{"id":1701043,"date":"2022-12-19T17:55:24","date_gmt":"2022-12-19T17:55:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1701043"},"modified":"2022-12-19T17:55:24","modified_gmt":"2022-12-19T17:55:24","slug":"ucrania-a-historia-que-explica-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2022\/12\/ucrania-a-historia-que-explica-a-guerra\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia: a hist\u00f3ria que explica a guerra"},"content":{"rendered":"<p>Por David Mandel*<\/p>\n<p>Nova escalada acende risco de conflito fora de controle e deslize nuclear. Exame dos fatos revela: propaganda ocidental \u00e9 falsa. R\u00fassia esteve sempre aberta a acordo, mas Putin caiu em cilada. \u00c9 hora de um movimento global pela paz.<\/p>\n<p>A natureza complexa da guerra na Ucr\u00e2nia e, especialmente, da quest\u00e3o da responsabilidade a ser atribu\u00edda \u00e0s partes envolvidas dificultou a mobiliza\u00e7\u00e3o de um movimento antiguerra vigoroso. Uma parte da esquerda, ali\u00e1s, se op\u00f5e a um cessar-fogo imediato e \u00e0 retomada das negocia\u00e7\u00f5es, interrompidas abruptamente no final de mar\u00e7o. O objetivo deste artigo \u00e9 lan\u00e7ar luz adicional sobre a guerra com vistas a ajudar os oponentes do imperialismo a adotar uma posi\u00e7\u00e3o esclarecida.<\/p>\n<p>Tendo em vista as divis\u00f5es internas da esquerda, sinto que \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar com algumas palavras sobre mim. Por muitos anos, dei aulas sobre a pol\u00edtica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos estados que surgiram dela. Como sindicalista e socialista, participei ativamente da educa\u00e7\u00e3o trabalhista na R\u00fassia, Ucr\u00e2nia e Bielo-R\u00fassia, desde o momento em que tal atividade se tornou politicamente poss\u00edvel. Essa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 de inspira\u00e7\u00e3o socialista, e definimos o socialismo como\u00a0<em>humanismo consistente<\/em>. Assim, opus-me ativamente aos regimes russo e ucraniano, ambos profundamente hostis \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na Ucr\u00e2nia independente n\u00e3o tem sido melhor do que a de seus correlativos na R\u00fassia. Em certas dimens\u00f5es, \u00e9 ainda pior. Desde a independ\u00eancia, uma sucess\u00e3o de governos predat\u00f3rios transformou a Ucr\u00e2nia de uma regi\u00e3o outrora relativamente pr\u00f3spera da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no estado mais pobre da Europa. A popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia nos \u00faltimos 30 anos caiu de 52 para 44 milh\u00f5es (antes da guerra atual). Desses 44 milh\u00f5es, um bom n\u00famero est\u00e1 trabalhando na R\u00fassia.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que na Ucr\u00e2nia, ao contr\u00e1rio da R\u00fassia, as elei\u00e7\u00f5es podem mudar o governo. Mas elas n\u00e3o podem mudar a natureza antitrabalhadora da pol\u00edtica do Estado. Um violento golpe em fevereiro de 2014, executado por for\u00e7as ultranacionalistas (neofascistas) e ativamente apoiado pelo governo dos EUA, derrubou um presidente eleito, embora corrupto, bloqueando um acordo alcan\u00e7ado no dia anterior com a oposi\u00e7\u00e3o, sob o ausp\u00edcios da Fran\u00e7a, Alemanha e Pol\u00f4nia, para formar um governo de coaliz\u00e3o e promover novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O golpe e as primeiras medidas do novo regime, em particular uma lei que eliminava o russo, l\u00edngua cotidiana de pelo menos metade da popula\u00e7\u00e3o, como uma das duas l\u00ednguas oficiais, provocaram resist\u00eancia e, finalmente, confronto armado no leste do pa\u00eds, em regi\u00f5es onde os falantes de russo predominam. Essa oposi\u00e7\u00e3o foi reprimida em todos os lugares, \u00e0s vezes por meios violentos e com perda de vidas, como ocorreu na cidade de Odessa em maio de 2014, exceto no Donbass. Ali, estourou uma guerra civil, com a interven\u00e7\u00e3o russa do lado dos insurgentes e a interven\u00e7\u00e3o da OTAN do lado de Kiev.