{"id":1730634,"date":"2023-04-04T17:55:34","date_gmt":"2023-04-04T16:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1730634"},"modified":"2023-04-04T17:57:22","modified_gmt":"2023-04-04T16:57:22","slug":"epifanio-e-o-mundo-sonhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2023\/04\/epifanio-e-o-mundo-sonhado\/","title":{"rendered":"Epif\u00e2nio e o mundo sonhado"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p><em><strong>Por Guilherme Maia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8220;Hasta que todo sea como lo so\u00f1amos&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Francisco Urondo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano de 1.913, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, no Brasil rec\u00e9m-formada ap\u00f3s os levantes borbulhantes dos militares de 1870 a 1889 (come\u00e7o do confisco oficial da coisa p\u00fablica no pa\u00eds) marechal Hermes da Fonseca resolve, rebrilhando em seus alamares, fundar um bairro prolet\u00e1rio na Zona Norte do Rio de Janeiro. Batizando-o com seu pr\u00f3prio nome, agiu com uma tal humildade republicana t\u00e3o desapegada que at\u00e9 emociona.<\/p>\n<p>O ego da classe pol\u00edtica nos Tristes Tr\u00f3picos ultrapassa regimes e \u00e9pocas.<\/p>\n<p>Esperneando os ares num bal\u00e9 insano, socando portas e janelas, Dayse Love \u00e9 levada pelos interiores da Trig\u00e9sima Delegacia de Pol\u00edcia de Marechal Hermes. Ela, um colosso de travesti de dois metros e dez, mantinha seu ponto nas proximidades da velha esta\u00e7\u00e3o \u2013 dizia que era para dar ares modernos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica &#8211; j\u00e1 h\u00e1 uns dez anos, quando o novo delegado, Fulg\u00eancio Toba, \u00e9 nomeado para substituir o velho e cansado Mortu\u00e1rio Zimbr\u00e3o; como novas provid\u00eancias tomadas, a primeira foi a de ca\u00e7ar todos os transformistas da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Fulg\u00eancio era mais calmo do que seu antecessor no que concerne \u00e0 tortura de custodiados, principalmente aos avan\u00e7os do tempos modernos, assim n\u00e3o arrebentava os que passavam pela delegacia, n\u00e3o de forma geral, mas, pelo contr\u00e1rio, escolhia os pontos anat\u00f4micos que n\u00e3o deixam vest\u00edgios para eventuais per\u00edcias m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>J\u00e1 Mortu\u00e1rio havia enlouquecido depois de torturar e matar mais de trinta custodiados que passaram por aquela delegacia &#8211; sem contar os cad\u00e1veres que deixou na Favela do Jabiri.<\/p>\n<p>A amoralidade do antecessor vinha sofrendo com reca\u00eddas de arrependimentos, a \u00faltima v\u00edtima enforcou chorando e com os olhos marejados asfixiou um estudante que estava preso t\u00e3o-somente por portar um cigarro de maconha.<\/p>\n<p>&#8211; Epif\u00e2nio Agr\u00e1rio Vulc\u00e2nico, tenho quarenta e tr\u00eas anos, meu nome art\u00edstico \u00e9 Dayse Love \u2013 responde grave o travesti ap\u00f3s retirar sua peruca roxa e as duas bolas de ferro pingentes de grilhetas que chama de brincos.<\/p>\n<p>A transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9 marcante atordoando o inspetor, que toma as notas de qualifica\u00e7\u00e3o do suspeito. Do agudo mais melodioso ao grave tonitruante Epif\u00e2nio surge recomposto como um executivo s\u00eanior pertencente a alguma subsidi\u00e1ria de multinacional.\u00a0Com tanta austeridade emanada daquela figura antes estigmatizada pelos preconceitos de uma sociedade afundada numa falso moralismo, o inspetor recomp\u00f5e sua fala e a forma com que se dirige ao suspeito.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Epif\u00e2nio, espero que entenda que de acordo com o C\u00f3digo Penal temos aqui&#8230;\u00a0\u2013 Titubeou j\u00e1 entendendo a ilegalidade daquela apreens\u00e3o; continuou na base do suor na testa e cenho franzido como a implorar.