{"id":1471491,"date":"2021-11-17T00:41:04","date_gmt":"2021-11-17T00:41:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1471491"},"modified":"2021-11-17T11:26:48","modified_gmt":"2021-11-17T11:26:48","slug":"a-escada-uma-conversa-com-o-poeta-cativo-ilhan-sami-comak-parte-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/11\/a-escada-uma-conversa-com-o-poeta-cativo-ilhan-sami-comak-parte-4\/","title":{"rendered":"A Escada: uma conversa com o poeta cativo \u0130lhan Sami \u00c7omak &#8211; Parte 4"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\">Aprendi a ler com a B\u00edblia. Para mim, a B\u00edblia era um grande livro negro com gravuras da Sagrada Fam\u00edlia na capa. Eu amava as palavras impressas em letras alinhadas, o dourado reluzindo na borda de cada p\u00e1gina. \u00c0 medida que as virava, ia encontrando pinturas de Michelangelo, de Leonardo da Vinci e de Goya. Eu adorava acariciar as p\u00e1ginas envernizadas, eram t\u00e3o macias. Certo dia sonhei que eu era a pr\u00f3pria B\u00edblia e, minha m\u00e3e, que era analfabeta, ao inv\u00e9s de ler o texto, ela simplesmente deslizava seus dedos pelas p\u00e1ginas, como quando me fazia c\u00f3cegas na ponta dos p\u00e9s. N\u00e3o me lembro de ter tido outro sonho assim, e faz anos que n\u00e3o leio a B\u00edblia. Mesmo que minha narrativa tenha uma forte influ\u00eancia b\u00edblica, n\u00e3o escrevo com um prop\u00f3sito espiritual, e n\u00e3o escrevo na minha l\u00edngua materna \u2014 o espanhol \u2014, mas em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Por Jhon S\u00e1nchez<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/othersideofhope.com\/print-magazine.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A revista brit\u00e2nica \u201cThe Other Side of Hope\u201d \u2014 O outro lado da esperan\u00e7a, em tradu\u00e7\u00e3o livre \u2014 publicou um dos meus artigos, On WriNting<\/a> \u2014 Sobre a escrita, em tradu\u00e7\u00e3o livre \u2014, no qual exploro as poss\u00edveis raz\u00f5es que me levam a escrever em ingl\u00eas. Eu escrevo em uma l\u00edngua que n\u00e3o domino, longe disso; na verdade, eu trope\u00e7o em cada senten\u00e7a que escrevo. Mas, a cada queda, descubro um mundo novo escondido; cada erro ortogr\u00e1fico, cada pron\u00fancia equivocada \u00e9 a passagem para uma terra profana, distante das regras r\u00edgidas. J\u00e1 me afastei tanto do reino do que \u00e9 sagrado e correto, n\u00e3o quero mais ser a B\u00edblia, de forma nenhuma. Sou, provavelmente, o caderno que jaz no banheiro, minhas palavras criando manchas nas p\u00e1ginas. Cada frase \u00e9 \u00fanica devidos aos meus pecados e aos meus erros gramaticais. Eu gosto de acariciar as p\u00e1ginas do meu caderno, onde a escrita n\u00e3o \u00e9 alinhada, as palavras se atropelam; mesmo assim, amo esfregar os dedos sobre seu desenho, imaginar a mensagem que receberia se n\u00e3o pudesse enxergar.<\/p>\n<p>Estou falando das raz\u00f5es por tr\u00e1s da minha escrita porque Ihan me fez pensar nisso durante as entrevistas anteriores. Ele escreve: \u201cA minha poesia \u00e9 persistente. Eu perseverei, lado a lado com a poesia. Esperamos juntos, pacientemente, at\u00e9 que pud\u00e9ssemos, por fim, ver a luz do dia\u201d. Todo escritor sempre se pergunta: \u201cPor que eu escrevo?\u201d. Ilhan encontra liberdade no passado, quando ele realmente era livre.<\/p>\n<p>\u201cO passado, com todas as suas mem\u00f3rias e experi\u00eancias, \u00e9 uma parte essencial da minha conex\u00e3o com a poesia. Mesmo que eu use a poesia para falar do futuro \u2014 de desejos e saudades \u2014, ela sempre bebe da fonte das mem\u00f3rias e sentimentos que existiram desde a \u00e9poca da recorda\u00e7\u00e3o at\u00e9 o presente, transformados e modificados ao longo dos anos. Sem d\u00favida nenhuma, isso \u00e9 algo que necessito fazer.\u201d<\/p>\n<p>Ilhan Sami \u00c7omak nos seduz com suas palavras quando nos conta sua luta para encontrar a poesia em suas mem\u00f3rias, a partir de uma cela de pris\u00e3o. Se voc\u00ea deseja ler as tr\u00eas primeiras partes dessa entrevista, clique\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/tag\/ilhan-sami-comak-pt-pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui.