{"id":1333439,"date":"2021-04-02T19:24:40","date_gmt":"2021-04-02T18:24:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1333439"},"modified":"2021-04-02T19:37:59","modified_gmt":"2021-04-02T18:37:59","slug":"carregadores-do-mundo-uni-vos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/04\/carregadores-do-mundo-uni-vos\/","title":{"rendered":"Carregadores do mundo, uni-vos!"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o quero que acabe. Que tudo acabe desse jeito medonho. Sempre soube. Afinal, todos sabem o rumo que a vida toma. Sem essa de destino. N\u00e3o me venham encher o saco agora. Se vive do jeito que se escolhe viver, mas isso n\u00e3o. Isso eu n\u00e3o queria.<\/p>\n<p>Aprendi a fugir de mim mesmo, mas desta vez n\u00e3o tem como.<\/p>\n<p>Os nervos puros aparecem e apodrecem pelos buracos das minhas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Nunca fizeram isso dessa forma, assim. Caras como eu, primeiro entravam na porrada e depois eram amarrados, pendurados sem o apoio dos p\u00e9s. Para que o pr\u00f3prio peso do corpo, escorregando na madeira os sufocasse. Hoje est\u00e1 na moda pregar as m\u00e3os, os punhos, as canelas, os p\u00e9s \u2013 at\u00e9 que n\u00e3o se consiga mais respirar. Est\u00e1 na moda assim, d\u00f3i mais e se morre mais r\u00e1pido. O pouco de sangue que sobra jorra r\u00e1pido em mil gotas podres e fedorentas, na cara deles na hora da martelada do ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Bem feito! V\u00e3o \u00e0 merda! V\u00e3o se foder! Trabalho de merda pregar os outros. Trabalho de merda asfixiar pessoas! E nem passa pela cabe\u00e7a que amanh\u00e3 s\u00e3o eles que podem estar aqui no meu lugar, de m\u00e3os pregadas ao madeiro. Eu e eles. Nenhuma diferen\u00e7a. Nenhuma. S\u00f3 que eu nunca enfiei pregos em ningu\u00e9m. V\u00e3o se foder!<\/p>\n<p>Antigamente os pendurados morriam de \u201cmorte natural\u201d, diziam. \u00c9 natural&#8230; ser&#8230; estar pendurado ao poste, com os bra\u00e7os abertos&#8230; Escorregar sem poder apoiar os p\u00e9s, o ar que vai faltando, como se joelhos esmagassem pesco\u00e7os. E o corpo em peda\u00e7os pelas surras passadas, pelos cuspes, pelas chicotadas, pelos chutes. Morte natural&#8230; quando os malditos corvos v\u00eam comer seus olhos com voc\u00ea vivo&#8230; Morte natural? Arder ao sol do deserto que te frita as chagas vivas cheias de moscas e v\u00edrus e sem conseguir respirar. Morte natural \u00e9 o caralho!<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais natural do que a morte. Estamos rodeados por ela. A morte. Foda-se! \u201cE da\u00ed?\u201d, diria um genocida.<\/p>\n<p>Agora sou um ouvido surdo e uma boca muda, nada de mim funciona mais.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 esta a morte? Medo do escuro, a escurid\u00e3o do medo. A morte \u00e9 o medo que dela se tem. Ou a morte \u00e9 somente a noite da mente e da mem\u00f3ria? Eu que n\u00e3o respondo mais de mim, nem a mim. Destro\u00e7o resistentes em um oceano de porradas. A minha \u00fanica vida, sem outra chance, circundada por uma eternidade de mortes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 justo, caralho! N\u00e3o \u00e9 justo. Eu n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o grito que s\u00f3 eu escuto. Ningu\u00e9m, n\u00e3o tem ningu\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m comigo, para mim, nem para me olhar morrer. Nem os caras que me penduraram aqui&#8230; Eles foram para o outro lado, do outro lado, jogar dados. Fodam-se todos. Fo-dam-se!