{"id":1320937,"date":"2021-03-17T00:03:32","date_gmt":"2021-03-17T00:03:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1320937"},"modified":"2021-03-17T00:08:09","modified_gmt":"2021-03-17T00:08:09","slug":"o-sonho-americano-em-colapso-o-que-vem-a-seguir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/03\/o-sonho-americano-em-colapso-o-que-vem-a-seguir\/","title":{"rendered":"O sonho americano em colapso (o que vem a seguir?)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cerca de dois meses atr\u00e1s, encontrei um di\u00e1rio com relatos do meu av\u00f4 Herman Lesseraux em um arm\u00e1rio. Algumas das entradas do di\u00e1rio datam do in\u00edcio do s\u00e9culo XX (1912), quando ele e sua fam\u00edlia estavam a caminho dos EUA depois de deixarem a Fran\u00e7a. Foi impressionante v\u00ea-lo descrever o que lhe parecia ser uma m\u00e1gica &#8220;<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">terra das infinitas possibilidades<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;, onde se poderia ir &#8220;<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">da sarjeta para a avenida principal<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;, se voc\u00ea trabalhasse bastante. Isso foi antes da prolifera\u00e7\u00e3o em massa do r\u00e1dio e TV, ent\u00e3o ele estava recebendo essas imagens da Am\u00e9rica dos jornais e de parentes que estavam descrevendo suas descobertas de volta para a fam\u00edlia depois de terem feito essa viagem. Foi comovente e fascinante ver a \u00e2nsia com que ele escreveu sobre seu desejo de chegar aos EUA. E foi ver esses di\u00e1rios que me estimularam a escrever este artigo.<\/span><\/p>\n<p>Por Mark Lesseraux<\/p>\n<p><b>Alerta de Spoiler<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste artigo vou descrever, da forma mais simples poss\u00edvel, o que \u00e9 o Sonho Americano, como ele surgiu e por que ele est\u00e1 em um estado de colapso agora. Alerta de spoiler: Este artigo n\u00e3o termina com um resumo de como o Sonho Americano \u00e9 uma mentira. Pelo contr\u00e1rio, este artigo ir\u00e1 afirmar e delinear a realidade hist\u00f3rica do que veio a ser conhecido como O Sonho Americano.<\/span><\/p>\n<p><b>Os Estados Unidos s\u00e3o um pa\u00eds \u00fanico.<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os Estados Unidos s\u00e3o um pa\u00eds \u00fanico. Na verdade, \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds que p\u00f4de reivindicar um aumento real nos sal\u00e1rios por 150 anos consecutivos. A cada d\u00e9cada, desde 1820 a 1970, os sal\u00e1rios dos trabalhadores americanos aumentaram. \u00c9 uma estat\u00edstica not\u00e1vel! T\u00e3o not\u00e1vel, de fato, que legitima indiscutivelmente o que muitos cr\u00edticos apelidaram de &#8220;fantasia&#8221; do que veio a ser conhecido como o Sonho Americano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em suma, o sonho americano est\u00e1 enraizado na cren\u00e7a de que nos Estados Unidos, se uma pessoa realizar o esfor\u00e7o necess\u00e1rio, ela se sair\u00e1 melhor economicamente do que seus pais. Apesar do fato de que uma boa dose de nacionalismo exacerbado e pensamento m\u00e1gico evolu\u00edram a partir do mito americano &#8220;de subir na vida&#8221;, n\u00e3o se pode negar o fato de que o mito em si est\u00e1 enraizado em um conjunto bem documentado de fatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante todo o s\u00e9culo XIX e na maior parte do s\u00e9culo XX, as pessoas sa\u00edram da Europa para os EUA e de outros continentes ao redor do mundo porque ouviram que voc\u00ea recebe sal\u00e1rios mais altos aqui. V\u00e1rias ondas de imigrantes seguiram para os EUA e relataram para suas fam\u00edlias e amigos: &#8220;\u00e9 verdade, voc\u00ea recebe mais aqui nos EUA! E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, os sal\u00e1rios tendem muitas vezes a subir \u00e0 medida que os meses e anos passam!\u201d Como resultado, os imigrantes vieram sem parar para os EUA para participar do que veio a ser conhecido como o Sonho Americano. Este cen\u00e1rio continuou, basicamente inabal\u00e1vel, por 150 anos.<\/span><\/p>\n<p><b>Como os EUA se tornaram t\u00e3o especiais?