{"id":1308603,"date":"2021-03-03T20:04:26","date_gmt":"2021-03-03T20:04:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1308603"},"modified":"2021-03-03T20:04:26","modified_gmt":"2021-03-03T20:04:26","slug":"bolsonaro-talvez-saia-ileso-do-desastre-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/03\/bolsonaro-talvez-saia-ileso-do-desastre-brasileiro\/","title":{"rendered":"Bolsonaro Talvez Saia Ileso do Desastre Brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>Por Robert Muggah<strong>*<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 esteve na moda descrever o Brasil como o pa\u00eds do futuro. Ap\u00f3s meia d\u00e9cada, muita coisa mudou. Nos \u00faltimos anos, uma presidenta democraticamente eleita foi tirada do poder e, recentemente, substitu\u00edda por um fort\u00e3o autorit\u00e1rio. Hoje em dia, o maior pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina sofre com uma \u201ccrise tripla\u201d, uma pandemia feroz, turbul\u00eancia econ\u00f4mica e agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o era para ser assim. O que explicaria ent\u00e3o esse mal-estar brasileiro?<\/p>\n<p>O Brasil possui um conjunto de ativos que deveria ter tornado o pa\u00eds um sucesso. Por um lado, \u00e9 um gigante demogr\u00e1fico: existem pelo menos 210 milh\u00f5es de brasileiros, tornando-o o quinto pa\u00eds mais populoso do planeta. O Brasil \u00e9 tamb\u00e9m uma pot\u00eancia econ\u00f4mica. Com um PIB de 1,8 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, \u00e9 a d\u00e9cima maior economia do mundo. O pa\u00eds \u00e9 tamb\u00e9m geograficamente imenso, abrangendo 8,5 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, a mesma da Europa ocidental, e abriga 40% das floretas tropicais do mundo, 20% do abastecimento de \u00e1gua doce e 10% da biodiversidade.<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, apesar dessa abund\u00e2ncia de riquezas, o Brasil luta tanto para cumprir o potencial de seu lema, Ordem e Progresso, desde a sua independ\u00eancia, em 1822? Praticamente, todo acad\u00eamico que estuda o pa\u00eds concorda que ele tem vivido sob a ode positivista do fil\u00f3sofo Auguste Comte:\u00a0&#8211; <em>l\u2019amour pour principe e l\u2019ordre pour base: le progres pour but<\/em>\u00a0(amor como princ\u00edpio e ordem como base: o progresso como objetivo).<\/p>\n<p><strong><em>O mito da harmonia racial<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A resposta \u00e9 que o Brasil sofre de um caso de identidade equivocada. Por mais de meio s\u00e9culo o pa\u00eds foi propagandeado como um tipo de para\u00edso sedutor, de natureza selvagem preservada, um lugar de despreocupada indol\u00eancia e sensualidade, de cordialidade e harmonia racial. No entanto, essa imagem n\u00e3o condiz com os fatos. Os recursos da Amaz\u00f4nia brasileira t\u00eam sido saqueados. O pa\u00eds sofre de uma desigualdade incr\u00edvel que coloca 90% da riqueza nas m\u00e3os de 10% da popula\u00e7\u00e3o, convive com um racismo extremo contra os mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o brasileira afrodescendente, a corrup\u00e7\u00e3o corre solta, de tirar o f\u00f4lego, e a viol\u00eancia criminal e impunidade apresentam \u00edndices elevad\u00edssimos.<\/p>\n<p>Hoje em dia, a lideran\u00e7a pol\u00edtica arruinada, a m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a crise da COVID-19 est\u00e3o, simplesmente, levando os mesmos desafios de longa data a uma situa\u00e7\u00e3o de quem precisa de socorro em n\u00edvel extremo.<\/p>\n<p>Um dos mais perspicazes livros sobre o Brasil \u201c<a href=\"https:\/\/books.google.co.uk\/books\/about\/The_Brazilians.html?id=JCUsAAAAYAAJ&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Os Brasileiros<\/em><\/a>\u201d, do professor de Direito estadunidense, Joseph Page, afirma que a semente do insucesso brasileiro foi plantada h\u00e1 duzentos anos. De fato, o Brasil foi o \u00fanico territ\u00f3rio do Novo Mundo que viveu os dois lados da moeda, tendo sido, a sede e a col\u00f4nia do imp\u00e9rio, quase que ao mesmo tempo. O Brasil foi tamb\u00e9m o \u00faltimo pa\u00eds do Ocidente a abolir a escravid\u00e3o (1888), o que, de alguma maneira, explica a sua estrutura de classes sociais profundamente arraigada.