<\/a><\/p>\n<p><strong>\u2014JS: Voc\u00ea disse que se recusa a adentrar o reino do sofrimento, que sua poesia trilha um caminho diferente. \u00c9 o caminho da resili\u00eancia? Da satisfa\u00e7\u00e3o? O caminho do anseio pelo que lhe falta? O que \u00e9 sofrimento e o que \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o para voc\u00ea agora?<\/strong><\/p>\n<p>\u2014ISC: O sofrimento, a dor e as outras emo\u00e7\u00f5es que brotam desses sentimentos podem ser gratificantes, pois oferecem justificativas v\u00e1lidas em todos os aspectos da vida; isto \u00e9, se voc\u00ea assim o quiser. Esses sentimentos d\u00e3o a licen\u00e7a para gritar, em alto e bom som, que voc\u00ea est\u00e1 correto, sem fazer grande esfor\u00e7o. Mas, por natureza, esse \u00e9 um m\u00e9todo falho pois, inevitavelmente, voc\u00ea acaba abusando de suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Durante todos esses anos, evitei dar margem \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da dor e do sofrimento que vivi. Jamais considerei utilizar a amargura \u00e0 que tenho direito. Eu me ancorei na honestidade, no lado do bem e da verdade, ao inv\u00e9s de reivindicar meu direito \u00e0s palavras duras do sofrimento. Meus poemas se constroem sobre a base desses sentimentos.<\/p>\n<p>Na realidade, h\u00e1 muitas maneiras em que o sofrimento ou a pris\u00e3o injusta durante grande parte de uma vida, como no meu caso, podem legitimar uma pessoa. Contudo, essas alternativas poucas vezes nos fortalecem. Seria justo dizer que, enquanto aprimoro minha poesia, tamb\u00e9m aprimoro a mim mesmo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o era resiliente ou paciente, mas, como sempre busquei sentimentos livres e puros para escrever poesia, o tempo me deu a maturidade, que nasce da paci\u00eancia. Ao me transportar da realidade em que vivo para outra, a poesia me deu a oportunidade de viver e de reconfigurar a minha dor, sem esquec\u00ea-la. Eu n\u00e3o atribuo essa fortaleza somente ao poder da poesia, pois eu queria que fosse assim, foi uma escolha consciente e a poesia sempre me apoiou.<\/p>\n<p>Sinto que a minha rela\u00e7\u00e3o com a poesia, ali\u00e1s, com a arte e com a literatura em geral, \u00e9 profunda porque possibilita que eu reviva, de dentro desta cela, a vida que me foi roubada, e todos seus elementos. Eu me lembro da vida n\u00e3o como ela \u00e9, mas como uma vers\u00e3o pura, despojada de qualquer excesso; uma vida ao lado das pessoas e da natureza, \u00e0s vezes triste, \u00e0s vezes feliz. Eu me lembro da vida com um respeito sincero e comedido ao me recordar das realidades que desejo esquecer e ao reconhecer o poder restaurador do amor.<\/p>\n<p>Esse encarceramento, que parece que nunca ter\u00e1 fim, \u00e9 causa de grande pesar. Contudo, existe uma sutil diferen\u00e7a que quero mencionar aqui: a real origem do meu pesar \u00e9 o fato de n\u00e3o poder estar l\u00e1 fora, para viver e para perambular livremente, e n\u00e3o todo o problema da pris\u00e3o injusta.<\/p>\n<p>Eu sei bem que, neste momento, existe uma vida fluindo no lado de fora, uma vida que \u00e9 muito diferente da minha: uma vida expansiva, sem fronteiras, que oferece um milh\u00e3o de possibilidades e cuja beleza estou impossibilitado de tocar. Ao mesmo tempo, ainda h\u00e1 o problema de eu estar impedido de aproveitar as maravilhas e as possibilidades ilimitadas da vida, algo que \u00e9 t\u00e3o imoral, irracional, t\u00e3o longe da justi\u00e7a e da lei. Ter consci\u00eancia de tudo isso me causa muita dor.