{"id":1468710,"date":"2021-11-12T18:41:50","date_gmt":"2021-11-12T18:41:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1468710"},"modified":"2021-11-12T18:41:50","modified_gmt":"2021-11-12T18:41:50","slug":"a-libia-de-kadafi-do-apogeu-a-queda-1969-2011-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/11\/a-libia-de-kadafi-do-apogeu-a-queda-1969-2011-parte-i\/","title":{"rendered":"A L\u00edbia de Kadafi: do apogeu \u00e0 queda, 1969-2011 &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olivier Flumian entrevista Vincent Hugeux.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por v\u00e1rias d\u00e9cadas, o nome da L\u00edbia esteve intimamente ligado ao de seu l\u00edder, Muammar Kadafi. Utilizando seus imensos recursos petrol\u00edferos, o l\u00edder l\u00edbio multiplicou interven\u00e7\u00f5es complexas no cen\u00e1rio internacional: a tentativa de uni\u00e3o com alguns de seus vizinhos \u00e1rabes, o apoio a v\u00e1rios movimentos terroristas em todos os continentes, o financiamento de in\u00fameros projetos na \u00c1frica etc. Suas rela\u00e7\u00f5es com o Ocidente eram amb\u00edguas, muitas vezes tensas, j\u00e1 que o pa\u00eds enfrentou um embargo de dez anos antes de ser perdoado.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o regime l\u00edbio entrou em colapso durante o ano de 2011, depois de 42 anos em que Kadafi esteve no poder.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Para entender melhor essa tumultuada hist\u00f3ria, Pressenza entrevista <\/span><\/i><b><i>Vincent Hugeux<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400;\">, jornalista independente, rep\u00f3rter s\u00eanior do servi\u00e7o internacional da revista L&#8217;Express de 1990 a 2020, especialista em \u00c1frica e autor de uma biografia do l\u00edder l\u00edbio, cuja vers\u00e3o de bolso foi publicada em mar\u00e7o passado pela Tempus \/ Perrin.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Voc\u00ea fez v\u00e1rias reportagens na L\u00edbia e escreveu uma biografia de Kadafi. Em quais circunst\u00e2ncias voc\u00ea descobriu e depois conheceu este pa\u00eds?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Devido \u00e0 minha prefer\u00eancia pela &#8220;descentraliza\u00e7\u00e3o&#8221;, sempre fui bastante atra\u00eddo, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">principalmente na minha privilegiada esfera de desenvolvimento \u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c1frica e Oriente M\u00e9dio\u00a0\u2014, por pa\u00edses onde jornalistas estrangeiros n\u00e3o s\u00e3o bem-vindos. Mas tamb\u00e9m pelas sociedades for\u00e7adas a viver ou a sobreviver sob um regime autorit\u00e1rio, at\u00e9 mesmo tir\u00e2nico. Sobretudo, quando o poder ali se materializa na forma de um personagem extraordin\u00e1rio, com um destino rom\u00e2ntico, mesmo em seus excessos. Basta dizer que a vers\u00e3o l\u00edbia de Kadafi continha todas as inc\u00f3gnitas desta equa\u00e7\u00e3o. Consegui para o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">L\u2019Express<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> uma d\u00fazia de reportagens nesse pa\u00eds \u00fanico; antes, durante e depois da queda do falecido &#8220;Guia&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o rep\u00f3rter que n\u00e3o era visto como &#8220;amigo&#8221;, a concess\u00e3o de um visto pelo Gabinete popular \u2014 assim foi rebatizada a embaixada da L\u00edbia em Paris \u2014 da Grande Jamahiriya \u00c1rabe Popular Socialista, nome oficial da L\u00edbia Kadafiana, era uma maratona com um desfecho incerto. Por outro lado, era relativamente f\u00e1cil obter a \u201cpalavra m\u00e1gica\u201d, por ocasi\u00e3o de confer\u00eancias internacionais ou de c\u00fapulas da Uni\u00e3o Africana, quer se realizassem em Tr\u00edpoli, a capital, quer em Sirte, reduto do &#8220;Coronel impulsivo&#8221;, um incr\u00edvel clich\u00ea jornal\u00edstico. Uma vez l\u00e1, solicitei, com enorme alegria, a prorroga\u00e7\u00e3o do visto inicial. No contexto ca\u00f3tico da repress\u00e3o ao levante de Benghazi (cidade no leste do pa\u00eds), cen\u00e1rio da eclos\u00e3o da vers\u00e3o l\u00edbia da famosa \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d, depois da interven\u00e7\u00e3o liderada pelo trio Estados Unidos \/ Fran\u00e7a \/ Gr\u00e3-Bretanha, podia-se alcan\u00e7ar o territ\u00f3rio