{"id":1276736,"date":"2021-01-13T16:53:34","date_gmt":"2021-01-13T16:53:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1276736"},"modified":"2021-01-13T16:53:34","modified_gmt":"2021-01-13T16:53:34","slug":"the-fascinating-story-of-placebos-and-why-doctors-should-use-them-more-often","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2021\/01\/the-fascinating-story-of-placebos-and-why-doctors-should-use-them-more-often\/","title":{"rendered":"A fascinante hist\u00f3ria dos placebos \u2013 e por que os m\u00e9dicos deveriam intensificar o seu uso"},"content":{"rendered":"<figure>A <a href=\"http:\/\/www.perseus.tufts.edu\/hopper\/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0176%3Atext%3DCharm.%3Asection%3D155e\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cura para a dor de cabe\u00e7a<\/a> de Plat\u00e3o envolvia:<\/p>\n<blockquote><p><em>uma certa erva, mas havia um feiti\u00e7o que devia ser lan\u00e7ado com o rem\u00e9dio; se o feiti\u00e7o fosse pronunciado no momento da sua aplica\u00e7\u00e3o, o rem\u00e9dio funcionaria de maneira perfeita; por\u00e9m, sem o feiti\u00e7o, a erva n\u00e3o teria nenhuma efic\u00e1cia. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Atualmente, chamar\u00edamos o &#8220;feiti\u00e7o&#8221; que Plat\u00e3o indicava de placebo. Os placebos s\u00e3o conhecidos h\u00e1 milhares de anos e s\u00e3o a forma de tratamento mais estudada na hist\u00f3ria da Medicina. Toda vez que o seu m\u00e9dico diz que foi comprovado que o medicamento que voc\u00ea tomou funciona, ele quer dizer que <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/book\/10.1002\/9781444342673\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">funciona melhor do que um placebo<\/a>. Cada centavo de d\u00f3lar arrecadado em impostos ou economizado em seguros que seja destinado a tratamentos que \u201ccomprovadamente\u201d funcionem, s\u00f3 funcionam porque (supostamente) s\u00e3o melhores do que um placebo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar da import\u00e2ncia desses profissionais, os m\u00e9dicos n\u00e3o t\u00eam a permiss\u00e3o para usar placebos para ajudar no tratamento dos pacientes (pelo menos n\u00e3o oficialmente), e h\u00e1 muita discuss\u00e3o a respeito da necessidade dos placebos em estudos cl\u00ednicos. Ainda assim, a ci\u00eancia dos placebos se desenvolveu a ponto de levantar d\u00favidas se a nossa vis\u00e3o sobre os placebos deveria mudar \u2013 mas n\u00e3o mudou \u2013 o nosso preconceito contra os placebos na pr\u00e1tica, bem como o lugar privilegiado que os placebos ocupam nos estudos cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>Nessa turn\u00ea pela hist\u00f3ria dos placebos, vou apresentar os progressos alcan\u00e7ados e propor onde o conhecimento sobre os placebos pode nos conduzir em um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<h4>De preces at\u00e9 tratamentos para agradar<\/h4>\n<p>A palavra &#8220;placebo&#8221;, tal como se aplica agora na Medicina, come\u00e7ou a ser usada a partir de uma tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para o latim que fez S\u00e3o Jer\u00f4nimo no s\u00e9culo IV d.C.<\/p>\n<p>No Livro dos Salmos 114, o vers\u00edculo 9 foi assim traduzido ao latim: <a href=\"https:\/\/www.biblestudytools.com\/vul\/psalms\/114-9.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>placebo Domino in regione vivorum<\/em><\/a>. Nesse contexto, &#8220;Placebo&#8221; significa &#8220;Agradarei&#8221;, e o vers\u00edculo ent\u00e3o ficou assim: &#8220;Agradarei ao Senhor na terra dos vivos&#8221;.<\/p>\n<p>Historiadores mais cautelosos sugerem que essa tradu\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o ser, digamos, precisa.<\/p>\n<p>A translitera\u00e7\u00e3o do hebraico \u00e9 \u201ciset\u2019halekh liphnay Adonai b\u2019artzot hakhayim\u201d, o que significa, &#8220;Na presen\u00e7a do Senhor, continuarei o meu caminho na terra dos vivos&#8221;.<\/p>\n<p>Acredito que os historiadores estejam fazendo muito barulho por nada: por que o Senhor desejaria caminhar com algu\u00e9m que n\u00e3o fosse agrad\u00e1vel? Ainda assim, persistem discuss\u00f5es sobre essa <a href=\"https:\/\/philpapers.org\/rec\/HOWTRO-24\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>&#8220;real&#8221; longevidade dos placebos.