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o racial e o racismo no Brasil justificam uma an\u00e1lise mais cuidadosa. Durante o com\u00e9rcio de escravos no Atl\u00e2ntico, que se iniciou nos anos de 1500 e continuou at\u00e9 o final dos anos de 1800, entre 3 e 5 milh\u00f5es de escravos foram trazidos da \u00c1frica para o Brasil. Cabe uma compara\u00e7\u00e3o com os 300 mil escravos, aproximadamente, em torno de 5%, enviados aos EUA. Ainda assim, para a maior parte da hist\u00f3ria do Brasil independente, a \u201cquest\u00e3o racial\u201d foi encoberta. Por muitos anos, estudiosos descreveram o Brasil como um tipo de \u201cdemocracia racial\u201d feita de cidad\u00e3os vivendo em harmonia.<\/p>\n<p>Surgiu uma narrativa romantizada das rela\u00e7\u00f5es raciais, apoiada pela elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica do pa\u00eds, que, de algum modo, fez com que o pa\u00eds escapasse de julgamentos e atribula\u00e7\u00f5es de racismo e discrimina\u00e7\u00e3o. Essa ideia pode, na verdade, ser rastreada at\u00e9 Gilberto Freyre, um soci\u00f3logo brasileiro dos anos 1930. Ele sugere que o imperialismo benigno de Portugal, as rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas entre senhores e escravos, e a mistura ativa de ra\u00e7as levou, inevitavelmente, \u00e0 uma meta-ra\u00e7a e \u00e0 uma sociedade p\u00f3s-racial.<\/p>\n<p>A ideia de que o Brasil evitou uma animosidade e tens\u00e3o racial que afligiu outros pa\u00edses era fonte de orgulho para muitos cidad\u00e3os, e, de fato, muitos brasili\u00f3filos no mundo todo. Ao longo do s\u00e9culo XX, o governo contrastou, com frequ\u00eancia, a sua falta de animosidade racial em favor do que estava acontecendo nos EUA, antes e durante o movimento pelos direitos civis. Isso n\u00e3o foi apenas para consumo interno. Colocou o Brasil na posi\u00e7\u00e3o de campe\u00e3o mundial dos marginalizados, uma voz para o chamado <em>Global South<\/em>e, uma for\u00e7a anti-imperialista liderando o movimento n\u00e3o alinhado.<\/p>\n<p>Sem surpresa alguma, muitas dessas ideias vieram sob escrut\u00ednio. A \u00faltima leitura \u00e9 que a democracia racial brasileira foi uma fic\u00e7\u00e3o. Foi defendida de maneira ruidosa por uma elite branca para esconder uma opress\u00e3o racial muito verdadeira e violenta. De fato, a grande maioria dos desafios contempor\u00e2neos brasileiros, como a desigualdade, a exclus\u00e3o, a viol\u00eancia e a impunidade, s\u00e3o fortemente conectados a esse legado de discrimina\u00e7\u00e3o racial n\u00e3o examinado. E, apesar dos esfor\u00e7os ainda recentes para reduzir a discrimina\u00e7\u00e3o, ela est\u00e1 profundamente arraigada na estrutura da pol\u00edtica eleitoral do pa\u00eds, nos sistemas educacionais e nos mercados de trabalho. A popula\u00e7\u00e3o negra do Brasil ganha hoje, uma m\u00e9dia de 44% menos que seus pares brancos.<\/p>\n<p>O racismo estrutural \u00e9 hoje sustentado pela elite poderosa do pa\u00eds, algumas delas memoravelmente descritas por Alex Cuadros em \u2018<a href=\"https:\/\/www.amazon.co.uk\/Brazillionaires-Wealth-Decadence-American-Country\/dp\/0812996763\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Brazillionaires: Wealth, Power, Decadence and Hope in an American Country<\/em><\/a>\u2019. O elitismo e a patronagem brasileira s\u00e3o lend\u00e1rias, e isso contribuiu para os n\u00edveis incompreens\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o e de impunidade. Uma das mais amplamente relatadas inst\u00e2ncias de corrup\u00e7\u00e3o \u00e9\u00a0a chamada opera\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Operation_Car_Wash\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lava