{"id":1495192,"date":"2021-12-26T14:11:22","date_gmt":"2021-12-26T14:11:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1495192"},"modified":"2021-12-26T14:11:22","modified_gmt":"2021-12-26T14:11:22","slug":"o-natal-dos-manes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/12\/o-natal-dos-manes\/","title":{"rendered":"O natal dos man\u00e9s"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CONTO<\/span><\/h5>\n<p><em><strong>Por C. Alfredo Soares<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O m\u00eas mais duro do ano pra Man\u00e9 Rato estava em vigor. Dezembro chegava com aquela pressa do natal e ano novo logo ali. Seu patr\u00e3o pensava nas quatros folhas a pagar e exigia que todos fizessem hora extra. Prometia at\u00e9 cesta b\u00e1sica e 5 litros de vinho barato de garraf\u00e3o. A Man\u00e9 e seus amigos, n\u00e3o era dada outra op\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhes cabia sonhar, ter planos de longo prazo &#8211; nem mesmo em 24 parcelas no carn\u00ea &#8211; ou imaginar o melhor pra si e para os filhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O trabalho arriscado, demasiado pesado, poeirento e insalubre tinha que ser feito. A Serralheria corta as pranchas de Ip\u00ea, Peroba Rosa e Angelim com precis\u00e3o. Seu alento vinha nos boletins escolares dos seus rebentos. Todos estudavam em escola p\u00fablica e passavam de ano. Aquilo era uma fresta de luz em meio \u00e0s trevas daqueles que viviam uma pseudo liberdade em meio a uma escravid\u00e3o disfar\u00e7ada, que rendia um sal\u00e1rio que chamavam de \u201ccal\u00e7a curta\u201d, pois n\u00e3o chegava ao fim do m\u00eas. O jeito era meter um vale, que produzia um rombo nas contas de toda forma. O dinheiro sempre voltava para as<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">m\u00e3os dos exploradores.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aquele homem forte de cora\u00e7\u00e3o mole sonhava ver os filhos vivendo com alguma dignidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Man\u00e9 Rato j\u00e1 n\u00e3o se via fora daquela armadilha socioecon\u00f4mica que subjugava sua intelig\u00eancia e expectativas de dias melhores. Suportava tudo pelos rebentos que teve com sua nega fiel e obstinada, assim como seus amigos havia rasgado seus sonhos na esperan\u00e7a de que seus descendentes diretos iriam faz\u00ea-los por ele. Por isso suportava tamanho esfor\u00e7o f\u00edsico dia a ap\u00f3s dia. Seus companheiros de labuta pensavam igual, mas n\u00e3o confessavam pra n\u00e3o demonstrar fraqueza. aliviavam a luta rindo alto enquanto levantavam toras de mais de 18m x 30cm x 10cm, em meio a poeira levantada pela serra afiada da tupia. Ap\u00f3s o expediente bebiam no final do dia at\u00e9 esquecer. A cacha\u00e7a queimava a garganta e estancava as feridas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em casa Eul\u00e1lia lutava, trazia os filhos na r\u00e9dea curta, mantinha a casa de alvenaria, no alto do morro, com ch\u00e3o de cimento e paredes de tijolos expostos, tudo simples, bela e limpa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando sa\u00eda o dinheiro extra do d\u00e9cimo terceiro, aquele homem orgulhoso corria ao mercado e trazia tudo que o dinheiro dava, pra Nega amada preparar a ceia natalina. Eles s\u00f3 queriam ver a mesa farta e a felicidade estampada nos rostos da fam\u00edlia, nem que fosse por um dia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No dia 24, Man\u00e9 sumia. No bar n\u00e3o estava, nas ruas n\u00e3o se via. Apesar disso, em casa os preparativos pra ceia n\u00e3o paravam. A cozinha denunciava qu\u00e3o especial a data era. As horas passavam e o homem n\u00e3o chegava, onde estaria? Eul\u00e1lia se angustiava, mas n\u00e3o deixava seus afazeres culin\u00e1rios. Ela sabia que Man\u00e9 iria de casa em casa dos verdadeiros amigos, seus parceiros de resist\u00eancia, da lida suada e di\u00e1ria, num gesto de generosa cumplicidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todos ali sabiam o peso de ser quem eram; meros oper\u00e1rios e prolet\u00e1rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em cada casa que ele passava tomava uma ta\u00e7a ou copo daquele vinho doce e barato, ganho do patr\u00e3o. Um vinho ruim de dar azia noutro dia. Em troca beliscava uma lasca de frango assado com farofa que lhe ofereciam de cora\u00e7\u00e3o. At\u00e9 na casa do patr\u00e3o passava. Seu Ant\u00f4nio, um portugu\u00eas de poucos modos, apontava pra ele e o enaltecia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Man\u00e9 era man\u00e9 s\u00f3 de apelido, inteligente n\u00e3o se enganava, sabia onde andava. Por l\u00e1, pouco ficava.