{"id":1740988,"date":"2023-05-22T20:12:54","date_gmt":"2023-05-22T19:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1740988"},"modified":"2023-05-22T20:12:54","modified_gmt":"2023-05-22T19:12:54","slug":"cidades-nucleares-o-que-fazer-com-os-rejeitos-radioativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/05\/cidades-nucleares-o-que-fazer-com-os-rejeitos-radioativos\/","title":{"rendered":"\u201cCidades nucleares\u201d- o que fazer com os rejeitos radioativos?"},"content":{"rendered":"<p>Os principais impactos socioambientais provocados pela pol\u00edtica nuclear do Brasil est\u00e3o relacionados principalmente \u00e0 extra\u00e7\u00e3o e ao processamento para obten\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio, e outros elementos qu\u00edmicos pesados de interesse comercial. A minera\u00e7\u00e3o produz grande quantidade de\u00a0rejeito nuclear, termo t\u00e9cnico para designar\u00a0lixo nuclear\u00a0ou\u00a0lixo at\u00f4mico. As usinas nucleares tamb\u00e9m produzem grande quantidade de lixo. Sem d\u00favida, este \u00e9 o grande problema. O que fazer com os rejeitos radioativos?<\/p>\n<p>Pa\u00edses que operam ou que operaram usinas nucleares n\u00e3o encontraram locais seguros e definitivos para armazenar os rejeitos produzidos ap\u00f3s o uso do combust\u00edvel nuclear. Atualmente o lixo produzido est\u00e1 armazenado em locais provis\u00f3rios, pois o armazenamento permanente \u00e9 uma quest\u00e3o n\u00e3o resolvida. Restando assim uma heran\u00e7a maldita para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>No Brasil, existem munic\u00edpios\/territ\u00f3rios onde os riscos a impactos relacionados \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o s\u00e3o maiores que outros, pois abrigam atividades nucleares. Caso o material radioativo seja exposto ao meio ambiente (vazamento de \u00e1gua radioativa, de gases extremamente t\u00f3xicos, &#8230;) afetar\u00e1 a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas e os ecossistemas.<\/p>\n<p>Os conflitos, neste caso, estar\u00e3o relacionados ao vazamento de materiais t\u00f3xicos e radioativos, \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o (\u00e1gua, ar e solo), ao aumento do c\u00e2ncer em popula\u00e7\u00f5es diretamente atingidas, aos\u00a0dep\u00f3sitos de rejeitos em locais inadequados e inseguros, al\u00e9m da necess\u00e1ria remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das pessoas de suas habita\u00e7\u00f5es. A\u00a0disputa pelo uso da \u00e1gua entre a minera\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio e para o consumo humano\/animal\/produ\u00e7\u00e3o \u00e9 outro elemento importante. Por exemplo, no sert\u00e3o cearense esta disputa poder\u00e1 ocorrer em breve, caso a mina de Santa Quit\u00e9ria inicie seu funcionamento.<\/p>\n<p>Verifica-se que 11 munic\u00edpios em 6 Estados est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o de ter atividades nucleares, ou mesmo receber rejeitos. Tudo sob a responsabilidade das\u00a0Ind\u00fastrias Nucleares do Brasil (INB).<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Bahia a minera\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio deixou um rastro de contamina\u00e7\u00e3o, sofrimento, abandono, irresponsabilidade e morte. Os mais atingidos foram os que estavam na linha de frente, os trabalhadores e trabalhadoras, e suas fam\u00edlias. Moradores mais pr\u00f3ximos das minas, e aqueles que tiveram contato direto com material radioativo, sofrem as consequ\u00eancias da contamina\u00e7\u00e3o. No Cear\u00e1, a resist\u00eancia da sociedade \u00e9 que n\u00e3o se repita a triste e tr\u00e1gica realidade encontrada, onde a minera\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi explorada. No Rio de Janeiro, vazamentos de material radioativo das usinas nucleares s\u00e3o denunciados, e movimentos sociais de Angra dos Reis lutam pela desativa\u00e7\u00e3o das 2 usinas em funcionamento, e de uma terceira em constru\u00e7\u00e3o. Em Goi\u00e1s, o desastre com o c\u00e9sio 137, considerado o \u201cmaior desastre radiol\u00f3gico do mundo\u201d, produziu uma grande quantidade de res\u00edduos. Este epis\u00f3dio acabou desnudando a dificuldade de responder r\u00e1pido a uma situa\u00e7\u00e3o de vazamento de material radioativo em \u00e1rea urbana, a fragilidade dos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, e a falta de planejamento da Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear (CNEN).<\/p>\n<p>Na identifica\u00e7\u00e3o das \u201ccidades nucleares\u201d, tr\u00eas grandes fontes de rejeitos radioativos foram levadas em conta: os rejeitos produzidos pela explora\u00e7\u00e3o de minerais radioativos no pa\u00eds que remonta aos anos 40 do s\u00e9culo passado, a extra\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio na minera\u00e7\u00e3o, e o \u201clixo\u201d produzido pelas centrais nucleares em funcionamento.