{"id":157856,"date":"2015-01-22T23:23:16","date_gmt":"2015-01-22T23:23:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=157856"},"modified":"2015-01-22T23:44:45","modified_gmt":"2015-01-22T23:44:45","slug":"charlie-hebdo-uma-reflexao-dificil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2015\/01\/charlie-hebdo-uma-reflexao-dificil\/","title":{"rendered":"Charlie Hebdo: Uma reflex\u00e3o dif\u00edcil"},"content":{"rendered":"<p>Por Boaventura Santos publicado no portal Carta Maior<\/p>\n<p>O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo torna muito dif\u00edcil uma an\u00e1lise serena do que est\u00e1 envolvido neste ato b\u00e1rbaro, do seu contexto e seus precedentes e do seu impacto e repercuss\u00f5es futuras. No entanto, esta an\u00e1lise \u00e9 urgente, sob pena de continuarmos a atear um fogo que amanh\u00e3 pode atingir as escolas dos nossos filhos, as nossas casas, as nossas institui\u00e7\u00f5es e as nossas consci\u00eancias. Eis algumas das pistas para tal an\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>A luta contra o terrorismo, tortura e democracia.<\/strong> N\u00e3o se podem estabelecer liga\u00e7\u00f5es diretas entre a trag\u00e9dia do Charlie Hebdo e a luta contra o terrorismo que os EUA e seus aliados t\u00eam vindo a travar desde o 11 de setembro de 2001. Mas \u00e9 sabido que a extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muito milhares de civis inocentes (quase todos mu\u00e7ulmanos) e t\u00eam sujeitado a n\u00edveis de tortura de uma viol\u00eancia inacredit\u00e1vel jovens mu\u00e7ulmanos contra os quais as suspeitas s\u00e3o meramente especulativas, como consta do recente relat\u00f3rio presente ao Congresso norte-americano. E tamb\u00e9m \u00e9 sabido que muitos jovens isl\u00e2micos radicais declaram que a sua radicaliza\u00e7\u00e3o nasceu da revolta contra tanta viol\u00eancia impune.<\/p>\n<p>Perante isto, devemos refletir se o caminho para travar a espiral de viol\u00eancia \u00e9 continuar a seguir as mesmas pol\u00edticas que a t\u00eam alimentado como \u00e9 agora demasiado patente. A resposta francesa ao ataque mostra que a normalidade constitucional democr\u00e1tica est\u00e1 suspensa e que um estado de s\u00edtio n\u00e3o declarado est\u00e1 em vigor, que os criminosos deste tipo, em vez de presos e julgados, devem ser abatidos, que este fato n\u00e3o representa aparentemente nenhuma contradi\u00e7\u00e3o com os valores ocidentais. Entramos num clima de guerra civil de baixa intensidade. Quem ganha com ela na Europa? Certamente n\u00e3o o partido Podemos em Espanha ou o Syriza na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p><strong>A liberdade de express\u00e3o.<\/strong> \u00c9 um bem precioso mas tem limites, e a verdade \u00e9 que a esmagadora maioria deles s\u00e3o impostos por aqueles que defendem a liberdade sem limites sempre que \u00e9 a &#8220;sua&#8221; liberdade a sofr\u00ea-los. Exemplos de limites s\u00e3o imensos: se em Inglaterra um manifestante disser que David Cameron tem sangue nas m\u00e3os, pode ser preso; em Fran\u00e7as, as mulheres isl\u00e2micas n\u00e3o podem usar o hijab; em 2008 o cartoonista Maurice Sin\u00e9 foi despedido do Charlie Hebdo por ter escrito uma cr\u00f3nica alegadamente antissemita. Isto significa que os limites existem, mas s\u00e3o diferentes para diferentes grupos de interesse. Por exemplo, na Am\u00e9rica Latina, os grandes media, controlados por fam\u00edlias olig\u00e1rquicas e pelo grande capital, s\u00e3o os que mais clamam pela liberdade de express\u00e3o sem limites para insultar os governos progressistas e ocultar tudo o que de bom estes governos t\u00eam feito pelo bem-estar dos mais pobres.