Jato<\/a>, que come\u00e7ou em 2014 e envolveu dezenas de ex-presidentes, ministros, pol\u00edticos, empres\u00e1rios e outros, no Brasil e em cerca de uma dezena de pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A Lava Jato foi excepcional at\u00e9 mesmo para os padr\u00f5es brasileiros. O que come\u00e7ou como suspeita de lavagem de dinheiro reproduziu-se como met\u00e1stase em um vasto esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, a estatal do petr\u00f3leo. Ao todo, foram desviados valores que podem chegar a 13 bilh\u00f5es de d\u00f3lares dos cofres p\u00fablicos, tornando-se um dos maiores esquemas de corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas na hist\u00f3ria do Brasil, mas de v\u00e1rios outros pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong><em>Corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo parece ser apenas o \u00faltimo epis\u00f3dio de s\u00e9rie que retrata uma longa e s\u00f3rdida saga. Antes da Lava Jato, houve o <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mensal%C3%A3o_scandal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Mensal\u00e3o<\/em><\/a>, que envolveu compra de votos e foi descoberto em 2005. E antes dele, houve o Banestado, esc\u00e2ndalo de lavagem de dinheiro, que aconteceu entre 1991 e 2002. At\u00e9 agora, poucos pagaram o pre\u00e7o por seus crimes. Ao inv\u00e9s disso, a habilidade de enganar o sistema foi tolerada e, at\u00e9 mesmo, com tristeza, admirada.<\/p>\n<p>Existem sinais de que os brasileiros est\u00e3o acordando e desafiando um intoler\u00e1vel <em>status quo<\/em>. Assim como nos EUA e em parte da Am\u00e9rica Latina, pedidos de repara\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a racial, redu\u00e7\u00e3o da desigualdade e erradica\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o est\u00e3o crescendo. Com o aumento dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos, o clima mudou. At\u00e9 recentemente, era inconceb\u00edvel imaginar manifestantes do <em>Black Lives Matter<\/em> marchando pelos enormes <em>boulevards<\/em> de S\u00e3o Paulo, ou acreditar que executivos das maiores construtoras e membros do congresso poderiam ser presos e, mais que isso, permanecerem presos.<\/p>\n<p>As convuls\u00f5es dos \u00faltimos cinco anos, desde o impeachment de Dilma Roussef ao crescimento de Jair Bolsonaro, n\u00e3o s\u00e3o simplesmente resultado do colapso dos pre\u00e7os das commodities, m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o e antipatia pela esquerda, embora esses fatores sejam importantes. S\u00e3o tamb\u00e9m sintomas de um despertar mais amplo e rea\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edtica progressista que amea\u00e7a o antigo regime e os direitos da nova classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Concordando ou n\u00e3o, o mandato do Partido dos Trabalhadores, que durou entre 2003 e 2016, abalou as institui\u00e7\u00f5es. Programas de promo\u00e7\u00e3o social em massa, desde o Bolsa Fam\u00edlia ao Minha Casa Minha Vida foram intensificados. Novos sistemas de cotas e projetos culturais foram criados, destinados a empoderar as classes marginalizadas. A elite tolerou essas atividades desde que seus interesses permanecessem intocados. Quando terminou o <em>boom<\/em> da commodities, em 2013, a velha guarda iniciou o processo de descarte do Partido dos Trabalhadores. Os brasileiros foram \u00e0s ruas e de l\u00e1 n\u00e3o sa\u00edram mais. Uma gera\u00e7\u00e3o inteira imersa em um novo tipo de pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong><em>Problemas \u00e0 frente<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como est\u00e1 o Brasil hoje? O pa\u00eds est\u00e1 encarando uma crise tripla: a pandemia da COVID-19, que ainda est\u00e1 em sua primeira onda; a crise econ\u00f4mica com consequ\u00eancias de longo prazo e uma crise pol\u00edtica e de seguran\u00e7a que amea\u00e7a