<\/p>\n<p>Essa importante dimens\u00e3o da guerra n\u00e3o faz parte da narrativa apresentada pela OTAN, pelo governo ucraniano ou pela grande m\u00eddia ocidental, que preferiu falar em \u201cinvas\u00e3o russa\u201d, j\u00e1 em 2014. Mas o que transformou um movimento de protesto contra o golpe de Estado em uma revolta armada foi a recusa do novo regime at\u00e9 mesmo em conversar com os dissidentes de Donbass. Em vez de negociar, Kiev lan\u00e7ou imediatamente uma \u201copera\u00e7\u00e3o antiterrorista\u201d contra a regi\u00e3o, enviando unidades neofascistas da rec\u00e9m-formada Guarda Nacional, uma vez que o ex\u00e9rcito regular se mostrou pouco confi\u00e1vel aos olhos do governo. (Se a R\u00fassia quisesse, de fato, tomar a Ucr\u00e2nia, poderia t\u00ea-lo feito facilmente na \u00e9poca \u2013 a Ucr\u00e2nia sequer tinha um ex\u00e9rcito efetivo.) A R\u00fassia, imediatamente declarada invasora por Kiev, interveio diretamente com as for\u00e7as armadas apenas v\u00e1rios meses depois, para evitar uma derrota iminente dos insurgentes.<\/p>\n<p>Como se analisa e avalia esta guerra, depende do ponto de partida. O governo da Ucr\u00e2nia, porta-vozes da OTAN, nossa grande m\u00eddia \u2013 mas tamb\u00e9m algumas pessoas que se identificam como socialistas \u2013 normalmente come\u00e7am com a invas\u00e3o da R\u00fassia em fevereiro passado. A imagem que emerge \u00e9 a de um Estado grande e bem armado que invadiu um estado inocente menor que est\u00e1 defendendo corajosamente sua soberania.<\/p>\n<p>Quanto aos\u00a0<em>motivos\u00a0<\/em>do invasor, o p\u00fablico da OTAN foi informado apenas de que a invas\u00e3o n\u00e3o foi\u00a0<em>provocada<\/em>. Em uma campanha de propaganda sem precedentes na mem\u00f3ria recente, o qualificador \u201cn\u00e3o provocada\u201d tornou-se obrigat\u00f3rio para noticiar a invas\u00e3o. (Pode-se notar, de passagem, a aus\u00eancia dessa express\u00e3o nas reportagens sobre as invas\u00f5es dos EUA e da OTAN no Vietn\u00e3, Iraque, Afeganist\u00e3o, S\u00e9rvia, L\u00edbia\u2026) A express\u00e3o \u201cn\u00e3o provocada\u201d serviu, assim, para bloquear qualquer discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre os motivos do invasor, al\u00e9m de seu suposto apetite imperialista.<\/p>\n<p>Bastava levantar a quest\u00e3o da provoca\u00e7\u00e3o para merecer a acusa\u00e7\u00e3o de ser apologista do agressor. E uma parte da esquerda tamb\u00e9m participou disso, normalmente limitando sua explica\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o a algumas passagens selecionadas dos discursos de Putin, como sua famosa observa\u00e7\u00e3o de que o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi a maior cat\u00e1strofe geopol\u00edtica do s\u00e9culo. A frase que se seguiu raramente foi mencionada: \u201cQuem deseja sua restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem c\u00e9rebro\u201d.<\/p>\n<p>Acima de tudo, evita-se um exame s\u00e9rio das rela\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia nas tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores \u00e0 invas\u00e3o, um exame que pudesse identificar a exist\u00eancia dos tais interesses imperialistas atribu\u00eddos a Putin. Mas por que desperdi\u00e7ar energia, quando tudo j\u00e1 est\u00e1 claro: um grande pa\u00eds com armas nucleares invadiu um menor sem armas nucleares. Certamente isso \u00e9 suficiente para merecer apoio incondicional ao regime ucraniano? Por que se preocupar em analisar a natureza de classe desse regime ou os motivos que levam a OTAN a apoi\u00e1-lo e supri-lo?