{"id":1339629,"date":"2021-04-12T02:55:30","date_gmt":"2021-04-12T01:55:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1339629"},"modified":"2021-04-12T02:55:30","modified_gmt":"2021-04-12T01:55:30","slug":"57-anos-do-golpe-de-1964-professores-da-ufrj-analisam-os-diferentes-aspectos-da-ditadura-militar-e-os-seus-desdobramentos-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/04\/57-anos-do-golpe-de-1964-professores-da-ufrj-analisam-os-diferentes-aspectos-da-ditadura-militar-e-os-seus-desdobramentos-hoje\/","title":{"rendered":"57 anos do golpe de 1964: Professores da UFRJ analisam os diferentes aspectos da ditadura militar e os seus desdobramentos hoje"},"content":{"rendered":"<h4><strong>Por Pedro Barreto*<\/strong><\/h4>\n<p><em>\u201cH\u00e1 sob a nossa responsabilidade a popula\u00e7\u00e3o do Brasil, o povo, a ordem. Assim sendo, declaro vaga a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. E, nos termos do artigo 79 da Constitui\u00e7\u00e3o, declaro presidente da Rep\u00fablica o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Ranieri Mazzilli.\u201d<\/em><\/p>\n<h4>\u00a0Confira a grava\u00e7\u00e3o no v\u00eddeo abaixo:<\/h4>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bRe5U2epRWA\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bRe5U2epRWA<\/a><\/p>\n<p>Com essas palavras, o senador Auro de Moura Andrade, que presidia sess\u00e3o no Congresso Nacional, deu legitimidade institucional ao golpe de Estado, no dia 2 de abril de 1964. A alega\u00e7\u00e3o era de que o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Jo\u00e3o Goulart, n\u00e3o se encontrava no Pa\u00eds. A informa\u00e7\u00e3o fora desmentida pelo ent\u00e3o chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, que comunicara que Jango se encontrava no Rio Grande do Sul. O golpe, no entanto, j\u00e1 estava dado, desde a madrugada de 31 de mar\u00e7o para 1\u00ba de abril, quando o general Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho, comandante da 4\u00aa Regi\u00e3o Militar, em Juiz de Fora, rumou com suas tropas para o Rio de Janeiro. Goulart, em Porto Alegre, fora aconselhado por Leonel Brizola, seu cunhado e ent\u00e3o deputado federal pelo estado da Guanabara, a resistir. Temendo um derramamento de sangue, o presidente da Rep\u00fablica por direito n\u00e3o seguiu o conselho e se exilou no Uruguai. Come\u00e7avam ali os primeiros dias dos 21 anos de autoritarismo, endividamento, corrup\u00e7\u00e3o, censura, torturas e mortes que se seguiriam.<\/p>\n<p>Ainda que executada por generais do Ex\u00e9rcito brasileiro, a conspira\u00e7\u00e3o que resultou no golpe de Estado havia sido urdida em parceria com setores civis, como a imprensa, a igreja, pol\u00edticos, empres\u00e1rios, e recebera apoio do governo estadunidense, na \u00e9poca comandado pelo democrata Lyndon B. Johnson. Incomodava-os sobremaneira a s\u00e9rie de reformas de base iniciadas por Goulart \u2212 administrativa, fiscal, banc\u00e1ria e agr\u00e1ria \u2212 e anunciadas no emblem\u00e1tico com\u00edcio da Central do Brasil, em 13 de mar\u00e7o. A resposta veio menos de uma semana depois, no dia 19, com a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, em S\u00e3o Paulo. O movimento, que teria reunido cerca de 300 mil pessoas, era composto, basicamente, por pessoas das classes m\u00e9dia e alta paulistana, representantes da igreja cat\u00f3lica e pol\u00edticos conservadores \u2013 entre eles, o governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, e o senador Auro de Moura Andrade. A crise com os setores militares acentuou-se ainda mais no dia 30 de mar\u00e7o, quando Jango discursou em defesa de lideran\u00e7as da Associa\u00e7\u00e3o de Marinheiros e Fuzileiros Navais, que haviam se amotinado em protesto contra puni\u00e7\u00f5es impostas por oficiais da Marinha.<\/p>\n<p>No momento em que recordamos os 57 anos do golpe \u2013 que alguns preferem chamar de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cmovimento\u201d \u2013, ainda h\u00e1 reflex\u00f5es importantes a fazer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele epis\u00f3dio, que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi superado pela sociedade brasileira. Quais elementos propiciaram a ruptura democr\u00e1tica? Seria poss\u00edvel resistir a ela? De que forma se deu a transi\u00e7\u00e3o para a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds? Ainda hoje h\u00e1 riscos de uma nova quebra institucional? Para responder a essas perguntas, o Setor de Comunica\u00e7\u00e3o do Centro de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (Secom\/CFCH) entrevistou professores e pesquisadores que se dedicam a refletir e investigar os diferentes e complexos aspectos que fazem parte dos estudos sobre aquele per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Como primeira quest\u00e3o, indaga-se: seria poss\u00edvel resistir ao golpe? E se Jo\u00e3o Goulart tivesse considerado a recomenda\u00e7\u00e3o