{"id":1267302,"date":"2020-12-23T17:20:17","date_gmt":"2020-12-23T17:20:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1267302"},"modified":"2020-12-23T17:20:17","modified_gmt":"2020-12-23T17:20:17","slug":"o-verdadeiro-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/12\/o-verdadeiro-natal\/","title":{"rendered":"O Verdadeiro Natal"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\"><strong>OPINI\u00c3O<\/strong><\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong><em>Por Rodrigo Karmy, fil\u00f3sofo e professor em\u00e9rito da Universidade do Chile.\u00a0<\/em><\/strong><\/h5>\n<h5><span style=\"font-weight: 400;\">Traduzido do espanhol por Carlos Contente.<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Natal popular n\u00e3o trouxe futuro, mas abra\u00e7ou a natureza intemperada do presente, dispensou o valor de troca e o perturbou em uma modalidade de uso que era irredut\u00edvel ao regime de equival\u00eancia geral, despachou a &#8220;autoridade&#8221; dos te\u00f3logos com suas f\u00f3rmulas ditadas pelo FMI, pela &#8220;autoridade&#8221; dos assassinados nas lutas do passado; substituiu o hino sangrento do Chile pelo &#8220;Direito a viver em paz&#8221; de Victor Jara, assassinado em nome deste mesmo hino. O <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Outubro Chileno<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> foi o verdadeiro natal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Natal se aproxima &#8211; dizem. Como um tsunami, uma exig\u00eancia, um sonho capturado pelo pastorado da Igreja e pelas grandes lojas. Mas, aparentemente dois tipos de Natal parecem se contrapor. Por um lado, o Natal no qual o ressentimento da Igreja chama ao &#8220;recolhimento&#8221; e a estar com a &#8220;fam\u00edlia&#8221; pensando na mensagem de Cristo, ao inv\u00e9s do consumo implac\u00e1vel ao qual nos convida o mercado. Por outro est\u00e1 o Natal como mercadoria e objeto de infinito gozo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Igreja convoca a viver a &#8220;verdadeira&#8221; mensagem de Natal frente \u00e0 &#8220;falsa&#8221; promovida pelo materialismo do capitalismo e sua publicidade desenfreada. O Natal como &#8220;mensagem de Cristo&#8221; &#8211; o que significa isso, segundo a Igreja? &#8211; ou o Natal como &#8220;publicidade mercantil&#8221; s\u00e3o verdadeiramente duas no\u00e7\u00f5es contrapostas do Natal?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aparentemente sim, o idealismo do cora\u00e7\u00e3o confrontado com o materialismo do corpo, a verdade frente a falsidade, o brilho contra a obscuridade, a mensagem espiritual contra a publicidade do capital. No entanto, as coisas s\u00e3o sempre mais complicadas do que a simples contraposi\u00e7\u00e3o entre espiritualismo da Igreja e o materialismo do mercado, entre o supostamente verdadeiro e o falso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes, sobrevive uma <\/span><b>cumplicidade secreta<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> entre Igreja e Capital nas baixas paix\u00f5es que ambos inoculam: o ressentimento, seja sob a forma de &#8220;culpa&#8221; moral o sob o modo da &#8220;culpa&#8221; econ\u00f4mica (a &#8220;d\u00edvida&#8221;). E se h\u00e1 culpa, h\u00e1 mito e, portanto, a l\u00f3gica do sacrif\u00edcio associada, dispositivo de morte, algo que, certamente, o cristianismo nunca p\u00f4de superar, mas que simplesmente inverteu os termos de sua opera\u00e7\u00e3o (do condenado culp\u00e1vel ao condenado inocente) [1]. Agora,\u00a0 em ambos os casos se trata de uma forma precisa de &#8220;culpa&#8221; a que , certamente, ter\u00edamos de acrescentar a do Estado que se acopla ao dispositivo do direito como &#8220;culpa jur\u00eddica&#8221;: culpa moral, jur\u00eddica e econ\u00f4mica s\u00e3o tr\u00eas modalidades de um mesmo dispositivo m\u00edtico, que em virtude de sua l\u00f3gica sacrificial, d\u00e1 lugar \u00e0 m\u00e1quina capitalista na qual Igreja, o Estado e o Capital se articulam como tr\u00eas faces de uma mesma l\u00f3gica, tr\u00eas formas de uma maquinaria mitol\u00f3gica ou capitalista que hoje, n\u00e3o s\u00f3 no Chile, est\u00e1 truncada e destinada \u00e0 ru\u00edna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Deste modo, mais do que se opor, Igreja, Estado e Capital dan\u00e7am o mesmo ritmo, mas em intensidades diferentes. O &#8220;recolhimento&#8221; ao qual chama a Igreja e o consumo desenfreado ao qual nos convida o Capital s\u00e3o duas caras de uma mesma maquinaria de poder, duas polaridades de um dispositivo de &#8220;culpa&#8221; a partir do qual o Natal \u00e9 convertido em uma liturgia de morte, na qual o controle das almas e dos corpos constituem sua premissa fundamental. Desta forma, longe da simples contraposi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o melosa entre o &#8220;recolhimento&#8221; (Igreja) e o &#8220;gozo&#8221; (Capital) insisto que ambas as atitudes s\u00e3o parte de um mesmo frenesi, de uma mesma maquinaria pastoral com a qual se articula o devir do capitalismo neoliberal contempor\u00e2neo.