{"id":1375133,"date":"2021-06-06T04:32:06","date_gmt":"2021-06-06T03:32:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1375133"},"modified":"2021-06-06T02:27:43","modified_gmt":"2021-06-06T01:27:43","slug":"archie-shepp-o-jazz-e-libertador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/06\/archie-shepp-o-jazz-e-libertador\/","title":{"rendered":"Archie Shepp: o jazz \u00e9 libertador"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Paolo D&#8217;Aprile e Guilherme Maia<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;Eu sou um artista antifascista e minha m\u00fasica \u00e9 funcional. Eu toco minha morte que suas m\u00e3os assassinas me deram, e exulto porque, mesmo assim, continuo vivendo. Devolvo o que digo em forma de uma m\u00fasica que nunca poder\u00e1 ser\u00e1 ouvida por voc\u00eas, porque meu som \u00e9 para meu o povo que grita: derrubem o gueto, let my people free. Vivemos no sistema mais racista e vicioso do mundo, onde a minha gente \u00e9 massacrada nas ruas de Soweto e nas de Harlem. O que acontecer\u00e1 quando nossa raiva coletiva n\u00e3o poder\u00e1 mais ser contida? Nossa rea\u00e7\u00e3o ser\u00e1 negra, assim como negro \u00e9 o sofrimento, como Fidel \u00e9 negro, como Ho Chi Min \u00e9 negro. Cada um de n\u00f3s \u00e9 pe\u00e7a fundamental do enorme movimento por direito civis, e isso se reflete em minha m\u00fasica, o jazz. Ele constitui a grande contribui\u00e7\u00e3o que a Am\u00e9rica do meu povo deu ao mundo. O jazz nascido da opress\u00e3o e da escravid\u00e3o de minha gente, \u00e9 contra a guerra, contra a interven\u00e7\u00e3o no Vietnam, est\u00e1 ao lado de Cuba e da luta de liberta\u00e7\u00e3o de todos os povos, \u00e9 a sua natureza. O velho jazz torna-se o novo jazz, atrav\u00e9s de uma mensagem que at\u00e9 hoje n\u00e3o podia ser formulada; por tempo demasiado os afro-americanos sofreram imposi\u00e7\u00e3o de uma narrativa hist\u00f3rica que n\u00e3o lhes pertencia. O jazz \u00e9 libertador&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Assim dizia Archie Shepp no auge de sua criatividade, no momento mais alto de uma carreira art\u00edstica e humana que atravessou as d\u00e9cadas colocando o dedo nas feridas da hipocrisia de uma sociedade doente. A m\u00fasica \u00e9 sim um ato pol\u00edtico capaz de ir contra o pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico, no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo mundial cuja \u00fanica finalidade \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o, a ganancia, o lucro a qualquer custo. &#8220;Se a m\u00fasica n\u00e3o bastasse, escreveria um poema a cada instante: <em>Let my people free, <\/em>deixem o meu povo livre&#8221;.<\/p>\n<p>A busca e a luta pela liberdade permeiam sua personalidade inquieta e o empurram nos bra\u00e7os da <em>New Thing<\/em>, a nova coisa, o <em>free jazz <\/em>daqueles anos ferozes, onde o ato de viver era pr\u00f3pria obra, sendo ela constantemente inacabada no <em>work in progress <\/em>da exist\u00eancia. O embate contra o peso da hist\u00f3ria e a relev\u00e2ncia formal da m\u00fasica erudita de origem europeia branca, tomava como ponto de partida o desconhecimento da tradi\u00e7\u00e3o popular por parte dos compositores contempor\u00e2neos mais importantes que se atreviam a falar sobre o jazz ou, at\u00e9 mesmo, a compor m\u00fasica inspirada nele. O novo tinha que surgir do novo. Um novo vindo de longe, moldado nas entranhas da <em>plantation <\/em>e crescido nos guetos urbanos de metr\u00f3poles infernais. <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Por isso a polirritmia compositiva se torna a base da nova m\u00fasica em que a melodia derrete sua estrutura em um todo on\u00edvoro, feito de feiura proposital e agress\u00e3o auditiva. As formas da tradi\u00e7\u00e3o secular da norma escrita, englobadas na linguagem geral como mat\u00e9ria bruta, tornam-se caricaturas de si mesmas, morrem e renascem sob a forma de cita\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o, ponto de refer\u00eancia c\u00f4mico, grotesco, de um passado pertencente a outras terras, outras gentes.<\/p>\n<p>A m\u00fasica transforma-se em ato dionis\u00edaco, irreverencia parox\u00edstica, forma livre em um sistema social onde o paradoxo do mito do sonho americano da ascens\u00e3o social, fabrica <em>losers<\/em>, perdedores, exclu\u00eddos, oprimidos, humilhados e ofendidos, aos milh\u00f5es, no mundo inteiro. Por isso a arte, a\u00e7\u00e3o libertadora, \u00e9 fa\u00edsca de rebeli\u00e3o. Como se ao tocar seu necess\u00e1rio e lancinante sax tenor, Archie Shepp encorajasse cada um de n\u00f3s dizendo aquilo que o velho Karl j\u00e1 dizia: <em>Na revolu\u00e7\u00e3o nada temos a perder, s\u00f3 nossas correntes.