<\/p>\n<p>Outro argumento ouvido \u00e0s vezes \u00e9 que a R\u00fassia autocr\u00e1tica teme a atra\u00e7\u00e3o da democracia da Ucr\u00e2nia para o povo da R\u00fassia, com quem a Ucr\u00e2nia compartilha uma longa fronteira. Na realidade, a triste experi\u00eancia dos trabalhadores da Ucr\u00e2nia com sua \u201cdemocracia\u201d \u00e9 um dos argumentos mais fortes de Putin contra seus oponentes liberais e socialistas.<\/p>\n<p>Putin, de fato, apresentou seus objetivos quando lan\u00e7ou a invas\u00e3o: a neutralidade geopol\u00edtica da Ucr\u00e2nia, sua desmilitariza\u00e7\u00e3o e sua \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d. Se o primeiro objetivo \u00e9 claro, os outros dois requerem alguma explica\u00e7\u00e3o. A \u201cdesmilitariza\u00e7\u00e3o\u201d expressava a oposi\u00e7\u00e3o de Putin ao armamento e treinamento do ex\u00e9rcito ucraniano pela OTAN, que estava, de fato, sendo integrado \u00e0s for\u00e7as armadas da alian\u00e7a, um processo que come\u00e7ou logo ap\u00f3s o golpe de 2014.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d, significou a elimina\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia pol\u00edtica dos ultranacionalistas (neofascistas) no governo e sobretudo nos seus aparelhos de viol\u00eancia (ex\u00e9rcito, pol\u00edcia pol\u00edtica e regular), bem como nas quest\u00f5es lingu\u00edstica e cultural. A pr\u00f3pria ess\u00eancia da ideologia dos \u201cultras\u201d \u00e9 o \u00f3dio pela R\u00fassia e contra tudo que \u00e9 russo. E sua influ\u00eancia dentro do aparato do Estado n\u00e3o parou de crescer, especialmente desde o golpe de 2014.<\/p>\n<p>O qualificador \u201cn\u00e3o provocado\u201d associado \u00e0 palavra \u201cinvas\u00e3o\u201d serve especialmente para ocultar o fato de que uma declara\u00e7\u00e3o clara do presidente dos EUA de que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o se tornaria membro da OTAN provavelmente teria evitado esta guerra. A expans\u00e3o da OTAN na Ucr\u00e2nia foi a principal quest\u00e3o levantada por Moscou nos meses anteriores \u00e0s invas\u00f5es. Durante esse tempo, Putin prop\u00f4s regularmente negociar um acordo sobre a n\u00e3o expans\u00e3o da OTAN na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2012, apenas algumas semanas antes da invas\u00e3o, Moscou voltou a propor formalmente aos EUA e \u00e0 OTAN o in\u00edcio imediato de negocia\u00e7\u00f5es com vistas \u00e0 conclus\u00e3o de um tratado europeu de seguran\u00e7a. A proposta foi ignorada, assim como as anteriores.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, claro, que Putin estivesse mentindo sobre seu desejo de um acordo e que estivesse apenas procurando uma desculpa para engolir a Ucr\u00e2nia. Mas por que, ent\u00e3o, n\u00e3o testar essa hip\u00f3tese, se havia uma chance, mesmo pequena, de evitar uma guerra que o governo americano vinha prevendo h\u00e1 meses?<\/p>\n<p>Vale observar que a CIA, por sua vez, estabeleceu que a decis\u00e3o de invadir foi tomada por Moscou apenas alguns dias antes da emiss\u00e3o da ordem. Isso indicava que a guerra poderia ter sido evitada, se a OTAN tivesse aceitado a proposta da R\u00fassia de iniciar as negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A recusa dos EUA em responder \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a de Moscou nos meses e anos anteriores \u00e0 invas\u00e3o, apesar de uma s\u00e9rie de advert\u00eancias claras de altos funcion\u00e1rios estadunidenses \u2013 incluindo Willian Burns, ex-embaixador em Moscou e atual chefe da CIA \u2013, sugere que o governo dos EUA de fato\u00a0<em>queria esta guerra.