\u00a0&#8211; &#8230; Um caso de perturba\u00e7\u00e3o da ordem social e da tranquilidade.\u00a0\u2013 Terminou de um sopro.<\/p>\n<p>&#8211; Escuta aqui, \u00f4, inspetor! N\u00e3o sou como desses meus colegas de of\u00edcio que n\u00e3o t\u00eam instru\u00e7\u00e3o e ficam prestando servi\u00e7o gratuito pra voc\u00eas no c\u00e1rcere para serem soltos, mas de qualquer forma larguei o terapeuta e, por isso, vou prestar depoimento e fazer disso aqui uma sess\u00e3o.\u00a0\u2013 Sempre resoluto imp\u00f5em-se Epif\u00e2nio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, senhor.\u00a0\u2013 Sussurra servil o inspetor.\u00a0\u2013 Inicio ent\u00e3o a coleta de seu depoimento sobre o ocorrido na rua Jabiri em frente ao Terreiro dos Cinco Caboclos na Cumbuca \u00e0s quatro horas e trintas e cinco minutos, madrugada do dia 12 de janeiro de dois mil e vinte e tr\u00eas.<\/p>\n<p>E assim inicia os termos de introdu\u00e7\u00e3o para o relato do indigitado: \u201cnessa data, o depoente fora encontrado pelos policiais Paul\u00e3o e Pedroso; o depoente trajando um vestido luxuoso estava em vias de fato com Ariovaldo Pinto, v\u00edtima; o Babala\u00f4 Tr\u00eas Solu\u00e7\u00f5es tentava apartar a alterca\u00e7\u00e3o na ocorr\u00eancia. Mais exaltado, o depoente fora recolhido pelos soldados da Pol\u00edcia Militar do Estado do Rio de Janeiro e encaminhado para esta Delegacia de Pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>Epif\u00e2nio com ar taciturno come\u00e7a a falar:\u00a0-Tudo come\u00e7ou quando eu tinha treze anos. Conhe\u00e7o Ariovaldo desde aquela \u00e9poca, crescemos juntos, estivemos nas mesmas salas de aula dos mesmos col\u00e9gios e cursamos a mesma faculdade de engenharia da computa\u00e7\u00e3o. Enquanto entendia minha sexualidade,\u00a0&#8211; minha homossexualidade que foi aos poucos afirmando o transformismo,\u00a0&#8211; Ariovaldo Pinto seguiu o caminho da moral do pequeno burgu\u00eas: admitido como supervisor de inform\u00e1tica de uma multinacional, granjeou cargos at\u00e9 se tornar um acionista.<\/p>\n<p>Pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Iglesias, (a essa altura j\u00e1 falava com o inspetor usando o primeiro nome, devolvendo dessa forma os olhares que este lan\u00e7ava em dire\u00e7\u00e3o ao seu decote estilo venha-c\u00e1-meu-puto) quero um copo d\u2019\u00e1gua, estou seca (era de se admirar identificar-se como ela naquela voz de Pavarotti, mas a vida caminha florida at\u00e9 o alcance do clar\u00e3o final das mais diversas e aut\u00eanticas formas).<\/p>\n<p>Satisfeita sua sede, retomou as tert\u00falias de sua vida: &#8211; Com o sucesso financeiro, Ariovaldo casou com Himengarda e teve seus quatro filhos: Neslia, Augusto, Durval e \u00cdndio. Os anos foram passando sem nos encontramos at\u00e9 que recebermos o convite do encontro dos formandos do ano dois mil da faculdade.\u00a0\u2013 Nesse momento Epif\u00e2nio come\u00e7a a ficar com a voz embargada e prossegue solu\u00e7ando no esfor\u00e7o de conter o choro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca tinha sentido nada por Ariovaldo at\u00e9 aquele encontro.\u00a0&#8211; Continua entrecortando suas frases.\u00a0 \u2013 Ali eu senti o calafrio supremo do amor e com os olhos brilhando de admira\u00e7\u00e3o por aquele homem eu supliquei a Deus a b\u00ean\u00e7\u00e3o da<br \/>\ncorrespond\u00eancia, implorei pela reciprocidade do desejo e da perman\u00eancia das m\u00e3os entrela\u00e7adas. Transportada para o Olimpo da gl\u00f3ria do sentimento puro sublimei minhas noites do bairro que tamb\u00e9m era a Gl\u00f3ria; dos diversos homens com quem deitei, homens como Ariovaldo, repetidos casados com filhos que se esgueiravam das esposas e dos familiares na busca de consumar suas vontades mais soterradas: vereadores, pastores, padres (sou uma travesti ecum\u00eanica), deputados e at\u00e9 prefeitos e governadores (sou democrata e sirvo da esquerda \u00e0 direita).