{"id":1270250,"date":"2020-12-30T16:11:24","date_gmt":"2020-12-30T16:11:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1270250"},"modified":"2020-12-30T17:58:27","modified_gmt":"2020-12-30T17:58:27","slug":"arte-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/12\/arte-resistencia\/","title":{"rendered":"Arte resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Em umas das regi\u00f5es mais amea\u00e7adas do cerrado brasileiro, a arte se soma \u00e0s vozes das mulheres que se movimentam para transformar um lugar.<\/p>\n<p>Agricultoras, camponesas, nordestinas e \u201ccerrativistas\u201d. S\u00e3o essas mulheres, residentes e resistentes do Oeste da Bahia, que Conchita Silva, tamb\u00e9m defensora do bioma Cerrado, retrata e homenageia em sua obra a luta dessas protetoras da natureza. O Projeto \u201cGravando a Resist\u00eancia: desde a d\u00e9cada de 70, prefiro\u2026\u201d foi um dos contemplados pelo edital da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer, da Prefeitura Municipal de Correntina, a 830 km de Salvador.<\/p>\n<p>Com o recurso conquistado, Conchita dar\u00e1 continuidade \u00e0 visibiliza\u00e7\u00e3o das guardi\u00e3s dos saberes e culturas ancestrais. \u201cA coragem, a representatividade e a afirma\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas identidades dessas mulheres me estimularam a escutar e registrar quem s\u00e3o elas e contribuir, por meio da arte, para a visibilidade de seus pap\u00e9is na luta e resist\u00eancia dos territ\u00f3rios correntinenses com seus rostos e vozes gravados em xilogravuras\u201d, conta Silva sobre o trabalho, composto por xilogravuras e artes de rua como cartazes e \u201clambe-lambes\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Prefiro n\u00e3o morrer, mas prefiro morrer lutando\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Estudante de artes visuais e neta de geraizeiros, Conchita tamb\u00e9m diz que a inser\u00e7\u00e3o da palavra \u201cprefiro\u201d aconteceu por essa ser uma express\u00e3o muito manifestada pelas personagens. \u201cPrefiro\u2026 Prefiro n\u00e3o morrer, mas prefiro morrer lutando\u201d \u00e9 uma das afirma\u00e7\u00f5es escritas em letras manuais na xilogravura que retrata a agricultora familiar do munic\u00edpio de Correntina, Dona Ana, uma das personagens deste trabalho.<\/p>\n<p><strong>A resist\u00eancia vem das mulheres e da arte<\/strong><\/p>\n<p>Correntina, localizada no Oeste da Bahia, \u00e9 uma das regi\u00f5es mais amea\u00e7adas do Cerrado brasileiro. Desde a chegada e expans\u00e3o desenfreada do agroneg\u00f3cio na d\u00e9cada de 70, a regi\u00e3o se viu envolvida em conflitos socioambientais, principalmente a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o local relacionada aos casos de grilagem de terras e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de \u00e1gua voltada aos grandes empreendimentos. Segundo o portal de not\u00edcias Mongabay, com base no Di\u00e1rio Oficial, o Cerrado baiano perdeu quase 2 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua por dia para o agroneg\u00f3cio durante a pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>S\u00e3o centenas de povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares que dependem da biodiversidade do Cerrado para sobreviverem na Bahia. S\u00e3o elas tamb\u00e9m que se articulam e protagonizam movimentos de luta em defesa de seus territ\u00f3rios e da conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e das \u00e1guas. O Rio Arrojado \u00e9 um forte exemplo. Um dos mais degradados pela a\u00e7\u00e3o das empresas, ele \u00e9 s\u00edmbolo de identidade para as comunidades geraizeiras, de fundo e fecho de pasto, quilombolas e tantas outras que aprenderam com seus ancestrais que para viver \u00e9 preciso manter o Cerrado vivo.