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1267368 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/natal-chile-2-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/natal-chile-2-300x164.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/natal-chile-2.jpg 567w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, o povo chileno experimenta o verdadeiro Natal desde o 18 de outubro de 2019. N\u00e3o deixou de ser Natal, se talvez este \u00faltimo n\u00e3o designar uma data cronol\u00f3gica precisa, mas uma figura hist\u00f3rica na qual se desdobra o &#8220;nascimento do Messias&#8221;, ou seja, precisamente o que Hannah Arendt enfatizou como o in\u00edcio de uma nova era hist\u00f3rica. Porque &#8220;messi\u00e2nico&#8221; n\u00e3o designa a ascen\u00e7\u00e3o de um &#8220;l\u00edder&#8221; eventualmente carism\u00e1tico capaz de liderar um rebanho, como geralmente se pensa, mas um momento de demiss\u00e3o radical das formas cl\u00e1ssicas de lideran\u00e7a que est\u00e3o precisamente enraizadas na forma, t\u00e3o antiga quanto eficaz, do pastoreio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Come\u00e7amos outra era que dep\u00f4s a figura da Lei e sua soberania e abra\u00e7a a de outros poss\u00edveis la\u00e7os, outros olhares e vozes que haviam sido esquecidos pelo peso de uma tradi\u00e7\u00e3o &#8220;teol\u00f3gica&#8221; (de Guzm\u00e1n aos transit\u00f3logos concertacionais) que falava em nome da profecia, pervertendo-a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Messias n\u00e3o \u00e9 o pastor, mas o contra-movimento que o dep\u00f5e. E o &#8220;Natal&#8221; n\u00e3o \u00e9, portanto, uma data poss\u00edvel dentro do calend\u00e1rio vazado que experimentamos depois de outubro, mas o poder <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">destituinte <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">que ofereceu o &#8220;nascimento&#8221; a uma nova \u00e9poca hist\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A revolta de outubro trouxe o Natal de volta ao povo, depositando o dogma teol\u00f3gico, a f\u00e1bula culpabilizante da transitologia, e finalmente descartando a episteme que reinava desde o sangrento golpe de Estado de 1973. O Natal popular n\u00e3o tem nada a ver com a impotente &#8220;lembran\u00e7a&#8221; promovida pela Igreja, nem com o gozo suscitado pelo capital. O Natal popular n\u00e3o trouxe futuro, mas abra\u00e7ou a natureza intemperada do presente, dispensou o valor do interc\u00e2mbio e o perturbou em uma modalidade de uso irredut\u00edvel ao regime de equival\u00eancia geral, despachou a &#8220;autoridade&#8221; dos te\u00f3logos com suas f\u00f3rmulas ditadas pelo FMI, para a &#8220;autoridade&#8221; dos assassinados nas lutas do passado; substituiu o hino sangrento do Chile pelo &#8220;direito de viver em paz&#8221; de Victor Jara, assassinado em nome desse mesmo hino. O m\u00eas de outubro chileno foi o verdadeiro Natal. O \u00fanico com a capacidade de derrubar o poder dominante, o \u00fanico com o poder &#8220;messi\u00e2nico&#8221; que, como Nietzsche bem entendia sobre Cristo, n\u00e3o queria trazer ao mundo uma &#8220;nova f\u00e9&#8221; (como um dispositivo que promove a obedi\u00eancia cega), mas a alegre materialidade de um &#8220;nova forma de vida&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><strong><i>Nota:<\/i><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">[1] \u00c9 claro que discordo substancialmente do lugar do cristianismo com Ren\u00e9 Girard neste ponto. Ver: Ren\u00e9 Girard &#8220;La Violencia y lo Sagrado&#8221; Ed. Anagrama, Barcelona, 2005.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OPINI\u00c3O &nbsp; Por Rodrigo Karmy, fil\u00f3sofo e professor em\u00e9rito da Universidade do Chile.\u00a0 Traduzido do espanhol por Carlos Contente. &nbsp; &nbsp; O Natal popular n\u00e3o trouxe futuro, mas abra\u00e7ou a natureza intemperada do presente, dispensou o valor de troca e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1825,"featured_media":1267331,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[104,113,11390,42,165],"tags":[85537,85535,85533,85534,11418,6563,5257,33811,85536],"class_list":["post-1267302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-do-sul","category-noticias-do-exterior","category-conteudo-original","category-internacional-2","category-opiniao","tag-2020-pt-pt","tag-analise","tag-insurreicao","tag-levante","tag-natal","tag-opiniao-2","tag-protestos","tag-retrospectiva","tag-retrospectiva2020"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Verdadeiro Natal<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"OPINI\u00c3O &nbsp; 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