<\/p>\n<p>Interrompe o inspetor Iglesias:\u00a0&#8211; \u00d4pa! Prefeitos e governadores? Porra, Epif\u00e2nio, entrega a\u00ed, a gente ganha uma grana boa da imprensa, eu conhe\u00e7o o editor do jornal Meia Boca, ele garante pra gente.\u00a0\u2013 Falava imprimindo em sua dic\u00e7\u00e3o sons articulados \u00e0 maneira de gal\u00e3 de novela das oito, j\u00e1 restava claro que estava doido para comer aquele travesti que era executivo compenetrado ao mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o abro o bico, amore, aprecio muito a minha vida para entreg\u00e1-la aos c\u00e3es famintos.\u00a0&#8211; Fulmina as inten\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas de Iglesias e de pronto retoma sua fala:\u00a0&#8211; O que quero dizer \u00e9 que fui tomada por uma irrefre\u00e1vel paix\u00e3o e desde essa tomada sentimental me tornei obcecada por Ariovaldo; espreitava-o \u00e0 sombra em frente \u00e0 sua casa, acompanhava seu transporte (anotei a placa do carro dele) at\u00e9 o trabalho e ao clube no final de semana. Aproximei-me de sua esposa Himengarda frequentando o mesmo cabeleireiro &#8211; Anast\u00e1cio, ela \u00e9 \u00f3tima e corta o cabelo da gente como ningu\u00e9m, &#8211; eu sempre recomendo. E, com minha perseveran\u00e7a de coach desesperado por dinheiro, consegui ter acesso \u00e0 casa de Ariovaldo.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha me preparado como uma distinta senhora da Igreja das \u00daltimas Restri\u00e7\u00f5es, batom de colora\u00e7\u00e3o amena, vestido de vicu\u00f1a de tom ocre opaco, um colar de p\u00e9rolas foscas e fui usando uma peruca em feitio de coque equilibrado. Minha voz estava modulada em um feminino inquestion\u00e1vel.\u00a0\u2013 Prossegue a narra\u00e7\u00e3o quase \u00e0s l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sonho com um mundo sem estigmas, Iglesias, com a harmonia das diferen\u00e7as e a dignidade que a liberdade permite \u00e0s escolhas nossas. Nunca tinha sentido o peso do cora\u00e7\u00e3o de m\u00e1rmore da hipocrisia como quando entrei naquela casa branca e impec\u00e1vel daquela fam\u00edlia;\u00a0\u201cQuem \u00e9 essa senhora t\u00e3o alta, Himengarda, se voc\u00ea me dissesse que tem amigas t\u00e3o bonitas, eu estimularia mais a frequ\u00eancia delas aqui, meu amor?\u201d, ele, Ariovaldo, falou t\u00e3o sulfuroso aos meus sentimentos. Quis dizer quem eu era, quis afirmar quem eu sou delirando com uma imposs\u00edvel igualdade de armas na disputa por aquele homem.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que \u00e9 errado destruir uma fam\u00edlia feliz, mas o desejo falou mais alto e o que mais me constrangia era o peso de ser travesti, n\u00e3o o de estar lutando por um homem casado. N\u00e3o tivesse nascido ou desenterrasse de mim a educa\u00e7\u00e3o que tive para ser o que n\u00e3o sou, agiria como uma mulher fatal, como uma piranha safada comum (que n\u00e3o cobra, porque tem emprego e sal\u00e1rio), mas naquele ambiente eu era como um vampiro da Central do Brasil no pal\u00e1cio de Versalhes. Se a esposa me chamasse de puta eu confirmava e roubava o marido. Ser chamada de abomina\u00e7\u00e3o me mataria.<\/p>\n<p>Afastou com for\u00e7a Iglesias que sorrateiramente tinha enla\u00e7ado Epif\u00e2nio e lhe fazia cafun\u00e9 \u00e0 maneira de namorados famintos na noite da Lapa. Sentindo sua petul\u00e2ncia e sempre lembrando do som grave da voz do travesti, recomp\u00f4s-se imediatamente em sua<br \/>\ncadeira como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p>-Prossiga, por favor, senhor Epif\u00e2nio. \u2013 Disfar\u00e7a para tomar maiores ares de autoridade policial.