<\/p>\n<p>Boca muda, ouvido surdo, olho cego: quanta \u00e9 a parte de dor que me cabe?<br \/>\nEu n\u00e3o escolhi estar aqui e nem com quem e nem por qu\u00ea. At\u00e9 os que me penduraram foram embora, para o outro lado. N\u00e3o, aqui onde estou \u00e9 o verdadeiro outro lado, eles est\u00e3o na frente, do \u201clado certo\u201d. Ou do lado centr\u00e3o. O meu, \u00e9 o outro lado. Sempre soube qual era o meu lugar. Desde a primeira vez que vi uma cena dessas, sabia que mais cedo ou mais tarde o prazer de ocupar o outro lado seria meu.<\/p>\n<p>E como nunca ningu\u00e9m deu nada por mim, jamais imaginei poder estar na frente, do lado certo, assim como esse cara que range nas minhas costas. O lado bom, o lado da frente, nas minhas costas. A vanguarda em retaguarda.<\/p>\n<p>Um homem famoso, um monte de gente acompanhando um belo espet\u00e1culo. Eu vim sozinho na jaula puxada a burro. O bacana, com um monte de gente atr\u00e1s, e agora eu aqui atr\u00e1s dele, e sozinho na jaula.<\/p>\n<p>Parece que ele nem viu que estou aqui. Nem percebeu minha presen\u00e7a, nem me viu, nem nada. Os olhares s\u00e3o pra ele, esse cara \u00e9 famoso. Quando cheguei de jaula e tudo, j\u00e1 estava aqui h\u00e1 um tempinho, j\u00e1 tinha gente na frente e ningu\u00e9m me viu, nem perceberam os gritos que eu dava a cada martelada. Todos os olhos eram para ele. Os pregos furando minhas m\u00e3os, assim como as dele. Meus p\u00e9s como os dele. E sabe para quem todo esse povo chorava? Pra ele, caralho! Pra ele, como se minha dor fosse menor que a dele. Pra ele \u00e9 que todo mundo chorava. Eu continuo o merda de sempre.<\/p>\n<p>Importante, e fodido como eu, agora ele est\u00e1 chamando pelo pai. Chama o pai que parece t\u00ea-lo abandonado faz tempo. Tem maluco pra tudo&#8230; N\u00e3o entendo, a m\u00e3e dele a\u00ed na frente, e ele chamando o pai.<\/p>\n<p>O cara do lado tem a m\u00e3e e o irm\u00e3o e a amiguinha que chora bem aqui debaixo. Mulherzinha jovenzinha frangota boa, cox\u00e3o, peit\u00e3o&#8230; e outros cortes. D\u00e1 pra ouvi os berros. Ou ser\u00e1 que \u00e9 a m\u00e3e gritando? Grande cara este: trazer a m\u00e3e para v\u00ea-lo morrer. Parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>Eu, nem sei quem \u00e9 minha m\u00e3e, imagina o pai. E ele chamando \u201cpai\u201d, \u201cpaizinho\u201d.<\/p>\n<p>Na minha frente, ningu\u00e9m. Meus olhos cegos n\u00e3o sentem ningu\u00e9m aqui me olhando.<\/p>\n<p>De onde eu venho? De lugar nenhum. Quem sou eu? Um idiota qualquer. Quem s\u00e3o os meus? Os malcomidos, os malpagos, os malvividos, os semdinheiro, os semtrabalho, os semteto, os semdireitos. Os semporranenhuma, os dono de promessasvazias, os donosdenada. Nem de si.<\/p>\n<p>Eis os meus e as minhas. E n\u00e3o est\u00e3o aqui, porque est\u00e3o em todo lugar.