{"id":1443782,"date":"2021-10-05T00:22:14","date_gmt":"2021-10-04T23:22:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1443782"},"modified":"2021-10-05T00:31:10","modified_gmt":"2021-10-04T23:31:10","slug":"as-garras-macroeconomicas-sobre-as-gargantas-da-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/10\/as-garras-macroeconomicas-sobre-as-gargantas-da-cidadania\/","title":{"rendered":"As garras macroecon\u00f4micas sobre as gargantas da cidadania"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>Nota da edi\u00e7\u00e3o<\/strong>: Em 30 de julho de 2020, em um movimento hist\u00f3rico, todos os chilenos puderam, pela primeira vez, retirar 10% de suas pens\u00f5es. A medida teve como objetivo aliviar a profunda crise econ\u00f4mica gerada pela pandemia da COVID-19.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Atualmente, o Chile est\u00e1 no caminho para aprovar pela quarta vez esta retirada, defendida por alguns como a \u00fanica maneira que a classe m\u00e9dia tem de resistir \u00e0 atual crise econ\u00f4mica. Enquanto isso, outros a veem como uma forma de hipotecar a poupan\u00e7a futura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">As retiradas das pens\u00f5es v\u00eam causando um profundo debate no pa\u00eds. O governo do presidente Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era tentou, sem sucesso, impedir as retiradas no Tribunal Constitucional. O principal argumento a favor das retiradas \u00e9 que os mais de 33 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anunciados pelo governo em ajuda social n\u00e3o alcan\u00e7am a popula\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, as pessoas tiveram que recorrer \u00e0s suas pr\u00f3prias economias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m restaurou outra controv\u00e9rsia acerca do sistema de pens\u00f5es. O governo, por um lado, sugere somente uma reforma no sistema, que exigiria um aumento de 6% na contribui\u00e7\u00e3o individual. A oposi\u00e7\u00e3o, por outro lado, solicita o fim do modelo atual das AFP, implementado durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).<\/p>\n<p>Por Guillermo Garc\u00e9s<em>*<\/em><\/p>\n<p><strong>As maiorias cidad\u00e3s, ou seja, as assalariadas, as prestadoras de servi\u00e7os ad honorem e as desempregadas: condenadas eternamente \u00e0 mis\u00e9ria por um sistema de elitismo, justificado por indicadores macroecon\u00f4micos.<\/strong><\/p>\n<p>Os economistas especialistas nacionais inundam os notici\u00e1rios comentando as medidas do Banco Central e, em un\u00edssono, nos alertam dos perigos do \u201creaquecimento da economia nacional\u201d, com iminente desequil\u00edbrio macroecon\u00f4mico. Segundo eles, essa situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ar\u00e1 a infla\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os de mercado como resultado de uma cidadania que passa a ter dinheiro no bolso (proveniente da retirada da sua poupan\u00e7a obrigat\u00f3ria nas AFP, Administradoras dos Fundos de Pens\u00e3o) ou nas contas-correntes. Com isso em mente, \u00e9 v\u00e1lido se perguntar: para que sustentar um modelo que deixa de funcionar corretamente em tal cen\u00e1rio?<\/p>\n<p>Isso quer dizer que tal modelo n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel quando a cidadania est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de pleno emprego, com sal\u00e1rios dignos (ou seja, que por todo um m\u00eas de trabalho, o sal\u00e1rio seja capaz de cobrir os custos de vida e sobra algo para economizar para imprevistos), j\u00e1 que tal situa\u00e7\u00e3o de bonan\u00e7a do povo atentaria contra seu equil\u00edbrio e correto funcionamento.