de Leonel Brizola e enfrentasse os generais, pol\u00edticos, eclesi\u00e1sticos, empres\u00e1rios e o governo dos Estados Unidos, o que teria ocorrido? No document\u00e1rio <strong><em>O Dia que Durou 21 Anos<\/em><\/strong>, de 2013 , os diretores Camilo e Fl\u00e1vio Tavares exibem documentos que apontam a colabora\u00e7\u00e3o do governo daquele pa\u00eds, que teria oferecido o envio de uma frota de navios estadunidenses para debelar a resist\u00eancia, caso ela ocorresse. N\u00e3o foi preciso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O Dia que Durou 21 Anos\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QJCugIKcWNs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Para o professor <strong>Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva<\/strong>, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas P\u00fablicas em Direitos Humanos (PPDH), vinculado ao N\u00facleo de Estudos de Pol\u00edticas P\u00fablicas em Direitos Humanos (Nepp-DH) da UFRJ, n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para a resist\u00eancia. \u201cAs condi\u00e7\u00f5es para faz\u00ea-lo n\u00e3o estavam necessariamente reunidas. N\u00e3o \u00e9 simples compor um bloco capaz de sustentar a legalidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1339691 size-medium\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final-720x720.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_cunca_golpe_64_final.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A quest\u00e3o \u00e9: como construir uma legalidade com realismo pol\u00edtico e for\u00e7a? A derrota n\u00e3o ensina apenas que voc\u00ea se precipita por meios armados. Pelo contr\u00e1rio\u201d, afirma o professor, que foi militante de grupos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, \u00e9 integrante do Coletivo Fernando Santa Cruz e membro da dire\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Brasileiro da Anistia (CBA) no Rio de Janeiro. O docente tamb\u00e9m \u00e9 sobrinho do deputado Cunca Bocayuva, um dos parlamentares a protestar contra o pronunciamento de Auro de Moura Andrade, no Senado Federal, no dia 2 de abril de 1964. \u201cFoi o golpe precursor na Am\u00e9rica do Sul, dentro do contexto de guerra fria. O objetivo foi barrar regimes de reforma social, como no Brasil, e processos transformadores considerados poss\u00edveis, que tinham como modelo a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Barrava a mobiliza\u00e7\u00e3o social popular, o populismo, as mobiliza\u00e7\u00f5es de esquerda e as reformas de base\u201d, analisa o professor do PPDH\/Nepp-DH\/UFRJ.<\/p>\n<p><strong>Mortos e desaparecidos<\/strong><\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos e desaparecidos nas mais de duas d\u00e9cadas de regime de exce\u00e7\u00e3o permanece impreciso at\u00e9 hoje. <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/relatorio\/volume_3_digital.pdf\">O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV)<\/a><a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/relatorio\/volume_3_digital.pdf\">,<\/a> publicado durante o governo da presidenta Dilma Rousseff \u2013 que atuou como militante na resist\u00eancia \u00e0 ditadura \u2013, menciona 434 mortos e desaparecidos entre 1946 e 1988. O dado \u00e9 algumas vezes inferior \u00e0queles apresentados pelas comiss\u00f5es da verdade em outros pa\u00edses sul-americanos que tamb\u00e9m passaram por ditaduras militares. Na Argentina, organiza\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos calculam em 30 mil os assassinatos cometidos pelo Estado. Grande parte dessas mortes foi cometida durante o governo do ditador Jorge Rafael Videla, entre os anos 1976 e 1981. <a href=\"https:\/\/internacional.estadao.com.br\/blogs\/ariel-palacios\/ditadura-argentina-a-mais-sanguinaria-da\/\">Clique aqui para ler mais.\u00a0<\/a><\/p>\n<p>No Chile, o ditador Augusto Pinochet assumiu o poder em 11 de setembro de 1973, ap\u00f3s o bombardeio de avi\u00f5es de fabrica\u00e7\u00e3o estadunidense sobre o Pal\u00e1cio de la Moneda, onde se encontrava o presidente Salvador Allende \u2013 que teria cometido suic\u00eddio para n\u00e3o se entregar aos militares golpistas. A Comiss\u00e3o Valech, presidida pelo bispo Sergio Valech e criada para investigar os crimes cometidos durante o governo Pinochet, afirma terem sido cometidos mais de 40 mil assassinatos durante os 17 anos de governo ditatorial (1973-1990). Entretanto,<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2011\/08\/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html).\"> associa\u00e7\u00f5es de v\u00edtimas dizem que esse n\u00famero pode superar os 100 mil.\u00a0<\/a><\/p>\n<p>Devido a essa discrep\u00e2ncia entre os n\u00fameros oficiais de v\u00edtimas nos diferentes pa\u00edses, o jornal <em>Folha de S. Paulo<\/em> entendeu ser poss\u00edvel considerar o per\u00edodo em que o Brasil esteve governado por militares como uma \u201cditabranda\u201d, em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/fz1702200901.htm\">editorial publicado em 17 de fevereiro de 2009<\/a>.