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Archie Shepp - You&#039;re What This Day Is All About\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sUq3Wwu_kcg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARCHIE SHEEP ACERIM\u00d4NIA ANIMISTA DO FOGO<\/strong><\/p>\n<p>E o que falar de Archie Sheep que n\u00e3o se contenha em p\u00f4-lo como um <em>avant-garde<\/em>? Existe uma puls\u00e3o al\u00e9m no jogo de atonalidades provocadas por seu sax tenor, uma implica\u00e7\u00e3o m\u00edstica de chamamento ancestral e aos esp\u00edritos. A Arte de Sheep se faz como ponte entre esses dois mundos: o perceptivo material e o afroc\u00eantrico, &#8211; o in\u00edcio da vida e as origens an\u00edmicas do ser.<\/p>\n<p>O rasgo do seu instrumento entrela\u00e7ado com o trombone de Joseph Orange em Hambone, no \u00e1lbum Fire Music deixa bem clara essa op\u00e7\u00e3o ou chamamento da voz e do grito dos ancestrais.<\/p>\n<div class=\"post-gallery\">\n\t\t\t<figure class=\"post-gallery-item\">\n\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/arte-para-fechar-artigo-com-o-paolo-720x430.jpg\" loading=\"lazy\">\n\t\t\t\t<figcaption>\n\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t<\/figcaption>\n\t\t\t<\/figure><\/div>\n<p>O LP \u00e9 de 1965 e fora gravado na Impulse! Records. Selo a que chegou levado por seu grande amigo John Coltrane. L\u00e1 permaneceu por mais nove obras retornando ap\u00f3s migra\u00e7\u00e3o por outras gravadoras para mais tr\u00eas discos. Na Impulse! Podia fazer o que quisesse, podia ser o g\u00eanio de sempre e, em meio a esta genialidade, alcan\u00e7ou o afrocentrismo.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento pode parecer que n\u00e3o passa de um engajamento pol\u00edtico de cunho progressista no sentido de enaltecer a figura de Malcolm X; isso num momento bem sens\u00edvel de escancaro do racismo estadunidense (porque este sempre esteve presente como uma das ra\u00edzes mais profundas da cultura de l\u00e1, apenas aflorou definitivamente como rea\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito do Tempo que n\u00e3o permitia mais o arca\u00edsmo dos negros pendurados nas \u00e1rvores). Mas era mais, era uma entrega \u00e0s vozes internas dos esp\u00edritos e do <em>anima<\/em> natural, essa jun\u00e7\u00e3o sobrenatural cercou toda a sua obra a partir de Fire Music, o que ap\u00f3s s\u00f3 foi se aprofundando. Sua m\u00fasica parece\u00a0 se dirigir ao transe, o que sentimos em Los Olvidados (mais uma vez o s\u00edmbolo contra a opress\u00e3o, pois agoniza em seu saxofone tenor as agruras dos americanos latinos no meio \u00e1 ideologia <em>redneck <\/em>do profundo).<\/p>\n<p>Luis Bu\u00f1uel dirigiu Los Olvidados em 1950, j\u00e1 fora da Espanha por causa da ditadura franquista. Nesse filme de sua fase mexicana, as interven\u00e7\u00f5es surrealistas est\u00e3o submetidas \u00e0 narrativa naturalista de crian\u00e7as e jovens condenados \u00e0 marginalidade no sub\u00farbio do M\u00e9xico. Bu\u00f1uel retomou sua produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica no M\u00e9xico com Gran Cassino de 1947; vale lembrar que o filme anterior ao de 1947 fora rodado no interior remoto e miser\u00e1vel da Espanha em 1933 e tratava de um document\u00e1rio chamado TERRA SEM P\u00c3O.<\/p>\n<p>Retrato da mis\u00e9ria h\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o direta entre o Terra sem P\u00e3o e Os esquecidos: ambos retratam o que a pobreza e a mis\u00e9ria podem fazer no f\u00edsico e na psicologia de grupos estigmatizados a viv\u00ea-la.<\/p>\n<p>Homenagem ao mestre vale muita esta comunica\u00e7\u00e3o, pois se trata de dois g\u00eanios impass\u00edveis. Essa ponte \u00e9 a vontade de denunciar as causas da pauperiza\u00e7\u00e3o de parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. Ambos, m\u00fasica e diretor cinematogr\u00e1fico, buscaram dar sua Arte como retrato do que deve ser mudado e insistem em impingir como um dogma.