<\/p>\n<p>Ou, em outras palavras, tal modelo s\u00f3 pode funcionar \u201cequilibrada e perfeitamente\u201d em um cen\u00e1rio onde s\u00f3 uma porcentagem da popula\u00e7\u00e3o tem acesso \u00e0 prosperidade descrita anteriormente e, necessariamente, uma maioria deve aceitar que sua perspectiva vital \u00e9 a mis\u00e9ria eterna, em prol de n\u00e3o prejudicar o bem maior, a saber, que o Chile conte com uma saud\u00e1vel macroeconomia que ostentar\u00e1 nos acordos com pa\u00edses da regi\u00e3o, da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico) e do mundo.<\/p>\n<p>A essa altura, irrompe a inc\u00f3gnita acerca de como se representa essa elite a essa maioria de cidadania sem expectativas dentro do seu modelo econ\u00f4mico. O que acreditam que s\u00e3o?<\/p>\n<p>Definitivamente n\u00e3o seus iguais, nem seus semelhantes, nem seus compatriotas. Em tal contexto, se entendem as bancadas que sofremos governo ap\u00f3s governo, para definir \u201caumento de um sal\u00e1rio m\u00ednimo\u201d com cifras de fome, dignas do humor sarc\u00e1stico.<\/p>\n<p>Nessa falta de perspectivas da maioria, que interesse a cidadania pode ter nas medidas de pol\u00edticas econ\u00f4micas do Banco Central, sejam estas expansivas (as aplicadas h\u00e1 16 meses) ou contracionistas (aplicadas nos \u00faltimos 45 dias, com uma triplica\u00e7\u00e3o da taxa de juros de refer\u00eancia, para as transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias)?<\/p>\n<p>Segundo os especialistas que viemos escutando, tais medidas \u201cpreventivas\u201d s\u00e3o um \u201calerta\u201d a Pi\u00f1era, que est\u00e1 ousando atender \u00e0 crise econ\u00f4mica das maiorias pelas quarentenas do Covid 19, colocando em pr\u00e1tica a entrega de um aux\u00edlio familiar de emerg\u00eancia (<em>Ingreso familiar de Emergencia<\/em> \u2013 IFE), e assim aumentando desnecessariamente o gasto fiscal. Segundo nos explicam os especialistas, o que acabamos de descrever incide muito nesta amea\u00e7a inflacion\u00e1ria, e n\u00e3o a \u201ccompeti\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel de pre\u00e7os\u201d, a qual de nenhum modo poder\u00edamos caracterizar como especula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. Porque se esse fosse o caso, nos dizem, eles contam com medidas para sancionar pre\u00e7os abusivos. Se tais afirma\u00e7\u00f5es fora da realidade n\u00e3o causassem tanta dor e desmoraliza\u00e7\u00e3o, poderiam nos arrancar um sorrisinho ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se entendemos bem o que dizem, devido ao aumento da quantidade de dinheiro que hoje conta a cidadania, ocorre o aumento da demanda de produtos e isso leva, automaticamente, pelas \u201cleis econ\u00f4micas\u201d (que s\u00e3o da mesma qualidade que as leis naturais) ao aumento dos pre\u00e7os da maior parte dos produtos da \u201ccesta b\u00e1sica familiar\u201d (produtos que as fam\u00edlias mais consomem, incluindo alimentos, transporte, vestu\u00e1rio, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e outros).<\/p>\n<p>Se, diante desta descri\u00e7\u00e3o, e fruto da nossa ignor\u00e2ncia, question\u00e1ssemos sobre a possibilidade de se fixar uma faixa de pre\u00e7os m\u00e1ximos desses produtos da cesta b\u00e1sica familiar \u2013 para prevenir que quem vende esses produtos e servi\u00e7os n\u00e3o possa especular com os pre\u00e7os, obter um lucro excessivo \u00e0 custa de seus \u201cclientes\u201d \u00a0\u2013 escutar\u00edamos um forte grito descontrolado, por\u00e9m profundamente sagaz, que nos diria que essa \u00e9 a resposta de irrespons\u00e1veis e populistas que ocasionaria, como consequ\u00eancia imediata, a escassez (provavelmente as pessoas comer\u00e3o muitos mais pratos de comida que os habituais, andar\u00e3o de metr\u00f4 e de \u00f4nibus muito mais que o necess\u00e1rio, talvez at\u00e9 de t\u00e1xi, usar\u00e3o uma roupa melhor, inclusive podem comparecer \u00e0 sua visita adiada ao m\u00e9dico, quem sabe tratar\u00e3o suas c\u00e1ries e, enfim, v\u00e1rias excentricidades como estas).