<\/p>\n<p>Em socorro vem uma balb\u00fardia dessas caracter\u00edsticas das delegacias cariocas, belezas sint\u00e1ticas como \u201cvai tomar no olho do cu\u201d, \u201ceu como o teu f\u00edgado, seu filhadaputa\u201d, neologismos e catacreses da sofistica\u00e7\u00e3o estil\u00edstica tropical.<\/p>\n<p>Com isso, o inspetor pede licen\u00e7a e diz que vai resolver a crise na recep\u00e7\u00e3o, na verdade vai ao banheiro se entregar aos instantes fugazes da falsa satisfa\u00e7\u00e3o sexual, sentimento que mant\u00e9m o jovem eterno no interior dos homens.\u00a0\u2013 afinal, toda aquela conversa tinha mexido com ele.<\/p>\n<p>&#8211; Alcides, segura a porta do banheiro pra mim, estou carregado, hoje comi um empad\u00e3o feito de areia e concreto no Portugu\u00eas.\u00a0\u2013 Pede ao faxineiro da delegacia legal, que divertidamente como o nome a designa, n\u00e3o tem ma\u00e7aneta na porta dos sanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Imediatamente o pobre Alcides cumpre o pedido como ordem e se submete a mais um desvio de fun\u00e7\u00e3o dos servidores p\u00fablicos do Rio assumindo o cargo de seguran\u00e7a da privada alheia.<\/p>\n<p>Enquanto Iglesias eleva sua imagina\u00e7\u00e3o aos p\u00edncaros do prazer viajando para a Paris dos anos vinte ao lado de Dayse, a Louca, praticando as mais ins\u00f3litas posi\u00e7\u00f5es do Kama Sutra no alto da Torre Eiffel, a \u201ccrise\u201d da recep\u00e7\u00e3o da Delegacia j\u00e1 se avolumara \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de uma orelha cortada, a do inspetor Afonsinho. Este, na inten\u00e7\u00e3o de apaziguar os \u00e2nimos de um casal que surgira aos socos e sangue escorrendo pelo nariz, foi atacado pela mulher com uma faca de sua bolsa e desferiu o golpe na orelha.<\/p>\n<p>&#8211; Porra! \u2013 Grita Afonsinho. \u2013 O Estado n\u00e3o tem recursos para cobrir o implante da minha orelha!<\/p>\n<p>E assim rasteja a Humanidade at\u00e9 que Iglesias, satisfeito, retorna \u00e0 sua cansada cadeira de inspetor.<\/p>\n<p>&#8211; Prossiga, por favor, Epif\u00e2nio.<\/p>\n<p>De repente, como ensaiado, faz-se sil\u00eancio sepulcral no ambiente, nenhum som mais era emitido da recep\u00e7\u00e3o antes alvoro\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cEncantado em conhec\u00ea-la, senhora Dayse!\u201d \u2013 Falou Ariovaldo comigo sem me reconhecer e foi para seu escrit\u00f3rio enquanto permaneci na sala de estar com Himengarda. N\u00e3o aguentei e, inventado uma desculpa qualquer para desvencilhar da esposa, segui para o encontro de meu amado.\u00a0\u2013 Narra Epif\u00e2nio ao inspetor.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cO que \u00e9 isso, minha senhora?\u201d\u00a0 \u2013 Pergunta Ariovaldo ao ver que entrei no seu escrit\u00f3rio e tranquei a porta. N\u00e3o deixei que falasse mais, aflorou em mim toda a selvageria da noite do Rio de Janeiro: empurrei-o para sua cadeira, abri sua braguilha a emborquei o pau do ser amado da melhor forma que me ensinaram pelos becos da Gl\u00f3ria na gl\u00f3ria do \u00eaxtase; deleitei-me com cada sensa\u00e7\u00e3o provocada nele e ejaculei na minha calcinha junto com ele. Naquela hora fui uma puta prom\u00edscua, fui mulher. Era o mundo livre que sempre sonhei!<\/p>\n<p>&#8211; Poxa, seu Epif\u00e2nio&#8230; \u2013 Murmurou Iglesias. \u2013 Que rom\u00e2ntico!<\/p>\n<p>&#8211; Terminado o \u201cservi\u00e7o\u201d, sa\u00ed daquele escrit\u00f3rio e daquela casa. Corri para meu apartamento em Marechal Hermes, tomei o mais demorado banho de minha vida, buscava limpar minha alma, nunca tinha encarnado uma vadia sem car\u00e1ter tentando roubar o marido de uma boa mulher antes; sinta-me suja.