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dali voltava para os seus, reunidos, novamente, no botequim da esquina, onde se jogava sinuca e pendurava as pingas num caderno de brochura. Riam alto de novo e apostavam. Erguiam um brinde por mais um ano que ficava pra tr\u00e1s. Aquele gesto era um ritual de resist\u00eancia. No fundo do bar, pr\u00f3ximo \u00e0 porta do banheiro f\u00e9tido, num quadro verde, anotavam os resultados de cada jogador. Era a partida final. De t\u00e3o tr\u00f4pegos nunca saberiam quem havia ganho o jogo da noite passada. Sem problemas. Dali ouviam o sino da igreja tocar pra missa do galo e, s\u00f3 ent\u00e3o, tr\u00f4pegos, seguiam pra casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Natal do\u00eda mais do que aliviava, talvez por ser o \u00fanico momento de fartura, como se mostrasse que aquela data santa n\u00e3o tinha lugar \u00e0 mesa do dia a dia de todos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Man\u00e9 chegava em casa com cheiro de alterado. Sua m\u00e3o calejada, suja de cal dos muros por onde se equilibrava, as barras da cal\u00e7a enlameadas, por vezes s\u00f3 com um p\u00e9 da sand\u00e1lia de borracha. Sabia que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de comprar presentes, bem que queria, as crian\u00e7as eram boas demais. Mas, ali, o que desejavam era sua presen\u00e7a. Tomava um banho, pra agradar a amada, que n\u00e3o o repreendia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ali diante dos filhos, num momento de reconcilia\u00e7\u00e3o, rezava fervorosamente. Todos de m\u00e3os dadas. Se reconciliava qui\u00e7\u00e1 com Deus. Pedia aos Santos perd\u00e3o, mas era Ogum que o protegia. Man\u00e9 Rato sabia disso, mas n\u00e3o contava pra ningu\u00e9m. Sua ancestralidade explodia naquele instante de f\u00e9. Tudo oprimia aquela gente retinta, menos sua cren\u00e7a original.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua prece de t\u00e3o forte trazia calor no corpo dos presentes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele nunca andou sozinho, mesmo estando quase sempre ausente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tempo passou e Man\u00e9 a ponto virar Seu Manuel, seus melhores amigos foram partindo. Um ap\u00f3s outro. Ele sentia sem os olhos marejar. Dizia sempre que homem n\u00e3o chora, um mantra que nem ele acreditava. Quando seu dia chegou, os amigos que restavam prantearam seu corpo com l\u00e1grimas sinceras. Foi at\u00e9 bonito de ver tamanha como\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Man\u00e9 conquistou mais do que imaginava. Soube ser feliz em tempo presente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o viveu o futuro como um tolo inconformado. Partiu sem m\u00e1goa. Leve como uma pluma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando chega o Natal, seus filhos se re\u00fanem e lembram dele com alegria. Pois sua li\u00e7\u00e3o \u00e9 refer\u00eancia que ressignificou os natais vindouros dos seus filhos e netos. Tudo s\u00f3 foi poss\u00edvel por ele ter se transformado em ponte do antes com o depois, um legado de amor puro forjado pela vida dura de um homem t\u00e3o simples quanto seus amigos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Afinal n\u00e3o passavam de uns man\u00e9s de p\u00e9s rachados.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONTO Por C. Alfredo Soares &nbsp; O m\u00eas mais duro do ano pra Man\u00e9 Rato estava em vigor. Dezembro chegava com aquela pressa do natal e ano novo logo ali. 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