupa\u00e7\u00e3o com a reparti\u00e7\u00e3o do mundo, isto \u00e9, como essa reparti\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feita daqui para a frente \u2013 e quem \u00e9 que fica a controlar o qu\u00ea. \u00c9 isso que move a pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Referiu o retrocesso da globaliza\u00e7\u00e3o e o reemergir dos sentimentos nacionalistas. Acho que isso \u00e9 l\u00f3gico, pois se constatou que a globaliza\u00e7\u00e3o responde mais aos interesses do capital financeiro internacional, sem ter em conta as tradi\u00e7\u00f5es e os interesses nacionais. \u00c9, pois, natural que haja uma conten\u00e7\u00e3o desse movimento globalista iniciado nos anos 90. E provavelmente aquilo a que <strong>vamos assistir ser\u00e1 a constitui\u00e7\u00e3o de agrupamentos que v\u00e3o p\u00f4r em quest\u00e3o a ordem internacional que resultou da 2\u00aa Guerra Mundial, incluindo as suas principais institui\u00e7\u00f5es, desde a ONU \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, ao Tribunal Penal Internacional, etc. Todas essas institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o marcadas por uma vertente muito pr\u00f3-ocidental.<\/strong> E, com o reemergir dos interesses nacionais de outras grandes pot\u00eancias como a China, a India, a Indon\u00e9sia, o Brasil, a Venezuela&#8230;\u00a0 \u00e9 natural que haja uma revis\u00e3o de toda essa ordem mundial vigente at\u00e9 agora: as quest\u00f5es do com\u00e9rcio e das leis que regem o com\u00e9rcio internacional, a pr\u00f3pria h\u00e1 muito necess\u00e1ria revis\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Portanto, muita \u00e1gua passou aqui sob as pontes desde a 2\u00aa Guerra Mundial. E com a experi\u00eancia sentida, em muitos aspetos negativa, daquilo que foi a globaliza\u00e7\u00e3o dos anos 90, assim como com o emergir de novas pot\u00eancias, \u00e9 natural que essa ordem internacional tenda a ser questionada. Vamos a ver como as coisas se comp\u00f5em \u2026 mas o que \u00e9 certo \u00e9 que as coisas est\u00e3o a mexer!<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>O que pensa do bloco dos BRICS? Ser\u00e1 que eles poder\u00e3o dar uma contribui\u00e7\u00e3o v\u00e1lida para uma nova ordem mundial mais justa?<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Isto ainda est\u00e1 em aberto, ainda est\u00e1 tudo muito no come\u00e7o. Uma coisa que n\u00e3o abord\u00e1mos ainda, \u00e9 a do papel do d\u00f3lar. Se grandes pa\u00edses como a China, a India, o Brasil, a Indon\u00e9sia, pa\u00edses demografica e territorialmente muito importantes, e tamb\u00e9m outros como a Venezuela ou a Ar\u00e1bia Saudita, que t\u00eam grandes reservas de petr\u00f3leo, puserem em causa o papel do d\u00f3lar nas trocas comerciais, \u00e9 natural que essa ordem global tamb\u00e9m seja questionada e que novas regras possam surgir. O grupo dos BRICS \u00e9 ainda mais uma promessa do que uma realidade, mas a sua tend\u00eancia \u00e9 para o seu alargamento e, eventualmente, a sua consolida\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei como ir\u00e3o os BRICS interagir com os G20, que agora ali\u00e1s s\u00e3o os G21: como ser\u00e1, de futuro, a sua interliga\u00e7\u00e3o, o que ficar\u00e1 para uns e o que ficar\u00e1 para os outros? Enfim, acho que j\u00e1 embarc\u00e1mos num conjunto de mudan\u00e7as que est\u00e3o em curso, mas cujo resultado final ainda \u00e9 uma inc\u00f3gnita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\"><strong>Mas parece que estamos a assistir, de qualquer forma, ao recuo do imp\u00e9rio norte-americano e da sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o \u2013 o que se passou (e ainda se passa) na S\u00edria \u00e9 revelador: n\u00e3o foi poss\u00edvel ao Ocidente, e em part\u00edcula aos EUA, operar a mudan\u00e7a que pretendiam fazer na S\u00edria. Essa mudan\u00e7a foi abortada. E isso \u00e9 um ind\u00edcio. A retra\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda nas trocas comerciais internacionais tamb\u00e9m \u00e9 outro ind\u00edcio de tend\u00eancias que j\u00e1 est\u00e3o em curso.