\u00a0\u2013 Epif\u00e2nio deixava rolar as palavras em profus\u00e3o.<\/p>\n<p>E continuou. &#8211; Da\u00ed come\u00e7ou meu processo de formar uma nova personalidade: a figura masculina de Ariovaldo refor\u00e7ou os fantasmas da minha educa\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o da minha vida. N\u00e3o queira mais ser um travesti, n\u00e3o queria mais ser homossexual: a partir daquela confronta\u00e7\u00e3o passei a desejar ser homem, ser macho como meu amado. Isso por que fiz o que fiz. Defrontei com um modelo de masculinidade \u00e0 minha frente. Como o amado era a perfei\u00e7\u00e3o apropriei-me disso almejando ser exatamente como o arqu\u00e9tipo!<\/p>\n<p>&#8211; Cumaqui\u00e9? \u2013 Retorquiu o inspetor.<\/p>\n<p>&#8211; Um arqu\u00e9tipo, seu burro: padr\u00e3o, modelo psicol\u00f3gico para a forma\u00e7\u00e3o da personalidade.\u00a0\u2013 Seguiu em tom professoral Epif\u00e2nio.\u00a0\u2013Eu passaria a ser homem executivo, constituiria fam\u00edlia e teria quatro filhos como Ariovaldo.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso procurei o Pai Tr\u00eas Solu\u00e7\u00f5es do Terreiro dos Cinco Caboclos. Ele, como sempre, apresentou as tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es para eu iniciar os trabalhos com o orix\u00e1 ao qual ele servia como cavalo de santo: eu viraria homem rico, homem classe m\u00e9dia ou homem pobre. Oras, optei por ser um homem da alta classe m\u00e9dia baixa para ficar no consenso do meio termo. Coitado do Pai Tr\u00eas Solu\u00e7\u00f5es, ele nem imaginava em que furada estava entrando ao aceitar minhas s\u00faplicas pela interse\u00e7\u00e3o com os orix\u00e1s&#8230; Lamento muito, mesmo por que n\u00e3o previ o que aconteceria logo em seguida.\u00a0\u2013 O queixume era pungente enquanto Epif\u00e2nio contava esse caso.<\/p>\n<p>A vida tem dessas coisas: Dayse era a sublima\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es naturais de Epif\u00e2nio, era seu eu assumido na teatro da vida; a promiscuidade n\u00e3o \u00e9 inerente \u00e0 op\u00e7\u00e3o, mas algo que faz o todo composto pelo o que o pessoa quer de si, enfim: o fato de ser travesti n\u00e3o fazia de Dayse uma prom\u00edscua, mas ela por si mesma sentia prazer dessa forma. Acontece que ao entrar naquela casa enfrentou a discrimina\u00e7\u00e3o contra impostas ao seu eu. Se fosse uma mulher querendo roubar o marido de outra seria uma recrimina\u00e7\u00e3o com um peso diferente de ser transformista querendo o mesmo.<\/p>\n<p>Incorre\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 suportada como uma anormalidade e isso interfere na harmonia interior de quem a sofre. Epif\u00e2nio nunca antes tinha sentido o preconceito, porque sempre foi e quis ser aut\u00eantico em seu meio, a noite, onde permaneceu cercada pelo seu habitat, &#8211; salvo, claro, casos espor\u00e1dicos de homofobia aos quais tinha a seu dispor uma rede de seguran\u00e7a formada por clientes e por cafet\u00f5es.<\/p>\n<p>Muito diferente era assumir o papel de f\u00eamea fatal em conquista do seu amado.<\/p>\n<p>E mais: t\u00e3o profundo era sua admira\u00e7\u00e3o que fundira o desejo de ser o amado.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, chegamos a esta fat\u00eddica noite: o que aconteceu na frente do terreiro de macumba?\u00a0\u2013 Perguntou ansioso e pejado de preconceito religioso o inspetor Iglesias.<\/p>\n<p>&#8211; Ariovaldo me seguiu at\u00e9 o Jabiri. Disse que estava totalmente apaixonado por mim, que me desejava como nunca desejara ningu\u00e9m em toda a sua vida. Disse a ele quem eu era (que n\u00e3o era mais quem sempre fui) passando a ser homem pela admira\u00e7\u00e3o que tinha me inspirado. N\u00e3o mais desejava o esmo sexo.