\u00a0 No entanto, os editorialistas, prov\u00e1vel ou convenientemente, ignoram a subnotifica\u00e7\u00e3o de registros de mortos e desaparecidos no pa\u00eds. Os n\u00fameros presentes no relat\u00f3rio da CNV n\u00e3o contemplam, por exemplo, as v\u00edtimas encontradas na chamada Vala de Perus, em S\u00e3o Paulo, de onde foram retirados 1.049 sacos com ossos humanos, no dia 4 de setembro de 1990. Apenas cinco v\u00edtimas foram identificadas: D\u00eanis Casemiro, ex-lavrador e pedreiro, ingressou em movimentos da luta armada, foi torturado na carceragem do Departamento de Ordem e Pol\u00edtica Social (Dops) de S\u00e3o Paulo e fuzilado, aos 29 anos, no dia 18 de maio de 1971.<\/p>\n<p>Frederico Eduardo Mayr, estudante de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ, foi morto, aos 23 anos, com tr\u00eas tiros no peito, ap\u00f3s sess\u00f5es de tortura no Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi) de S\u00e3o Paulo, no dia 24 de fevereiro de 1972. Fl\u00e1vio Carvalho Molina, graduado em Qu\u00edmica pela UFRJ, foi morto em 7 de novembro de 1971, na sede do DOI-Codi de S\u00e3o Paulo, aos 34 anos. Dimas Ant\u00f4nio Casemiro, irm\u00e3o mais novo de D\u00eanis, foi torturado at\u00e9 a morte, no dia 7 de abril de 1971, aos 25 anos. Alu\u00edsio Palhano Pedreira Ferreira tinha 48 anos quando foi torturado e morto, em 21 de maio de 1971, no centro de tortura conhecido como Casa da Morte, em Petr\u00f3polis, no Rio de Janeiro. N\u00e3o se sabe quantas das ossadas encontradas na Vala de Perus s\u00e3o de pessoas assassinadas pelo Estado brasileiro. O fato \u00e9 que, ap\u00f3s 31 anos de sua descoberta, essa ainda \u00e9 uma hist\u00f3ria a ser revelada. <a href=\"http:\/\/memoriasdaditadura.org.br\/7-os-encontrados\/\">(Clique aqui para ler mais)\u00a0<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1339701 size-medium alignleft\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos-300x211.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos-720x506.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos-768x540.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos-1536x1080.jpg 1536w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Golpe_Militar_64_Evandro_Teixeira_creditos.jpg 1624w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 repress\u00e3o do Estado contra trabalhadores do campo, o livro<a href=\"http:\/\/www.biblioteca.presidencia.gov.br\/publicacoes-oficiais\/catalogo\/dilma\/sdh_direito-a-memoria-e-a-verdade-camponeses-mortos-e-desaparecidos_2013.pdf\"> <em>Camponeses Mortos e Desaparecidos: Exclu\u00eddos da Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> \u00e9 o resultado do projeto Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 Verdade, da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, lan\u00e7ado em 2013. A obra re\u00fane casos de 1.196 camponeses mortos e desaparecidos, entre 1961 e 1988. Do total de mortes registradas, estima-se que 760 tenham ocorrido entre 1964 e 1985.<\/p>\n<p>Quanto aos povos ind\u00edgenas, o <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/relatorio\/Volume%202%20-%20Texto%205.pdf\">Texto 5<\/a> do relat\u00f3rio da CNV menciona que \u201cfoi poss\u00edvel estimar ao menos 8.350 ind\u00edgenas mortos no per\u00edodo de investiga\u00e7\u00e3o da CNV, em decorr\u00eancia da a\u00e7\u00e3o direta de agentes governamentais ou da sua omiss\u00e3o\u201d. O documento, por\u00e9m, admite que \u201co n\u00famero real de ind\u00edgenas mortos no per\u00edodo deve ser exponencialmente maior, uma vez que apenas uma parcela muito restrita dos povos ind\u00edgenas afetados foi analisada e que h\u00e1 casos em que a quantidade de mortos \u00e9 alta o bastante para desencorajar estimativas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Papel da imprensa<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1339650 alignleft\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final-720x720.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mcastilho_golpe_64_final.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Entre os agentes envolvidos na urdidura do golpe de 1964, a imprensa desempenhou papel fundamental na forma\u00e7\u00e3o de uma base de apoio e na legitima\u00e7\u00e3o discursiva da ruptura democr\u00e1tica a partir de prosaicos argumentos como a \u201cdefesa da p\u00e1tria e das fam\u00edlias contra a iminente amea\u00e7a comunista\u201d, entre outros. <strong>Marcio de Souza Castilho<\/strong> \u00e9 professor do Instituto de Artes e Comunica\u00e7\u00e3o Social da Universidade Federal Fluminense (Iacs\/UFF) e autor do livro <em>Sob o Imp\u00e9rio do Arb\u00edtrio: Pr\u00eamio Esso, Imprensa e Ditadura<\/em> (Alameda, 2019), que analisa a rela\u00e7\u00e3o de jornalistas e empresas de comunica\u00e7\u00e3o com o regime militar. A obra \u00e9 baseada na tese