<\/em>\u00a0 De qualquer forma, os EUA, com o apoio entusi\u00e1stico do Reino Unido e o acordo dos outros membros da OTAN, n\u00e3o\u00a0<em>fizeram absolutamente nada<\/em>\u00a0desde o in\u00edcio da guerra para promover um acordo negociado que poria fim \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de vidas e da infraestrutura socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>No caso, aconteceu o oposto: Washington bloqueou qualquer fim negociado para a guerra. Veja, por exemplo, as \u201csan\u00e7\u00f5es infernais\u201d impostas \u00e0 R\u00fassia. Por que n\u00e3o foram acompanhadas de condi\u00e7\u00f5es para sua suspens\u00e3o, se o objetivo era impedir a invas\u00e3o?<\/p>\n<p>Outro objetivo, nunca admitido, \u00e9 consolidar o dom\u00ednio dos EUA sobre a pol\u00edtica externa da Europa. Desde o fim da URSS em 1991, os EUA t\u00eam atuado sistematicamente para excluir a R\u00fassia de qualquer estrutura de seguran\u00e7a europeia que pudesse substituir a OTAN, alian\u00e7a nascida da guerra fria com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E, como se poderia prever, essa pol\u00edtica provocou a hostilidade da R\u00fassia, mesmo antes de Putin chegar ao poder e numa \u00e9poca em que conselheiros estadunidenses ocupavam cargos-chave na administra\u00e7\u00e3o russa. A hostilidade da R\u00fassia, por sua vez, serviu como uma justificativa conveniente para a expans\u00e3o cont\u00ednua da OTAN. E assim, n\u00e3o demorou muito para a OTAN declarar a R\u00fassia como uma amea\u00e7a existencial \u00e0 seguran\u00e7a de seus membros. O c\u00edrculo foi fechado.<\/p>\n<p>Antes de continuar, devo esclarecer uma coisa: reconhecer as preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a da R\u00fassia e o papel de Washington em provocar e prolongar a guerra atual n\u00e3o significa a exonera\u00e7\u00e3o de Moscou de sua responsabilidade pela perda de vidas e destrui\u00e7\u00e3o material causada pela guerra atual. A Carta da ONU reconhece apenas duas exce\u00e7\u00f5es \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do recurso \u00e0 for\u00e7a militar por um Estado contra outro: quando o uso da for\u00e7a \u00e9 autorizado pelo Conselho de Seguran\u00e7a ou quando um Estado pode de modo fundamentado alegar leg\u00edtima defesa.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da OTAN at\u00e9 as fronteiras da R\u00fassia, o armamento e treinamento do ex\u00e9rcito ucraniano, a partir do golpe de 2014, a revoga\u00e7\u00e3o por Washington de uma s\u00e9rie de tratados de limita\u00e7\u00e3o de armas nucleares e o posicionamento de base de lan\u00e7amento de m\u00edsseis na Pol\u00f4nia e na Rom\u00eania, a apenas 5 a 7 minutos de voo de Moscou \u2013 s\u00e3o fatos que Moscou pode, a meu ver, legitimamente considerar como s\u00e9rias amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Mas a amea\u00e7a\u00a0<em>n\u00e3o foi imediata<\/em>, e por isso n\u00e3o justificou a invas\u00e3o. Moscou n\u00e3o havia esgotado todas as alternativas. Mesmo do seu pr\u00f3prio ponto de vista, a invas\u00e3o agravou sua situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a ao solidificar a OTAN sob a lideran\u00e7a dos Estados Unidos e, principalmente, ao permitir que Washington consolidasse o apoio da Fran\u00e7a e da Alemanha \u00e0 pol\u00edtica agressiva da OTAN em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Esses dois membros da OTAN eram os que mais se opunham \u00e0 sua expans\u00e3o, antes da invas\u00e3o. Agora a Su\u00e9cia e a Finl\u00e2ndia, anteriormente \u201cneutras\u201d (embora, efetivamente, a caminho da integra\u00e7\u00e3o\u00a0<em>de facto<\/em>\u00a0dos seus ex\u00e9rcitos nas for\u00e7as da OTAN), decidiram juntar-se \u00e0 alian\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos dias que antecederam a invas\u00e3o, a R\u00fassia afirmou que a Ucr\u00e2nia planejava invadir as regi\u00f5es dissidentes. Na v\u00e9spera da invas\u00e3o, ap\u00f3s abster-se de faz\u00ea-lo durante os oito anos de guerra civil, Moscou finalmente reconheceu a independ\u00eancia das duas regi\u00f5es de Donbass e assinou um tratado de defesa m\u00fatua com elas. Isso permitiria a Moscou alegar que estava invadindo legitimamente em resposta ao pedido de aliados, v\u00edtimas de agress\u00e3o.