{"id":153482,"date":"2014-12-17T01:34:47","date_gmt":"2014-12-17T01:34:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=153482"},"modified":"2014-12-17T01:34:47","modified_gmt":"2014-12-17T01:34:47","slug":"quem-tem-levado-pessoas-para-ruas-tem-sido-pequenos-grupos-leia-entrevista-com-marcelo-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2014\/12\/quem-tem-levado-pessoas-para-ruas-tem-sido-pequenos-grupos-leia-entrevista-com-marcelo-branco\/","title":{"rendered":"&#8220;Quem tem levado as pessoas para as ruas t\u00eam sido pequenos grupos&#8221;, leia entrevista com Marcelo Branco"},"content":{"rendered":"<p>Por\u00a0Alexandre Haubrich publicada no <a href=\"http:\/\/jornalismob.com\/\" target=\"_blank\">Jornalismo B<\/a><br \/>\nAos 53 anos e trabalhando na \u00e1rea de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o desde os 16, Marcelo Branco \u00e9 um dos mais respeitados pensadores \u2013 e ativistas \u2013 das redes sociais digitais e de seus usos pol\u00edticos. Acompanhou de perto a virada do que eram os sistemas anal\u00f3gicos para a digitaliza\u00e7\u00e3o e, militante petista, com a ascens\u00e3o da luta pelo Software Livre passou a misturar o trabalho profissional com o ativismo pol\u00edtico. Organizou os primeiros Campus Party no Brasil, e, em 2010, coordenou a campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT) nas redes sociais. Diz estar curioso com os movimentos sociais de novos formatos, desafiado por compreender o que h\u00e1 de comum entre as mobiliza\u00e7\u00f5es que ocorreram no mundo \u00e1rabe, na Espanha, em Wall Street, no M\u00e9xico e no Brasil, \u201cque nascem na internet, se encubam na internet, se fortalecem nas ruas, se alimentam nas redes e, em algum momento, viralizam como um viral de internet, e a revolta generaliza\u201d. \u00c9 a partir da\u00ed que come\u00e7a a entrevista que concedeu ao Jornalismo B:<\/p>\n<p><strong>Se colocam assim potencialidades e limita\u00e7\u00f5es desse tipo de movimento. No Brasil, por exemplo, explodiu r\u00e1pido e tamb\u00e9m recuou r\u00e1pido. Isso \u00e9 um pouco caracter\u00edstico da pr\u00f3pria internet?<\/strong><\/p>\n<p>Esses movimentos s\u00f3 foram poss\u00edveis porque existe a internet, no mundo inteiro, todos eles. Se n\u00e3o tivesse a internet, isso n\u00e3o teria acontecido. Segundo: a for\u00e7a dos movimentos mais organizados \u2013 Movimento Passe Livre, Bloco de Lutas, M\u00eddia Ninja \u2013, que s\u00e3o grupos organizados ativos, que tiveram um papel bastante importante no Brasil, ela n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico fator que determinou aquela explos\u00e3o, falando no nosso campo, o campo popular de esquerda. H\u00e1 um elemento, ainda, que fez essa explos\u00e3o acontecer em todos os lugares, que d\u00e1 para dizer que \u00e9 espont\u00e2neo. Esses movimentos originais, que iniciaram os protestos no Brasil, isso foi al\u00e9m deles. A internet viralizou uma indigna\u00e7\u00e3o. P\u00f3s manifesta\u00e7\u00f5es de Junho, p\u00f3s revolta dos indignados na Espanha, as mesmas for\u00e7as pol\u00edticas, inclusive com mais aliados pol\u00edticos, tentaram fazer algo igual, e tiveram uma for\u00e7a nas redes igual ou maior, e essas revoltas n\u00e3o aconteceram. S\u00e3o movimentos que nascem encubados na rede, saem para as ruas, e se realimentam. E mesmo que se tente organizar de novo, em outro momento, isso n\u00e3o tem acontecido. Ent\u00e3o acho que a potencialidade desses movimentos \u00e9 a for\u00e7a pol\u00edtica que eles t\u00eam. Desde Seattle, em 1999, se observa que quem tem levado pessoas para as ruas n\u00e3o eram os partidos, n\u00e3o eram os sindicatos, n\u00e3o eram as organiza\u00e7\u00f5es tradicionais, que enfrentam uma crise de representa\u00e7\u00e3o das suas bases sociais. E quem tem levado as pessoas para as ruas t\u00eam sido pequenos grupos, pequenas organiza\u00e7\u00f5es, ou os indiv\u00edduos conectados em rede em torno de uma ideia.