<\/u><\/a><\/figure>\n<figure class=\"align-center \"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=754&amp;fit=clip\" sizes=\"auto, (min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px\" srcset=\"https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=414&amp;fit=crop&amp;dpr=1 600w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=30&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=414&amp;fit=crop&amp;dpr=2 1200w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=15&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=414&amp;fit=crop&amp;dpr=3 1800w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=520&amp;fit=crop&amp;dpr=1 754w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=30&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=520&amp;fit=crop&amp;dpr=2 1508w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375451\/original\/file-20201216-17-1wmk2um.jpeg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=15&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=520&amp;fit=crop&amp;dpr=3 2262w\" alt=\"Painting of Saint Jerome by Caravaggio.\" width=\"680\" height=\"469\" \/><span style=\"color: #808080;\"><em>S\u00e3o Jer\u00f4nimo retratado por Caravaggio.\u00a0Acervo <u>Caravaggio\/Wikimedia Commons<\/u><\/em><\/span><\/figure>\n<p>Naquele tempo, e ainda hoje, a fam\u00edlia que estivesse em luto oferecia um banquete a quem assistisse ao funeral. Atr\u00e1s desses banquetes gr\u00e1tis, vinham parentes distantes e \u2013 essa \u00e9 a parte relevante \u2013 pessoas que se passavam por parentes para assistir ao funeral, cantando &#8220;placebo&#8221;, s\u00f3 para conseguir comida. Essa pr\u00e1tica enganosa levou <a href=\"http:\/\/sites.fas.harvard.edu\/%7Echaucer\/teachslf\/parst-tran.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Chaucer a escrever<\/u><\/a>, &#8220;Esses bajuladores s\u00e3o os capel\u00e3es do Diabo, sempre cantando Placebo&#8221;.<\/p>\n<p>Chaucer tamb\u00e9m deu o nome de Placebo a um dos personagens de <em>O Conto do Mercador<\/em>.\u00a0 O protagonista do conto chama-se Janu\u00e1rio. Janu\u00e1rio era um velho cavaleiro rico que desejava satisfazer seus desejos sexuais com uma mulher mais jovem, chamada May. Para legitimar esse desejo, pensou em se casar com ela. Mas antes de tomar uma decis\u00e3o, ele aconselhou-se com dois amigos, Placebo e Justino.<\/p>\n<p>Placebo, ansioso por conquistar a simpatia do velho cavaleiro, aprovou o plano de casamento do amigo. Justino, por\u00e9m, mais cauteloso, limitou-se a citar S\u00eaneca e Cat\u00e3o, fil\u00f3sofos que pregaram a virtude e a cautela na hora de escolher uma esposa.<\/p>\n<p>Despois de ouvir os conselhos dos amigos, Janu\u00e1rio disse a Justino que n\u00e3o daria a menor import\u00e2ncia a S\u00eaneca e que iria se casar com May. E eis que nessa hist\u00f3ria surge o tema relacionado ao engano, pois Janu\u00e1rio era cego e jamais foi capaz de perceber as trai\u00e7\u00f5es de May.<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, o termo &#8220;placebo&#8221; passou a integrar o vocabul\u00e1rio da Medicina, quando foi usado para descrever um m\u00e9dico. Em seu livro de 1763, o Dr. Pierce descreveu uma visita que fez a uma amiga, uma senhora que estava acamada. E eis que ele encontra o <a href=\"https:\/\/www.jameslindlibrary.org\/quoted-in-sutherland-a-attempts-to-revive-ancient-medical-doctrines\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>&#8220;Dr. Placebo&#8221; sentado \u00e0 cabeceira do leito de sua amiga<\/u><\/a>.<\/p>\n<p>O Dr. Placebo era uma figura elegante. Seus cabelos compridos e encaracolados impressionavam. E ali estava o Dr. Placebo, sentado \u00e0 cabeceira da cama, preparando, com toda a calma do mundo, um medicamento para a paciente. Quando o Dr. Pierce perguntou ao colega sobre o quadro de sa\u00fade da amiga, ela mesma respondeu: \u201cPura e imaculada, meu velho amigo, o doutor aqui tem me medicado com suas excelentes gotas\u201d. Pierce percebeu de pronto que, qualquer resultado cl\u00ednico positivo que o Dr. Placebo estivesse conseguindo, isso se deveria mais por conta dos seus excelentes modos \u00e0 beira do leito da sua amiga, do que pelo verdadeiro conte\u00fado daquelas gotas.<\/p>\n<p>E foi assim que a palavra &#8220;placebo&#8221; passou a ser usada para descrever alguma forma de tratamento. Em 1752, o obstetra escoc\u00eas William Smellie foi quem primeiro <a href=\"https:\/\/www.jameslindlibrary.org\/smellie-w-1752\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>usou o termo &#8220;placebo&#8221; para descrever um tratamento m\u00e9dico<\/u><\/a>. Ele escreveu: &#8220;ser\u00e1 apropriado prescrever um inocente <em>Placemus<\/em>, que ela poder\u00e1 tomar em intervalos regulares, para esquecer-se do tempo e ocupar a mente&#8221;. (<em>Placemus<\/em> \u00e9 outra forma da palavra &#8220;placebo&#8221;).