<\/strong> Agora com que rapidez e com que profundidade \u00e9 que iremos assistir a essas mudan\u00e7as, \u00e9 isso o que n\u00e3o sabemos ainda, mas o movimento j\u00e1 come\u00e7ou.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>E n\u00e3o fal\u00e1mos sequer das quest\u00f5es do meio-ambiente. Estamos \u00e0 beira dum abismo, dum \u201cpoint of no return\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao aquecimento global, mas o mundo parece preocupar-se s\u00f3 com as guerras entre si, em conquistar zonas de influ\u00eancia, em formar blocos, mas n\u00e3o blocos para proteger a natureza e as pessoas, mas sim apenas os interesses dalguns pa\u00edses ou de grupos econ\u00f3micos.<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Sim, mas por outro lado tamb\u00e9m h\u00e1 a\u00ed alguma incerteza cient\u00edfica, que limita um pouco as possibilidades de mudan\u00e7as nessa \u00e1rea. \u00c0s vezes \u00e9 tido por ci\u00eancia aquilo que n\u00e3o passa de uma ideologia. Embora haja avan\u00e7os, mas ao mesmo tempo realizam-se uma s\u00e9rie de reuni\u00f5es que n\u00e3o conduzem a nada e que s\u00f3 servem para umas centenas de \u201chabitu\u00e9s\u201d se encontrarem ora aqui ora ali por todo o mundo, sem trazerem avan\u00e7os significativos.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000080;\">Tendo eu vivido como jornalista o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, estamos agora a viver a n\u00e3o-concretiza\u00e7\u00e3o das enormes esperan\u00e7as que se abriram nessa altura.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Justamente naquela altura havia a ideia de que terminava a \u201cGuerra-Fria\u201d, que terminava o confronto global entre blocos, que seria poss\u00edvel uma nova era em que os homens se entenderiam melhor para resolver as quest\u00f5es que preocupam de facto a Humanidade h\u00e1 tanto tempo como a fome, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, e tudo com menos confrontos e menos guerras, menos desperd\u00edcios. Estamos a viver um grande desencanto. Ser\u00e1 poss\u00edvel ultrapassar isso um dia? Estamos sempre entre o \u201cl\u00e1 e c\u00e1\u201d. <strong>Os homens, duma maneira geral, n\u00e3o se congregam para grandes esfor\u00e7os positivos antes duma trag\u00e9dia: primeiro a trag\u00e9dia, depois a luta contra as consequ\u00eancias. E, depois, de novo uma trag\u00e9dia: parece que h\u00e1 um destino tr\u00e1gico na nossa condi\u00e7\u00e3o humana!<\/strong><\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Conhece as posi\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Robert_F._Kennedy_Jr.\">Robert Francis Kennedy Jr.<\/a>, que \u00e9 agora um candidato \u00e0 Presid\u00eancia dos Estados Unidos em 2024? Ele diz que, se for eleito, <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/05\/rfk-jr-e-candidato-a-presidencia-dos-eua-com-uma-posicao-claramente-pacifista-e-anti-imperialista\/\">acabar\u00e1 com as guerras dos EUA e dissolver\u00e1 por dentro o imp\u00e9rio militar dos EUA, passando a investir apenas no desenvolvimento do pa\u00eds e na paz e na igualdade entre os povos<\/a>.<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Sim, com esse programa ele \u00e9 candidato a ter o destino do seu tio [John Fitzgerald Kennedy, presidente dos EUA, e do pai,<a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Robert_F._Kennedy\"> Robert Francis Kennedy<\/a>, ambos assassinados nos anos 60].