<\/p>\n<p><strong>Essas organiza\u00e7\u00f5es, partidos, movimentos populares tradicionais, sindicatos, n\u00e3o t\u00eam compreendido o papel da internet?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que s\u00e3o duas coisas. Sim, \u00e9 verdade que elas n\u00e3o t\u00eam compreendido o papel da internet. At\u00e9 junho do ano passado, pelo menos, viam tudo isso com muito ceticismo, e at\u00e9 cr\u00edtico e preconceituoso com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s novas formas, \u00e0 internet. Mas acho que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de programa, \u00e9 uma quest\u00e3o estrutural. Esse tipo de organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, que s\u00e3o os partidos, as associa\u00e7\u00f5es, os sindicatos, que representam seus filiados, seus sindicalizados perante a sociedade, a estrutura \u00e9 da Era Industrial, uma organiza\u00e7\u00e3o fruto da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e aquela organiza\u00e7\u00e3o social era a forma com que os movimentos viam, ter uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que era a \u00fanica poss\u00edvel. Porque individualmente ningu\u00e9m tinha a possibilidade de colocar uma ideia e essa ideia se transformar em uma revolta, enfim. Ent\u00e3o a forma encontrada, t\u00edpica da Era Industrial, foi essas organiza\u00e7\u00f5es, que continuam sendo muito importantes nas lutas, mas cada vez perdendo mais o seu peso. S\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas e verticais. Tiram as suas formas de luta em uma assembleia geral ou em uma conven\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, e aquelas reivindica\u00e7\u00f5es ou aquela plataforma pol\u00edtica passa a ser apresentada por aquela sigla ou por aquela entidade que representa os seus filiados. Os movimentos sociais em rede s\u00e3o de estrutura totalmente diferente. N\u00e3o h\u00e1 um intermedi\u00e1rio. S\u00e3o indiv\u00edduos conectados em rede fazendo grandes a\u00e7\u00f5es em massa, \u00e9 isso o que a gente t\u00eam observado desde 2011. E o que une as pessoas s\u00e3o as ideias. Inclusive as faixas na Espanha diziam assim: \u201co que nos une s\u00e3o as ideias\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ainda que organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas componham esses movimentos, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o relevantes\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Na Espanha foram totalmente irrelevantes. No Brasil, menos, porque aqui teve a for\u00e7a do Bloco de Lutas, teve a for\u00e7a do Movimento Passe Livre de S\u00e3o Paulo, e na internet uma for\u00e7a muito grande da M\u00eddia Ninja \u2013 e de v\u00e1rios outros coletivos, mas, pela leitura que a gente teve dos gr\u00e1ficos da rede, a M\u00eddia Ninja teve um papel importante nesse processo. E depois n\u00e3o teve\u2026 Nem d\u00e1 pra dizer que Junho no Brasil foi um movimento. Na Espanha