l\u00edbio atrav\u00e9s do Egito ou da Tun\u00edsia. Para que conste, consegui cobrir a queda de Tr\u00edpoli gra\u00e7as ao salvo-conduto concedido por Seif al-Islam Kadafi, filho mais novo e herdeiro do Guia, com quem me encontrei por um longo tempo, em 2004, em sua luxuosa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bonbonni\u00e8re<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> mourisca, um aconchegante e luxuoso apartamento na periferia da capital. E quando se tratou de chegar \u00e0 cidade portu\u00e1ria rebelde de Misrata, ent\u00e3o sitiada pelas for\u00e7as &#8220;regulares&#8221;, embarquei em um navio de carga pesada que sa\u00eda de Benghazi: foram 42 horas no mar at\u00e9 chegar ao porto \u2014 uma hora para cada ano que o Guia esteve no poder. Para melhor compreender a realidade local e para sentir o m\u00e1ximo poss\u00edvel da \u201cL\u00edbia verdadeira\u201d, tentava seguir o meu roteiro habitual: sair da capital, fugir dos \u201ctradutores\u201d oficiais, viajar pelos bairros geralmente ignorados; sempre na companhia de l\u00edbios que conheci durante as minhas estadias e nos quais tinha toda a confian\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Muammar Kadafi sempre afirmou ter nascido em uma tenda bedu\u00edna. Quais foram suas origens familiares e sociais?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a vers\u00e3o oficial, ele at\u00e9 nasceu sob uma tenda de pele de cabra. Seu &#8220;ber\u00e7o bedu\u00edno&#8221; \u00e9 indiscut\u00edvel; assim como suas origens sociais modestas. A consulta e a verifica\u00e7\u00e3o cruzada de muitas fontes \u2014 arquivos, testemunhas, familiares \u2014 me permitiram estabelecer que o pequeno Muammar nasceu, com toda a probabilidade, na primavera de 1942, em um acampamento n\u00f4made perto do o\u00e1sis do U\u00e1di Jarif, cerca de trinta quil\u00f4metros ao sul de Sirte. Mesmo que permane\u00e7a d\u00favida sobre sua ascend\u00eancia, seu pai, de uma tribo \u00e1rabe-berbere menor, os Guedadfa, era um pastor chamado Mohammed Ahmed Abou Minyiar. Sua m\u00e3e se chamava A\u00efcha Ben Niran.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">A fam\u00edlia teve tr\u00eas filhas, Muammar, nasceu depois e foi o \u00fanico herdeiro homem, pois tr\u00eas irm\u00e3os mais velhos sucumbiram a doen\u00e7as. O patriarca estava fadado a longos meses de aus\u00eancia devido \u00e0 busca perp\u00e9tua por pasto, e o menino que sobreviveu vai crescer em uma casa de mulheres: com sua m\u00e3e, suas tr\u00eas irm\u00e3s mais velhas e uma tia. Sua inf\u00e2ncia ser\u00e1 austera: ele zela por um pequeno rebanho de cabras e cultiva a terra. Muito rapidamente, por\u00e9m, o jovem pastor se destacou da multid\u00e3o. Seu racioc\u00ednio r\u00e1pido e a sede de aprender levaram seu pai a confi\u00e1-lo a um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">faqi<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, um professor de religi\u00e3o viajante, e a mand\u00e1-lo depois para uma madrassa, escola cor\u00e2nica, em Sirte. L\u00e1, Muammar se alimenta de t\u00e2maras secas e dorme em uma mesquita. Ele, o bedu\u00edno sem um tost\u00e3o, com um sotaque rude, sofreu com a arrog\u00e2ncia de seus colegas estudantes, filhos da elite costeira. Quando adolescente, ele se juntou a um tio em Sebha, mais ao sul, reunindo-se novamente com a fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Entre 1951, data da independ\u00eancia, e 1969, a L\u00edbia foi uma monarquia liderada pelo rei Idris I. Qual era a situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica interna e externa deste pa\u00eds?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meditativo e indolente, mais apegado \u00e0s suas leituras e ao tratamento anual que recebia em um spa do que propriamente aos assuntos de Estado, o rei Idris enfrentava crescente impopularidade. Mais ainda, aos olhos dos patriotas l\u00edbios, o rei era uma marionete subserviente aos americanos e brit\u00e2nicos, que dispunham de bases militares impressionantes no reino. A L\u00edbia j\u00e1 havia sido submetida ao jugo otomano e, depois, sofreu sob a \u201cbota\u201d de Mussolini. Muammar tinha alguns meses de idade quando estourou a segunda batalha de El-Alamein, que reuniu dois lend\u00e1rios estrategistas: o brit\u00e2nico Montgomery e o alem\u00e3o Rommel. Tinha