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os e irm\u00e3s, eu tenho de sobra. Todos no mesmo barco. S\u00e3o aqueles como eu: cachorros mortos comendo uns aos outros, como aquele que me vendeu e aquele que martelou os pregos em mim. O filho da puta estava com fome. \u00c9, porque para cada dez homens na pra\u00e7a, um \u00e9 filho da puta. E me dedou, disse que eu roubei a galinha, roubei a carteira, roubei a merda de dois tost\u00f5es&#8230; \u00a0O dedo-duro me entregou por um prato de feij\u00e3o. Logo veio a porrada. Mais r\u00e1pida que a minha tentativa de explica\u00e7\u00e3o. Com a minha gente, a pol\u00edcia tem pressa de saber quando, como, os porqu\u00ea, quem e com quem&#8230; \u201cT\u00e1 vindo de onde?\u201d, \u201cT\u00e1 indo pra onde?\u201d. \u201cTu tem pinta de bandido\u201d, me disseram. Por isso, estou sobrevivendo com um cara que morre colado nas minhas costas, atr\u00e1s de mim, chamando pelo pai.<\/p>\n<p>Ei, cara? Para de chorar, seja homem, a mam\u00e3ezinha n\u00e3o te explicou como as coisas funcionam nesse mundo machista que teu pai criou?&#8230; Ent\u00e3o, seja homem, caralho! Para de chorar! Enfrente. Ou voc\u00ea vem de uma terra de maricas?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe que nesta porra de lugar v\u00eam somente aqueles como n\u00f3s, os fodidos. Voc\u00ea \u00e9 famoso, cara, tem muita gente em frente&#8230; Em frente a mim, ningu\u00e9m, porque eu n\u00e3o sou ningu\u00e9m, mas tenho colh\u00e3o pra aguentar, cara. Pare de chorar, por favor.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso te responder, cara, a minha boca \u00e9 uma ab\u00f3bora inchada de pus e sangue, e voc\u00ea me chama e pede \u00e1gua&#8230;<\/p>\n<p>Que morte \u00e9 a nossa, cara? Era de se esperar. A morte tem a nossa cara, cara. Parda. Preta. Negra. Moura. Crioula. Sempre foi assim. Sempre ser\u00e1?<\/p>\n<p>Estou aqui, sim. Estou aqui, estou ouvindo. N\u00e3o posso responder com palavras s\u00f3 com gemidos. Estou aqui. Fala, cara. Fala s\u00f3 para se aliviar um pouco, pode falar. Deixa em paz a sua m\u00e3e, caralho! N\u00e3o v\u00ea que ela est\u00e1 chorando. Fala comigo, cara&#8230;<\/p>\n<p>Eu sei que o prego d\u00f3i. Ou acha que os meu fazem c\u00f3cegas&#8230; Diga pelo menos alguma coisa que n\u00e3o saiba. Doem os p\u00e9s, doem as m\u00e3os, d\u00f3i aqui, d\u00f3i ali&#8230; Que saco, cara! D\u00f3i tudo. D\u00f3i o mundo. \u00c9 o mundo que d\u00f3i. Ainda n\u00e3o entendeu? Ent\u00e3o, morra como homem, caralho!<\/p>\n<p>\u00c9, voc\u00ea entendeu bem? Estou dizendo que d\u00f3i tudo, porque o mundo d\u00f3i. \u00c9 o terceiro mundo nas costas, cara. Os fodidos, como eu, carregam o terceiro mundo nas costas. Pesado pra Ca-ra-lho. Voc\u00ea n\u00e3o sabe de nada. Voc\u00ea \u00e9 famoso, versado, estudado, milhares de seguidores. Tem m\u00e3e, e tem pai tamb\u00e9m, prontinhos pra te ajudar sempre que voc\u00ea chamar. Os fodidos como eu, n\u00e3o. Nada de m\u00e3e, nada de pai. Nada de ajuda. Seguidores s\u00f3 os de fardas. Para n\u00f3s \u2013 filhas e filhos da \u201crainha do meio-dia\u201d \u2013, \u00e9 a lei do c\u00e3o. Que cada um carregue o seu mundo nas costas. E de terceiros mundos para carregar t\u00eam quantos quiser, cara. Tem pra mim e pra voc\u00ea tamb\u00e9m. Est\u00e1 me vendo aqui? Eu levando o meu mundo neste poste de merda que deveria ter sido carregado por outro. E n\u00e3o por mim, que n\u00e3o fiz nada. Poderia ser outra vida qualquer. Pra eles e pra pol\u00edtica de morte que produzem n\u00e3o faz diferen\u00e7a nenhuma. Seja eu, seja outro, sejam 500 mil mortes, d\u00e1 na mesma. Desde que sejam quase todas mortes pretas de t\u00e3o pobres. Quase pretas como voc\u00ea.