de doutorado de Castilho, defendida na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o (ECO) da UFRJ, em 2010, e orientada pela professora Ana Paula Goulart. \u201cTodos os grandes jornais apoiaram o golpe de 64, em uma grande articula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas com a sociedade civil. Exce\u00e7\u00e3o feita ao jornal <em>\u00daltima Hora<\/em>, do Samuel Wainer, que sempre denunciou o golpe e sofreu uma s\u00e9rie de repres\u00e1lias at\u00e9 o seu fechamento, em decorr\u00eancia disso. O <em>Correio da Manh\u00e3 <\/em>apoiou, mas foi o primeiro a debandar, nos primeiros dias ap\u00f3s o golpe, percebendo as viol\u00eancias cometidas\u201d, analisa o professor do Iacs. Castilho ressalta que a observa\u00e7\u00e3o do contexto hist\u00f3rico \u00e9 relevante para a an\u00e1lise. \u201cTodos eles tinham uma perspectiva liberal e, portanto, alinhados a setores da sociedade civil que viam no governo Jango uma amea\u00e7a comunista, sindicalista etc., dentro de um ide\u00e1rio t\u00edpico do contexto de guerra fria. Esses jornais n\u00e3o faziam cr\u00edticas \u00e0s viol\u00eancias da repress\u00e3o estatal e classificavam como \u2018terroristas\u2019 os atos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura\u201d, completa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Houve uma mudan\u00e7a, entretanto, a partir da decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5, no dia 13 de dezembro de 1968, que suprimiu garantias m\u00ednimas de direito e autorizou a censura \u00e0 imprensa. Castilho compara aquele momento com o processo que ocorreu na Fran\u00e7a da d\u00e9cada de 1940, ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o nazista. Em ambos os casos, configurou-se o que o historiador Pierre Laborie denominou de \u201czona cinzenta\u201d, ou seja, onde os mesmos atores sociais que resistem tamb\u00e9m colaboram com o regime. \u201cCom o AI-5, essa rela\u00e7\u00e3o foi estremecida, porque o governo atingiu mais diretamente os jornais, atrav\u00e9s da censura pr\u00e9via e tamb\u00e9m por meio de bilhetes e telefonemas para as reda\u00e7\u00f5es, indicando assuntos de deveriam ser proibidos. Ainda assim, esses jornais continuaram apoiando o regime militar, principalmente no que diz respeito \u00e0s pol\u00edticas econ\u00f4micas\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Para professor do Iacs, havia uma rela\u00e7\u00e3o de ambival\u00eancia entre os jornalistas e as empresas de comunica\u00e7\u00e3o com o governo militar. \u201cEsta \u00e9 uma vis\u00e3o mais complexificada e menos reducionista nessa discuss\u00e3o sobre o uso das mem\u00f3rias nesse passado autorit\u00e1rio. As cr\u00edticas ao governo se limitavam ao terreno da censura e da liberdade, que atingiam mais diretamente as empresas jornal\u00edsticas. Havia uma postura de resist\u00eancia com a publica\u00e7\u00e3o de versos de Cam\u00f5es no espa\u00e7o de uma mat\u00e9ria que fora censurada, no caso do\u00a0<em>Estado de S.Paulo<\/em>. Mas em rela\u00e7\u00e3o a outras iniciativas do governo, em grande medida, a posi\u00e7\u00e3o era de apoio \u2013 como, por exemplo, no chamado \u2018milagre econ\u00f4mico\u2019\u201d, menciona Castilho em refer\u00eancia \u00e0 pol\u00edtica de importa\u00e7\u00e3o de bens industrializados e realiza\u00e7\u00e3o de obras fara\u00f4nicas, como a Rodovia Transamaz\u00f4nica, que jamais foram conclu\u00eddas, entre outras medidas. O resultado dessa pol\u00edtica foi o aumento exponencial da infla\u00e7\u00e3o, da d\u00edvida externa e da corrup\u00e7\u00e3o, silenciada \u00e0 \u00e9poca pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. <a href=\"http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/acervo\/dicionarios\/verbete-tematico\/milagre-economico-brasileiro\">(clique aqui para ler mais)<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por que recordar?<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1339680 alignleft\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final-720x720.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_mparaujo_golpe_64_final.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A mem\u00f3ria do golpe militar de 1964 \u00e9 objeto de disputa que, no momento atual, est\u00e1 ainda mais acirrada. Para a historiadora <strong>Maria Paula Ara\u00fajo<\/strong>, professora titular do Instituto de Hist\u00f3ria (IH) da UFRJ, \u00e9 preciso recordar aquele per\u00edodo hist\u00f3rico. \u201cTodos os pa\u00edses que viveram golpes militares, seguidos de ditaduras de v\u00e1rios tipos, sabem a import\u00e2ncia de, ao sair desse governo autorit\u00e1rio e iniciar uma caminhada rumo a um estado democr\u00e1tico de direito, n\u00e3o esquecer essa experi\u00eancia\u201d, afirma. Ara\u00fajo menciona o termo \u201cjusti\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o\u201d, criado por organismos de direitos humanos e juristas, para explicar a relev\u00e2ncia de marcar a