<\/p>\n<p>Susan Sontag diz que as pessoas conquistam o direito de falar por meio do sofrimento. Se esse \u00e9 o caso, eu tenho direito de falar e devo aproveitar bem a oportunidade. Se a dor for imensur\u00e1vel, at\u00e9 onde chegaria o meu direito? Eu n\u00e3o sei, acho que aqueles que testemunharam meu sofrimento deveriam dar essa resposta, n\u00e3o eu. Eu me satisfa\u00e7o com saudades e com desejos, enquanto escuto o sussurro cada vez mais distante da voz da vida. Por um lado, tentei entender o que eu estava ouvindo, por outro, usei a minha imagina\u00e7\u00e3o para preencher tudo o que falta aqui e levar essas car\u00eancias ao mundo de poesia. Entretanto, minha poesia jamais se conformou com a voz contundente da dor e, indo de encontro \u00e0s minhas experi\u00eancias, os poemas que criei est\u00e3o nutridos de felicidade genu\u00edna, ao inv\u00e9s de desilus\u00e3o com a vida.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o gosto de falar da dor e da injusti\u00e7a que sofri. Em vez de ouvirem meus tormentos, prefiro que as pessoas conhe\u00e7am a vida que teci usando a poesia. Quero que vejam a beleza dessa poesia que me deu resili\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o duras, essa qualidade que pode ser cultivada em toda parte, n\u00e3o importam as condi\u00e7\u00f5es. Seja onde for que experienciemos a vida, \u00e9 sempre melhor desfrut\u00e1-la pelas lentes da poesia. \u00c9 essa a mensagem que quero que as pessoas ou\u00e7am da minha poesia, tudo que \u00e9 realmente maravilhoso e precioso!<\/p>\n<p><strong>\u2014<\/strong><a href=\"http:\/\/platform24.org\/en\/articles\/772\/ilhan-comak--when-in-prison--poetry--too--is-confined\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Em entrevista ao P24<\/strong><\/a><strong>, voc\u00ea disse: \u201cEu vivenciei, e ainda vivencio, a mais profunda e severa opress\u00e3o. E sim, a raiva j\u00e1 bateu \u00e0 minha porta algumas vezes, mas nunca permiti que se tornasse um sentimento constante\u201d. A raiva tamb\u00e9m pode ser um sentimento positivo? Nesse momento, em que milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o confinadas em suas casas por motivo de sa\u00fade p\u00fablica, qual mensagem voc\u00ea mandaria para ajudar essas pessoas a controlarem suas emo\u00e7\u00f5es negativas?<\/strong><\/p>\n<p>\u2014\u00c9 preciso ter cuidado com a ideia de que a raiva pode ser uma emo\u00e7\u00e3o positiva. Considero que a raiva s\u00f3 pode ser vista dessa forma se considerarmos que est\u00e1 agindo como um alerta da maldade e, assim, levando as pessoas a entrarem em a\u00e7\u00e3o. Enquanto nos mantivermos nesses limites, poderemos usar a raiva como algo positivo, que funciona como um mecanismo de defesa. Portanto, devemos avali\u00e1-la como sendo um escudo protetor contra abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos. Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio deixar claro que esse \u00e9 um argumento que n\u00e3o se sustenta por muito tempo, pois mant\u00e9m as pessoas sempre no limite.<\/p>\n<p>Sabemos que as pessoas t\u00eam a tend\u00eancia de justificar, de racionalizar e de legitimar seus sentimentos negativos, sem considerar o impacto destrutivo que tais sentimentos t\u00eam, tanto nelas mesmas quanto nas pessoas com quem interagem. Isso pode ter consequ\u00eancias nefastas e \u00e9, talvez, umas das maiores fontes de maldade.<\/p>\n<p>A raiva provocada por uma verdadeira injusti\u00e7a pode se transformar \u2014 nas m\u00e3os da v\u00edtima \u2014 em um opressivo punho de ferro cuja moral \u00e9 arrasadora. Tal atitude raramente \u00e9 uma for\u00e7a para o bem e, com frequ\u00eancia, leva a novas injusti\u00e7as e a mais ressentimentos. A raiva deveria ter um objetivo, mas, nesse caso, conforme o tempo passa, o sentimento perde a no\u00e7\u00e3o da realidade e do seu prop\u00f3sito e, no fim, s\u00f3 gera mais raiva.<\/p>\n<p>Os poderosos n\u00e3o possuem nenhuma justificativa para defender sua fortuna ou seu estilo de vida, mas criam a ilus\u00e3o de tal necessidade ao construir uma narrativa e manej\u00e1-la com seu poder. Enquanto isso, as justificativas fortes e v\u00e1lidas dos oprimidos, dos marginalizados, dos perseguidos e dos explorados s\u00e3o quase sempre descartadas porque eles n\u00e3o t\u00eam voz; assim, s\u00e3o preenchidos por uma raiva sem sentido na qual se refugiam, em um fraco discurso vitimista que n\u00e3o tem nenhuma base de poder. Saber transformar a vitimiza\u00e7\u00e3o, a legitimidade e a raiva \u00e9 algo crucial.