eles dizem: \u201csomos do movimento 15M\u201d. No Brasil n\u00e3o, aqui foram os movimentos. Eu n\u00e3o acho que os movimentos hist\u00f3ricos que resistiram ao neoliberalismo no Brasil, impediram a Alca e, nessa luta, elegeram o Lula e sustentaram esse projeto pol\u00edtico at\u00e9 hoje, s\u00e3o movimentos que j\u00e1 eram. N\u00e3o, eles t\u00eam um papel muito importante. Agora, s\u00e3o movimentos distintos desses movimentos em rede. E podem em alguns momentos estar aliados, mas podem em outros momentos estar em contradi\u00e7\u00f5es. S\u00f3 que nunca os partidos, os sindicatos e as associa\u00e7\u00f5es v\u00e3o ser movimentos em rede, com estruturas horizontais. Pode at\u00e9 mudar o programa do PT, do PSOL, do PSTU, reformar e fazer um programa mais moderno, que tenha uma pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o nas redes sociais do que t\u00eam hoje, que \u00e9 muito ruim\u2026mas v\u00e3o ser movimentos hier\u00e1rquicos, t\u00edpicos da Era Industrial, da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. E esses novos movimentos que a gente t\u00eam visto n\u00e3o s\u00e3o movimentos t\u00edpicos da Era Industrial. S\u00e3o novidades, porque n\u00e3o t\u00eam intermedi\u00e1rio. Como a ind\u00fastria da m\u00fasica sofre at\u00e9 hoje o fim do intermedi\u00e1rio na m\u00fasica, como a comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 nessa do intermedi\u00e1rio, que era o ve\u00edculo, era o jornalista, e agora todo mundo faz comunica\u00e7\u00e3o sem o intermedi\u00e1rio. A internet veio para bagun\u00e7ar o coreto do intermedi\u00e1rio: ou ele se redescobre nesse novo cen\u00e1rio ou ele morre, porque o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o mesmo que era h\u00e1 15, 20 anos atr\u00e1s. Existe uma nova din\u00e2mica social e os protagonistas s\u00e3o outros, s\u00e3o os nativos digitais, que nasceram com a internet na m\u00e3o. E a l\u00f3gica do pensamento digital \u00e9 diferente da l\u00f3gica anal\u00f3gica do per\u00edodo anterior. Enfim, os partidos e sindicatos ainda t\u00eam o seu papel. Perderam o monop\u00f3lio da representa\u00e7\u00e3o, dos movimentos sociais, e t\u00eam sido menos capazes de produzir a\u00e7\u00f5es de massa do que essas novas formas de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que a comunica\u00e7\u00e3o deles \u00e9 ruim?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito a influ\u00eancia dos jornalistas, dos assessores de imprensa. Fazem uma comunica\u00e7\u00e3o broadcasting, como a comunica\u00e7\u00e3o de massa funciona: transmite uma ideia, um conte\u00fado, bota ali e transmite, isso vai atingir centenas, ou milhares ou milh\u00f5es. Os partidos agem assim, passam o dia inteiro botando banner com propaganda do partido, o que o partido acha certo, o que o partido acha errado\u2026e usa o Facebook e Twitter, mas n\u00e3o faz autocomunica\u00e7\u00e3o. As campanhas eleitorais sofreram desse mal tamb\u00e9m. A forma de conex\u00e3o t\u00edpica das redes sociais \u00e9 uma autocomunica\u00e7\u00e3o de massas, n\u00e3o \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o mass media, uma comunica\u00e7\u00e3o broadcasting. Ent\u00e3o o sucesso da tua comunica\u00e7\u00e3o vai depender muito do quanto mais ela engajou o p\u00fablico na constru\u00e7\u00e3o da tua not\u00edcia, na constru\u00e7\u00e3o do teu conte\u00fado, no coment\u00e1rio, na publica\u00e7\u00e3o de novos fatos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele conte\u00fado publicado originalmente. Ent\u00e3o \u00e9 isso o que funciona. Se a gente ver o que for o gr\u00e1fico de radiografia das redes nessas elei\u00e7\u00f5es, com dois blocos que n\u00e3o se falavam entre si e n\u00e3o falavam com mais ningu\u00e9m nas redes, e o que foi a comunica\u00e7\u00e3o em Junho no Brasil. N\u00e3o tinha um n\u00facleo forte que espalhava a not\u00edcia, e aquele conte\u00fado era disseminado. Eram milhares, milh\u00f5es de pessoas gerando conte\u00fado, sem falar entre si, mas com o mesmo sentido. Ent\u00e3o havia di\u00e1logo, comunica\u00e7\u00e3o, entre aqueles atores daquele movimento, gerando conte\u00fado pr\u00f3prio. O di\u00e1logo, o engajamento\u2026o pr\u00f3prio mercado usa esse termo: nas redes sociais tem que ter engajamento do consumidor na tua marca, se n\u00e3o n\u00e3o prospera. Os pr\u00f3prios monop\u00f3lios (de m\u00eddia) aqui do Sul, \u201cmande sua foto, mande seu conte\u00fado, comente, leitor ativo\u2026\u201d.<\/p>\n<p><strong>Eles est\u00e3o entendendo\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim, eles est\u00e3o entendendo. Eles est\u00e3o em busca, correndo, e avan\u00e7ando mais do que a esquerda. A esquerda sempre teve preconceito em rela\u00e7\u00e3o a essas novas formas, e eu acho que \u00e9 natural, pela estrutura de poder que se constituiu na esquerda, nos partidos pol\u00edticos, nos movimentos e no Estado. \u00c9 onde est\u00e1 mais atrasado as novas formas. No mundo inteiro, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. Os partidos e os Estados n\u00e3o se abrem para novas formas de participa\u00e7\u00e3o via internet. Porque t\u00eam um poder pol\u00edtico estabelecido a partir da l\u00f3gica anterior, e esse novo cen\u00e1rio \u00e9 perda de poder. Imagina, o PT se funcionasse de forma horizontal, colaborativa\u2026o papel de um presidente, \u00e9 perda de poder. A executiva nacional n\u00e3o teria o poder que tem hoje. Ent\u00e3o \u00e9 uma forma de se manter estruturalmente no poder, o dirigente sindical, o l\u00edder estudantil\u2026a internet atrapalha essa ambi\u00e7\u00e3o de poder, essa disputa vertical de poder que existe nas institui\u00e7\u00f5es. Se isso \u00e9 positivo para a constru\u00e7\u00e3o de uma democracia, eu n\u00e3o sei, mas o per\u00edodo anterior n\u00e3o existe mais, e n\u00f3s temos que repensar como construir um aperfei\u00e7oamento da democracia representativa. N\u00f3s lutamos, e v\u00e1rios antepassados nossos deram suas vidas para construir essa democracia que n\u00f3s temos hoje no Brasil, mas ela n\u00e3o nos representa mais. N\u00e3o d\u00e1 para acharmos que isso aqui \u00e9 uma democracia. Existem hoje novas possibilidades de aperfei\u00e7oar a democracia com participa\u00e7\u00e3o direta. Com mais participa\u00e7\u00e3o e tomada de decis\u00e3o por parte da popula\u00e7\u00e3o nas pol\u00edticas p\u00fablicas do que era h\u00e1 15 ou 20 anos. S\u00f3 que essas plataformas n\u00e3o s\u00e3o incorporadas pelos Estados democr\u00e1ticos, republicanos. Existe uma resist\u00eancia dos poderes constitu\u00eddos em conviver com as novas formas. E esses jovens j\u00e1 vivem com as novas formas no seu cotidiano, para baixar m\u00fasica, para marcar festinha, para marcar eventos, para marcar passeata. No dia a dia eles j\u00e1 vivem com as novas formas, ent\u00e3o esse Estado que est\u00e1 a\u00ed n\u00e3o representa, porque \u00e9 pra votar de quatro em quatro