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por que esse foi o caso nos EUA? Como essa prosperidade sem precedentes e aparentemente m\u00e1gica ocorreu por 150 anos? A resposta para esta pergunta n\u00e3o \u00e9 realmente dif\u00edcil de identificar se voc\u00ea souber como e o que procurar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, as empresas come\u00e7aram a ser constru\u00eddas e a se expandir por todo o territ\u00f3rio norte-americano. O problema era que essas empresas n\u00e3o tinham pessoas suficientes para trabalhar para eles. Afinal, a popula\u00e7\u00e3o nativa tinha sido, para colocar em termos mais suaves, extinta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo do s\u00e9culo 19, devido \u00e0 expans\u00e3o das empresas existentes nos Estados Unidos e ao surgimento quase constante de novas, as companhias estavam constantemente procurando encontrar novos trabalhadores. Essas companhias tamb\u00e9m tiveram que encontrar uma maneira de manter os funcion\u00e1rios que j\u00e1 estavam trabalhando para eles. Para isso, essas companhias tinham que continuar aumentando os sal\u00e1rios. Esta s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias \u00e9 o que os economistas se referem como uma &#8220;escassez de m\u00e3o de obra&#8221;. (1) Deve-se mencionar que este foi o caso para os trabalhadores brancos. Durante grande parte do s\u00e9culo XIX, os trabalhadores negros vieram por meios muito diferentes. Um meio que n\u00e3o envolvia sal\u00e1rios. Mas esse \u00e9 um t\u00f3pico (digno) para outro artigo e n\u00e3o algo que vamos aprofundar aqui.<\/span><\/p>\n<p><b>N\u00e3o tem mist\u00e9rio<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 nada inexplic\u00e1vel ou misterioso sobre o Sonho Americano. O motivo para o aumento dos sal\u00e1rios nos Estados Unidos a cada d\u00e9cada, desde 1820 at\u00e9 os anos 1970, foi que os Estados Unidos sempre tiveram escassez de m\u00e3o de obra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O sonho americano era o produto de uma pura e simples falta de m\u00e3o de obra. O que levanta uma segunda quest\u00e3o: como \u00e9 que ningu\u00e9m ensinou a voc\u00ea e a mim sobre este fato simples, \u00f3bvio e extremamente crucial quando est\u00e1vamos na escola prim\u00e1ria ou no ensino m\u00e9dio? Outro t\u00f3pico digno para um artigo diferente, talvez.<\/span><\/p>\n<p><b>No final dos anos 70 algo mudou<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No final dos anos 70, os sal\u00e1rios pararam de subir nos EUA. Na verdade, n\u00e3o houve um aumento real nos sal\u00e1rios nos Estados Unidos desde 1978. Mas o que aconteceu? O que mudou?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas coisas mudaram. Em primeiro lugar, o ac\u00famulo de computadores nos locais de trabalho nos anos 60 come\u00e7ou a tornar milhares de postos de trabalho obsoletos. Em segundo lugar, quase ao mesmo tempo as mulheres americanas adultas come\u00e7aram a entrar em massa no mercado de trabalho. De repente, n\u00e3o eram apenas os homens que estavam sendo contratados para todos os tipos de empregos. Nos anos 60 e 70, as empresas contratavam tanto as mulheres (que representam metade da popula\u00e7\u00e3o dos EUA), como os homens. A jun\u00e7\u00e3o desses dois fatores com um movimento crescente de produ\u00e7\u00e3o e empregos no exterior e, em meados da d\u00e9cada de 1970, os Estados Unidos n\u00e3o tinham mais escassez de m\u00e3o de obra. Em vez disso, pela primeira vez em 150 anos, o pa\u00eds teve o que \u00e9 conhecido como uma \u201cm\u00e3o de obra excedente&#8221;, que \u00e9 um excesso de trabalhadores \u00e0 procura de trabalho.<\/span><\/p>\n<p><b>Por que os sal\u00e1rios pararam de subir? Para onde foi o dinheiro?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o o que tudo isso tem a ver com o fim do aumento dos sal\u00e1rios? Bem, uma vez que as companhias n\u00e3o precisavam mais pagar sal\u00e1rios mais altos a seus trabalhadores para mant\u00ea-los devido ao excesso de trabalhadores dispon\u00edveis, eles simplesmente pararam de aumentar os sal\u00e1rios. Mais uma vez, n\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio aqui. Como em qualquer escola de neg\u00f3cios na Am\u00e9rica ir\u00e1 lhe dizer: &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o tem que pagar sal\u00e1rios mais altos para seus funcion\u00e1rios, N\u00c3O PAGUE!