<\/p>\n<p>A Covid alterou os nossos h\u00e1bitos, o nosso estilo de vida e o cen\u00e1rio que constru\u00edmos com a linguagem das nossas rela\u00e7\u00f5es; em outras palavras, mudou o paradigma inteiro. Esta \u00e9 a verdade. Certamente, haver\u00e1 tempo para nos acostumarmos com a nova normalidade, pois ela n\u00e3o ir\u00e1 desaparecer t\u00e3o cedo. Adquirir novos h\u00e1bitos, substituir padr\u00f5es e comportamentos de vida ao qual j\u00e1 estamos acostumados n\u00e3o \u00e9 algo que acontece da noite para o dia. Tamb\u00e9m n\u00e3o devemos presumir que todos estar\u00e3o dispostos \u00e0s mudan\u00e7as, pois os seres humanos sempre buscam seu pr\u00f3prio conforto. Talvez esteja em nossa natureza buscar rela\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis, amores confort\u00e1veis, amizades confort\u00e1veis; quase sempre preservados pelo que chamamos de h\u00e1bito, um lugar seguro que nos permite agir quase sem pensar. A Covid mudou isso. Enquanto resistimos, nosso foco est\u00e1 sempre nas \u00e1guas calmas do passado.<\/p>\n<p>Comenta-se que, entre as muitas consequ\u00eancias negativas da pandemia, a agress\u00e3o contra a mulher, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a intoler\u00e2ncia e as taxas de div\u00f3rcio dispararam. Talvez tenhamos adentrado uma nova era sem perceber e necessitemos de uma defini\u00e7\u00e3o, uma nova defini\u00e7\u00e3o, um novo nome ou uma consci\u00eancia que molde a vida na mesma propor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que nos desviamos muito da nossa natureza. Como acreditamos na nossa pr\u00f3pria onipot\u00eancia em todas as \u00e1reas, deixamos a natureza e as nossas rela\u00e7\u00f5es humanas terrivelmente feridas e dilaceradas. Portanto, uma solu\u00e7\u00e3o seria retornar \u00e0 nossa real ess\u00eancia; \u00e9 urgente relembrarmos que n\u00e3o podemos ser separados da natureza e de outros seres humanos, que construir uma hierarquia entre natureza e humanos \u00e9 desnecess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o possuo uma sugest\u00e3o universal para ajudar a controlar as emo\u00e7\u00f5es negativas. Por\u00e9m, conforme sigo minha vida em um confinamento similar h\u00e1 v\u00e1rios anos, posso compartilhar o que aprendi com minhas experi\u00eancias para alcan\u00e7ar uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o. Eu sugiro que as pessoas encarem esse confinamento como uma consequ\u00eancia necess\u00e1ria e inevit\u00e1vel, e que escutem a si mesmas, profundamente. Sempre nos inclinamos para o lado extrovertido, o que, at\u00e9 certo ponto, deve decorrer da nossa necessidade de provar e de comparar nossa exist\u00eancia com a dos outros. \u00c9 uma consequ\u00eancia de sermos seres sociais, produtos do conjunto de rela\u00e7\u00f5es que emergem da estrutura do h\u00e1bito. Portanto, podemos olhar para essa experi\u00eancia como uma oportunidade de descanso para ouvir nossa voz interior, uma oportunidade para nos reajustarmos, livres de interven\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n<p>Talvez seja uma boa ideia avaliar o presente e o passado silenciosamente, pois, al\u00e9m de revitalizar o passado, olhar para tr\u00e1s tamb\u00e9m d\u00e1 a oportunidade de buscar respostas a perguntas s\u00e9rias e intocadas, como: \u201cEm que errei?\u201d, \u201cQuanto realmente me desviei no caminho?\u201d, \u201cO que perdi?\u201d. Talvez, encontrar respostas genu\u00ednas para essas perguntas seja uma maneira de se purificar e de se preparar para as condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Quando digo que nos distanciamos da simplicidade e da ingenuidade, da nossa pr\u00f3pria natureza, eu me refiro \u00e0s coisas que perdemos. Simplicidade e ingenuidade. A felicidade n\u00e3o \u00e9 um conceito sofisticado, o que tamb\u00e9m vale para o afeto, o amor, a lealdade, a bondade e a fidelidade. Devemos nos enfocar nas coisas que precisamos, nos nossos \u00fanicos requerimentos.