data. \u201cDepois de uma experi\u00eancia de Estado autorit\u00e1rio, \u00e9 fundamental que a sociedade saiba o que aconteceu, que as v\u00edtimas dessas viol\u00eancias tenham um espa\u00e7o para lembrar e denunciar. E mais: n\u00e3o basta lembrar, \u00e9 preciso repudiar o que foi feito\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Por esse motivo, a professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social (PPGHIS)\/IH\/UFRJ aponta o trabalho das comiss\u00f5es da verdade, criadas durante o governo Dilma Rousseff (2011-2014\/2015-2016) como fundamentais nesse processo (clique aqui para ler mais: http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/). \u201c\u00c9 tamb\u00e9m importante que essas v\u00edtimas sejam reparadas. Isso ocorreu no Brasil: pessoas foram realocadas em postos de trabalho, algumas foram indenizadas, houve um pedido de perd\u00e3o formal por parte do Estado brasileiro\u201d, aponta. Para Ara\u00fajo, entretanto, nesse processo de justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o, faltou ao Estado brasileiro responsabilizar os autores de mortes e desaparecimentos. \u201cNisso, n\u00f3s n\u00e3o avan\u00e7amos no Brasil. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre responsabiliza\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o, mas que eles fossem, <strong>ao menos<\/strong> [\u00eanfase dela], responsabilizados \u2013 ligados \u00e0quilo e aquela a\u00e7\u00e3o repudiada\u201d, analisa.<\/p>\n<p>A professora tamb\u00e9m critica a posi\u00e7\u00e3o do atual governo federal em rela\u00e7\u00e3o ao golpe. \u201cOutra coisa importante, que n\u00f3s pens\u00e1vamos que houv\u00e9ssemos feito, mas n\u00e3o fizemos, \u00e9 o rep\u00fadio da sociedade \u00e0quelas pr\u00e1ticas. Na medida em que temos um presidente que elogia torturadores, que diz que \u2018a ditadura matou pouco\u2019, isso \u00e9 muit\u00edssimo grave\u201d, aponta. \u201cEnquanto n\u00e3o houver, por parte do Estado, o rep\u00fadio expl\u00edcito ao golpe de 64 e a todas as viola\u00e7\u00f5es que ocorreram a partir da\u00ed, enquanto n\u00e3o houver um compromisso expl\u00edcito por parte do Estado e de toda a sociedade em defesa da democracia, essa hist\u00f3ria n\u00e3o estar\u00e1 fechada\u201d, completa.<\/p>\n<p><strong>Anistia<\/strong><\/p>\n<p>No dia 28 de agosto de 1979, o ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Baptista Figueiredo sancionou a Lei n\u00ba 6.683, que, em seu artigo 1\u00ba, anistiava todos aqueles que \u201ccometeram crimes pol\u00edticos ou conexo com estes\u201d, entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, aos servidores p\u00fablicos que tiveram os direitos pol\u00edticos suspensos e dirigentes sindicais punidos com os atos institucionais decretados durante o per\u00edodo da ditadura militar (clique aqui para acessar: http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l6683.htm). Excetuam-se da anistia \u201cos que foram condenados pela pr\u00e1tica de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal\u201d, de acordo com o que consta no artigo 2\u00ba da referida lei. Ainda assim, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que n\u00e3o houve puni\u00e7\u00e3o, ou qualquer tipo de responsabiliza\u00e7\u00e3o, aos militares que cometeram torturas e assassinatos.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 que se ressaltar que o governo ainda era comandado por militares, que tinham vantagem na disputa com a sociedade civil, que, por sua vez, pressionava por mudan\u00e7as no cen\u00e1rio pol\u00edtico. \u201cO regime n\u00e3o queria a anistia ampla, geral e irrestrita. Ao mesmo tempo, ele tinha for\u00e7as para impor regras na transi\u00e7\u00e3o. Ele perdeu. Por exemplo, ele n\u00e3o queria que pessoas que tivessem participado da luta armada fossem anistiadas. N\u00e3o queria nenhuma toler\u00e2ncia, queria definir um limite de aplica\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o professor Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva. \u201cO pr\u00f3prio processo da constitui\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e da Verdade \u00e9 um mecanismo de aplica\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. O Estado reconhecendo que cometeu crimes, em si, j\u00e1 \u00e9 um processo decisivo. Houve luta, houve disputa, houve avan\u00e7os e retrocessos\u201d, analisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Redemocratiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do pa\u00eds foi um processo de negocia\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as conservadoras que estavam no poder e as progressistas, que se organizavam para reivindicar a retomada e a conquista de leg\u00edtimos direitos. Essas tens\u00f5es, inerentes ao processo democr\u00e1tico, estiveram postas no movimento pelas Diretas J\u00e1, em 1984 \u2013 que culminou com a vit\u00f3ria das for\u00e7as conservadoras, marcada pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/radio\/programas\/316130-votacao-da-emenda-dante-de-oliveira-mobilizou-todo-o-pais-0812\/\">Emenda Dante de Oliveira<\/a>\u00a0 \u2212, e na Constituinte de 1987, em que estiveram representados diversos atores da sociedade civil naquele momento marcante da hist\u00f3ria brasileira. \u201cEla, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, enunciou a possibilidade de um programa democr\u00e1tico, mas que ainda manteve monop\u00f3lios, como terra e comunica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foram democratizados, e a tutela policial e militar. Ent\u00e3o, essas contradi\u00e7\u00f5es, evidentemente, v\u00e3o marcar o problema dessa condu\u00e7\u00e3o da nossa transi\u00e7\u00e3o e dos seus acordos\u201d, analisa Cunca.<\/p>\n<p>Para ele, faltaram mudan\u00e7as no campo da Seguran\u00e7a P\u00fablica para que a democracia brasileira fosse, de fato, restitu\u00edda. \u201cN\u00f3s sempre vivemos \u00e0 sombra de uma transi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e de uma justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o limitada em conseguir estabelecer o corte simb\u00f3lico, material, jur\u00eddico e institucional, que tocasse no sistema repressivo, na din\u00e2mica militar, no Judici\u00e1rio, que conseguisse um efeito de democratiza\u00e7\u00e3o \u00e0 altura do projeto cidad\u00e3o expresso na Constituinte de 1988 e na fala emblem\u00e1tica de Ulisses Guimar\u00e3es\u201d, afirma, em refer\u00eancia ao discurso do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, no Congresso Nacional, em 2 de fevereiro de 1987. \u201cTemos \u00f3dio \u00e0 ditadura. \u00d3dio e nojo\u201d, proclamou Guimar\u00e3es na ocasi\u00e3o.<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/radio\/programas\/277285-integra-do-discurso-presidente-da-assembleia-nacional-constituinte-dr-ulysses-guimaraes-10-23\/\"> (Clique aqui para ler o discurso na \u00edntegra)\u00a0\u00a0<\/a><\/p>\n<p>Cunca, entretanto, reconhece as conquistas das for\u00e7as populares, que tiveram \u00eaxito naquele processo. \u201cIsso tamb\u00e9m significou um movimento que levou, aos poucos, a uma ades\u00e3o crescente das for\u00e7as de esquerda ao paradigma institucional e democr\u00e1tico, e aceitando, inclusive, essa limita\u00e7\u00e3o. E foi na aceita\u00e7\u00e3o dessa limita\u00e7\u00e3o, no reconhecimento de estar submetido a esses acordos, que essas for\u00e7as foram negociando por dentro\u201d, avalia. O professor entende que a Constituinte e o movimento das Diretas J\u00e1 propiciaram uma amplia\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o popular na pol\u00edtica brasileira. \u201cA grande revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica brasileira se expressou na liberdade partid\u00e1ria ampla e no direito de voto. Esses elementos foram decisivos.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria do golpe e suas implica\u00e7\u00f5es hoje<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E como tem se dado a disputa pela mem\u00f3ria do golpe de 1964 nos dias de hoje? De que forma abandonamos as agendas que reivindicavam direitos pol\u00edticos e sociais e passamos a empunhar bandeiras como lei e ordem, militariza\u00e7\u00e3o e o uso de armas? Existe base popular para uma nova ruptura democr\u00e1tica? Maria Paula Ara\u00fajo interpreta como um erro de avalia\u00e7\u00e3o o fato de que, ainda hoje, pessoas comemorem o golpe de 1964 e clamem pelo retorno a um regime ditatorial. \u201cEm algum momento, n\u00f3s pensamos que tiv\u00e9ssemos derrotado esse vi\u00e9s autorit\u00e1rio e violento, que estava presente na ditadura militar. Ent\u00e3o, eu penso que esse tenha sido o nosso grande e principal erro: a nossa avalia\u00e7\u00e3o da capacidade de restaura\u00e7\u00e3o da direita e, sobretudo, da extrema direita. Pensamos que a popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o aprovaria nunca certas medidas que est\u00e3o sendo aprovadas agora\u201d, analisa.<\/p>\n<p>De acordo com a professora, o retorno de um pensamento de extrema direita n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivo do Brasil. \u201cO mundo todo, nesses \u00faltimos anos, se surpreendeu com um levante de um movimento de extrema direita, que pens\u00e1vamos que tivesse sido derrotado. Eu penso que isso tenha a ver com as novas tecnologias, com as redes sociais, com as novas formas de propaganda pol\u00edtica. E n\u00f3s ainda estamos pensando sobre aquelas velhas f\u00f3rmulas, que conhecemos desde quando come\u00e7amos a estudar a hist\u00f3ria dos movimentos pol\u00edticos e dos movimentos sociais\u201d, acrescenta. Ao comparar os cen\u00e1rios de 1964 e 2021, Ara\u00fajo v\u00ea poucas semelhan\u00e7as. \u201cAo contr\u00e1rio do que existe hoje, em 64 havia uma frente de comunistas e trabalhistas muito forte. Havia uma atua\u00e7\u00e3o de intelectuais politizados, que pensavam a pol\u00edtica no pa\u00eds desde os anos 