<\/p>\n<h4>Os placebos nos estudos cl\u00ednicos<\/h4>\n<p>Os placebos foram usados pela primeira vez em estudos cl\u00ednicos no s\u00e9culo XVIII, para desmascarar os conhecidos como charlat\u00e3es. O que n\u00e3o deixa de ser paradoxal, porque os rem\u00e9dios indicados inclu\u00edam, naquela \u00e9poca, fazer sangria e alimentar os pacientes com mat\u00e9ria n\u00e3o digerida do intestino de um bode oriental. Esses tratamentos eram considerados t\u00e3o eficazes, que nem havia necessidade de condu\u00e7\u00e3o de estudos cl\u00ednicos pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>O primeiro exemplo que recordo \u00e9 um estudo que utilizou o controle por placebo denominado \u201cTractors de Perkins\u201d. No final do s\u00e9culo XVIII, um m\u00e9dico estadunidense chamado Elisha Perkins criou um aparelho composto por duas varetas met\u00e1licas que, segundo ele, tinham a capacidade de eliminar o fluido &#8220;el\u00e9trico&#8221; do corpo.<\/p>\n<p>Naquele tempo, e ainda hoje, a fam\u00edlia que estivesse em luto oferecia um banquete a quem assistisse ao funeral. Atr\u00e1s desses banquetes gr\u00e1tis, vinham parentes distantes e \u2013 essa \u00e9 a parte relevante \u2013 pessoas que se passavam por parentes para assistir ao funeral, cantando &#8220;placebo&#8221;, s\u00f3 para conseguir comida. Essa pr\u00e1tica enganosa levou <u>Chaucer a escrever<\/u>, &#8220;Esses bajuladores s\u00e3o os capel\u00e3es do Diabo, sempre cantando Placebo&#8221;.<\/p>\n<p>Chaucer tamb\u00e9m deu o nome de Placebo a um dos personagens de <em>O Conto do Mercador<\/em>.\u00a0 O protagonista do conto chama-se Janu\u00e1rio. Janu\u00e1rio era um velho cavaleiro rico que desejava satisfazer seus desejos sexuais com uma mulher mais jovem, chamada May. Para legitimar esse desejo, pensou em se casar com ela. Mas antes de tomar uma decis\u00e3o, ele aconselhou-se com dois amigos, Placebo e Justino.<\/p>\n<p>Placebo, ansioso por conquistar a simpatia do velho cavaleiro, aprovou o plano de casamento do amigo. Justino, por\u00e9m, mais cauteloso, limitou-se a citar S\u00eaneca e Cat\u00e3o, fil\u00f3sofos que pregaram a virtude e a cautela na hora de escolher uma esposa.<\/p>\n<p>Despois de ouvir os conselhos dos amigos, Janu\u00e1rio disse a Justino que n\u00e3o daria a menor import\u00e2ncia a S\u00eaneca e que iria se casar com May. E eis que nessa hist\u00f3ria surge o tema relacionado ao engano, pois Janu\u00e1rio era cego e jamais foi capaz de perceber as trai\u00e7\u00f5es de May.<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, o termo &#8220;placebo&#8221; passou a integrar o vocabul\u00e1rio da Medicina, quando foi usado para descrever um m\u00e9dico. Em seu livro de 1763, o Dr. Pierce descreveu uma visita que fez a uma amiga, uma senhora que estava acamada. E eis que ele encontra o <u>&#8220;Dr. Placebo&#8221; sentado \u00e0 cabeceira do leito de sua amiga<\/u>.<\/p>\n<p>O Dr. Placebo era uma figura elegante. Seus cabelos compridos e encaracolados impressionavam. E ali estava o Dr. Placebo, sentado \u00e0 cabeceira da cama, preparando, com toda a calma do mundo, um medicamento para a paciente. Quando o Dr. Pierce perguntou ao colega sobre o quadro de sa\u00fade da amiga, ela mesma respondeu: \u201cPura e imaculada, meu velho amigo, o doutor aqui tem me medicado com suas excelentes gotas\u201d. Pierce percebeu de pronto que, qualquer resultado cl\u00ednico positivo que o Dr. Placebo estivesse conseguindo, isso se deveria mais por conta dos seus excelentes modos \u00e0 beira do leito da sua amiga, do que pelo verdadeiro conte\u00fado daquelas gotas.<\/p>\n<p>E foi assim que a palavra &#8220;placebo&#8221; passou a ser usada para descrever alguma forma de tratamento. Em 1752, o obstetra escoc\u00eas William Smellie foi quem primeiro <u>usou o termo &#8220;placebo&#8221; para descrever um tratamento m\u00e9dico<\/u>. Ele escreveu: &#8220;ser\u00e1 apropriado prescrever um inocente <em>Placemus<\/em>, que ela poder\u00e1 tomar em intervalos regulares, para esquecer-se do tempo e ocupar a mente&#8221;. (<em>Placemus<\/em> \u00e9 outra forma da palavra &#8220;placebo&#8221;).