{"id":1380117,"date":"2021-06-14T22:36:16","date_gmt":"2021-06-14T21:36:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1380117"},"modified":"2021-07-17T09:55:35","modified_gmt":"2021-07-17T08:55:35","slug":"carta-para-a-geracao-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/06\/carta-para-a-geracao-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"Carta para a Gera\u00e7\u00e3o do Fim do Mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>De pouco vale, agora, planejar-se para viver em um mundo \u00e0 beira da cat\u00e1strofe. Mais que dinheiro e prest\u00edgio, juventude parece apostar na reinven\u00e7\u00e3o de si e do planeta: com saberes ancestrais e tecnologia, feminismo e constru\u00e7\u00e3o do Comum.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 em solidariedade a voc\u00eas que hoje vislumbram o mundo adulto com apreens\u00e3o e se perguntam sobre o futuro, que escrevo esse texto. Pe\u00e7o licen\u00e7a para oferecer minha experi\u00eancia como professora de Hist\u00f3ria e pesquisadora do futuro, que me fizeram escrever o livro <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/04\/despois-do-fim-de-um-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Auroville, 2046. Depois do fim de um mundo<\/em>.<\/a> Tenho 55 anos, dois filhos que s\u00e3o jovens adultos e presencio a intensa tomada de consci\u00eancia da juventude acerca do que nos aguarda, muito antes deles e delas chegarem \u00e0 minha idade. Os depoimentos s\u00e3o tocantes e a pandemia de covid-19 foi um acelerador dessa antevis\u00e3o: se um v\u00edrus pode fazer o que fez no mundo, imaginem todas as trag\u00e9dias anunciadas pelos cientistas, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar partilhando um epis\u00f3dio vision\u00e1rio que aconteceu h\u00e1 vinte anos com um jovem e brilhante estudante, que escreveu sob minha supervis\u00e3o uma monografia sobre o desenvolvimento urbano da pequena comunidade alternativa do Cap\u00e3o, na Chapada Diamantina. Seu trabalho, dedicado e competente, valeu uma aprova\u00e7\u00e3o calorosa da banca do Curso de Urbanismo da Universidade do Estado da Bahia. Como \u00e9 de praxe, a orientadora abra\u00e7a o orientando dando-lhe as boas-vindas ao mundo dos pesquisadores, que ele entrava com talento evidente. Quando lhe perguntei pelos seus planos de futuro, sobre um poss\u00edvel Mestrado, ele me surpreendeu dizendo que iria morar no Cap\u00e3o e provavelmente ser guia tur\u00edstico. Espantada, disse-lhe que era muito inteligente e talentoso e que poderia vir a ser professor, ao que ele respondeu com algo como \u201c<em>pr\u00f3<\/em>, se sou t\u00e3o inteligente assim n\u00e3o posso planejar minha vida para servir a esse mundo em decomposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio me marcou pois, embora na \u00e9poca conduzisse um grande programa de incentivo ao consumo consciente no meio universit\u00e1rio brasileiro, n\u00e3o tinha tal clareza sobre o futuro. \u00c9 seguindo o caminho de meu orientando \u2013 que est\u00e1 tendo hoje uma vida simples e alegre l\u00e1 no Cap\u00e3o \u2014 que abordarei o tema do futuro dos jovens. Se me permitem um conselho para come\u00e7ar, eu diria: n\u00e3o planejem carreiras e feitos vinculados ao mundo como ele \u00e9 \u2014 ou era, antes da pandemia \u2014 pois ele n\u00e3o existir\u00e1 mais e essa escolha n\u00e3o ser\u00e1 ben\u00e9fica pra voc\u00ea, nem para a Vida.