<\/p>\n<p>A validade da alega\u00e7\u00e3o de que Kiev estava se preparando para atacar n\u00e3o \u00e9 clara, embora nos meses anteriores \u00e0 invas\u00e3o da R\u00fassia, Kiev tenha declarado abertamente sua inten\u00e7\u00e3o de retomar todo o seu territ\u00f3rio, incluindo a Crimeia, pela for\u00e7a armada. E havia concentrado 120 mil soldados, metade de seu ex\u00e9rcito, na fronteira da dissidente regi\u00e3o de Donbass. Nos quatro dias anteriores \u00e0 invas\u00e3o, os 700 observadores da OSCE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o na Europa) documentaram uma enorme intensifica\u00e7\u00e3o dos bombardeios, a maioria do lado de Kiev da linha de demarca\u00e7\u00e3o, ou seja, das for\u00e7as ucranianas. Nos oito anos anteriores \u00e0 invas\u00e3o, 18 mil vidas, das quais 1.304 civis, foram perdidas, a grande maioria do lado insurgente.<\/p>\n<p>Como foi observado, a CIA confirma que a decis\u00e3o de invadir foi tomada por Moscou em fevereiro, apenas alguns dias antes de ela se efetivar. Isso contradiz as repetidas afirma\u00e7\u00f5es do governo dos EUA nos meses anteriores de que uma invas\u00e3o era iminente.<\/p>\n<p>Do meu ponto de vista, quaisquer que fossem as inten\u00e7\u00f5es de Kiev antes da invas\u00e3o, Moscou deveria ter esperado antes de lan\u00e7ar o ataque com seu ex\u00e9rcito. At\u00e9 que Kiev atacasse, poderia ter continuado a buscar o apoio da Fran\u00e7a e da Alemanha para um tratado de seguran\u00e7a, j\u00e1 que esses dois Estados eram os que mais se opunham \u00e0 expans\u00e3o da OTAN. Como tal, a invas\u00e3o aparentemente empurrou at\u00e9 mesmo uma parte da popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia que at\u00e9 ent\u00e3o simpatizava com a R\u00fassia para os bra\u00e7os dos ultranacionalistas.<\/p>\n<p>Uma vez que a guerra come\u00e7ou, a posi\u00e7\u00e3o humanista \u00e9 exigir um fim r\u00e1pido e negociado para minimizar a perda de vidas e de infraestrutura socioecon\u00f4mica. Pois\u00a0<em>depois de come\u00e7ar uma guerra, o ato mais repreens\u00edvel \u00e9 mant\u00ea-la quando n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de que a continua\u00e7\u00e3o da luta possa mudar o seu resultado<\/em>.<\/p>\n<p>No entanto, essa \u00e9 exatamente a pol\u00edtica de Kiev e da OTAN, cujo objetivo, nas palavras de Biden, \u00e9 \u201cenfraquecer a R\u00fassia\u201d. Incrivelmente, essa recusa da diplomacia \u00e9 apoiada at\u00e9 por certos c\u00edrculos que se identificam com a esquerda socialista.<\/p>\n<p>Deve-se entender que, apesar da falsa imagem do curso da guerra para a Ucr\u00e2nia que foi apresentada pelos porta-vozes da OTAN e pela m\u00eddia servil, a realidade \u00e9 que a continua\u00e7\u00e3o da luta s\u00f3 pode aumentar o sofrimento dos trabalhadores da Ucr\u00e2nia, sem esperan\u00e7a que isso melhorar\u00e1 o resultado da guerra para eles. O oposto \u00e9 verdadeiro.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o da integridade territorial da Ucr\u00e2nia, o objetivo declarado de Kyiv que \u00e9 apoiado pela OTAN, \u00e9 certamente leg\u00edtimo (pelo menos na medida em que n\u00e3o negar o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o cultural ou territorial de grupos \u00e9tnicos e lingu\u00edsticos n\u00e3o ucranianos). Mas esse objetivo, declarado agora por Kiev, \u00e9 ilus\u00f3rio. Um acordo \u00e9, portanto, inevit\u00e1vel.\u00a0<em>Insistir em prosseguir a guerra at\u00e9 que todo o territ\u00f3rio perdido seja recuperado \u00e9, de fato, t\u00e3o criminoso, se n\u00e3o mais criminoso, quanto a pr\u00f3pria invas\u00e3o<\/em>. Al\u00e9m disso, a busca obstinada desse objetivo quim\u00e9rico amplia o risco de um confronto direto com a OTAN e a guerra nuclear.