<\/p>\n<h4>Os placebos nos estudos cl\u00ednicos<\/h4>\n<p>Os placebos foram usados pela primeira vez em estudos cl\u00ednicos no s\u00e9culo XVIII, para desmascarar os conhecidos como charlat\u00e3es. O que n\u00e3o deixa de ser paradoxal, porque os rem\u00e9dios indicados inclu\u00edam, naquela \u00e9poca, fazer sangria e alimentar os pacientes com mat\u00e9ria n\u00e3o digerida do intestino de um bode oriental. Esses tratamentos eram considerados t\u00e3o eficazes, que nem havia necessidade de condu\u00e7\u00e3o de estudos cl\u00ednicos pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>O primeiro exemplo que recordo \u00e9 um estudo que utilizou o controle por placebo denominado \u201cTractors de Perkins\u201d. No final do s\u00e9culo XVIII, um m\u00e9dico estadunidense chamado Elisha Perkins criou um aparelho composto por duas varetas met\u00e1licas que, segundo ele, tinham a capacidade de eliminar o fluido &#8220;el\u00e9trico&#8221; do corpo.<\/p>\n<figure class=\"align-center \"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=754&amp;fit=clip\" sizes=\"auto, (min-width: 1466px) 754px, (max-width: 599px) 100vw, (min-width: 600px) 600px, 237px\" srcset=\"https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=475&amp;fit=crop&amp;dpr=1 600w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=30&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=475&amp;fit=crop&amp;dpr=2 1200w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=15&amp;auto=format&amp;w=600&amp;h=475&amp;fit=crop&amp;dpr=3 1800w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=45&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=597&amp;fit=crop&amp;dpr=1 754w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=30&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=597&amp;fit=crop&amp;dpr=2 1508w, https:\/\/images.theconversation.com\/files\/375465\/original\/file-20201216-15-1rwftf5.jpg?ixlib=rb-1.1.0&amp;q=15&amp;auto=format&amp;w=754&amp;h=597&amp;fit=crop&amp;dpr=3 2262w\" alt=\"Cartoon of a quack treating a patient with Perkins Patent Tractors.\" width=\"720\" height=\"570\" \/><\/figure>\n<figure class=\"align-center \"><span style=\"color: #808080;\"><em>Um charlat\u00e3o tratando um paciente com os Tractors patenteados por Perkins. Acervo de <u>James Gillray\/Wikimedia Commons,CC BY<\/u><\/em><\/span><\/figure>\n<p>Em 1796, Perkins recebeu a primeira patente m\u00e9dica expedida nos termos da Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, pela inven\u00e7\u00e3o desse aparelho. Os tractors foram muito populares e <a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC2601307\/pdf\/yjbm00545-0050.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>dizem at\u00e9 que George Washington comprou um.<\/u><\/a><\/p>\n<p>Os tractors chegaram \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha em 1799 e se tornaram populares em Bath, cidade que j\u00e1 se constitu\u00eda em centro de tratamento m\u00e9dico, devido \u00e0s <a href=\"https:\/\/pubs.rsc.org\/en\/content\/articlelanding\/1981\/AP\/AP9811800002#!divAbstract\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>\u00e1guas termais e spas, usados desde os tempos do Imp\u00e9rio Romano<\/u><\/a>. Entretanto, o Dr. John Haygarth achava que os tractors eram uma bobagem e prop\u00f4s <a href=\"https:\/\/www.jameslindlibrary.org\/haygarth-j-1800\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>testar seus efeitos em um estudo cl\u00ednico<\/u><\/a>. Para tanto, confeccionou alguns tractors de madeira que foram pintados de modo que ficassem id\u00eanticos aos tractores de metal de Perkins. Por\u00e9m, como eram de madeira, n\u00e3o seriam capazes de conduzir eletricidade.<\/p>\n<p>Em uma s\u00e9rie de dez pacientes (cinco tratados com os tractors de verdade e cinco com os de madeira), os tractors &#8220;placebo&#8221; funcionaram t\u00e3o bem quanto os de metal.<\/p>\n<p>Com isso, Haygarth concluiu que, na verdade, os tractors n\u00e3o funcionavam.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que o estudo n\u00e3o demonstrou que os tractors n\u00e3o beneficiavam os pacientes. Simplesmente revelou que eles n\u00e3o produziam benef\u00edcio algum atrav\u00e9s do uso de eletricidade no tratamento. O pr\u00f3prio Haygarth reconheceu que os tractors de madeira funcionavam muito bem. Ele atribuiu esse fato \u00e0 f\u00e9 que as pessoas tinham no tratamento.<\/p>\n<p>Outros exemplos de estudo placebo-controlados testaram os efeitos de comprimidos homeop\u00e1ticos, comparando-os com comprimidos feitos de p\u00e3o. Um desses primeiros estudos demonstrou que n\u00e3o fazer nada era melhor do que a medicina <u><a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/10.1177\/014107680609900726\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">homeop\u00e1tica quanto alop\u00e1tica (a medicina convencional<\/a>)<\/u> juntas.