\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas tem mais alguns fatores. Ao mesmo tempo que as companhias pararam de aumentar os sal\u00e1rios dos seus funcion\u00e1rios, um novo fen\u00f4meno come\u00e7ou. De repente, nas d\u00e9cadas de 1980 e 90, os sal\u00e1rios dos CEOs (diretores executivos das companhias) come\u00e7aram a subir a taxas antes inconceb\u00edveis. Na verdade, o sal\u00e1rio m\u00e9dio de um CEO aumentou, surpreendentemente, uns 940% desde que os sal\u00e1rios dos trabalhadores pararam de subir em 1978. (2) Se democratas ou republicanos estiveram no cargo durante este per\u00edodo teve pouco ou nenhum efeito sobre a taxa desta mudan\u00e7a completamente sem precedentes na concentra\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 ainda outros fatores nessa hist\u00f3ria. Nas d\u00e9cadas que se seguiram aos anos 1970, os funcion\u00e1rios trabalham mais horas e produziram mais bens e servi\u00e7os para suas companhias do que nunca na hist\u00f3ria dos Estados Unidos. Ainda assim, por seus esfor\u00e7os, esses trabalhadores n\u00e3o receberam nenhum aumento real em seus sal\u00e1rios nos \u00faltimos 40 anos.<\/span><\/p>\n<p><b>Como isso pode ter acontecido?!<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como isso pode ter acontecido?! Como todos esses funcion\u00e1rios podem estar produzindo cada vez mais para suas companhias e n\u00e3o serem pagos pelo que produziram? Como as companhias est\u00e3o conseguindo ficar com todos os lucros para si mesmos e n\u00e3o retribuir nada a seus funcion\u00e1rios?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A explica\u00e7\u00e3o mais proeminente apresentada nas d\u00e9cadas de 1980 e 90 como o motivo da enorme mudan\u00e7a na fortuna desses CEOs afirmava que foi a sua \u201cgenialidade empresarial\u201d que produziu essa mudan\u00e7a. De repente, pessoas como Lee Iacocca e Jack Welch estavam sendo apresentados como os novos &#8220;empres\u00e1rios celebridades&#8221; parecidos com gurus que, por meio de um tipo especial de brilho, ganharam o direito de aumentar seus sal\u00e1rios em 10 vezes o valor que ganhavam na d\u00e9cada de 1970, ao mesmo tempo em que mantinham os sal\u00e1rios dos trabalhadores est\u00e1veis. (3)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 claro que estas explica\u00e7\u00f5es estavam todas enraizadas em absurdos. A \u00fanica raz\u00e3o pela qual estes CEOs foram capazes de dar a si mesmos aumentos absurdamente massivos, sem compensar seus trabalhadores, \u00e9 porque nos \u00faltimos quarenta anos houve um excedente de m\u00e3o de obra nos EUA. Na forma brutal e desumanizada de economia que tem sido praticada desde o in\u00edcio dos anos 1980, a \u201cprodu\u00e7\u00e3o de trabalho\u201d (quanto um empregado produz por hora para a companhia) tem sido sistematicamente n\u00e3o levada em considera\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, tudo isso est\u00e1 focado na &#8220;margem de lucro&#8221;, que, no panorama econ\u00f4mico atual tem pouco ou nada a ver com o bem-estar dos funcion\u00e1rios e tudo a ver com um pequeno grupo de empresas de elite transformando suas fortunas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em fortunas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/span><\/p>\n<p><b>A remo\u00e7\u00e3o de todos os limites em bancos e grandes corpora\u00e7\u00f5es (Desdemocratiza\u00e7\u00e3o)<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acrescente a tudo isso uma redu\u00e7\u00e3o massiva nas restri\u00e7\u00f5es ao dom\u00ednio das megacorpora\u00e7\u00f5es nas \u00e1reas de m\u00eddia, com\u00e9rcio e bancos nos \u00faltimos 30 anos, junto com um ataque calculado e o enfraquecimento dos sindicatos nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. O resultado foi uma altera\u00e7\u00e3o da estrutura do poder dos EUA e uma formaliza\u00e7\u00e3o do que um dia j\u00e1 foi, pelo menos at\u00e9 certo ponto, um verdadeiro sistema democr\u00e1tico. Quarenta anos de desregulamenta\u00e7\u00e3o corporativa (a remo\u00e7\u00e3o de quase todos os limites em bancos e megacorpora\u00e7\u00f5es) permitiu que um punhado de empresas corporativas super-ricas ganhassem praticamente o controle total do que antes eram institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e canais de informa\u00e7\u00e3o. Esta tem sido a agenda aberta n\u00e3o mencionada, mas tamb\u00e9m subentendida do \u00faltimo meio s\u00e9culo de &#8220;neoliberalismo&#8221; liderado corporativamente: <\/span><a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/2020\/12\/the-fall-of-the-liberal-left-the-rise-of-neoliberalism-and-the-resulting-confusion-that-has-ensued\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.pressenza.com\/2020\/12\/the-fall-of-the-liberal-left-the-rise-of-neoliberalism-and-the-resulting-confusion-that-has-ensued\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esses conglomerados