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia \u2013 que foram amplamente ignoradas pela m\u00eddia servil \u2013 de fato ocorreram nas primeiras semanas da guerra e pareciam estar progredindo bem. Segundo relatos, a Ucr\u00e2nia aceitou um\u00a0<em>status<\/em>\u00a0neutro, n\u00e3o alinhado e n\u00e3o nuclear, com seguran\u00e7a garantida, em caso de ataque, pelos membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. A R\u00fassia, por sua vez, abandonou sua exig\u00eancia de \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d e a Ucr\u00e2nia prometeu restaurar o\u00a0<em>status<\/em>\u00a0de l\u00edngua oficial do russo, que havia sido banida da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m algum movimento em dire\u00e7\u00e3o a um acordo nas quest\u00f5es espinhosas relativas ao\u00a0<em>status<\/em>\u00a0do Donbass. Quanto \u00e0 Crimeia, que a R\u00fassia claramente nunca devolver\u00e1, foi acordado adiar uma resolu\u00e7\u00e3o final por 15 anos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco semanas de guerra, Kiev e Moscou expressavam otimismo quanto a um cessar-fogo negociado. Mas, naquele preciso momento, o presidente dos Estados Unidos encerrou sua visita \u00e0 Europa com um discurso marcante. Depois de afirmar que Putin queria recriar um imp\u00e9rio, declarou: \u201cPelo amor de Deus, esse homem n\u00e3o pode permanecer no poder!\u201d Alguns dias depois, o ent\u00e3o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, apareceu repentinamente em Kiev. Um assessor de Zelensky disse \u00e0 m\u00eddia que ele trouxe uma mensagem simples: \u201cN\u00e3o assine um acordo com Putin, que \u00e9 um criminoso de guerra\u201d.<\/p>\n<p>Como que por coincid\u00eancia, isso aconteceu logo ap\u00f3s a retirada das tropas russas de Kiev, o que foi apresentado pela m\u00eddia ocidental \u2013 erroneamente, a meu ver \u2013 como um sinal de que a Ucr\u00e2nia poderia de fato vencer a guerra. E ao mesmo tempo, tamb\u00e9m como que por coincid\u00eancia, Kiev anunciou a descoberta de crimes de guerra atribu\u00eddos \u00e0s for\u00e7as russas na aldeia de Bucha. Isso p\u00f4s fim \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Enquanto Moscou repete regularmente o seu desejo de retomar a diplomacia, Kiev insiste nas suas condi\u00e7\u00f5es para acabar com a guerra: a devolu\u00e7\u00e3o de todo o seu territ\u00f3rio, incluindo a Crimeia. Inclusive colocou Henry Kissinger em sua lista de inimigos da Ucr\u00e2nia por ele ter pedido um acordo negociado que significaria, pelo menos temporariamente, um retorno ao\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0territorial anterior \u00e0 invas\u00e3o e \u00e0 neutralidade da Ucr\u00e2nia. Um assessor de Zelensky descreveu essa declara\u00e7\u00e3o como uma \u201cpunhalada nas costas da Ucr\u00e2nia\u201d. Algu\u00e9m comentou que, quando Henry Kissinger se torna a voz da raz\u00e3o, \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente grave.<\/p>\n<p>Devemos lembrar que Zelensky foi eleito presidente em 2019 com uma plataforma de paz, obtendo 73,2% dos votos. Ele imediatamente declarou sua inten\u00e7\u00e3o de reiniciar o Acordo de Minsk e que estava preparado para pagar o pre\u00e7o com uma perda de popularidade. Dmitrii Yarosh, o l\u00edder neofascista que havia sido nomeado conselheiro do chefe do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, respondeu em uma entrevista na televis\u00e3o que n\u00e3o seria a popularidade de Zelensky que sofreria. \u201cEle vai perder a vida. Ele ser\u00e1 enforcado em alguma \u00e1rvore na Kreschatik [uma rua central de Kiev], se trair a Ucr\u00e2nia e aqueles que morreram na revolu\u00e7\u00e3o e na guerra\u201d.