anos\u2026como ele participa? Eu recebi uma mensagem no Facebook, durante as manifesta\u00e7\u00f5es de Junho, de um cara que eu conhe\u00e7o aqui de Porto Alegre, deve ter uns 20 anos\u2026ele disse \u201cBranco, eu queria falar contigo porque te acho mais ou menos politizado. No tempo de voc\u00eas, voc\u00eas n\u00e3o podiam falar, n\u00e3o podiam se expressar, liberdade de express\u00e3o era proibida, iam presos. Hoje n\u00e3o, a gente fala o que quiser. N\u00f3s podemos falar, somos livres para falar. S\u00f3 que ningu\u00e9m nos escuta. Black Bloc neles\u201d, o cara terminou assim. Preciso ser ouvido, preciso que algu\u00e9m me escute. Isso foi Junho.<\/p>\n<p><strong>Aproveitando que falaste da quest\u00e3o do fechamento do Estado, gostaria de uma avalia\u00e7\u00e3o tua sobre o Gabinete Digital (projeto do governo do Rio Grande do Sul que buscou criar ferramentas de participa\u00e7\u00e3o via internet).<\/strong><\/p>\n<p>Ele teve uma crise de identidade. Foi importante, talvez a \u00fanica marca diferencial desse governo Tarso Genro, pelo menos sob a \u00f3tica que eu vivo. Mas foi bastante t\u00edmida, tamb\u00e9m. No primeiro momento do Gabinete Digital, me pareceu que eles ficaram muito focados nas ferramentas. Parecia \u201ca inform\u00e1tica do governador\u201d. Constru\u00eda uma ferramenta do \u201cgovernador pergunta\u201d, \u201cgovernador responde\u201d, \u201cagenda do governador\u201d, que \u00e9 importante porque \u00e9 uma experi\u00eancia de novas formas de participa\u00e7\u00e3o, mas achei que ficou muito focado nas ferramentas. E n\u00e3o tinha nessas ferramentas novas v\u00ednculos com aquilo que n\u00f3s temos de hist\u00f3rico: Or\u00e7amento Participativo, Conselhos Populares\u2026era uma coisa dissociada. E coisas muito simples. O governador pergunta, a\u00ed o governador responde\u2026a TAM j\u00e1 tinha isso, de \u201cfale com o presidente\u201d. E em um segundo momento do Gabinete Digital ele deixou de ser uma coisa da tecnologia e passou a ser mais um espa\u00e7o da comunica\u00e7\u00e3o digital do governo. O \u201cTarso 2.0\u201d transitava pelo Gabinete Digital. Mudou toda a equipe, que era mais t\u00e9cnicos de Software Livre, e virou mais comunicadores, e ficou sendo o que a Secom deveria fazer em todo o governo. Ele disputou, confundiu o que seria o papel da Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o do Governo com o Gabinete Digital, e o Gabinete Digital ficou, pra mim, sem identidade. Ou era a constru\u00e7\u00e3o de ferramentas para a participa\u00e7\u00e3o, e a\u00ed ele ficou bastante t\u00edmido, e em um segundo momento era a comunica\u00e7\u00e3o 2.0 do governador, a comunica\u00e7\u00e3o interativa do governador. E eu acho que o auge de tudo isso foi nas manifesta\u00e7\u00f5es de Junho, o melhor momento do Gabinete Digital foi nas manifesta\u00e7\u00f5es de Junho, que foi usando n\u00e3o ferramentas constru\u00eddas pela Procergs, mas ferramentas como o hangout, botaram o governador em tempo real dialogando com as m\u00eddias sociais em um momento de crise institucional que a gente estava vivendo no Brasil e no Rio Grande do Sul. Foi o melhor momento do Gabinete Digital. Agora, como experi\u00eancia \u00e9 positiva.