um ano de idade quando Londres e Paris dividiram a antiga joia colonial do rei Victor Emmanuel III da It\u00e1lia. E tinha sete anos quando a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas adotou uma resolu\u00e7\u00e3o que estipulava que o &#8220;Estado unificado, independente e soberano da L\u00edbia&#8221; deveria ser estabelecido at\u00e9 primeiro de janeiro de 1952. Basta dizer que os anos de aprendizagem do jovem bedu\u00edno tiveram como cen\u00e1rio um pa\u00eds subjugado e fragmentado em zonas de influ\u00eancia: para os brit\u00e2nicos, Tripolitana e Cirenaica; para os franceses, o \u00e1rido Fezzan, t\u00e3o vasto que media tr\u00eas vezes o tamanho da Fran\u00e7a e era povoado por apenas dois milh\u00f5es de almas, contra mais de seis milh\u00f5es hoje. O surgimento do &#8220;rei petr\u00f3leo&#8221; neste tabuleiro, descoberto em 1955 e explorado a partir de 1959, direciona a L\u00edbia a uma modernidade sem precedentes. Mas, acima de tudo, promove o desenvolvimento de uma classe de novos ricos e n\u00e3o melhora a sorte dos mais humildes. \u00c9 por isso que Kadafi, que ingressou na academia militar de Benghazi em 1963 e idolatra o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">ra\u00efs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> eg\u00edpcio Gamal Abdel Nasser, seis anos depois, \u00e0 frente de um esquadr\u00e3o de suboficiais insurgentes, toma o poder como quem colhe uma fruta madura. Ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a morrer por um monarca que, naquele momento, estava navegando as \u00e1guas entre a Gr\u00e9cia e a Turquia\u2026.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Muammar Kadafi e um grupo de oficiais tomaram o poder em um golpe em 1969. Em que contexto ocorreu esse golpe de estado?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um soberano que mal consegue reinar e, dificilmente, governar. Uma corte povoada por intrigas. Uma monarquia ileg\u00edtima e sem f\u00f4lego. \u201cPadrinhos\u201d ocidentais preocupados, acima de tudo, com a fortuna proporcionada pelo ouro negro e com a manuten\u00e7\u00e3o de sua influ\u00eancia militar&#8230; Tudo contribui para abrir caminho em benef\u00edcio desse bando de oficiais nasserianos guiados por um l\u00edder inspirado e carism\u00e1tico. Kadafi teceu metodicamente sua rede, cruzando o pa\u00eds a bordo de seu Fusca, revivendo o entusiasmo vacilante, montando esconderijos de armas e de muni\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que as atividades desses revolucion\u00e1rios idealistas n\u00e3o escapam aos servi\u00e7os de intelig\u00eancia do reino. Mas a\u00ed est\u00e1: n\u00e3o os levamos suficientemente a s\u00e9rio, mesmo subestimando muito sua determina\u00e7\u00e3o e o grau de maturidade de seu projeto. Quando as pistas encontradas aqui e ali se combinam em um conjunto de provas perturbador, \u00e9 tarde demais. Adiado duas vezes e sem que houvesse derramamento de sangue, o golpe derrubou a antiga ordem na virada da noite de 31 de agosto para primeiro de setembro de 1969.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Kadafi ficou famoso por seu &#8220;Livro Verde&#8221;, que apresentava a &#8220;terceira teoria universal&#8221;, a qual, supostamente, superaria o antagonismo entre o capitalismo e o comunismo. Qual era a sua vis\u00e3o do mundo?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O militar Muammar Kadafi aparece acima de tudo como um nacionalista revolucion\u00e1rio seduzido pelos ideais socialistas e pelo projeto pan-\u00e1rabe. Ele segue, explicita e fervorosamente, as pegadas de seu modelo, Nasser. No entanto, e mesmo que sua ousadia doutrin\u00e1ria confronte os ulem\u00e1s \u2013 s\u00e1bios religiosos \u2013 tradicionais, ele nunca negar\u00e1 sua identidade mu\u00e7ulmana. Muito rapidamente, Kadafi sentir\u00e1 que sua \u201ccaixa de areia\u201d l\u00edbia fica pequena. Ele sonha em unir as na\u00e7\u00f5es da Ummah \u2014 a comunidade de todos os mu\u00e7ulmanos \u2014 \u00e1rabe em um mesmo crisol e irrita-se com o des\u00e2nimo de seus colegas, a quem seu ativismo volunt\u00e1rio e agressivo e seu sarcasmo preocupam ou repelem. Lendo o \u201cLivro Verde\u201d, entendemos suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais pois elas desenham um modelo v\u00e1lido em todas as latitudes. \u00c9 a\u00ed onde reside a