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">O perigo das for\u00e7as internas, nomeadamente do complexo militar-industrial dos EUA, contra o qual <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Dwight_D._Eisenhower\">Eisenhower<\/a> alertou o mundo j\u00e1 no final do seu mandato, \u00e9 real: essas for\u00e7as s\u00e3o muito poderosas e dominantes. <strong>O chamado \u201cdeep state\u201d que controla os Estados Unidos da Am\u00e9rica, \u00e9 muito poderoso, e de facto, dadas as atuais circunst\u00e2ncias internacionais, n\u00e3o vejo de imediato nenhuma possibilidade de uma evolu\u00e7\u00e3o mais pac\u00edfica e mais consent\u00e2nea com os interesses reais da Humanidade. Para isso, teria de haver uma profunda mudan\u00e7a no interior dos pr\u00f3prios EUA.<\/strong> Quando \u00e9 que isso acontecer\u00e1, se \u00e9 que algum dia acontecer\u00e1, \u00e9 uma inc\u00f3gnita.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>A decad\u00eancia do imperialismo norte-americano a que estamos a assistir, explica por si mesma muitos dos males e das contradi\u00e7\u00f5es da atualidade\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Sobre isso, o que podemos dizer \u2013 como disse Mark Twain sobre os rumores da sua morte \u2013 \u00e9 que as not\u00edcias sobre a morte do imp\u00e9rio americano \u201cs\u00e3o um tanto exageradas\u201d!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">O imp\u00e9rio americano, a for\u00e7a e a capacidade de interven\u00e7\u00e3o que tem, a sua presen\u00e7a f\u00edsica atrav\u00e9s de centenas de bases militares espalhadas por todo o mundo, de homens, influ\u00eancias, riqueza, meios de interven\u00e7\u00e3o e \u2013 the last but not the least \u2013 em termos de redes de sat\u00e9lites e meios de influ\u00eancia medi\u00e1tica, ainda \u00e9 enorme.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Carlos, teve assim uma palavra final um bocado pessimista, mas a esperan\u00e7a ainda n\u00e3o morreu. E continuaremos a lutar por um mundo melhor, mais humano.<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">A esperan\u00e7a, como se sabe, \u00e9 a \u00faltima a morrer. <strong>O problema \u00e9 que essa nossa luta por um mundo melhor, tal como aconteceu com o comunismo, est\u00e1 \u2013 tamb\u00e9m ela, infelizmente! &#8211; manchada por enormes crimes.<\/strong> Os comunistas tamb\u00e9m vinham com essas promessas: a paz, o desenvolvimento, a fraternidade. E tamb\u00e9m ainda n\u00e3o pass\u00e1mos dos lemas gerais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa: \u201cLibert\u00e9, \u00c9galit\u00e9, Fraternit\u00e9\u201d: temos, \u00e9 verdade, pelo menos em parte, liberdade, embora hoje muito controlada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">E tamb\u00e9m n\u00e3o fal\u00e1mos dos m\u00e9dia, do poder extraordin\u00e1rio que os m\u00e9dia t\u00eam \u2013 e que ningu\u00e9m controla. Todas as tentativas de rever esse poder, desde o c\u00e9lebre <strong><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Relat\u00f3rio_MacBride\">Relat\u00f3rio McBride da UNESCO<\/a> <\/strong>nos anos 80, patrocinado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, ainda n\u00e3o houve quaisquer mudan\u00e7as nessa \u00e1rea, e o poder dos m\u00e9dia tem-se tornado cada vez mais forte. Depois desse relat\u00f3rio, os EUA sa\u00edram da UNESCO, fizeram um boicote total, e tudo \u201cficou em \u00e1guas de bacalhau\u201d at\u00e9 hoje! <strong>Nesse relat\u00f3rio j\u00e1 era denunciado o poder extraordin\u00e1rio de meia-d\u00fazia de Ag\u00eancias de Not\u00edcias que controlam toda a Informa\u00e7\u00e3o. E quem controla a informa\u00e7\u00e3o, controla o mundo.