<\/p>\n<p>Afrontar o \u201cfim de um mundo\u201d n\u00e3o \u00e9 uma perspectiva f\u00e1cil de encarar, mas posso lhes assegurar que, se as perspectivas s\u00e3o sombrias, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m ver luz se aproximando. Como lembram os antigos, ap\u00f3s cada noite sempre sobrev\u00e9m uma manh\u00e3. Se as palavras de ordem do futuro pr\u00f3ximo ser\u00e3o provavelmente desestrutura\u00e7\u00e3o e incerteza, elas tamb\u00e9m ser\u00e3o resili\u00eancia e criatividade. Quando a barb\u00e1rie bater \u00e0 porta, seremos obrigados a nos regenerar e em face ao desequil\u00edbrio de grandes propor\u00e7\u00f5es, apenas a coopera\u00e7\u00e3o poder\u00e1 fazer com que possamos renascer como civiliza\u00e7\u00e3o. A coopera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ser\u00e1 palavra de ordem do futuro e isso \u00e9 promissor, mas exigir\u00e1 coragem e determina\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m o desenvolvimento de habilidades muito femininas, como o cuidado e o acolhimento, que constroem redes de afetos, de amizades, de fam\u00edlia e de solidariedade com a fam\u00edlia humana e com a Natureza.<\/p>\n<p>Apesar das cat\u00e1strofes que est\u00e3o impl\u00edcitas na ideia de gera\u00e7\u00e3o do fim do mundo, isso pode ser visto tamb\u00e9m como uma grande liberta\u00e7\u00e3o para a juventude. Ser\u00e3o as primeiras gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o precisar\u00e3o, nem poder\u00e3o, formatar-se ao mundo dos pais, op\u00e7\u00e3o sem gra\u00e7a para qualquer jovem com imagina\u00e7\u00e3o. E tantos tiveram suas vidas e carreiras profissionais orientadas pelas conveni\u00eancias\u2026 sejam elas de mercado, de trabalhar onde potencialmente se ganha mais dinheiro, ou de prest\u00edgio, seguindo os passos da fam\u00edlia, para herdar respeito, condi\u00e7\u00f5es diferenciadas e alta remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesses caminhos antigos em que os e as jovens projetaram seus futuros, muitas vezes se criou expectativas frustradas e infelicidade, pela trai\u00e7\u00e3o dos talentos individuais.\u00a0De todo modo, a expectativa de dinheiro e prest\u00edgio sempre foi para poucos, deixando a maioria esmagadora frustrada e infeliz. Agora eles s\u00e3o uma quimera acess\u00edvel talvez apenas a pouqu\u00edssimos jovens oriundos de fam\u00edlias que consigam guardar suas fortunas apesar de tudo e assim possam financiar a \u201cprosperidade\u201d de mais uma gera\u00e7\u00e3o. Ao longo da Hist\u00f3ria, muitos jovens, para se integrarem \u00e0 comunidade de origem, tiveram que abrir m\u00e3o de seus talentos \u2014 e tamb\u00e9m de suas op\u00e7\u00f5es sexuais, de suas inclina\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e de seus sonhos mais criativos. Hoje, pelo impacto da incerteza, eles e elas tendem a ser mais livres para escolherem seus caminhos.<\/p>\n<p>Os sonhos de \u201csucesso\u201d, de \u201ccarreiras bem-sucedidas\u201d, de enriquecimento e prest\u00edgio, foram estimulados pela cultura capitalista que construiu o desastre a que estamos assistindo. O modelo do mercado, onde o objetivo \u00fanico \u00e9 lucrar, n\u00e3o \u00e9 resiliente, sobretudo em tempos de tantas transforma\u00e7\u00f5es. Na mudan\u00e7a radical que o futuro certamente trar\u00e1, \u00e9 uma bobagem gastar a intelig\u00eancia e o talento da juventude com perspectivas tradicionais.\u00a0Num mundo a reconstruir toda a energia e criatividade dos jovens ser\u00e1 muito bem-vindos, sobretudo se eles e elas acolhem o futuro como incerto e, portanto, desenvolvem a resili\u00eancia \u2013 essa capacidade de acomodar-se aos choques da vida tirando da exist\u00eancia o mais importante: aprendizado, amor, inteireza, alegria de viver.