<\/p>\n<p>Malcolm, Malcolm Semper Malcolm \u2013 enche de solenidade a figura do l\u00edder negro, juntando ao seu forte s\u00edmbolo o termo em latim. A figura de Malcolm \u00e9 a de um l\u00edder espiritual que estava em seu pleno desenvolvimento quando assassinado. Mais uma vez as circunst\u00e2ncias nos levam a entender a obra de Archie Sheep como uma evoca\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a da matriz dos esp\u00edritos. Posto que Malcolm fora uma lideran\u00e7a pol\u00edtica-espiritual cujo entendimento estava em plena ascens\u00e3o pela teologia da liberta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a do cativeiro (como t\u00e3o bem nos ensina Leonardo Boff).<\/p>\n<p>Malcolm cada dia que passava mais se ambientava espiritualmente com uma concep\u00e7\u00e3o transreligiosa,\u00a0 tolerante e acolhedora.<\/p>\n<p>E essa evoca\u00e7\u00e3o a Malcolm em Fire Music \u00e9 o chamamento dessa realidade suprema de Justi\u00e7a e Amor, aquela que s\u00f3 se entende se deixar o ego de lado e conscientizar da import\u00e2ncia da a\u00e7\u00e3o humana e da riqueza dos ideais e dos s\u00edmbolos. Malcolm virara um s\u00edmbolo da resist\u00eancia ao retr\u00f3grado sentimento de \u00f3dio a grupos \u00e9tnicos, mas tamb\u00e9m de afronta ao descaso \u00e0 dignidade humana.<\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o da Garota de Ipanema \u00e9 interessante por que estava rolando os 60 e a Bossa nova tinha sido digerida como produto de cultura estadunidense de massa. Archie fez a cr\u00edtica em metalinguagem da subvers\u00e3o da m\u00fasica massificada com suas atonalidades provocativas.<\/p>\n<p>Claro que isso n\u00e3o traz descr\u00e9dito algum \u00e0 obra soberana de tom Jobim e Vin\u00edcius de Moraes em si, mas tal cr\u00edtica poderia ser sacada contra qualquer coisa investida de industrializa\u00e7\u00e3o e de marketing de massa.<\/p>\n<p>Assim caminha a humanidade e Archie j\u00e1 havia se envolvido com Coltrane, Ornette Coleman e Cecil Taylor. Com Coltrane participou de A Love Supreme &#8211; uma ode ao contato ext\u00e1tico com o divino &#8211; e com Ornette Coleman arregimentou o New York Contemporary Five &#8211; vanguarda total. Suas trocas ou odes s\u00e3o infinitas: al\u00e7ou voos com Don Cherry, homenageou outros universos musicais como os casos de Sidney Bechet a Sun Ra. Sobre esta constela\u00e7\u00e3o de personalidades t\u00e3o distintas como \u00f3leo e \u00e1gua Archie conseguiu tecer um liame.<\/p>\n<p>Assim como os deuses diversos do Jazz que juntou pelas notas emitidas de seu sax tenor, transporta a audi\u00e7\u00e3o para a misticidade africana, para sortil\u00e9gios de vodu ou dignidades ancestrais. Passa por toda a espiritualidade africana e comp\u00f5e sua dodecafonia jazz\u00edstica com as mensagens que emanam da p\u00e1tria m\u00e3e, que \u00e9 ao mesmo tempo origem da vida.<\/p>\n<p>Culto da ancestralidade e \u00e0s entidades permeia a di\u00e1spora negra escravizada pelos ditos crist\u00e3os homens de bem, formando caracter\u00edsticas diversas conforme o modo de inser\u00e7\u00e3o social que os homens e mulheres cativos tiveram pelas regi\u00f5es onde foram colocados. Essa inser\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conseguiu arrefecer as ra\u00edzes \u00e9 que impulsiona a criatividade de Sheep em The Magic of JU-JU, no longo di\u00e1logo de Frank Charles e Dennis Charles marcando o ritmo de JU-JU. Ali est\u00e1 uma entidade africana expressa nas cabriolagens do sax tenor forte e ligeiro que o m\u00fasico imprime por todo o di\u00e1logo das percuss\u00f5es. Exemplo de como Artie Sheep nos remonta \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es milenares com percep\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e que, de alguma forma, n\u00e3o foram extintas no inconsciente coletivo afrodescendendente.<\/p>\n<p>Artie Sheep \u00e9 a vanguarda do sentimento ancestral e, com isso, fundamenta um paradoxo onde a tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o passo para o futuro numa miscel\u00e2nea de ideias que s\u00f3 seriam confi\u00e1veis em meio \u00e0 atonalidade r\u00edspida de seu saxofone tenor.<\/p>\n<p>Porque o futuro \u00e9 o passado (re)constru\u00eddo e o presente pertence a nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ajamos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paolo D&#8217;Aprile e Guilherme Maia &#8220;Eu sou um artista antifascista e minha m\u00fasica \u00e9 funcional. Eu toco minha morte que suas m\u00e3os assassinas me deram, e exulto porque, mesmo assim, continuo vivendo. 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