<\/p>\n<p><strong>Qual a relev\u00e2ncia das redes na disputa eleitoral, pensando especialmente na elei\u00e7\u00e3o nacional? Inclusive o S\u00e9rgio Amadeu disse que sem a internet o A\u00e9cio Neves teria vencido\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Eu concordo com ele. N\u00e3o que eu n\u00e3o ache que a internet poderia ter sido mais decisiva, tanto para um lado quanto para o outro. Acho que ainda foi muito pouco explorada, pelo potencial que tem. Mas se n\u00e3o fosse a internet, com aquela capa da Veja na finaleira da elei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ter\u00edamos uma resposta. Por onde \u00edamos dar essa resposta? Foi a internet que ajudou, o que fomos nas redes foi determinante para n\u00e3o termos perdido a elei\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o fossem as redes, o resultado eleitoral poderia ser diferente, e essa pequena margem talvez fosse favor\u00e1vel para o A\u00e9cio, e n\u00e3o para a gente. Ent\u00e3o sim, as redes sociais foram importantes nesse processo todo. Mas eu acho que as campanhas oficiais foram campanhas muito conservadoras, muito focadas na vis\u00e3o que tem o marqueteiro, que n\u00e3o conhece o ambiente da internet. Foi muito focada na reprodu\u00e7\u00e3o daquilo que ia pra TV, pro r\u00e1dio, pros impressos do partido. Houve pouco di\u00e1logo e muito broadcast, muita publica\u00e7\u00e3o de cima pra baixo<\/p>\n<p><strong>E se mantiveram os n\u00facleos isolados, com pouca intera\u00e7\u00e3o com os divergentes.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mesmo os militantes ficaram naqueles n\u00facleos, uma comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o dialoga, n\u00e3o passa. Os dois lados n\u00e3o dialogavam entre si. Teoricamente a internet poderia ter servido para a discuss\u00e3o de uma plataforma. \u00c9 que esse n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 da internet. Essa bipolariza\u00e7\u00e3o que existe no Brasil h\u00e1 mais de 12 anos empobrece a pol\u00edtica, porque os militantes de esquerda passam\u2026tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o. Se o buraco \u00e9 um buraco em Porto Alegre, o cara d\u00e1 uma patada no Fortunati. Se o buraco \u00e9 em S\u00e3o Leopoldo, ele defende o prefeito. O mesmo buraco, a mesma situa\u00e7\u00e3o. Se est\u00e3o cortando \u00e1rvores, depende de quem \u00e9 o prefeito. Ent\u00e3o tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de disputa eleitoral. Os jovens militantes dos partidos est\u00e3o pautados pelo calend\u00e1rio eleitoral. J\u00e1 est\u00e3o falando em 2018. Perdemos a disputa pol\u00edtica conceitual. Independente de termos ganho a elei\u00e7\u00e3o, n\u00f3s tivemos uma grande derrota ideol\u00f3gica, n\u00f3s perdemos nos conceitos. O Brasil que saiu das urnas \u00e9 um Brasil muito mais conservador do que era alguns anos atr\u00e1s. Perdemos nos conceitos. Abrimos m\u00e3o de fazer disputas pol\u00edticas, politizadas, sobre temas centrais. Sempre \u00e9 uma disputa em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo eleitoral. Junho, n\u00e3o. Os manifestantes de Junho tinham uma pauta pol\u00edtica. De todos os lados, mas tinham uma pauta pol\u00edtica que n\u00e3o estava presa ao calend\u00e1rio eleitoral. Queriam melhor Sa\u00fade, melhor Educa\u00e7\u00e3o, transporte coletivo de melhor qualidade, gratuito. Tinha uma pauta pol\u00edtica que n\u00e3o estava para ser direcionada para um governante ou para um partido que assumisse amanh\u00e3 ou depois. Inclusive, muitas reivindica\u00e7\u00f5es de Junho n\u00e3o cabem nos marcos institucionais que n\u00f3s temos hoje. Por isso que, do meu ponto de vista, foram revoltas antissistema. N\u00e3o eram pautas que cabiam dentro dos marcos institucionais no Brasil.