1950, como Paulo Freire, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, An\u00edsio Teixeira, Josu\u00e9 de Castro, Nise da Silveira, Milton Santos. Era uma intelectualidade pensando o Brasil mais do que pensando em seus projetos espec\u00edficos. Hoje n\u00f3s n\u00e3o temos a mesma situa\u00e7\u00e3o\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Cunca Bocayuva acredita que o trip\u00e9 Necropol\u00edtica-Neoliberalismo-Negacionismo \u00e9 o resultado de um processo que levou d\u00e9cadas para se instalar. \u201cA democracia n\u00e3o \u00e9 sempre guerra. Mas tem uma desigualdade enorme. E nessas desigualdades v\u00e1rios segmentos n\u00e3o foram contemplados, ou foram recalcados, ou perderam poder, prerrogativas. E isso vale para o sujeito da esquina que pensa: \u2018Qualquer garoto\/qualquer mulher\/qualquer negro\/qualquer gay agora tem opini\u00e3o?\u2019, \u2018N\u00e3o me interessam o meio ambiente, os ind\u00edgenas, os quilombolas\u2019. Esses elementos todos podem ser agrupados em um dado momento, alguns com causas leg\u00edtimas, como a corrup\u00e7\u00e3o, formas de n\u00e3o atendimento, injusti\u00e7as reais, pol\u00edticas equivocadas\u201d, analisa Cunca, segundo o qual esse trip\u00e9 comp\u00f5e uma articula\u00e7\u00e3o discursiva que vai ao encontro de interesses particulares, como o agroneg\u00f3cio, oligop\u00f3lios de comunica\u00e7\u00e3o, o capital especulativo financeiro e aqueles que utilizam o discurso da f\u00e9 e da moralidade.<\/p>\n<p>\u201cTodas essas ideias est\u00e3o presentes no senso comum. Foram reagrupadas de uma maneira espec\u00edfica no Brasil, na Hungria, na Pol\u00f4nia, na R\u00fassia, nos Estados Unidos. Aqui, eles foram criados e urdidos de uma maneira que permitiu a emerg\u00eancia dessas for\u00e7as que j\u00e1 estavam dentro do Estado, mas eram minorit\u00e1rias, ou de for\u00e7as ultraelitistas, que alimentam esse mal-estar\u201d, comenta. \u201c\u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, que diz que a hist\u00f3ria brasileira \u00e9 a hist\u00f3ria da fam\u00edlia purificada, biol\u00f3gica, etnicamente, militarmente, tutelada por pessoas que s\u00e3o portadoras da miss\u00e3o civilizat\u00f3ria, ao lado das pot\u00eancias do ocidente. Portanto, s\u00e3o subservientes a essa cruzada de base escravocrata\u201d, completa.<\/p>\n<p>O professor do PPDH\/Nepp-DH\/UFRJ entende que \u00e9 preciso lembrar a todo o momento as v\u00edtimas de um regime repressor. \u201cN\u00f3s temos o debate da quest\u00e3o militar, o debate da quest\u00e3o jur\u00eddica, mas tamb\u00e9m temos que observar: quem foi morto? De quem n\u00f3s estamos falando? Estamos falando do povo, do Amarildo, da Marielle, Rubens Paiva, Honestino Guimar\u00e3es, das lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, camponesas, oper\u00e1rias, dos policiais que morrem nessa pol\u00edtica equivocada de guerra \u00e0s drogas. Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos falando em construir uma democracia viva e isso significa dizer ampliar a representa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as que n\u00e3o est\u00e3o representadas\u201d, diz Cunca, para quem os elementos b\u00e9licos e militaristas est\u00e3o nos levando a um estado de barb\u00e1rie. \u201cIsso n\u00e3o gera um regime est\u00e1vel, um projeto racional de longo prazo, n\u00e3o gera uma ditadura militar. N\u00e3o \u00e9 verdade. Isso gera um estado de exce\u00e7\u00e3o e guerra permanente marcado pela barb\u00e1rie. Isso \u00e9 aniquilador\u201d, afirma o professor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O papel da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1339670 alignleft\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final-720x720.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/card_acarvalho_golpe_64_final.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Qual \u00e9 o papel da educa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do golpe de 64, no momento em que setores da sociedade reivindicam a sua comemora\u00e7\u00e3o? Como falar a jovens estudantes e demais pessoas que n\u00e3o viveram aquele per\u00edodo hist\u00f3rico e que, muitas vezes, t\u00eam acesso a desinforma\u00e7\u00f5es? <strong>Alessandra Carvalho<\/strong> \u00e9 professora de Hist\u00f3ria do Col\u00e9gio de Aplica\u00e7\u00e3o (CAp) e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ensino de Hist\u00f3ria (ProfHist\u00f3ria), ambos da UFRJ, e integra o N\u00facleo de Pesquisa Hist\u00f3ria e Ensino das Ditaduras (Nuphed) e o N\u00facleo de Pesquisas e Pr\u00e1ticas em Ensino de Hist\u00f3ria (Nuppeh). Para Carvalho, o resultado tem sido positivo em termos de aprendizagem. \u201cN\u00e3o fui eu, Alessandra, que os ensinei sobre a ditadura. Eles \u00e9 que foram construindo, atrav\u00e9s dos seus interesses pessoais, as dimens\u00f5es da ditadura e da viol\u00eancia. Se est\u00e3o dizendo que cada um tem uma opini\u00e3o e tem um lado nessa