<\/p>\n<p>Aparentemente, o Charlie Hebdo n\u00e3o reconhecia limites para insultar os mu\u00e7ulmanos, mesmo que muitos dos cartoons fossem propaganda racista e alimentassem a onda islamof\u00f3bica e anti-imigrante que avassala a Fran\u00e7a e a Europa em geral. Para al\u00e9m de muitos cartoons com o Profeta em poses pornogr\u00e1ficas, um deles, bem aproveitado pela extrema-direita, mostrava um conjunto de mulheres mu\u00e7ulmanas gr\u00e1vidas, apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram, que, apontando para a barriga, pediam que n\u00e3o lhes fosse retirado o apoio social \u00e0 gravidez. De um golpe, estigmatizava-se o isl\u00e3o, as mulheres e o estado de bem-estar social. Obviamente, que, ao longo dos anos, a maior comunidade isl\u00e2mica da Europa foi-se sentindo ofendida por esta linha editorial, mas foi igualmente imediato o seu rep\u00fadio por este crime b\u00e1rbaro. Devemos, pois, refletir sobre as contradi\u00e7\u00f5es e assimetrias na vida vivida dos valores que alguns creem ser universais.<\/p>\n<p><strong>A toler\u00e2ncia e os &#8220;valores ocidentais&#8221;.<\/strong> O contexto em que o crime ocorreu \u00e9 dominado por duas correntes de opini\u00e3o, nenhuma delas favor\u00e1vel \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma Europa inclusiva e intercultural. A mais radical \u00e9 frontalmente islamof\u00f3bica e anti-imigrante. \u00c9 a linha dura da extrema direita em toda a Europa e da direita, sempre que se v\u00ea amea\u00e7ada por elei\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas (o caso de Antonis Samara na Gr\u00e9cia). Para esta corrente, os inimigos da civiliza\u00e7\u00e3o europeia est\u00e3o entre &#8220;n\u00f3s&#8221;, odeiam-nos, t\u00eam os nossos passaportes, e a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se resolve vendo-nos n\u00f3s livres deles. A puls\u00e3o anti-imigrante \u00e9 evidente. A outra corrente \u00e9 a da toler\u00e2ncia. Estas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito distintas de n\u00f3s, s\u00e3o um fardo, mas temos de as &#8220;aguentar&#8221;, at\u00e9 porque nos s\u00e3o uteis; no entanto, s\u00f3 o devemos fazer se elas forem moderadas e assimilarem os nossos valores. Mas o que s\u00e3o os &#8220;valores ocidentais&#8221;?<\/p>\n<p>Depois de muitos s\u00e9culos de atrocidades cometidas em nome destes valores dentro e fora da Europa&#8211;da viol\u00eancia colonial \u00e0s duas guerras mundiais&#8211;exige-se algum cuidado e muita reflex\u00e3o sobre o que s\u00e3o esses valores e por que raz\u00e3o, consoante os contextos, ora se afirmam uns ora se afirmam outros. Por exemplo, ningu\u00e9m p\u00f5e hoje em causa o valor da liberdade, mas j\u00e1 o mesmo n\u00e3o se pode dizer dos valores da igualdade e da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que fundaram o Estado social de bem-estar que dominou a Europa democr\u00e1tica depois de segunda guerra mundial. No entanto, nos \u00faltimos anos, a prote\u00e7\u00e3o social, que garantia n\u00edveis mais altos de integra\u00e7\u00e3o social, come\u00e7ou a ser posta em causa pelos pol\u00edticos conservadores e \u00e9 hoje concebida como um luxo inacess\u00edvel para os partidos do chamado &#8220;arco da governabilidade&#8221;. A crise social causada pela eros\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social e pelo aumento do desemprego, sobretudo entre jovens, n\u00e3o ser\u00e1 lenha para o fogo do radicalismo por parte dos jovens que, al\u00e9m do desemprego, sofrem a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-religiosa?<\/p>\n<p><strong>O choque de fanatismos, n\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es.