<\/p>\n<p><strong>O PT entendeu mal isso?<\/strong><\/p>\n<p>Mal, muito mal. E pagamos o pre\u00e7o nessas elei\u00e7\u00f5es. Predomina at\u00e9 hoje, mesmo p\u00f3s elei\u00e7\u00f5es e a nossa quase derrota nacional, nos militantes do PT\u2026os militantes se comportaram muito mal. Os militantes de esquerda, em junho de 2013, onde pela primeira vez milh\u00f5es de jovens saem \u00e0s ruas, jovens que tinham de seis a oito anos quando o Lula chegou no governo, jovens que estavam fazendo sua estreia na pol\u00edtica, que at\u00e9 ent\u00e3o publicavam ovo frito e festinha de anivers\u00e1rio no Facebook e passaram a publicar \u201cmais Sa\u00fade, mais Educa\u00e7\u00e3o, melhor transporte coletivo\u201d\u2026esses jovens, que estavam tendo sua estreia na vida pol\u00edtica, foram chamados de \u201ccoxinhas\u201d, de \u201cagentes da CIA\u201d, de \u201cdireita\u201d. Enquanto o outro lado, a direita, soube usar melhor isso que estava acontecendo e dizer \u201cestamos junto com voc\u00eas\u201d. A an\u00e1lise dos gr\u00e1ficos mostra isso. At\u00e9 o dia 17 de junho, s\u00f3 tinha 13 a 15% de manifesta\u00e7\u00f5es na internet contra o PT e contra a Dilma. E o Brasil j\u00e1 estava nas ruas. E terminou junho com tudo no colo da Dilma. Houve tamb\u00e9m uma movimenta\u00e7\u00e3o da m\u00eddia de massas, dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, que, at\u00e9 a vaia para a Dilma no Man\u00e9 Garrincha (est\u00e1dio de futebol em Bras\u00edlia), chamavam os manifestantes de \u201cbandidos\u201d, \u201cdelinquentes\u201d. Esse era o tom dos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o do Brasil: Globo, Estad\u00e3o. Eles hostilizavam os manifestantes e estavam contra as manifesta\u00e7\u00f5es. Quando a Dilma foi vaiada no Man\u00e9 Garrincha eles viram que essas manifesta\u00e7\u00f5es poderiam ser manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo. E n\u00e3o era contra o governo, era contra o sistema pol\u00edtico, que tinha um governo de esquerda, progressista. Mas n\u00e3o era uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a Dilma, \u201cFora Dilma\u201d. Essa sensa\u00e7\u00e3o de que os movimentos de Junho foram capturados pela direita, ou que foram dirigidos pela direita, organizados pelo \u201cPIG\u201d (Partido da Imprensa Golpista, como s\u00e3o chamados alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos), \u00e9 uma viagem dos militantes de esquerda do PT. At\u00e9 hoje, p\u00f3s elei\u00e7\u00f5es, eles continuam tendo uma avalia\u00e7\u00e3o de que os movimentos de Junho foram organizados para derrotar a Dilma, para derrotar o PT. S\u00f3 tem os marcos eleitorais nas cabe\u00e7as desses militantes. Se os caras est\u00e3o l\u00e1 para reivindicar mais democracia, mais participa\u00e7\u00e3o, melhoria na Sa\u00fade, melhoria no transporte p\u00fablico, melhoria na Educa\u00e7\u00e3o, a esquerda tinha que estar junto com essa galera, e n\u00e3o dizendo \u201cv\u00e3o pra casa, voc\u00eas s\u00e3o agentes da CIA\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Alexandre Haubrich publicada no Jornalismo B Aos 53 anos e trabalhando na \u00e1rea de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o desde os 16, Marcelo Branco \u00e9 um dos mais respeitados pensadores \u2013 e ativistas \u2013 das redes sociais digitais e de seus 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