<\/strong> <strong>E essas Ag\u00eancias s\u00e3o sempre as mesmas, algumas j\u00e1 v\u00eam do s\u00e9culo XVIII ou XIX: a Reuters, a France Press, etc. E os jornais, as grandes redes de r\u00e1dio e televis\u00e3o, algumas globais, controlados por um punhado de grandes magnatas.<\/strong> S\u00e3o eles que \u201cfazem a chuva e o bom tempo\u201d, como costumam dizer os franceses. S\u00e3o eles que d\u00e3o sempre a nota do que se est\u00e1 a discutir, do que \u00e9 que interessa falar. O jornalismo n\u00e3o faz esse trabalho hoje em dia, apesar de ter os meios pr\u00f3prios para o fazer: quem \u00e9 que nas reda\u00e7\u00f5es contraria a agenda que j\u00e1 vem marcada pelas grandes ag\u00eancias? Quem \u00e9 que faz o esfor\u00e7o de ir \u00e0 procura doutros temas? Tudo isso seria tecnicamente poss\u00edvel, mas s\u00e3o raros os que fazem esse esfor\u00e7o, ou s\u00e3o esfor\u00e7os muito ocasionais, n\u00e3o se faz um trabalho sistem\u00e1tico. O relat\u00f3rio McBride j\u00e1 questionava essas ag\u00eancias nos anos 80, que s\u00e3o as mesmas de sempre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">E a esquerda tamb\u00e9m est\u00e1 marcada pelo crime, esse \u00e9 que \u00e9 o problema: O <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gulag\">Gulag<\/a>, o assassinato do <a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Leon_Tr\u00f3tski\">Tr\u00f3tski<\/a>, etc.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00c9 o que se passa na Alemanha: ela veio diretamente do nazismo de Hitler para um comunismo de tipo sovi\u00e9tico (no caso da Alemanha de Leste, antigamente chamada Rep\u00fablica Democr\u00e1tica da Alemanha), portanto para uma nova ditadura. Por isso eles agora est\u00e3o \u201cqueimados\u201d, quer \u00e0 direita quer \u00e0 esquerda, e n\u00e3o sabem para onde dever\u00e3o ir.<\/em><\/p>\n<blockquote><p><strong><span style=\"color: #000080;\">E onde est\u00e1 hoje o Movimento pela Paz que acabou com a guerra do Vietname? Onde est\u00e1 ele hoje para acabar com a guerra da Ucr\u00e2nia? Ningu\u00e9m levanta a bandeira da Paz!<\/span><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Na Alemanha, o Movimento pela Paz estava nos anos 1960-80 associado sobretudo \u00e0 revolta da juventude e \u00e0queles que hoje fazem parte do Partido dos Verdes, que tamb\u00e9m era contra a energia at\u00f3mica e as armas nucleares\u2026<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">\u2026 e que, agora, \u00e9 dirigido por essa rapariga Ministra dos Neg\u00f3cios Estrangeiros da Alemanha [Annalena Baerbock ], uma pessoa por demais belicosa \u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080;\">Sim, agora os dirigentes do partido dos Verdes na Alemanha s\u00e3o maioritariamente a favor de se fornecerem armas cada vez mais letais \u00e0 Ucr\u00e2nia para combater a R\u00fassia. J\u00e1 n\u00e3o t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o pacifista, nem mesmo sequer de exigir negocia\u00e7\u00f5es! Ou de pelo menos se manterem neutrais e de fazerem press\u00e3o sobre os grupos em conflito do tipo \u201cparem l\u00e1 com isso!\u201d<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><em>Muito obrigado, Carlos, por esta entrevista!<\/em><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"color: #000080;\">Eu \u00e9 que agrade\u00e7o a lembran\u00e7a e o interesse.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<p>(*)\u00a0<strong>Carlos Fino<\/strong><\/p>\n<p>1948: Nasce em Lisboa, mas vive e cresce no Alto-Alentejo (Portugal).<\/p>\n<p>1967: Estuda Direito em Lisboa, \u00e9 dirigente estudantil e membro do PCP na clandestinidade, sendo como tal perseguido pela PIDE, pol\u00edcia pol\u00edtica do fascismo.