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;quero trazer o olhar das mulheres, amplificar as vozes delas sobre a luta\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Articuladas em movimentos e organiza\u00e7\u00f5es, as popula\u00e7\u00f5es do Oeste da Bahia j\u00e1 protagonizaram diversos levantes contra a ofensiva desordenada das grandes empresas produtoras de commodities. A \u201cRevolta da \u00c1gua\u201d foi uma delas e conseguiu alcance na m\u00eddia nacional. No entanto, h\u00e1 quem seja importante nesses processos de luta, mas permane\u00e7a com suas vozes silenciadas. \u201cSempre escutamos que as mulheres s\u00e3o as mais atingidas, que s\u00e3o as que mais se articulam, mas, quando vamos ver, o protagonismo \u00e9 sempre tomado pelos homens. Por isso quero trazer o olhar das mulheres, amplificar as vozes delas sobre a luta\u201d, conta Conchita.<\/p>\n<p><strong>As mulheres do Rio Arrojado<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1270261 size-large\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMAGEM_CONCHITA_SILVA-720x377.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMAGEM_CONCHITA_SILVA-720x377.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMAGEM_CONCHITA_SILVA-300x157.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMAGEM_CONCHITA_SILVA.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Cr\u00e9dito da image: Conchita Silva<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Dona Ana, outras camponesas e ribeirinhas ganham tra\u00e7os de xilogravura para contar suas hist\u00f3rias e de seu povo. \u201cAqui \u00e9 todo mundo de paz, Ningu\u00e9m quer guerra. S\u00f3 queremos nossos rios preservados, s\u00f3 isso. Ningu\u00e9m vai morrer de sede nas margens do Arrojado, ningu\u00e9m!\u201d, essa frase, que marcou a luta da popula\u00e7\u00e3o de Correntina, \u00e9 da professora do meio rural Marin\u00eas, e se encontra com os tra\u00e7os cuidadosamente desenhados por Conchita.<\/p>\n<p>A camponesa e mulher negra, como gosta politicamente de se descrever, Dona Nena, tamb\u00e9m ganha formas art\u00edsticas e sua luta e de seus filhos pelo Cerrado se reveste da tinta vinda da umburana. Nena passou dez anos lavando roupa no vale do Rio Arrojado e hoje, a agente de sa\u00fade tamb\u00e9m se considera uma defensora do Cerrado e das riquezas que o bioma traz para sua comunidade e sociedade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m recebe tra\u00e7os e poesias de luta no decalque de seu sorriso a geraizeira e ribeirinha Aliene. Diariamente, a correntinense luta em defesa da perman\u00eancia de sua fam\u00edlia em seu territ\u00f3rio para garantir que gera\u00e7\u00f5es futuras tenham o direito de existir com as \u00e1guas e o Cerrado vivos. Junto com sua representa\u00e7\u00e3o, pode-se ler o texto da poetisa e tamb\u00e9m moradora e filha do Cerrado, Jaqueline Hon\u00f3rio:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0<\/em><em>\u201cN\u00e3o permitiremos que esse grito morra. Porque n\u00e3o permitiremos que o nosso povo morra.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em>O trabalho de Conchita mostra que a luta das mulheres do oeste da Bahia traduz uma realidade que acompanha a trajet\u00f3ria do Brasil. Como n\u00e3o lembrar do legado da mineira Carolina Maria de Jesus ao ouvir as falas e conhecer a hist\u00f3ria das mulheres baianas? Dona Ana, dona Nena, Marin\u00eas e Aliene est\u00e3o presentes nos quatro cantos brasileiros. S\u00e3o elas que est\u00e3o em movimento para manter o Cerrado, a Amaz\u00f4nia, a Caatinga e todos os nossos biomas em p\u00e9. E s\u00e3o elas que merecem ter suas vozes ecoando pa\u00eds e mundo afora. Vozes que falam em defesa dos territ\u00f3rios conservados, da vida e de quem somos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em umas das regi\u00f5es mais amea\u00e7adas do cerrado brasileiro, a arte se soma \u00e0s vozes das mulheres que se movimentam para transformar um lugar. Agricultoras, camponesas, nordestinas e \u201ccerrativistas\u201d. 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