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o mais antiga de minerais radioativos foi realizada por uma empresa privada, respons\u00e1vel pela prospec\u00e7\u00e3o de jazidas, e tratamento f\u00edsico-qu\u00edmico da areia monaz\u00edtica. \u00danica fonte de ur\u00e2nio no pa\u00eds na \u00e9poca, antes do funcionamento da mina de Po\u00e7os de Caldas (MG); a Usina de Santo Amaro-USAM, funcionou por mais de 50 anos no bairro do Brooklin, na zona sul da cidade de S\u00e3o Paulo, e teve suas atividades absorvidas pela atual\u00a0INB.<\/p>\n<p>Utilizava um processo de extra\u00e7\u00e3o de minerais pesados e terras raras, a partir de areia monaz\u00edtica. O subproduto deste processo, conhecido como \u201cTorta II\u201d, \u00e9 um fosfato contendo metais pesados de terras raras. Este rejeito &#8211;\u00a0 heran\u00e7a radioativa da\u00a0Nuclemon\u00a0(empresa absorvida pela INB),\u00a0com a desativa\u00e7\u00e3o da usina &#8211; \u00a0acabou sendo enviado para outras unidades da INB.<\/p>\n<p>O rejeito da USAM est\u00e1 armazenado, ao menos 20%, na\u00a0Unidade de Estocagem de Botuxim\u00a0(UEB), no S\u00edtio S\u00e3o Bento, em\u00a0Itu (SP), em uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental. Outra parte, em torno de 5%, est\u00e1 na zona sul de\u00a0S\u00e3o Paulo, bairro de Interlagos, na\u00a0Unidade de Descomissionamento de SP (UDSP). Os 75% restantes na\u00a0Unidade de Descomissionamento de Caldas\u00a0(UDC).<\/p>\n<p>Considerado como o primeiro complexo minero-industrial no Brasil, para a produ\u00e7\u00e3o de concentrado de ur\u00e2nio, a mina de Caldas (MG),\u00a0vizinha a\u00a0Po\u00e7os de Caldas (MG), funcionou at\u00e9 1995, quando ocorreu a paralisa\u00e7\u00e3o definitiva da lavra e tratamento do min\u00e9rio. Seu passivo ambiental consiste de grandes quantidades de rejeitos e res\u00edduos radioativos oriundos, principalmente, da minera\u00e7\u00e3o e das atividades industriais. Al\u00e9m do rejeito da USAM, ambos munic\u00edpios abrigam o lixo da usina local desativada, armazenado em galp\u00f5es e em barragem de rejeito.<\/p>\n<p>No munic\u00edpio de\u00a0Caetit\u00e9 (BA), est\u00e1 a Unidade de Concentra\u00e7\u00e3o de Ur\u00e2nio\u00a0(URA), administrada pela INB. Tamb\u00e9m \u00e9 um local de minera\u00e7\u00e3o, desde 1999, ocupando uma \u00e1rea de 1.700 hectares. Desde o in\u00edcio da minera\u00e7\u00e3o deste campo uran\u00edfero v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es da sociedade civil, sindicatos, ONGs, Igrejas t\u00eam questionado a atua\u00e7\u00e3o da INB, com den\u00fancias comprovadas de irregularidades administrativas, acidentes de trabalho, ind\u00edcios de contamina\u00e7\u00e3o ambiental das \u00e1guas subterr\u00e2neas, aumento de doen\u00e7as cancer\u00edgenas. Ilegalidades e irregularidades nunca devidamente apuradas e esclarecidas.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro,\u00a0munic\u00edpio de\u00a0S\u00e3o Francisco de Itabapoana, na praia de Buena, fica a\u00a0Unidade de Descomissionamento de Buena (UDB). Atualmente suas atividades se restringem a recupera\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do que sobrou do processo de separa\u00e7\u00e3o dos minerais pesados (ilmenita, zirconita, rutilo e monazita) da usina de beneficiamento de areia monaz\u00edtica, cujas reservas est\u00e3o esgotadas. Neste territ\u00f3rio existe um aumento da radia\u00e7\u00e3o pela concentra\u00e7\u00e3o das terras raras, o que leva os moradores e trabalhadores a um conv\u00edvio maior com risco de contamina\u00e7\u00e3o t\u00f3xica e radioativa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no Rio de Janeiro, em Resende, est\u00e1 a\u00a0F\u00e1brica de Combust\u00edvel Nuclear (FCN), onde se processa o enriquecimento isot\u00f3pico de ur\u00e2nio, a reconvers\u00e3o (g\u00e1s-s\u00f3lido), a produ\u00e7\u00e3o de pastilhas e a montagem do combust\u00edvel que abastece os reatores das usinas nucleares. Nesta unidade da INB circula material altamente radioativo e perigoso \u00e0 vida humana e ao meio ambiente. E, logicamente, os moradores deste munic\u00edpio est\u00e3o sujeitos aos perigos decorrentes do vazamento de material radioativo ao meio ambiente. Conhecidos j\u00e1 ocorreram quatro vazamentos dentro da FCN, em julho de 2009, em janeiro de 2010, em julho de 2011, e em mar\u00e7o de 2023.