corporativos estimulados com a ajuda de uma publicidade massiva da propaga\u00e7\u00e3o de que &#8220;A privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 boa e o governo \u00e9 ruim&#8221; durante as d\u00e9cadas de 1980 e 90, tornaram sua prioridade esmagar todas as formas existentes de solidariedade sindical e romper a longa batalha pelos direitos e benef\u00edcios dos trabalhadores. Ao virar duplamente a popula\u00e7\u00e3o dos EUA contra o conceito de governo, essas enormes corpora\u00e7\u00f5es privadas conseguiram essencialmente privatizar e assumir o controle do pr\u00f3prio governo. Este tem sido o ataque em duas vertentes da classe bilion\u00e1ria: A) Demonizar o estado e colocar as pessoas contra a ideia de governo.\u00a0 B) Assumir o governo por meio da desregulamenta\u00e7\u00e3o e da remo\u00e7\u00e3o de todas as restri\u00e7\u00f5es aos limites do poder corporativo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O resultado da remo\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es sobre os super-ricos nos \u00faltimos 35 a 40 anos \u00e9 que agora eles possuem e controlam o conte\u00fado de praticamente todos os principais meios de comunica\u00e7\u00e3o, bem como possuem o controle da pol\u00edtica atrav\u00e9s de lobby (uma pol\u00edtica de press\u00e3o) e uma grande campanha de doa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, nos \u00faltimos 43 anos, os super-ricos reduziram a percentagem de impostos que pagam em impressionantes 47%. Na verdade, a partir de 2019, as 400 fam\u00edlias mais ricas da Am\u00e9rica pagam uma taxa de impostos mais baixa do que a classe m\u00e9dia. (4)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos agora em um ponto em que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel negar que as principais institui\u00e7\u00f5es, todos os principais meios de comunica\u00e7\u00e3o, o sistema banc\u00e1rio e o sistema pol\u00edtico dos EUA, foram assumidos e submetidos \u00e0 vontade e aos caprichos de uma classe de elite mega rica. H\u00e1 quatro d\u00e9cadas, essa classe de elite absurdamente rica, descontrolada e desequilibrada, que mant\u00e9m membros e faz grandes doa\u00e7\u00f5es para os partidos Democrata e Republicano, tem imprudentemente usurpado terras, recursos e poder \u00e0s custas de vidas humanas em todo o planeta. O jornalista vencedor do Pr\u00eamio Pulitzer, Chris Hedges, se referiu a esta aquisi\u00e7\u00e3o como o triunfo do &#8220;totalitarismo corporativo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><b>A nossa resposta desesperada \u00e0 crise<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Infelizmente, temos tentado resolver esse problema estrutural coletivo como indiv\u00edduos isolados que foram treinados para acreditar que a culpa \u00e9 nossa, que \u00e9 apenas nossa falta de habilidade pessoal e trabalho \u00e1rduo que fez com que as coisas funcionassem da maneira que elas t\u00eam para n\u00f3s. A fim de evitar nosso compromisso com o que percebemos como nosso fracasso individual, temos confiado quase inteiramente no uso do cr\u00e9dito para nos mantermos \u00e0 tona nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O resultado foi a acumula\u00e7\u00e3o de um n\u00edvel quase inconceb\u00edvel de d\u00edvida individual e coletiva. Uma d\u00edvida que \u00e9 devida ao grupo de pessoas de elite super-rica que colocou em movimento as for\u00e7as que geraram esta crise em primeiro lugar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo isso levou a uma mir\u00edade de formas de crise socioecon\u00f4mica e a uma profunda confus\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e desespero entre uma grande (e crescente) parcela da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. A falta de uma explica\u00e7\u00e3o clara do que aconteceu nos \u00faltimos quarenta anos gerou medo e o surgimento de novas correntes irracionais de pensamento nacionalista regressivo. Milh\u00f5es de pessoas que est\u00e3o justamente desconfiando dos principais partidos pol\u00edticos e da m\u00eddia comprada de not\u00edcias falsas-moderadas que se voltaram para essas correntes de pensamento como refer\u00eancias e como frentes de a\u00e7\u00e3o. De um modo geral, estes movimentos giram em torno de um desejo de voltar a um modo de vida americano que \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel de voltar precisamente pelas raz\u00f5es indicadas neste artigo.