<\/p>\n<p>E prosseguiu filos\u00f3fico:\u00a0&#8211; O que sempre sonhei nunca esteve no sexo sen\u00e3o em me transfundir com o que amo. Eu sou o Epif\u00e2nio (foi quando tirei minha peruca e os c\u00edlios posti\u00e7os.\u00a0-\u201cVoc\u00ea&#8230;\u201d\u00a0\u2013 Estupefato balbuciou Ariovaldo. \u2013 Sim, eu! \u2013 respondi. \u2013 E digo que sempre o desejei at\u00e9 encontrar o verdadeiro sentido da vida: ser voc\u00ea. Por isso, n\u00e3o serei seu, serei um executivo de sucesso, terei minha fam\u00edlia e, assim, amarei para sempre!<\/p>\n<p>O inspetor ouvia as divaga\u00e7\u00f5es existenciais do depoente com a cara alongada parecendo haver uma bigorna de dez quilos colada a seu queixo, s\u00f3 podia pensar e falar \u201ccaramba!\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Depois de me identificar e expor o que quero da vida, Ariovaldo enlouqueceu; enraivecido veio na minha dire\u00e7\u00e3o para me arrebentar de porrada. O babala\u00f4 interviu tentando de toda forma cont\u00ea-lo e, por isso, levou dois socos na cara no meu lugar; quase caiu no ch\u00e3o nocauteado, por\u00e9m, insuflado pelo sentimento de apaziguamento (ou manter o cliente), permaneceu em p\u00e9.\u00a0Foi quando os policiais apareceram e como sempre formados pelo preconceito foram pra cima de mim como se eu fosse o agressor.<\/p>\n<p>Naquele momento, Iglesias entendeu tudo: apesar da indiferen\u00e7a provinda da repeti\u00e7\u00e3o do seu trabalho conseguiu pela primeira vez na vida entender que nem tudo \u00e9 o que parece ser, que muitas vezes a v\u00edtima \u00e9 o criminoso e vice-versa, principalmente quando havia quest\u00f5es t\u00e3o sens\u00edveis como escolhas \u00edntimas e frustra\u00e7\u00f5es repetidas pela repress\u00e3o moral.<\/p>\n<p>&#8211; Vou reclassificar aqui os atores do fato delituoso: voc\u00ea passa a ser v\u00edtima e Ariovaldo passa a ser o suspeito.\u00a0\u2013 Afirmou ao depoente j\u00e1 iniciando as mudan\u00e7as em seu relat\u00f3rio do procedimento investigat\u00f3rio.\u00a0\u2013 Nem quero ver a surpresa da esposa dele quando houver a intima\u00e7\u00e3o.\u00a0&#8211; Arrematou com a express\u00e3o s\u00edmia da libertinagem.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada&#8230; quer dizer&#8230; Obrigado, inspetor.\u00a0&#8211; Contentou-se Epif\u00e2nio em sua nova pessoa e despediu-se da Delegacia.<\/p>\n<p>Mais tarde, antes de encerrar seu plant\u00e3o, o inspetor Iglesias, ap\u00f3s pensar nos avan\u00e7os das novas leis obrigando o servidor de seguran\u00e7a p\u00fablica a respeitar a dignidade das op\u00e7\u00f5es sexuais das pessoas, escorregou na peruca que Epif\u00e2nio esquecera ao lado de sua escrivaninha e praguejou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que bicha safada!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA Por Guilherme Maia &nbsp; &#8220;Hasta que todo sea como lo so\u00f1amos&#8221; Francisco Urondo &nbsp; No ano de 1.913, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, no Brasil rec\u00e9m-formada ap\u00f3s os levantes borbulhantes dos militares de 1870 a 1889 (come\u00e7o do confisco&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2002,"featured_media":1730644,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[104,11390,112,165,20610],"tags":[75238,75338],"class_list":["post-1730634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-do-sul","category-conteudo-original","category-cultura-pt-pt","category-opiniao","category-sem-categoria","tag-caderno-de-cultura","tag-cronica"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Epif\u00e2nio e o mundo sonhado<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"CR\u00d4NICA Por Guilherme Maia &nbsp; 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