<\/p>\n<p>1971: Atravessa a fronteira \u201ca salto\u201d (ilegalmente) rumo a Paris, seguindo da\u00ed para Bruxelas, onde obt\u00e9m o estatuto de refugiado das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>1973: Segue para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde trabalha como locutor da R\u00e1dio Moscovo para Portugal e a \u00c1frica de express\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>1974: No fim deste ano, e a seguir \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, regressa a Portugal e colabora com v\u00e1rios jornais e a antiga Emissora Nacional (EN).<\/p>\n<p>1975: Em finais deste ano, regressa a Moscovo, mas desta feita como correspondente internacional da EN e, mais tarde, da R\u00e1dio Televis\u00e3o Portuguesa (RTP).<\/p>\n<p>1982-1989: Trabalha na RTP em Lisboa como rep\u00f3rter, apresentador e comentador.<\/p>\n<p>1989-1995: De novo em Moscovo, cobre como jornalista o desmembramento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a democratiza\u00e7\u00e3o do Leste da Europa: R\u00fassia, Rom\u00e9nia, Bulg\u00e1ria, Checoslov\u00e1quia, RDA, Pol\u00f3nia e Hungria, assim como os conflitos na Abkh\u00e1sia, Ge\u00f3rgia, Nagorno-Karabakh, Mold\u00e1via, Chech\u00eania e Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>1995- 1998: Correspondente da RTP em Bruxelas.<\/p>\n<p>1998-2000 \u2013 Correspondente da RTP em Washington.<\/p>\n<p>2000-2004: Cobre v\u00e1rias guerras e conflitos: Alb\u00e2nia, Palestina, Afeganist\u00e3o, e tamb\u00e9m a invas\u00e3o do Iraque em 2003 pelas tropas americanas, sendo o primeiro rep\u00f3rter do mundo a transmitir imagens ao vivo do in\u00edcio dos bombardeios americanos a Bagdad.<\/p>\n<p>2003: Publica o livro \u201cA Guerra em Directo\u201d, com a chancela da Verbo.<\/p>\n<p>2004-2012: Desempenha fun\u00e7\u00f5es na diplomacia como conselheiro de Imprensa da Embaixada de Portugal no Brasil nos dois primeiros mandatos do presidente Lula da Silva.<\/p>\n<p>2013: Aposenta-se e mantem-se no Brasil.<\/p>\n<p>2019: Doutoramento em \u201cCi\u00eancias de Comunica\u00e7\u00e3o\u201d pela Universidade do Minho, em Braga com uma tese que serviu de base ao seu novo livro \u201cPortugal-Brasil: Ra\u00edzes do Estranhamento\u201d publicado em 2021.<\/p>\n<p>2022: Regressa a Portugal e ao \u201cseu\u201d Alto Alentejo.<\/p>\n<p>Carlos Fino recebeu, ao longo da sua carreira de jornalista, in\u00fameros pr\u00e9mios e condecora\u00e7\u00f5es, nacionais e internacionais. Tem cerca de 37.000 \u201cfollowers\u201d no Facebook, tend\u00eancia crescente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/10\/carlos-fino-em-grande-entrevista-exclusiva-a-pressenza-1-2-moscovo-e-o-desmoronamento-da-urss-e-da-jugoslavia\/\">Ver aqui a primeira parte da entrevista da PRESSENZA a Carlos Fino, sobre as suas experi\u00eancias em Moscovo e durante o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o desmembramento for\u00e7ado da Jugosl\u00e1via<\/a>.<\/p>\n<p>A PRESSENZA publicou tamb\u00e9m uma <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/10\/quem-e-carlos-fino\/\">entrevista em v\u00eddeo com Carlos Fino realizada pela UTAD TV que pode ser vista aqui.<\/a><\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o entrevistado aqui:\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Fino\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Fino<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<h5><em>Todo o conte\u00fado produzido pela Pressenza est\u00e1 dispon\u00edvel gratuitamente nos termos da Licen\u00e7a Creative Commons 4.0.<\/em><\/h5>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Fino\u00a0(*) entrevistado para a\u00a0PRESSENZA\u00a0por\u00a0Vasco Esteves Carlos Fino nasceu em Portugal e foi durante 4 d\u00e9cadas rep\u00f3rter de r\u00e1dio e televis\u00e3o, correspondente de guerra, apresentador de servi\u00e7os noticiosos, conselheiro de imprensa. 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