<\/span><\/p>\n<p><b>O custo de tudo isto para o nosso bem-estar<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os custos de tudo isso na nossa sa\u00fade e no nosso bem-estar mental e emocional t\u00eam sido enormes. Por exemplo, uma em cada seis pessoas nos Estados Unidos agora tomam medicamentos psiqui\u00e1tricos. (5) A asfixia causada pela privatiza\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da classe m\u00e9dia pela classe bilion\u00e1ria extraiu o que foi basicamente um roubo que durou quatro d\u00e9cadas de muitos por poucos.\u00a0 A diminui\u00e7\u00e3o do valor da vida humana e a diviniza\u00e7\u00e3o do lucro (para muito poucos) a todo custo tornou a vida insustent\u00e1vel e, em muitos casos, insuport\u00e1vel para milh\u00f5es de americanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E como a pandemia de COVID-19 deixou claro, n\u00e3o h\u00e1 como desacelerar essa monstruosidade cont\u00ednua \u00e0 vista. Nos \u00faltimos 12 meses, ao mesmo tempo em que milh\u00f5es de americanos perderam seus empregos, suas casas e suas economias, os 660 bilion\u00e1rios americanos tiveram um lucro coletivo de mais de 3,9 TRILH\u00d5ES de d\u00f3lares. (6)<\/span><\/p>\n<blockquote><p><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cH\u00e1 um crime aqui que vai al\u00e9m da den\u00fancia. H\u00e1 uma tristeza aqui que o choro n\u00e3o pode simbolizar. H\u00e1 uma falha aqui que destr\u00f3i todo o nosso sucesso.\u201d <\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; John Steinbeck (de &#8220;As Vinhas da Ira\u201d &#8211; The Grapes Of Wrath em ingl\u00eas)<\/span><\/i><\/p><\/blockquote>\n<p><b>O que vem a seguir? O que est\u00e1 no horizonte?<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, o que vem a seguir?\u00a0 Estou perguntando sem ret\u00f3rica, caro leitor. Eu mesmo n\u00e3o tenho uma resposta clara para a pergunta. Esta n\u00e3o \u00e9 a Am\u00e9rica, nem o mundo em que nossos av\u00f3s e nossos pais cresceram. Tudo indica que a hist\u00f3ria que temos contado a n\u00f3s mesmos durante s\u00e9culos n\u00e3o est\u00e1 mais de acordo com a realidade em que vivemos. Experimentar voltar a um modo de pensar e viver que j\u00e1 passou ou regredir, como sabe quem j\u00e1 estudou um pouco de hist\u00f3ria (ou um pouco de biologia), \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o de fim de esp\u00e9cie.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dessa vez, n\u00e3o estamos lidando com um problema provinciano, mas sim com uma crise humana global que envolve todos, em todas as partes do planeta.\u00a0 Esta \u00e9 a primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade. N\u00e3o podemos voltar aos anos 1950 ou 1990 ou a qualquer \u00e9poca anterior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Que novo horizonte, que novas cenas podemos come\u00e7ar a projetar juntos? Que (novos) passos reais podemos come\u00e7ar a dar? Estas s\u00e3o as perguntas \u00e0s quais dedicarei o restante dos meus artigos em 2021. Fiquem ligados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cita\u00e7\u00f5es:<\/span><\/p>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Richard Wolff, \u201cThe Myth Of American Exceptionalism Implodes\u201d, January 18, 2011, The Guardian, pp.2<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Lawrence Mishel and Julia Wolfe, \u201cCEO Compensation Has Grown 940% Since 1978\u201d, August 14, 2019, Economic Policy Institute, pp.1<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Barrons, \u201cWhat Barrons Said About Chrysler Chairman Lee Iacocca In 1985\u201d, July 5, 2019, Barrons.com, pp.1<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Aimee, Pichee, \u201cAmerica\u2019s 400 Richest Families Now Pay A Lower Tax Rate Than The Middle Class\u201d, CBSNEWS.com, October 17, 2019, pp.1<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sara G. Miller, \u201c1 In 6 Americans Takes A Psychiatric Drug\u201d, December 13, 2016, Scientific American, pp.1\\<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400;\">Juliana Kaplan, \u201cBillionaires Made 3.9 Trillion During The Pandemic\u201d, January 16, 2021, Business Insider, pp.1<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Traduzido do ingl\u00eas para o portugu\u00eas por Doralice Silva \/ Revisado por Larissa Dufner<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cerca de dois meses atr\u00e1s, encontrei um di\u00e1rio com relatos do meu av\u00f4 Herman Lesseraux em um arm\u00e1rio. 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