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XX, os estudos controlados por placebo eram prevalentes o bastante para que Henry Knowles Beecher produzisse um dos primeiros exemplos de &#8220;revis\u00e3o sistem\u00e1tica&#8221; que estimava o poder do placebo. Beecher serviu no Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto combatia na linha de frente, no sul da It\u00e1lia, o estoque de morfina estava acabando e Beecher teria relatado que testemunhou algo que o surpreendeu. Em vez de injetar morfina em um soldado ferido antes de uma cirurgia, uma enfermeira injetou solu\u00e7\u00e3o salina no paciente. O soldado pensou mesmo que era morfina e n\u00e3o aparentou sentir dor alguma.<\/p>\n<p>Depois da guerra, Beecher revisou quinze estudos placebo-controlados de tratamentos para a dor e para v\u00e1rias outras enfermidades. Os estudos foram conduzidos com 1.082 pacientes e demostraram que, em geral, 35% dos sintomas dos pacientes eram aliviados apenas pelo uso do placebo. Em 1955, Beecher publicou o estudo no seu famoso artigo <a href=\"https:\/\/jamanetwork.com\/journals\/jama\/article-abstract\/303530\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><u>O Poderoso Placebo<\/u><\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0895435697002035\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>pesquisadores questionaram os dados de Beecher<\/u><\/a>, com base no fato de que as pessoas que melhoraram depois de tomarem placebo poderiam ter se recuperado mesmo se n\u00e3o tivessem tomado. No campo da filosofia, a infer\u00eancia possivelmente equivocada de que o placebo levou \u00e0 cura \u00e9 conhecida como a fal\u00e1cia <em>post hoc ergo propter hoc<\/em> (depois disso, ent\u00e3o, \u00e9 causado por isso).<\/p>\n<p>Para saber se os placebos realmente s\u00e3o capazes de fazer com que os pacientes se sintam melhor, temos que comparar pessoas que usam placebo com outras que n\u00e3o recebem tratamento algum. Isso foi o que fizeram os pesquisadores dinamarqueses Asbj\u00f8rn Hr\u00f3bjartsson e Peter G\u00f8tzsche. Eles observaram estudos cujos desenhos tinham tr\u00eas ramos: inclu\u00edam o grupo que recebia o tratamento ativo, o grupo controlado por placebo e grupos que n\u00e3o recebiam tratamento algum. Eles, ent\u00e3o, observaram para checar se o placebo era melhor do que n\u00e3o fazer nada. E descobriram um pequeno efeito do placebo que poderia ter sido causado por um vi\u00e9s. Conclu\u00edram que &#8220;h\u00e1 pouca evid\u00eancia de que os placebos, em geral, t\u00eam efeitos cl\u00ednicos poderosos&#8221; e publicaram os resultados em um artigo, cujo t\u00edtulo questionava se <a href=\"https:\/\/www.nejm.org\/doi\/full\/10.1056\/nejm200105243442106\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><u>O placebo \u00e9 ineficaz?<\/u><\/em><\/a>, o que contrastava diretamente com o t\u00edtulo do trabalho de Beecher.<\/p>\n<p>Com isso, Hr\u00f3bjartsson e G\u00f8tzsche corrigiram o erro de Beecher, criando outro. Eles inclu\u00edram qualquer coisa rotulada como placebo em estudos para diversas condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas. Tal compara\u00e7\u00e3o, como a de ma\u00e7\u00e3s com laranjas, n\u00e3o pode ser adequada. Se observ\u00e1ssemos o efeito de um tratamento para qualquer condi\u00e7\u00e3o e encontr\u00e1ssemos que havia um m\u00ednimo efeito, mediano que fosse, mesmo assim n\u00e3o poder\u00edamos concluir que os tratamentos n\u00e3o foram eficazes. Eu <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/23690944\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>expus esse erro em uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica<\/u><\/a> e agora j\u00e1 se aceita que, da mesma maneira que alguns tratamentos s\u00e3o eficazes para algumas queixas mas n\u00e3o funcionam para todas, alguns placebos s\u00e3o eficazes para alguns sintomas \u2013 especialmente a dor.<\/p>\n<h4>Cirurgia placebo<\/h4>\n<p>Recentemente, passou-se a realizar estudos de cirurgias placebo-controladas.<\/p>\n<p>No estudo que talvez seja o mais famoso dessa \u00e1rea, o cirurgi\u00e3o estadunidense Bruce Moseley analisou 180 pacientes que sentiam uma dor no joelho t\u00e3o forte, que at\u00e9 mesmo os melhores rem\u00e9dios n\u00e3o funcionavam. <a href=\"https:\/\/www.nejm.org\/doi\/full\/10.1056\/nejmoa013259\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>Na metade dos pacientes, Moseley fez uma artroscopia verdadeira e, na outra metade, somente uma artroscopia-placebo<\/u>.