<\/p>\n<p>Muito provavelmente a prosperidade do futuro ser\u00e1 concebida de forma diferente. Ela estar\u00e1 muito mais vinculada \u00e0 ideia de conseguir regenerar a Natureza e as rela\u00e7\u00f5es humanas em bases que se sustentem. Produzir comida s\u00e3, \u00e1gua limpa, ar puro, solos e matas em recupera\u00e7\u00e3o, recriando biodiversidade \u2014 a grande riqueza do mundo \u2014 ser\u00e3o muito mais prestigiados no futuro. Construir rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00f3lidas, solid\u00e1rias, com pessoas pr\u00f3ximas e distantes \u2013 ser\u00e1 outra habilidade prestigiada. Ser artista, trazer ao mundo mais fantasia, possibilidades insuspeitadas, mergulhos na alma\u2026 Tudo isso ser\u00e1 precioso e muito mais valorizado, dando \u00e0 juventude mais argumentos para rebelar-se, como sempre fez, mas trazendo uma nova legitimidade: afirmar-se servindo ao mundo fazendo o que sua alma pede.<\/p>\n<p>A palavra incerteza aparecer\u00e1 muito mais nas nossas vidas e n\u00f3s aprenderemos finalmente o quanto querer controlar a vida \u00e9 uma ilus\u00e3o. Melhor vale estar aberta\/aberto ao imprevisto e tirar o melhor dele. Quando os sistemas se desestabilizam, principalmente o sistema Terra, as previs\u00f5es ser\u00e3o mais dif\u00edceis, mesmo com todos os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Passo a um segundo conselho, se continuam a me permitir: recomendo vivamente aos jovens que desenvolvam sua intui\u00e7\u00e3o, essa habilidade humana tida como feminina, t\u00e3o pouco usada, e at\u00e9 desprezada. A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 um tipo de vis\u00e3o \u00edntima, possibilitada quando mente e cora\u00e7\u00e3o est\u00e3o em sintonia. Ela envolve o corpo e a alma e com a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escolher o melhor caminho em face do incerto, da d\u00favida, do medo. Essa habilidade pode ser desenvolvida com exerc\u00edcios cotidianos, quando a mente \u00e9 acalmada e outras sabedorias se colocam a nosso servi\u00e7o. Ela ser\u00e1 importante fator de aumento da resili\u00eancia e da serenidade necess\u00e1ria para escutar a sabedoria maior em face das adversidades e das possibilidades. Ela \u00e9 tamb\u00e9m grande amiga da criatividade e assim da arte, da ci\u00eancia e da inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma potencialidade importante do futuro j\u00e1 pode ser vivida hoje: aprender pela internet, aproveitando o esp\u00edrito de coopera\u00e7\u00e3o que a\u00ed impera e que \u00e9 natural no ser humano. Este esp\u00edrito \u00e9 largamente praticado por muitas comunidades alternativas. Hoje, esses agrupamentos humanos, onde se destacam as ecovilas, j\u00e1 se empenham em diversos modos econ\u00f4micos ganha-ganha, de partilha e redistribui\u00e7\u00e3o; em modos regenerativos de lidar com a Natureza para produzir alimentos e florestas; em modos integrativos de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade que se baseiam na sabedoria nata das crian\u00e7as e dos nossos corpos para aprenderem e se manterem saud\u00e1veis; nas pr\u00e1ticas colaborativas de autoconhecimento que baseiam-se na ideia de transformar-se para transformar o mundo; nas governan\u00e7as democr\u00e1ticas de coletivos locais que inspiram transforma\u00e7\u00f5es em escalas maiores; na modera\u00e7\u00e3o de consumo requeridas pelo imperativo do lixo zero para evitar o ecoc\u00eddio; nas tecnologias ecol\u00f3gicas e colaborativas <em>open source<\/em>, <em>creative<\/em> <em>commons<\/em>, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que no futuro venha a existir muita escassez daquilo que era comum, devido \u00e0 sucess\u00e3o de crises previs\u00edveis de alimentos, de \u00e1gua, de combust\u00edveis, pela