hist\u00f3ria, ent\u00e3o que seja permitido a eles fazer uma pesquisa sistem\u00e1tica para chegarem \u00e0s suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Isso tem sido mais positivo\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A professora do CAp\/UFRJ entende que esse col\u00e9gio \u00e9 um ambiente no qual quest\u00f5es ligadas \u00e0 democracia, luta social e ao ativismo pol\u00edtico est\u00e3o frequentemente presentes nos debates dos estudantes. Ainda assim, existem questionamentos sobre o tema nos c\u00edrculos familiares e que chegam at\u00e9 o conhecimento dos professores. Al\u00e9m disso, Carvalho tem a dimens\u00e3o do papel do educador em uma sociedade socialmente desigual, em que o estado democr\u00e1tico de direito n\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel a todos. \u201cEu, como professora universit\u00e1ria, tenho a melhor experi\u00eancia poss\u00edvel com a democracia. Mas qual \u00e9 a experi\u00eancia das pessoas com esse regime, no seu cotidiano, considerando elementos de classe, de ra\u00e7a e g\u00eanero?\u201d, indaga ela. \u201cSer\u00e1 que o estado democr\u00e1tico de direito sobe o morro? Como eu vou dizer para um adolescente morador de uma favela que a escola p\u00fablica \u00e9 um direito? Ser\u00e1 que ele entende aquele espa\u00e7o dessa maneira? O que n\u00f3s precisamos fazer para fortalecer isso, para que efetivamente essas pessoas desfrutem dos direitos legalmente assegurados a elas?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sa\u00eddas poss\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Como caminhar rumo a uma sociedade que preze os valores democr\u00e1ticos e repudie o arb\u00edtrio e a viol\u00eancia? Todos os professores ouvidos nesta reportagem s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que a democracia pressup\u00f5e, sim, tens\u00f5es, mas, sobretudo, a escuta e o di\u00e1logo. \u201cComo se desconstr\u00f3i o discurso da guerra? Entendendo que h\u00e1 uma guerra e praticando a contraguerra. Ou seja, \u00e9 preciso uma pol\u00edtica de contraviol\u00eancia, contundente e afirmativa\u201d, destaca Cunca Bocayuva. \u201cO planeta tem agendas. E essas s\u00e3o agendas de vida. N\u00e3o existe agenda que n\u00e3o passe por uma coopera\u00e7\u00e3o internacional da vacina, pela agenda clim\u00e1tica, pela quest\u00e3o nutricional\/alimentar, h\u00eddrica, pela democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 internet. N\u00e3o \u00e9 verdade que o mundo ficar\u00e1 melhor se ele estiver ao livre-arb\u00edtrio das for\u00e7as do saque. O que deve nos orientar \u00e9 a agenda da vida\u201d, acrescenta o professor do PPDH\/Nepp-DH\/UFRJ.<\/p>\n<p>Maria Paula Ara\u00fajo acredita no poder da educa\u00e7\u00e3o: \u201cEu penso que contar essas hist\u00f3rias para as crian\u00e7as seja uma forma de valoriza\u00e7\u00e3o da vida, dos direitos humanos. Esse trabalho com a Hist\u00f3ria tem uma implica\u00e7\u00e3o muito grande com o presente e o futuro. Ent\u00e3o, penso que, fundamentalmente, n\u00f3s precisamos resistir. E esse campo da Hist\u00f3ria e das Ci\u00eancias Humanas tem um papel grande\u201d.<\/p>\n<p>Para Alessandra Carvalho, a sa\u00edda est\u00e1 na amplia\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo para o entendimento do lugar do outro. \u201cO conflito faz parte. O que n\u00e3o deve fazer parte \u00e9 que esse conflito seja resolvido atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de um sobre o outro. Nos \u00faltimos tempos, esses conflitos pol\u00edticos transbordaram a fronteira do pessoal e para a esfera familiar. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o em que n\u00f3s vamos precisar dar um passo atr\u00e1s\u201d, analisa. \u201cPara restabelecer esse di\u00e1logo, vamos ter que ouvir, desconstruir o seu inimigo. Isso \u00e9 importante at\u00e9 mesmo para saber como contra-argumentar. Neste momento, isso \u00e9 ainda mais dif\u00edcil, porque h\u00e1 um est\u00edmulo ao enfrentamento e \u00e0 n\u00e3o escuta. Eu acho que isso \u00e9 poss\u00edvel, mas vai levar tempo e precisaremos construir outra conjuntura mais favor\u00e1vel ao di\u00e1logo\u201d, conclui.<\/p>\n<h4><strong>\u00b9 Pedro Barreto \u00e9 jornalista, antifascista e antirracista.<\/strong><\/h4>\n<div class=\"share clearfix\">\n<div class=\"share-fb-like\">\n<h4 class=\"fb-like fb_iframe_widget\" data-href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/07\/luta-memoria-e-libertacao\/\" data-layout=\"button_count\" data-action=\"like\" data-show-faces=\"true\" data-share=\"false\">Ilustra\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vanes_artes_visuais\/\">Vitor Vanes<\/a><\/h4>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Barreto* \u201cH\u00e1 sob a nossa responsabilidade a popula\u00e7\u00e3o do Brasil, o povo, a ordem. Assim sendo, declaro vaga a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. 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