{"id":1478955,"date":"2021-11-28T04:01:52","date_gmt":"2021-11-28T04:01:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1478955"},"modified":"2021-11-27T22:47:15","modified_gmt":"2021-11-27T22:47:15","slug":"chinelo-de-lambreta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/11\/chinelo-de-lambreta\/","title":{"rendered":"Chinelo de lambreta"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p><em><strong>Por C. Alfredo Soares<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] Lembro- me que, quando \u00a0eu era crian\u00e7a, \u00a0meu bisav\u00f4 usava sand\u00e1lias feitas de pneu de carros. Seu Nelo, um vizinho que trabalhava com arreios de cavalo, fabricava as sand\u00e1lias sob encomenda. V\u00f4 Jo\u00e3o Mundica &#8211; o nome derivava da sua m\u00e3e que se chamava Raimunda &#8211; pedia pra fazer um par de lambretas de borracha.\u00a0 As vezes era preciso levar o pneu velho para que ele tivesse como fabric\u00e1-las. N\u00e3o cheguei a usar uma, era muito crian\u00e7a, mas acompanhava V\u00f4 Jo\u00e3o e v\u00f4 Z\u00e9 at\u00e9 a oficina onde tais sand\u00e1lias eram feitas. Antes delas usavam tamancos de madeira com tiras de couro.\u00a0 Normalmente na lida di\u00e1ria. Aquilo machucava entre os dedos do p\u00e9 at\u00e9 sangrar. Eu, moleque, gostava de ver aqueles homens, j\u00e1 de cabe\u00e7as brancas, conversando sobre a vida enquanto esperavam suas sand\u00e1lias. Falavam de coisas banais. Discutiam tamb\u00e9m. Implicavam um com o outro. As palavras eram truncadas e reduzidas em meio \u00e0s seguidas risadas. Nunca presenciei um tema pol\u00edtico, por exemplo. Eram homens simples dedicados ao trabalho.\u00a0 Seu Nelo, sentado num banco, costurava na sua m\u00e1quina Singer preta.\u00a0 Al\u00e9m de sand\u00e1lias era famoso com seus arreios e chicotes feitos com tiras de couro curtido. O ambiente tinha cheiro de cola de sapateiro. Entre uma costura e outra, ele ainda rezava com folhas quem aparecesse precisando\u2026 rezava torcicolo e tor\u00e7\u00e3o. N\u00e3o cobrava por isso. Cerzia \u00a0uma linha num talo fino de plumagem e a gente saia curado.\u00a0 Era assim mesmo.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] V\u00f4 Jo\u00e3o, que n\u00e3o era de reza, gostava das sand\u00e1lias para ir no mato buscar lenha para acender o fog\u00e3o no final da tarde e fazer seu pr\u00f3prio caf\u00e9. Pegava seu fac\u00e3o e foice e ia, as vezes voltava com uma gamb\u00e1 pendurada no cabo da foice, garantido, pra ele, t\u00e3o somente, a carne preferida. Tamb\u00e9m fazia ro\u00e7ados pra quem precisasse e pagasse. Cobrava uns tost\u00f5es pelo servi\u00e7o. Quando resfri\u00e1vamos era a\u201d dele a miss\u00e3o de buscar no mato a planta certa pra vov\u00f3 Vita fazer o xarope. Sabia o nome de todas as ervas e para que serviam.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] Em frente a casa, onde ele morava, tinha um pequeno curral com uma porca na engorda e um p\u00e9 de caf\u00e9. Dali ele colhia o fruto, secava, torrava e coava &#8211; A porca ele cuidava para sacrificar no final do ano &#8211; O caf\u00e9 era o mais forte da vizinhan\u00e7a.\u00a0 Servia numa caneca de \u00e1gata ru\u00edda, ap\u00f3s convocar a fam\u00edlia aos gritos de \u201co gole est\u00e1 pronto!\u201d<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] V\u00f4 Z\u00e9 trabalhava quebrando pedra numa empresa chamada Pedratex. Era um homem carinhoso, disso me lembro bem. Tinha m\u00e3os grossas e grandes, calejada pelo trabalho pesado. Seu afago arranhava a gente. Adorava Marcinha, minha irm\u00e3 ca\u00e7ula. Estava sempre a disposi\u00e7\u00e3o de minha v\u00f3 Vitalina, a verdadeira chefe de todos.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] Na medida que fomos crescendo eles foram partindo. V\u00f4 Z\u00e9 partiu primeiro. A lida for\u00e7ou demais seu nobre cora\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] V\u00f4 Jo\u00e3o dizia que tinha mais de 100 anos, mas ele mesmo n\u00e3o sabia sua idade. N\u00e3o fora registrado ao nascer, quando morreu n\u00e3o achamos seus documentos. Dizia-se que morreu de velho. S\u00f3 existia o registro de batismo feito pela igreja. Somente depois deles adultos veio o cart\u00f3rio e a obriga\u00e7\u00e3o de registro dos filhos.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] Vov\u00f4 n\u00e3o era crist\u00e3o, nem era outra coisa. Vivia do que era \u00a0permitido a um homem negro retinto a menos de 100 anos da aboli\u00e7\u00e3o. Seus luxos eram um cachimbo velho com um bom fumo de rolo. No p\u00e9 calejado uma lambreta de pneu, na cabe\u00e7a um chap\u00e9u de feltro furado.\u00a0 N\u00e3o ansiava mais nada, por isso zombava da nossa cara quando tent\u00e1vamos contar as novidades. Tinha visto de um tudo. Seu senso de humor \u00fanico era seu escudo pra tamanhas mazelas. N\u00e3o nos contava nada de concreto sobre seu passado, talvez n\u00e3o valesse a pena contar. Mas gargalhava das coisas do presente, pois tinha plena no\u00e7\u00e3o do tempo. V\u00f4 Z\u00e9 e V\u00f4 Jo\u00e3o mundica existiram e resistiram aqueles tempos dif\u00edceis.<\/div>\n<div dir=\"auto\">&#8211; [ ] Bem, as lambretas de pneu, de t\u00e3o resistentes, duravam mais do que o propriet\u00e1rio. Com o passar do tempo passamos a cal\u00e7ar sand\u00e1lias que v\u00edamos no comercial de tv. Elas n\u00e3o d\u00e3o cheiro e nem deformam, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixam marcas.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA Por C. 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