<\/a><\/p>\n<p>Os pacientes no grupo da artroscopia-placebo receberam anestesia e realizou-se uma pequena incis\u00e3o nos seus joelhos, por\u00e9m sem artrosc\u00f3pio, sem repara\u00e7\u00e3o da cartilagem afetada, nem limpeza de fragmentos \u00f3sseos soltos.<\/p>\n<p>Para que os pacientes n\u00e3o soubessem em que grupo estavam, os m\u00e9dicos e enfermeiros conversavam durante o procedimento real, como se estivessem realizando o procedimento placebo.<\/p>\n<p>A falsa cirurgia funcionou t\u00e3o bem como a &#8220;verdadeira&#8221;.\u00a0 Uma revis\u00e3o de mais de 50 estudos de cirurgias controladas por placebo chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que a cirurgia placebo era t\u00e3o boa quanto a cirurgia real em mais da metade dos estudos cl\u00ednicos.<\/p>\n<div id=\"attachment_1276941\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1276941\" class=\"wp-image-1276941 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foto-de-Angelo-Esslinger-Pixabay.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"565\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foto-de-Angelo-Esslinger-Pixabay.jpg 800w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foto-de-Angelo-Esslinger-Pixabay-300x212.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foto-de-Angelo-Esslinger-Pixabay-720x509.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Foto-de-Angelo-Esslinger-Pixabay-768x542.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-1276941\" class=\"wp-caption-text\">A cirurgia placebo do joelho funciona t\u00e3o bem quanto a real. Foto de Angelo Esslinger-Pixabay<span style=\"color: #808080;\"><em> <br \/><\/em><\/span><\/p><\/div>\n<h4>Placebos\u00a0 sinceros<\/h4>\n<p>Um placebo pode funcionar mesmo que o paciente n\u00e3o acredite que seja um tratamento &#8220;real&#8221;.<\/p>\n<p>Dos primeiros estudos abertos com placebo que conhe\u00e7o (quando os pacientes sabem que est\u00e3o recebendo placebo), dois m\u00e9dicos de Baltimore, Lee Park e Uno Covi, <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/14258363\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>deram placebo a quinze pacientes neur\u00f3ticos que sabiam que estavam recebendo placebo<\/u>.<\/a> Eles mostraram os comprimidos de placebo aos pacientes e disseram: &#8220;Muitas pessoas que t\u00eam a mesma doen\u00e7a que voc\u00eas melhoraram com comprimidos de a\u00e7\u00facar e n\u00f3s consideramos que esses comprimidos podem ajudar voc\u00eas tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p>Os pacientes tomaram o placebo e muitos deles melhoraram depois de tomar os comprimidos \u2013 mesmo sabendo que era placebo. Por\u00e9m, os pacientes eram neur\u00f3ticos \u2013 e um pouco paranoicos, digamos \u2013, por isso, n\u00e3o acreditaram nos m\u00e9dicos. Depois da melhora pelo uso do placebo, eles pensaram que os m\u00e9dicos haviam mentido e que estavam lhes dando rem\u00e9dio com o princ\u00edpio ativo.<\/p>\n<p>Recentemente, <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/28452193\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>v\u00e1rios estudos de maior qualidade confirmam que os placebos administrados abertamente podem funcionar<\/u><\/a>. Estes placebos &#8220;sinceros&#8221; podem funcionar, porque os pacientes apresentam uma resposta condicionada a uma consulta com o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que um corpo aracnof\u00f3bico pode reagir negativamente a uma aranha, ainda que saiba que a aranha n\u00e3o \u00e9 venenosa, algumas pessoas podem reagir favoravelmente ao tratamento prescrito por um m\u00e9dico, mesmo sabendo que esse m\u00e9dico est\u00e1 receitando um comprimido de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<h4>A hist\u00f3ria do aprendizado sobre como funcionam os placebos<\/h4>\n<p>Um estudo antigo, que investigava a farmacologia interna dos mecanismos do placebo, de autoria de Jon Levine e Newton Gordon, data de 1978. O estudo, conduzido com <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/80579\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>um grupo de 51 pacientes<\/u><\/a>, versava sobre a extra\u00e7\u00e3o de dentes molares inclusos. Todos os 51 pacientes tinham recebido um analg\u00e9sico chamado mepivaca\u00edna para auxiliar no procedimento cir\u00fargico. Passadas 3 e 4 horas ap\u00f3s a cirurgia, os pacientes receberam morfina, placebo ou naloxona. Os pacientes n\u00e3o sabiam o que estavam recebendo.