a estabilidade nacional. Some-se a isto uma quarta crise com implica\u00e7\u00f5es mundiais: a devasta\u00e7\u00e3o e a degrada\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Mesmo antes da administra\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, as pr\u00e1ticas de limpeza de terras com o uso de inc\u00eandios controlados estavam aumentando, sendo mais de 90% feitos de maneira ilegal. Desde a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, as taxas de desmatamento dispararam aos n\u00edveis mais altos em uma d\u00e9cada. Se o desflorestamento continuar na taxa atual, logo poderemos testemunhar uma extin\u00e7\u00e3o em massa, o que converteria a maior floresta tropical do mundo em uma imensa savana.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 crise sanit\u00e1ria, o Brasil reportou seu primeiro caso relativamente tarde, em 26 de fevereiro de 2020. A primeira rea\u00e7\u00e3o foi lenta, mas no caminho certo. Os governos locais fecharam aeroportos, impuseram quarentenas e encorajaram as pessoas a ficar em casa. Rapidamente, no entanto, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a se desfazer. Bolsonaro foi inflexivelmente contra os <em>lockdowns<\/em>, pois temia que afetassem a economia de maneira negativa, e, de quebra, sua popularidade. Ele minimizou e depois politizou as evid\u00eancias, indicou medicamentos controversos, como a cloroquina, perdeu dois ministros da Sa\u00fade e, descaradamente, ignorou os conselhos do ministro que ele pr\u00f3prio colocou no cargo.<\/p>\n<p>Os resultados s\u00e3o tragicamente previs\u00edveis. O Brasil registra 11% de todas as mortes relacionadas \u00e0 COVID-19 no mundo, com apenas 2,7% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Em uma base per-capita, algumas cidades possuem a pior taxa de mortalidade relacionada \u00e0 COVID-19 do planeta. Mais de 241 mil pessoas j\u00e1 morreram, e pesquisadores dizem que o n\u00famero real pode ser dez vezes maior.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a n\u00e3o d\u00e1 sinais de que vai acabar e epidemiologistas dizem que os n\u00fameros v\u00e3o continuar aumentando, apesar da chegada das vacinas. Parte do problema \u00e9 que o Brasil tem uma popula\u00e7\u00e3o bastante numerosa de idosos. A verdade \u00e9 que a maioria das pessoas que est\u00e1 contraindo a doen\u00e7a \u00e9 pobre, vulner\u00e1vel e negra. O Centro Nacional de Opera\u00e7\u00f5es e Intelig\u00eancia na \u00e1rea da Sa\u00fade estima que 55% daqueles que morreram por COVID-19 s\u00e3o negros, comparando-se com os 38% de brancos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade \u00e9 prec\u00e1ria e os hospitais estaduais por todo o pa\u00eds est\u00e3o, de alguma maneira, sobrecarregados. A taxa de recupera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 50% maior nas institui\u00e7\u00f5es privadas, quando comparadas com as p\u00fablicas. \u00c9 importante notar que mais profissionais de enfermagem brasileiros morreram por complica\u00e7\u00f5es decorrentes de COVID-19 do que em qualquer outro pa\u00eds. A ben\u00e7\u00e3o salvadora do Brasil \u00e9 o seu sistema p\u00fablico de sa\u00fade, com mais de 55 mil centros de tratamento e mais de 3 mil m\u00e9dicos, enfermeiros e profissionais de sa\u00fade. Alguns deles est\u00e3o reagindo: um grupo de sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es sociais e profissionais da \u00e1rea m\u00e9dica (que se autodenominam Rede Uni\u00e3o da Sa\u00fade) ingressaram no Tribunal Penal Internacional para indiciar o presidente por \u201cdesprezo, neglig\u00eancia e nega\u00e7\u00e3o\u201d que, dizem eles, leva ao crime contra a humanidade. As chances de isso acontecer s\u00e3o, claro, pr\u00f3ximas a zero.