<\/p>\n<p>No munic\u00edpio de\u00a0Goi\u00e2nia (GO)\u00a0aconteceu o que ficou conhecido como o \u201cmaior desastre radiol\u00f3gico do mundo\u201d, em 13 de setembro de 1987. Foi rompido o lacre de um aparelho abandonado de uma cl\u00ednica de radioterapia, que continha uma pequena quantidade (19 mg) em p\u00f3 do elemento radioativo c\u00e9sio 137. Ap\u00f3s a descontamina\u00e7\u00e3o, foi necess\u00e1rio\u00a0construir um dep\u00f3sito para abrigar estes res\u00edduos (grande quantidade de terra extra\u00edda dos locais onde circulou o material radioativo, objetos pessoais das v\u00edtimas, \u2026). O local escolhido, a cerca de 20 km do centro de Goi\u00e2nia, foi o munic\u00edpio de\u00a0Abadia de Goi\u00e1s\u00a0(GO)\u00a0no Parque Telma Ortegal.\u00a0\u00a0O denominado\u00a0Dep\u00f3sito Definitivo est\u00e1 sob o controle institucional da Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear (CNEN) representado pelo Centro Regional de Ci\u00eancias Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO\/CNEN).<\/p>\n<p>E no munic\u00edpio de\u00a0Santa Quit\u00e9ria (CE), a 270 km de Fortaleza, poder\u00e1 ser a maior mina de explora\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio no pa\u00eds, em pleno semi\u00e1rido cearense. Em 2004 foi feita a primeira tentativa para explorar esta mina. Depois de 10 anos novamente a tentativa de obter o licenciamento ambiental. E agora em 2023, o IBAMA, entre outros \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos sucumbiram \u00e0s press\u00f5es e concederam as licen\u00e7as. A proposta do cons\u00f3rcio Santa Quit\u00e9ria \u00e9 retirar fosfato (reservas de 8,9 milh\u00f5es de toneladas) e ur\u00e2nio (80 mil toneladas) da fazenda Itatiaia, por duas d\u00e9cadas. Pode-se neste caso prever que os n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o no local e arredores aumentar\u00e3o. Crescer\u00e1 substancialmente a probabilidade de contamina\u00e7\u00e3o do solo, do ar, dos len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos, aumentando os problemas de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra atividade nuclear, importante geradora de grandes quantidades de rejeitos, s\u00e3o as usinas nucleares que se prestam a produzir energia el\u00e9trica.\u00a0Duas usinas,\u00a0Angra I e Angra II, localizadas em\u00a0Angra dos Reis (RJ)\u00a0produzem grande quantidade de subprodutos do\u00a0combust\u00edvel irradiado nos reatores nucleares em funcionamento. Os res\u00edduos\u00a0est\u00e3o armazenados em locais provis\u00f3rios, ambos\u00a0dentro da central nuclear de Angra:\u00a0a\u00a0Unidade de Armazenamento Complementar a Seco (UAS), e no interior das Piscinas de Armazenamento.<\/p>\n<p>Como relatado em in\u00fameras audi\u00eancias p\u00fablicas, encontros, estudos e manifesta\u00e7\u00f5es independentes, o lixo at\u00f4mico produzido est\u00e1 hoje armazenado em situa\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, prec\u00e1ria, e, em alguns casos, com vazamentos de material t\u00f3xico, radioativo para o meio ambiente. Situa\u00e7\u00e3o que coloca em risco de morte pessoas e o meio ambiente.<\/p>\n<p>Verifica-se tamb\u00e9m, que muitos dos munic\u00edpios que abrigam empresas da INB t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o conflituosa com a estatal. Uma rela\u00e7\u00e3o marcada pelo desrespeito, e pela falta de transpar\u00eancia quando os assuntos s\u00e3o de interesse da comunidade. Mentiras e promessas n\u00e3o cumpridas, geraram desconfian\u00e7a entre as partes ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Diante das situa\u00e7\u00f5es mostradas nas \u201ccidades nucleares\u201d a discuss\u00e3o, e mesmo a tomada de decis\u00e3o sobre a nucleariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2023\/04\/19\/usinas-nucleares-exigem-um-debate-serio-e-necessario\/), com o aumento das atividades de minera\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio, e com a implanta\u00e7\u00e3o de novas usinas nucleoel\u00e9tricas, gerando mais e mais rejeitos, n\u00e3o deve ficar restrita a um pequeno grupo de interessados e interesseiros em simplesmente fazer neg\u00f3cios. Deve, sim, estar embasada nos interesses maiores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 inconceb\u00edvel que em um pa\u00eds democr\u00e1tico, cujo atual presidente afirma a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o popular nas grandes decis\u00f5es, nos destinos do pa\u00eds, somente um pequeno (mas poderoso) grupo de lobistas, os \u201cnucleopatas\u201d, imponham a na\u00e7\u00e3o uma tecnologia cara, suja e perigosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os principais impactos socioambientais provocados pela pol\u00edtica nuclear do Brasil est\u00e3o relacionados principalmente \u00e0 extra\u00e7\u00e3o e ao processamento para obten\u00e7\u00e3o do ur\u00e2nio, e outros elementos qu\u00edmicos pesados de interesse comercial. 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