<\/p>\n<p>A naloxona \u00e9 um antagonista de opioide. Isso significa que ela bloqueia os efeitos de medicamentos como a morfina e endorfinas. Literalmente, a naloxona bloqueia os receptores celulares, de maneira a impedir que a morfina (ou endorfinas) se ligue a esses receptores. A naloxona \u00e9 usada para tratar a overdose por morfina.<\/p>\n<p>Os pesquisadores descobriram que a naloxona bloqueava os efeitos analg\u00e9sicos dos placebos. Isso revelou que os placebos provocam a libera\u00e7\u00e3o de endorfinas analg\u00e9sicas.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, muitos experimentos confirmaram esses resultados. Centenas de outros comprovam que <a href=\"https:\/\/global.oup.com\/academic\/product\/placebo-effects-9780198705086?cc=us&amp;lang=en&amp;\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>tratamentos com placebo afetam o c\u00e9rebro e o corpo<\/u><\/a> de diferentes maneiras.<\/p>\n<p>Os principais mecanismos atrav\u00e9s dos quais se acredita que os placebos funcionam s\u00e3o a expectativa e o condicionamento.<\/p>\n<p>Em um estudo bastante abrangente sobre os mecanismos da expectativa e do condicionamento, publicado em 1999, Martina Amanzio e Fabrizio Benedetti\u00a0<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/9870976\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>dividiram 229 participantes em 12 grupos<\/u><\/a>. Os grupos receberam uma variedade de medicamentos, foram condicionados de diversas maneiras e receberam distintas mensagens (para induzir mais ou menos expectativa). O estudo demonstrou que os efeitos do placebo eram produzidos pela expectativa e pelo condicionamento.<\/p>\n<p>Apesar do progresso, alguns pesquisadores afirmam \u2013 e eu discordo desses argumentos \u2013 que h\u00e1 algum mist\u00e9rio relacionado ao funcionamento dos placebos. Em um comunicado, o doutor Dan Moerman, m\u00e9dico antropologista e etnobotanista, explicou de maneira bastante clara, muito melhor que eu o faria, que:<\/p>\n<blockquote><p><em>a partir da observa\u00e7\u00e3o de resson\u00e2ncias magn\u00e9ticas, sabemos que \u00e9 muito f\u00e1cil ver o que ocorre no interior das am\u00edgdalas cerebrais, ou de que outra parte do c\u00e9rebro que tamb\u00e9m possa estar envolvida. Por\u00e9m, o que afetou a am\u00edgdala&#8230; bem, isso requer muito trabalho<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<h4>Hist\u00f3ria da \u00e9tica no uso do placebo<\/h4>\n<p>Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, a vis\u00e3o atual \u00e9 de que os placebos n\u00e3o s\u00e3o \u00e9ticos, porque envolvem uma ideia de pr\u00e1tica enganosa. Essa vis\u00e3o ainda n\u00e3o \u00e9 completamente aceita, porque h\u00e1 evid\u00eancia de que n\u00e3o precisamos enganar ningu\u00e9m para que os placebos funcionem.<\/p>\n<p>Entretanto, a hist\u00f3ria da \u00e9tica dos grupos placebo-controlados nos estudos \u00e9 bem mais complexa. Agora que temos muitos tratamentos eficazes, podemos comparar os novos com os tratamentos comprovados. Por que um paciente aceitaria participar de um estudo de compara\u00e7\u00e3o entre um novo tratamento com o uso de placebo, quando poderia muito bem participar de um estudo de um novo tratamento comparado com um j\u00e1 comprovado?<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos que participam desses estudos podem estar violando seu compromisso \u00e9tico de ajudar e de evitar danos aos seus pacientes. Inicialmente, a Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial <a href=\"https:\/\/www.wma.net\/policies-post\/wma-declaration-of-helsinki-ethical-principles-for-medical-research-involving-human-subjects\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>proibiu estudos<\/u> <\/a>placebo-controlados caso estivesse dispon\u00edvel um tratamento j\u00e1 comprovado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em 2010, a associa\u00e7\u00e3o reverteu esse posicionamento e afirmou que, \u00e0s vezes, necessit\u00e1vamos estudos placebo-controlados, ainda que um tratamento j\u00e1 comprovado estivesse dispon\u00edvel. A associa\u00e7\u00e3o alegou que havia raz\u00f5es \u201ccient\u00edficas\u201d para isso.<\/p>\n<p>Essas raz\u00f5es \u201ccient\u00edficas&#8221; foram apresentadas utilizando <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/15265160903090041\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>conceitos obscuros (para a maioria das pessoas), como a &#8220;sensibilidade do teste&#8221; e a &#8220;dimens\u00e3o do efeito absoluto&#8221;<\/u><\/a>.