<\/p>\n<p>Mas, em outubro de 2019, Zelensky assinou um novo acordo com a R\u00fassia e os dissidentes de Donbass para a remo\u00e7\u00e3o de armas pesadas da linha de contato, uma troca de prisioneiros e a concess\u00e3o de uma medida de autonomia \u00e0 regi\u00e3o \u2013 tudo no acordo de Minsk II. E quando os soldados do batalh\u00e3o neofascista Azov se recusaram se retirar, Zelensky viajou para o Donbass para cham\u00e1-los \u00e0 ordem. Mas grupos de extrema-direita bloquearam a retirada e, em 14 de outubro de 2019, 10 mil manifestantes mascarados, vestidos de preto e carregando tochas, marcharam pelas ruas de Kiev, gritando \u201cGl\u00f3ria \u00e0 Ucr\u00e2nia! Sem capitula\u00e7\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>Zelensky finalmente entendeu a mensagem. A partir do golpe de 2014, os neofascistas penetraram cada vez mais nas v\u00e1rias estruturas armadas e outras do Estado (especialmente o ex\u00e9rcito e as pol\u00edcias civil e pol\u00edtica). Sua ideologia, cujo cerne \u00e9 um \u00f3dio profundo pela R\u00fassia e por tudo que \u00e9 russo, penetrou em c\u00edrculos pol\u00edticos al\u00e9m do setor abertamente neofascista, incluindo aqueles que se declaram liberais.<\/p>\n<p>H\u00e1 assim uma alian\u00e7a entre o \u201cdeep state\u201d dos EUA, que n\u00e3o esconde o seu objetivo de enfraquecer a R\u00fassia, de lhe impor uma \u201cderrota estrat\u00e9gica\u201d, e os neonazistas ultranacionalistas ucranianos, que exercem uma significativa, talvez decisiva, influ\u00eancia sobre o governo: em outubro passado, Zelensky chegou a assinar um decreto sobre a \u201cimpossibilidade\u201d de negociar com Putin \u2013 uma f\u00f3rmula desastrosa para os trabalhadores da Ucr\u00e2nia e de todo o mundo.<\/p>\n<p>A esquerda canadense deveria exigir que o governo canadense pressione por um cessar-fogo imediato e pelo retorno \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es, algo que Moscou tem solicitado continuamente. A reportagem profundamente tendenciosa dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o sobre as \u201cgrandes vit\u00f3rias\u201d do ex\u00e9rcito ucraniano \u2013 quando, na verdade, se trata de retiradas estrat\u00e9gicas da R\u00fassia, realizadas em boa ordem e com o m\u00ednimo de perdas, na prepara\u00e7\u00e3o de uma grande ofensiva com for\u00e7as consolidadas e aumentadas (considerando que a R\u00fassia fez a invas\u00e3o em fevereiro com um bra\u00e7o amarrado nas costas) \u2013 n\u00e3o pode mudar o fato b\u00e1sico: Kiev n\u00e3o pode vencer a guerra, ou mesmo melhorar sua posi\u00e7\u00e3o, por meios militares, sem interven\u00e7\u00e3o direta da OTAN, e a amea\u00e7a de um confronto nuclear que isso acarretaria.<\/p>\n<p>A longo prazo, a esquerda deve construir um amplo movimento \u2013 como aquele que ajudou a bloquear a participa\u00e7\u00e3o canadense na guerra do Iraque contra o Iraque ou o posicionamento de m\u00edsseis nucleares de m\u00e9dio alcance na Europa na d\u00e9cada de 1980 \u2013 para exigir que o Canad\u00e1 deixe a OTAN, que \u00e9 uma perigosa organiza\u00e7\u00e3o imperialista que amea\u00e7a toda a humanidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p>*David Mandel \u00e9 militante socialista e sindical no Qu\u00e9bec, especialista em pa\u00edses da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Ensina na Universidade de Quebec em Montreal. Participa h\u00e1 mais de vinte anos de projetos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sindical na Ucr\u00e2nia, R\u00fassia e Belarus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por David Mandel* Nova escalada acende risco de conflito fora de controle e deslize nuclear. Exame dos fatos revela: propaganda ocidental \u00e9 falsa. 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