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que eu nunca me permito cair na in\u00e9rcia: essa \u00e9 uma das principais raz\u00f5es por que ainda estou de p\u00e9, ainda estou criando, por que consigo me distanciar das emo\u00e7\u00f5es negativas depois de tantos anos aqui dentro. Certamente, as proibi\u00e7\u00f5es derivadas da Covid, e o fato de as pessoas terem que se refugiar em casa s\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o incrivelmente dif\u00edcil, mas as pessoas precisam de um prop\u00f3sito para manter sua maneira de viver. Com isso, eu me refiro a alguma ocupa\u00e7\u00e3o que teste seu talento e que torne seu tempo valioso. Cair no \u00f3cio do lar e afundar em uma rotina levam, primeiro, \u00e0 in\u00e9rcia e \u00e0 complac\u00eancia \u2014 exatamente como aqui \u2014, depois, isso passa a ser uma indiferen\u00e7a profundamente enraizada por todas as evolu\u00e7\u00f5es da vida. A repeti\u00e7\u00e3o, o tipo de repeti\u00e7\u00e3o imposta pela limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, provoca uma press\u00e3o esmagadora que corr\u00f3i primeiro o corpo, depois as faces belas e alegres do esp\u00edrito; em outras palavras, aquilo que nos torna humanos.<\/p>\n<p>Talvez o segredo seja esse: um passatempo e uma tarefa que abram um espa\u00e7o entre os blocos do tempo, constru\u00eddos pelo t\u00e9dio da rotina e pelo ambiente conjuntamente, com as mesmas quatro paredes; ou seja, um compromisso que ir\u00e1 satisfaz\u00ea-lo enquanto voc\u00ea se empenha com um objetivo que poder\u00e1 ir preenchendo com coisas que ama. Essa estrat\u00e9gia funciona para mim, e vem funcionando h\u00e1 um bom tempo. Levando em considera\u00e7\u00e3o as vastas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o nesses tempos de Covid, n\u00e3o deveria ser dif\u00edcil que as pessoas encontrassem novas \u00e1reas para se testarem. Acho que devemos tentar.<\/p>\n<p>\u201cO Lar \u00e9 Escuro\u201d; esse \u00e9 o nome do document\u00e1rio de F\u00fcruh Ferruhzat sobre a vida dos pacientes leprosos, isolados em um hospital e afastados da sociedade. O lar \u00e9 fechado, e se as paredes expuserem todos os desejos que a liberdade evoca, ent\u00e3o, o lar \u00e9 escuro. Nesse caso, o lar deve ser reconstru\u00eddo e reinventado. A simples men\u00e7\u00e3o de tal ideia \u00e9 iluminadora.<\/p>\n<p>Podemos interpretar a Covid como uma advert\u00eancia quanto ao fracasso retumbante do modo como constru\u00edmos nossa vida? Por que n\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de trazer o passado de volta, de restaurar a vida como ela era antes da Covid. Como fomos bem sucedidos em construir uma vida repleta de erros, que nos deixaram sufocados, com certeza, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel construirmos uma vida melhor, mais feliz. Vamos come\u00e7ar por n\u00f3s mesmos, enquanto trilhamos esse novo caminho. Vamos come\u00e7ar com a escurid\u00e3o das nossas casas, com o quadro negro que chamamos de lar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Traduzido do ingl\u00eas por Ana Carolina <\/em><em>Carvalho \/ Revisado por Gra\u00e7a Pinheiro<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u0130lhan Sami \u00c7omak<\/strong>\u00a0(1973) \u00e9 um poeta curdo de Karl\u0131ova, prov\u00edncia de Bing\u00f6l, Turquia.\u00a0 Ele foi preso em 1994. Da cadeia, \u00c7omak lan\u00e7ou oito livros de poesia e se tornou um dos presos pol\u00edticos mais antigos da Turquia. Em 2018, \u00c7omak ganhou o pr\u00eamio Sennur Sezer de poesia por sua oitava colet\u00e2nea, Geldim Sana (Eu Venho at\u00e9 Voc\u00ea).<\/p>\n<p>Paula Darwish \u00e9 uma poeta e tradutora de Turco\/Ingl\u00eas<\/p>\n<p><strong>Caroline Stockford\u00a0<\/strong>Tradutora liter\u00e1ria e juramentada de turco-ingl\u00eas. Tamb\u00e9m trabalha como consultora sobre a Turquia para a organiza\u00e7\u00e3o PEN Norway.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprendi a ler com a B\u00edblia. Para mim, a B\u00edblia era um grande livro negro com gravuras da Sagrada Fam\u00edlia na capa. 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