<\/p>\n<p>Em bom portugu\u00eas, est\u00e3o reduzindo tudo a duas (equivocadas) afirma\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li>Dizem que somente podemos confiar nos controles com o uso de placebo. No passado, isso foi verdade. Historicamente, tratamentos como a sangria e a coca\u00edna eram usados para tratar um grande n\u00famero de enfermidades, ainda que na maioria dos casos fossem prejudiciais. Digamos que tiv\u00e9ssemos realizado um estudo comparando a sangria com a coca\u00edna para o tratamento da ansiedade e fosse constatado que a sangria era melhor do que a coca\u00edna. N\u00e3o seria poss\u00edvel inferir que a sangria era eficaz: ela poderia ter sido pior do que usar um placebo ou n\u00e3o fazer nada. Nesses casos hist\u00f3ricos, teria sido melhor comparar aqueles tratamentos com um placebo. Mas, agora, temos tratamentos eficazes que podem ser usados como par\u00e2metros de refer\u00eancia. Assim, se aparecer um novo medicamento para o tratamento da ansiedade, poder\u00edamos compar\u00e1-lo com o tratamento eficaz comprovado. Se fosse comprovado que o novo tratamento \u00e9, pelo menos, t\u00e3o bom como o anterior, ent\u00e3o poder\u00edamos dizer que ele \u00e9 eficaz.<\/li>\n<\/ol>\n<ol start=\"2\">\n<li>A associa\u00e7\u00e3o afirma tamb\u00e9m que somente o controle com placebo oferece um valor de base constante. Isso tem fundamento na vis\u00e3o errada de que tratamentos com placebo s\u00e3o &#8220;inertes&#8221; e, portanto, t\u00eam efeitos constantes e invari\u00e1veis. Isso, tamb\u00e9m, \u00e9 um equ\u00edvoco. Em uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de comprimidos de placebo usados em estudos de \u00falcera, a <a href=\"https:\/\/anthrosource.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/epdf\/10.1525\/maq.2000.14.1.51\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u>resposta do placebo variou de 0% (sem nenhum efeito) a 100%<\/u><\/a> (cura completa).<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00c0 medida que as teses que apoiam os estudos placebo-controlados est\u00e3o sendo questionadas, existe agora um movimento que demanda a Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial a dar <u>outra meia-volta<\/u> e assumir novamente sua posi\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<h4>Placebo: tomar ou n\u00e3o tomar?<\/h4>\n<p>Por s\u00e9culos, a palavra &#8220;placebo&#8221; esteve fortemente relacionada \u00e0 ideia de enganar e satisfazer as pessoas. Estudos recentes que usaram abertamente o placebo mostram que eles n\u00e3o necessitam ser enganadores para que funcionem. Muito pelo contr\u00e1rio, os estudos com placebo mostram que eles n\u00e3o s\u00e3o inertes ou invari\u00e1veis. Assim, a fundamenta\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial acabou sendo enfraquecida. A hist\u00f3ria recente dos placebos parece preparar o caminho para que tratamentos com placebo sejam cada vez mais uma op\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica cl\u00ednica e menos nos estudos cl\u00ednicos.<\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o \u00e0 Biblioteca James Lind, aos escritos de Ted Kaptchuk e Jeffrey Aronson e \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de Dan Moerman.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Traduzido do ingl\u00eas por Gra\u00e7a Pinheiro \/ Revisado por Jos\u00e9 Luiz Corr\u00eaa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cura para a dor de cabe\u00e7a de Plat\u00e3o envolvia: uma certa erva, mas havia um feiti\u00e7o que devia ser lan\u00e7ado com o rem\u00e9dio; se o feiti\u00e7o fosse pronunciado no momento da sua aplica\u00e7\u00e3o, o rem\u00e9dio funcionaria de maneira perfeita;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1791,"featured_media":1274205,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[165,1253],"tags":[86112],"class_list":["post-1276736","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","category-saude","tag-placebos-pt-pt"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A fascinante hist\u00f3ria dos placebos \u2013 e por que os m\u00e9dicos deveriam intensificar o seu uso<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A cura para a dor de cabe\u00e7a de Plat\u00e3o envolvia: uma certa erva, mas havia um feiti\u00e7o que devia ser lan\u00e7ado com o rem\u00e9dio; 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