<\/p>\n<p>Os efeitos econ\u00f4micos da pandemia s\u00e3o graves. O governo estima um \u00edndice em torno de 4,7% de retra\u00e7\u00e3o no crescimento econ\u00f4mico (revisto para abaixo de 0%, agora, em mar\u00e7o de 2020). A ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o Fitch \u00e9 ainda menos otimista e prev\u00ea uma queda de 6% ou mais. O Banco Mundial coloca ainda mais em baixa, alegando que a queda pode ser maior que 8%. De qualquer maneira, o pa\u00eds est\u00e1 a caminho da queda mais acentuada do PIB em d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Como um paciente em estado grave, a economia brasileira j\u00e1 vinha padecendo, mesmo antes da COVID-19, incluindo a brutal recess\u00e3o que terminou em 2016. Desde que a COVID-19 come\u00e7ou a se espalhar, o Brasil experimentou uma sa\u00edda maci\u00e7a de divisas estrangeiras e uma significativa deprecia\u00e7\u00e3o do real. O desemprego est\u00e1 na taxa de 13% e, mesmo alto, \u00e9 apenas uma pequena porcentagem pior do que era antes da pandemia.<\/p>\n<p>Sem surpresa alguma, o governo, especialmente Paulo Guedes, o ministro da Economia, graduado na Universidade de Chicago, est\u00e1 otimista em rela\u00e7\u00e3o a 2021. Ele prev\u00ea uma recupera\u00e7\u00e3o em forma de \u201cV\u201d ainda em 2021, com uma recupera\u00e7\u00e3o no crescimento de 3,2%. Muitos estrangeiros duvidam. Enquanto ele reluta em adotar medidas mais Keynesianas durante a crise da COVID-19, como a transfer\u00eancia de renda, subs\u00eddios, reajuste na tabela do imposto de renda, demonstra impaci\u00eancia para impor um regime de austeridade fiscal o quanto antes.<\/p>\n<p>O apoio popular a Bolsonaro obteve sucesso com a COVID-19 e com a crise econ\u00f4mica, mas n\u00e3o tanto como era esperado. Nos \u00faltimos dois meses, ele perdeu seu ministro da Justi\u00e7a, que lutava contra a corrup\u00e7\u00e3o, o juiz S\u00e9rgio Moro, antigos aliados viraram-se contra o presidente, o apoio que tinha da classe m\u00e9dia caiu e os pedidos por sua ren\u00fancia ou impeachment cresceram mais ainda. O fato de que o presidente encara, pelo menos, 48 acusa\u00e7\u00f5es isoladas de impeachment n\u00e3o o tem ajudado. Como no \u00faltimo m\u00eas, 55% dos brasileiros disseram que gostariam de v\u00ea-lo fora antes das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong><em>N\u00e3o sem briga<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em qualquer circunst\u00e2ncia \u201cnormal\u201d, isso serviria como uma sinaliza\u00e7\u00e3o para qualquer l\u00edder pol\u00edtico. E, mesmo assim, Bolsonaro talvez possa sair inc\u00f3lume, apesar da maneira desastrosa como vem lutando tanto com a pandemia, quanto com as consequ\u00eancias econ\u00f4micas. Na verdade, sua taxa de aprova\u00e7\u00e3o ganhou terreno, atingindo mais de 50%, em dezembro de 2020. Ainda assim, trata-se de um pol\u00edtico com tr\u00eas d\u00e9cadas de experi\u00eancia. Bolsonaro n\u00e3o vai cair sem lutar. Recentemente, ele reuniu o chamado\u00a0<em>Centr\u00e3o<\/em>, os parlamentares que trabalham na base a favor da patronagem.<\/p>\n<p>Bolsonaro est\u00e1 jogando o jogo pol\u00edtico brasileiro da maneira que sempre foi jogado: trocando cargos no governo por apoio pol\u00edtico. O presidente ganhou parte da classe dos militares da mesma maneira: cerca de 6 mil militares foram nomeados para cargos no governo. Mais que durante a ditadura militar do pa\u00eds, entre 1964 e 1985. Importante \u00e9 que Bolsonaro ainda \u00e9 apoiado por linhas duras que lhe s\u00e3o leais, o que representa em torno de 15% dos eleitores, de acordo com as pesquisas. O presidente tamb\u00e9m tem o apoio constante de muitas pol\u00edcias estaduais que t\u00eam se aproximado dele ao longo dos anos. S\u00e3o esses bolsonaristas que ele tem chamado para \u201cdefend\u00ea-lo\u201d do impeachment, caso o Congresso tome essa improv\u00e1vel atitude.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o necessariamente domesticado pela legislatura, Bolsonaro jogou pesado. Ele est\u00e1 reaprendendo as virtudes da pol\u00edtica de dar de comer aos porcos, com o seu n\u00e3o menos importante, o subs\u00eddio emergencial de 110 d\u00f3lares que lhe proporcionou avalia\u00e7\u00f5es altas no Nordeste e Centro-Oeste do pa\u00eds, \u00e1reas tradicionalmente mais favor\u00e1veis ao Partido dos Trabalhadores, mas ainda dependentes dessa assist\u00eancia. O apoio a ele caiu no Norte e no Sudeste, onde os casos de COVID-19 s\u00e3o mais numerosos.