<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, continuar\u00e3o os especialistas, surgir\u00e1 a monopoliza\u00e7\u00e3o dos bens cujos pre\u00e7os foram fixados, surgindo o problema do mercado ilegal. Existindo pre\u00e7os artificialmente baixos e um incentivo \u00e0 demanda desproporcionada, surge um est\u00edmulo perverso para que certos oportunistas comprem os produtos a baixo pre\u00e7o e os revendam ao pre\u00e7o que desejem (n\u00e3o se engane o leitor desprevenido, acreditando que os especialistas aludem ao famoso conluio de farm\u00e1cias, ou ao de produtores de frangos abatidos, ou ainda ao de papel higi\u00eanico, etc., esclarecemos que n\u00e3o \u00e9 assim).<\/p>\n<p>Resumindo: h\u00e1 zero possibilidades para as maiorias dentro deste modelo. Ou elas se resignam \u00e0 sua \u201cnatureza de eternos pobres\u201d ou, se conseguem atrav\u00e9s de press\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o melhoras nas suas rendas, ter\u00e3o que assumir a infla\u00e7\u00e3o ou a hiperinfla\u00e7\u00e3o, o desabastecimento (filas para comprar) e o sobrepre\u00e7o no mercado ilegal; tudo por apoiar populismos que n\u00e3o atendem \u00e0 macroeconomia.<\/p>\n<p>Os especialistas nos acusam de colocar palavras em suas bocas, conte\u00fados inexatos e mal intencionados. Dizem que seu modelo daria sim um acesso para que as maiorias alcan\u00e7assem os benef\u00edcios e a prosperidade de sal\u00e1rios dignos, e que a chave \u00e9 simples \u2013 forma\u00e7\u00e3o superior, t\u00e9cnica e profissional; o que far\u00e1 diferen\u00e7a em nossa \u201cdiversificada economia\u201d que, como caracteriza Cayuqueo, grande intelectual mapuche, baseia-se na venda de \u201cpedras, paus e peixes\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos discutir esse ponto, a situa\u00e7\u00e3o de centenas de milhares de jovens, primeiras gera\u00e7\u00f5es de sua classe que, seguindo essa chave t\u00e3o simples, hoje est\u00e3o majoritariamente endividados; n\u00e3o est\u00e3o desempregados, e sim trabalhando em of\u00edcios mal pagos, muito distantes do que consta em seus diplomas.<\/p>\n<p>Finalizando, gostaria de agradecer o esclarecimento dos economistas especialistas do pa\u00eds. E tamb\u00e9m a nosso povo, que avan\u00e7a na descren\u00e7a acerca de que a institucionalidade tenha algum interesse em resolver suas necessidades, e que n\u00e3o busque a manuten\u00e7\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da elite.<\/p>\n<p>E paralelamente, levanta uma nova esperan\u00e7a e reconhecimento fundamental na organiza\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e suas m\u00faltiplas, diversas e distintas atividades de protesto, inspirando uma nascente cren\u00e7a em que a mudan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel; rejeitando verdades absolutas, com uma energia greg\u00e1ria que pulsa a necess\u00e1ria a\u00e7\u00e3o transformadora, por um novo Chile.<\/p>\n<hr \/>\n<p>*militante Partido Humanista<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Traduzido do espanhol por Beatrice Tuxen \/ Revisado por Gra\u00e7a Pinheiro<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota da edi\u00e7\u00e3o: Em 30 de julho de 2020, em um movimento hist\u00f3rico, todos os chilenos puderam, pela primeira vez, retirar 10% de suas pens\u00f5es. 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