pretens\u00e3o &#8220;universal&#8221; desta &#8220;terceira teoria&#8221; que, com efeito, pretendeu transcender o combate f\u00fatil entre o capitalismo \u2014 do qual rejeita as car\u00eancias, o imperialismo e a injusti\u00e7a \u2014 e o marxismo \u2014 que ele repudia por causa da orienta\u00e7\u00e3o materialista e da rejei\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. Dito isso, o inimigo capital continua sendo, aos seus olhos, a Am\u00e9rica, especialmente desde a primavera de 1986, sob o governo de Ronald Reagan, quando os Estados Unidos tentaram, em v\u00e3o, liquid\u00e1-lo. Em retrospectiva, o Livro Verde, dispon\u00edvel em tr\u00eas pequenos volumes e promovido em todo o planeta por meio de col\u00f3quios e de confer\u00eancias, assemelha-se a um brevi\u00e1rio simplista, confuso e bomb\u00e1stico, uma mistura de tru\u00edsmos, poderosas intui\u00e7\u00f5es e de atalhos desconcertantes.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Em 1977, ele instaurou um novo regime denominado a \u201cGrande Jamahiriya \u00c1rabe Popular Socialista da L\u00edbia\u201d. Que realidade este termo designa?<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O termo \u201cJamahiriya\u201d \u00e9 um neologismo que combina os conceitos de Rep\u00fablica (Jumhuria, em \u00e1rabe) e de multid\u00e3o. Podemos, portanto, traduzi-lo por \u201cRep\u00fablica das massas\u201d, ou, como alternativa, \u201cEstado das massas\u201d. \u00c9 um termo que germina como resultado de uma tripla decep\u00e7\u00e3o: o amargo fracasso da for\u00e7a pan-\u00e1rabe do Coronel \u2014 como vulgarmente o chamavam; a incapacidade da Uni\u00e3o Socialista \u00c1rabe, partido de sua devo\u00e7\u00e3o, de ampliar sua base, paralisado por suas defici\u00eancias burocr\u00e1ticas; e as brigas que dilaceram o Conselho do Comando Revolucion\u00e1rio (CCR), n\u00facleo executivo de seu regime. O dogma fundador da Jamahiriya pode ser resumido em poucas palavras: em todos os n\u00edveis, o poder vem do povo e pertence ao povo. Note-se, de passagem, que Kadafi sempre rejeitou o status de \u201cpresidente\u201d ou de \u201cchefe de Estado\u201d, preferindo o de \u201cGuia\u201d, e que, repetidamente, encenou sua retirada, t\u00e3o teatral quanto fict\u00edcia. Milhares de \u201ccomit\u00eas populares\u201d com um zelo purificador devastador emergem em uma atmosfera de revolu\u00e7\u00e3o cultural estilo chin\u00eas. Abaixo\u00a0 todos os &#8220;desviados&#8221; e os &#8220;corruptos&#8221;, os burgueses, os agentes pr\u00f3-ocidentais, os islamistas da Irmandade Mu\u00e7ulmana, os marxistas &#8230; E o governo?\u00a0 Dissolvido. Os ministros? Substitu\u00eddos por \u201ccomiss\u00e1rios\u201d. Embaixadas? Transformadas, como vimos previamente no texto, nos \u201cGabinetes populares\u201d. Com o passar dos anos, o dispositivo se desintegra, para revelar o que realmente \u00e9: uma infinidade de conchas vazias. Lembro-me do constrangimento que causei, no final dos anos 1990, quando, durante uma reportagem, pedi para participar de uma sess\u00e3o de trabalho de uma \u201cAssembleia do Povo\u201d, que deveria governar os distritos de Tr\u00edpoli. E por um bom motivo: a referida assembleia n\u00e3o se reunia havia muito tempo. Na verdade, Muammar Kadafi nunca largou as r\u00e9deas. Ele fingia desprezar as conting\u00eancias di\u00e1rias delegadas aos seus subordinados, mas decidia tudo.<\/span><\/p>\n<p><b>Ver tamb\u00e9m:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/fr\/2021\/10\/la-libye-de-kadhafi-1969-2011-de-lapogee-a-la-chute-partie-ii\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00edbia de Kadafi 1969 &#8211; 2011: do apogeu \u00e0 queda &#8211; Parte II<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/fr\/2021\/10\/la-libye-de-kadhafi-1969-2011-de-lapogee-a-la-chute-partie-iii\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00edbia de Kadafi 1969 &#8211; 2011: do apogeu \u00e0 queda &#8211; Parte III<\/span><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400;\">Traduzido do franc\u00eas por Aline Arana \/ Revisado por Gra\u00e7a Pinheiro<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olivier Flumian entrevista Vincent Hugeux. Por v\u00e1rias d\u00e9cadas, o nome da L\u00edbia esteve intimamente ligado ao de seu l\u00edder, Muammar Kadafi. 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