volatilidade do dinheiro, restri\u00e7\u00f5es \u00e0 mobilidade, etc. Nesse caso, o que era abundante e nocivo felizmente vai aos poucos acabando: petr\u00f3leo, pl\u00e1sticos, descart\u00e1veis, desperd\u00edcio, superficialidade, competi\u00e7\u00e3o exacerbada, consumo insensato. Abriremos os olhos para ver abund\u00e2ncia ali onde isso era insuspeitado. Todas as possibilidades da reciclagem que transformam res\u00edduos em objetos \u00fateis ser\u00e3o valorizadas no mundo onde os lix\u00f5es e aterros sanit\u00e1rios ser\u00e3o tesouros. E assim, o que era pouco valorizado pelo \u201cmercado rei\u201d, o que d\u00e1 pouco ou nenhum dinheiro, mas que traz sentido \u00e0 vida, se tornar\u00e1 essencial: os fazeres manuais, os fazeres da terra, as artes de modo geral. E, tamb\u00e9m, aquilo que n\u00e3o traz nenhuma riqueza material: a contempla\u00e7\u00e3o, a quietude, o fazer nada, a gostosa intera\u00e7\u00e3o feliz entre amigos.<\/p>\n<p>Pensem, caros jovens, no mundo apetitoso pode estar vindo por a\u00ed\u2026 Um mundo em que as \u201ctecnologias interiores\u201d do sonho de Mirra Alfassa para a mais importantes das ecovilas: Auroville, se tornam um caminho de evolu\u00e7\u00e3o. A \u201cM\u00e3e\u201d de Auroville dizia que chegaria um tempo em que harmonizar\u00edamos nossos feitos externos \u2014 as incr\u00edveis tecnologias inventadas pela humanidade para lidar com o mundo exterior \u2014 com tecnologias interiores, formas engenhosas e sens\u00edveis de lidar com o mundo interno. Esse universo imenso que est\u00e1 dentro de cada um e cada uma de n\u00f3s est\u00e1 interligado aos outros e pode evoluir. \u00c9 o que nos dizia Gustav Jung em seu conceito de inconsciente coletivo, como nos diz hoje Rupert Sheldrake no seu conceito de campos morfogen\u00e9ticos, ou como nos disseram sempre as sabedorias ancestrais. A evolu\u00e7\u00e3o segue em dire\u00e7\u00e3o a mais amorosidade e a pr\u00f3pria hist\u00f3ria humana mostra isso, se acompanhamos a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da ideia de direito \u00e0 Vida, por exemplo.<\/p>\n<p>Voc\u00eas, jovens de hoje, poder\u00e3o ajudar a humanidade a dar passos largos na dire\u00e7\u00e3o da amorosidade. Convido-a, cara juventude, a abrir os olhos para verem as pessoas e comunidades que j\u00e1 est\u00e3o vivendo o p\u00f3s-capitalismo h\u00e1 anos e mesmo h\u00e1 d\u00e9cadas. Na verdade, essas comunidades apenas atualizaram conceitos presentes nos modos de vida das culturas origin\u00e1rias que foram sufocadas pelo colonialismo. Elas entendiam que a harmonia entre n\u00f3s e a Terra, entre n\u00f3s e os outros e entre as diversas partes de n\u00f3s \u2013 corpo, alma, cora\u00e7\u00e3o e mente \u2013 s\u00e3o a \u00fanica forma de sobrevivermos juntos e de prosperarmos em termos subjetivos e materiais. E de sermos felizes e permitirmos que os outros tamb\u00e9m sejam. O mundo est\u00e1 falindo, mas tamb\u00e9m recome\u00e7ando, e voc\u00eas far\u00e3o essa hist\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 superando o capitalismo, mas tamb\u00e9m o patriarcado.<\/p>\n<p>O lugar em que se est\u00e1 tamb\u00e9m vai ser muito importante para as oportunidades. At\u00e9 hoje as cidades grandes e as megal\u00f3poles eram o lugar dessas oportunidades, mas elas s\u00e3o estruturas pesadas e dependentes, com baix\u00edssima resili\u00eancia, insustent\u00e1veis. Est\u00e3o cada vez mais caras, polu\u00eddas, congestionadas, violentas e nada no horizonte aponta que isso vai melhorar. Pelo contr\u00e1rio. Cidades m\u00e9dias e pequenas, ecovilas, vida no campo, tudo isso oferece maior resili\u00eancia aos problemas ambientais, econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos\u2026 Ter um cintur\u00e3o verde oferece comida mais facilmente, ter um governo mais pr\u00f3ximo favorece a democracia, ter fam\u00edlias e amigos mais perto favorece a coopera\u00e7\u00e3o e a vida de vizinhan\u00e7a \u00e9 muito mais intensa em espa\u00e7os urbanos menores.