<\/p>\n<p>Vida de merda e morte de merda. Mas \u00e9 mais morte de merda. Porque na vida tem coisa que vale a pena sim, senhor. E aquela putin&#8230; Mulherzinha? At\u00e9 tu&#8230; \u00a0Bom, deixa pra l\u00e1! Desculp\u2019a\u00ed.<\/p>\n<p>Ei, cara? Estou com rosto no sol. Bem em cima de mim&#8230; Puta merda! Que calor insuport\u00e1vel. Pelo menos voc\u00ea tem mais sorte, est\u00e1 de frente pra m\u00e3e e de costas pro sol. Enquanto o sol bate em mim, que estou de costas pra voc\u00ea e sem m\u00e3e. Queria poder me virar e te ver. Te ouvir. At\u00e9 na morte tem gente com sorte e outros que se estrepam. At\u00e9 na morte.<\/p>\n<p>Desculpa, cara, pode falar&#8230;<\/p>\n<p>Fala, cara&#8230; Fala comigo que eu te escuto&#8230; Estou bem aqui, atr\u00e1s de voc\u00ea. Grudado. Fala&#8230; Estou meio surdo de tanta porrada, mas ainda escuto o seu gemido se confundir com o meu.<\/p>\n<p>Eles conseguiram, dobraram o nosso corpo e o nosso esp\u00edrito tamb\u00e9m. Quando o corpo d\u00f3i desse jeito, a gente daria qualquer coisa para parar de doer. A gente venderia at\u00e9 a m\u00e3e&#8230; Desculpa, cara, n\u00e3o queria ofender sua m\u00e3e, nem voc\u00ea. Pede desculpa a ela por mim. \u00c9 que daqui n\u00e3o consigo v\u00ea-la. S\u00f3 sei que est\u00e1 a\u00ed porque h\u00e1 pouco voc\u00ea falava com ela para cuidar do seu irm\u00e3o e ao seu irm\u00e3o dizia para cuidar dela. Desculpa. Tira essa culpa de mim, senhor.<\/p>\n<p>Se a minha m\u00e3e estivesse aqui&#8230; Fala, cara, te interrompi&#8230; Oi! O que disse?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o t\u00e1! Se n\u00e3o quiser falar nada, fique quietinho a\u00ed. Calado. Em sil\u00eancio. Escute o corvo chegar. A morte chegar&#8230; Sinta o sol arder mais. Agora \u00e9 o sangue que arde&#8230; Faz duas horas que voc\u00ea n\u00e3o diz nada. Eu sei que ainda n\u00e3o morreu, porque sinto seus espasmos.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo, cara, porque seu pai foi t\u00e3o filho da puta assim de te abandonar&#8230; E agora voc\u00ea pede para que seja feita a vontade dele. Voc\u00ea \u00e9 maluco, cara? Ei, cara?! Cara, responde&#8230; Ei?&#8230; Merda! Caralho! Responde, porra!&#8230;. Vai se foder! N\u00e3o morra&#8230; N\u00e3o me deixe s\u00f3 voc\u00ea tamb\u00e9m&#8230; Fica comigo, cara! N\u00e3o tenho ningu\u00e9m. N\u00e3o vai&#8230; N\u00e3o morra. Por que voc\u00ea tamb\u00e9m? N\u00e3o morra, cara! Fica! Fica comigo. N\u00e3o quero morrer aqui sob o sol, com as dores do mundo que carrego, e sozin&#8230; Ei, cara? N\u00e3o! N\u00e3o! N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>o sol foi embora<\/p>\n<p>trov\u00e3o<\/p>\n<p>chuva a molhar o meu rosto<\/p>\n<p>est\u00e1 chovendo e trovejando como nunca<\/p>\n<p>est\u00e1 escuro e estou com frio, com tanto frio<\/p>\n<p>ei, cara? Voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>s\u00f3 nos resta resistirmos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto de Paolo D&#8217;Aprile, com colabora\u00e7\u00e3o de K\u00e1ssio Motta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o quero que acabe. Que tudo acabe desse jeito medonho. Sempre soube. Afinal, todos sabem o rumo que a vida toma. Sem essa de destino. N\u00e3o me venham encher o saco agora. 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