<\/p>\n<p>Embora ele tenha evitado a pior crise da sua gest\u00e3o no curto prazo, o futuro pol\u00edtico de Bolsonaro est\u00e1 bem longe de ser seguro. As elei\u00e7\u00f5es municipais de novembro de 2020 foram um golpe, com mais de 40 dos seus 60 candidatos indicados n\u00e3o tendo alcan\u00e7ado o segundo turno. H\u00e1 muitas amea\u00e7as existenciais, n\u00e3o apenas da crise descontrolada da COVID-19, mas dos pol\u00edticos opositores, da suprema corte e do sistema judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da amea\u00e7a de impeachment, Bolsonaro pode ainda ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal por crimes comuns, ou retirado pelo tribunal eleitoral nacional por suposta m\u00e1 conduta durante as elei\u00e7\u00f5es de 2018. Seus tr\u00eas filhos tamb\u00e9m encaram uma quantidade vertiginosa de investiga\u00e7\u00f5es, incluindo lavagem de dinheiro e crimes de \u00f3dio. De fato, seu filho mais velho, Fl\u00e1vio, parece ser o seu calcanhar de Aquiles, por estar sendo investigado pela Pol\u00edcia Federal por lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p>Se a justi\u00e7a se voltar contra Bolsonaro, alguns temem que o Brasil vai tomar o mesmo caminho do Peru, quando Alberto Fujimori, outro populista da direita, enviou tropas e tanques para dissolver o Congresso e o judici\u00e1rio em um \u201cautogolpe\u201d, conhecido como\u00a0<em>Fujimorazo<\/em>. Na verdade, n\u00e3o importa como se encarem as coisas, nuvens de tempestade se acumulam no c\u00e9u brasileiro. A crise econ\u00f4mica e da sa\u00fade n\u00e3o mostra sinais de enfraquecimento. Indicadores de agita\u00e7\u00e3o social, demonstra\u00e7\u00f5es, protestos e viol\u00eancia direta est\u00e3o aumentando.<\/p>\n<p>E mais, as taxas de homic\u00eddios come\u00e7aram a subir e o pa\u00eds desponta com mais de 60 mil assassinatos por ano (dez vezes mais que nos EUA), sendo que a grande maioria das v\u00edtimas s\u00e3o homens negros. A matan\u00e7a policial tamb\u00e9m bate recordes em um pa\u00eds com cerca de 6 mil execu\u00e7\u00f5es por ano (seis vezes mais que nos EUA), muitos dos casos envolvendo tamb\u00e9m homens negros e pobres. H\u00e1 sinais incipientes de resist\u00eancia do que \u00e9 uma sociedade extremamente polarizada, incluindo governadores e prefeitos. Uma safra de novos candidatos est\u00e1 surgindo, e isso talvez entriste\u00e7a a classe pol\u00edtica escler\u00f3tica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ainda assim, Bolsonaro \u00e9 o candidato a ser derrotado nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, e por uma margem ampla, de acordo com as pesquisas mais recentes. Atualmente, nem o candidato outrora popular, o ex-presidente Lula, ou outros poss\u00edveis candidatos como Ciro Gomes, Jo\u00e3o D\u00f3ria, Luciano Huck ou S\u00e9rgio Moro chegam perto de Bolsonaro. Por\u00e9m, parafraseando Harold Wilson, por duas vezes primeiro ministro do Reino Unido, um ano \u00e9 uma eternidade na pol\u00edtica. No Brasil isso \u00e9 mais verdadeiro que em qualquer outro lugar.\u00a0[IDN-InDepthNews \u2013 20 February 2021]<\/p>\n<p><em>* Robert Muggah is co-founder of the\u00a0<\/em><em><a href=\"https:\/\/igarape.org.br\/en\/about-igarape\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Igarape Institute<\/a><\/em><em>, an independent think tank dedicated to integrating security, development and climate agendas based in Rio de Janeiro, and the\u00a0<\/em><em><a href=\"https:\/\/www.secdev.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SecDev Group<\/a><\/em><em>,\u00a0a Canadian digital risk and resilience consultancy. 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