<\/p>\n<p>Uma economia de proximidade \u00e9 mais s\u00f3lida, os chamados circuitos curtos fortalecem a economia local e distribuem renda. Por isso mesmo haver\u00e1 uma tend\u00eancia \u00e0 descentraliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 nas grandes cidades. Com a pandemia e a acelera\u00e7\u00e3o do trabalho remoto, via tecnologias digitais, milh\u00f5es de pessoas deixaram as cidades e instalaram-se em locais mais calmos mantendo sua possibilidade de trabalho e intera\u00e7\u00e3o. Quando tiveram que se manter isoladas em casa as pessoas tiraram muito mais proveito do com\u00e9rcio local e das rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a. Isso tudo j\u00e1 est\u00e1 impactando o futuro, mostrando que h\u00e1 sa\u00eddas quando o ac\u00famulo de crises for transformando as megacidades em locais com muito mais problemas do que oportunidades.<\/p>\n<p>Essa escassez do que era abundante e abund\u00e2ncia do que era insuspeitavelmente \u00fatil tende a ser uma caracter\u00edstica do futuro.\u00a0 Dou como exemplo a quest\u00e3o dos alimentos trazendo algo que hoje j\u00e1 faz sucesso em meio \u00e0 juventude mais criativa: as PANCs, Plantas Aliment\u00edcias N\u00e3o Convencionais, como se diz no Brasil, ou os <em>incredibles<\/em> <em>edibles<\/em>, os <em>incroyables<\/em> <em>comestibles<\/em>, etc. Sabe aquela plantinha que est\u00e1 ali na esquina, resistente e que cresce sem cuidados? Ela pode ser uma PANC muito nutritiva. Quando a ci\u00eancia fala que pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ser\u00e1 dif\u00edcil continuar cultivando os alimentos a que estamos acostumados nos lugares em que sempre foram cultivados, nossos olhos podem se abrir para outras possibilidades nutritivas. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo em muitas partes da \u00cdndia hoje com o arroz, a comida nacional. Muitas experi\u00eancias est\u00e3o sendo feitas para substitu\u00ed-lo pelo mileto, um cereal muito mais nutritivo e resiliente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que demanda muito menos \u00e1gua e fornece muito mais nutrientes que o arroz, e era desprezado.<\/p>\n<p>\u00c9 quando a cat\u00e1strofe se torna an\u00e1strofe, reconstru\u00e7\u00e3o, que cada jovem pode encontrar o lugar da alegria de fazer o que gosta e servir assim ao mundo, sem escolher uma carreira pelo prest\u00edgio e dinheiro, como vem se fazendo h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. Sem fazer outras escolhas de vida sentindo o peso esmagador das gera\u00e7\u00f5es passadas, apenas inspirando-se no que elas fizeram e que voc\u00eas admiram e honram. Voc\u00eas ser\u00e3o os jardineiros de amanh\u00e3, jardineiros DO amanh\u00e3, que sabem regenerar, que lidam com os conflitos usando o cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o f\u00edgado, que percebem que cada gesto individual constr\u00f3i o mundo coletivo. Que o mundo interno se reflete no mundo externo. E se engajam para fazer o melhor por si, para fazer o melhor para o mundo. Confio em voc\u00eas e tamb\u00e9m desejo boa sorte. Estamos juntas. Estamos juntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De pouco vale, agora, planejar-se para viver em um mundo \u00e0 beira da cat\u00e1strofe. 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