<\/strong> N\u00e3o estamos perante um choque de civiliza\u00e7\u00f5es, at\u00e9 porque a crist\u00e3 tem as mesmas ra\u00edzes que a isl\u00e2mica. Estamos perante um choque de fanatismos, mesmo que alguns deles n\u00e3o apare\u00e7am como tal por nos serem mais pr\u00f3ximos. A hist\u00f3ria mostra como muitos dos fanatismos e seus choques estiveram relacionados com interesses econ\u00f3micos e pol\u00edticos que, ali\u00e1s, nunca beneficiaram os que mais sofreram com tais fanatismos. Na Europa e suas \u00e1reas de influ\u00eancia \u00e9 o caso das cruzadas, da Inquisi\u00e7\u00e3o, da evangeliza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es coloniais, das guerras religiosas e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, uma religi\u00e3o t\u00e3o pac\u00edfica como o budismo legitimou o massacre de muitos milhares de membros da minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os fundamentalistas hindus massacraram as popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas de Gujarat em 2003 e o eventual maior acesso ao poder que ter\u00e3o conquistado recentemente com a vit\u00f3ria do Presidente Modi faz prever o pior; \u00e9 tamb\u00e9m em nome da religi\u00e3o que Israel continua a impune limpeza \u00e9tnica da Palestina e que o chamado califado massacra popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas na S\u00edria e no Iraque.<\/p>\n<p>A defesa da laicidade sem limites numa Europa intercultural, onde muitas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o se reconhecem em tal valor, ser\u00e1 afinal uma forma de extremismo? Os diferentes extremismos op\u00f5em-se ou articulam-se? Quais as rela\u00e7\u00f5es entre os jihadistas e os servi\u00e7os secretos ocidentais? Por que \u00e9 que os jihadistas do Emirato Isl\u00e2mico, que s\u00e3o agora terroristas, eram combatentes de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e contra Assad? Como se explica que o Emirato Isl\u00e2mico seja financiado pela Ar\u00e1bia Saudita, Qatar, Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente? Uma coisa \u00e9 certa, pelo menos na \u00faltima d\u00e9cada, a esmagadora maioria das v\u00edtimas de todos os fanatismos (incluindo o isl\u00e2mico) s\u00e3o popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas n\u00e3o fan\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>O valor da vida.<\/strong> A repulsa total e incondicional que os europeus sentem perante estas mortes devem-nos fazer pensar por que raz\u00e3o n\u00e3o sentem a mesma repulsa perante um n\u00famero igual ou muito superior de mortes inocentes em resultado de conflitos que, no fundo, talvez tenham algo a ver com a trag\u00e9dia do Charlie Hebdo? No mesmo dia, 37 jovens foram mortos no Yemen num atentado bombista. No ver\u00e3o passado, a invas\u00e3o israelita causou a morte de 2000 palestinianos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crian\u00e7as. No M\u00e9xico, desde 2000, foram assassinados 102 jornalistas por defenderem a liberdade de imprensa e, em Novembro de 2014, 43 jovens, em Ayotzinapa. Certamente que a diferen\u00e7a na rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode estar baseada na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura crist\u00e3, vale mais que a vida de n\u00e3o europeus ou de europeus de outras cores e de culturas assentes noutras religi\u00f5es ou regi\u00f5es. Ser\u00e1 ent\u00e3o porque estes \u00faltimos est\u00e3o mais longe dos europeus ou s\u00e3o pior conhecidos por eles? Mas o mandato crist\u00e3o de amar o pr\u00f3ximo permite tais distin\u00e7\u00f5es? Ser\u00e1 porque os grande media e os l\u00edderes pol\u00edticos do Ocidente trivializam o sofrimento causado a esses outros, quando n\u00e3o os demonizam ao ponto de fazerem pensar que eles n\u00e3o merecem outra coisa?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Boaventura Santos publicado no portal Carta Maior O crime hediondo que foi cometido contra os jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo torna muito dif\u00edcil uma an\u00e1lise serena do que est\u00e1 envolvido neste ato b\u00e1rbaro, do seu contexto e 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