{"id":1260238,"date":"2020-12-13T03:50:02","date_gmt":"2020-12-13T03:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1260238"},"modified":"2020-12-13T00:17:28","modified_gmt":"2020-12-13T00:17:28","slug":"1260238","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/12\/1260238\/","title":{"rendered":"Conflito de For\u00e7as"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Josu\u00e9 era perfeito para fazer o papel de Jesus em uma pe\u00e7a de Natal &#8211; pensei. Olhos amendoados, cabelos castanhos aloirados nas pontas, caindo at\u00e9 o ombro. Tinha uma barba cheia, sem nenhuma falha. Cristo, branco e ocidental, das fotos na sala da casa da av\u00f3, e tamb\u00e9m em nossa igreja cat\u00f3lica do bairro.<\/p>\n<p>Mas por que eu pensei isso? Era quase Natal, 1986, e eu estava num grupo teatral, ainda no ensino m\u00e9dio, numa escola de Marechal Hermes, sub\u00farbio do Rio. Vivia n\u00e3o muito distante dali, em uma casa simples, de fundos, algumas esta\u00e7\u00f5es de trem antes em dire\u00e7\u00e3o a Central, no bairro de Oswaldo Cruz. L\u00e1, nas proximidades da Portela, onde o carnaval era o teatro mais genial, sonhava em escrever livros e frequentava nos fins de semana uma pequena e modesta igreja cat\u00f3lica. Uma juventude sem muitas felicidades, driblava o t\u00e9dio com m\u00fasicas, brincadeiras de rua e a fascina\u00e7\u00e3o pelos filmes da sess\u00e3o da tarde. A escola me abriu a possibilidade de conhecer o teatro &#8211; e isso mudou minha vida, come\u00e7ando naquele Natal de 1986.<\/p>\n<p>Descobri naquele fim de ano que a par\u00f3quia de S\u00e3o Mateus tinha um espa\u00e7o enorme nos fundos, salas que serviriam para sediar nosso grupo de teatro escolar &#8211; a Cia Teatral Liberdade estava sem lugar para ensaiar depois que uma enchente de ver\u00e3o havia destru\u00eddo nosso gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>No caminho para conseguir esse novo espa\u00e7o havia um desafio. Segundo o padre Fernando, p\u00e1roco local, a decis\u00e3o de ceder o espa\u00e7o n\u00e3o era somente dele, mas de um conselho formado por v\u00e1rios paroquianos &#8211; e me alertou: &#8220;Voc\u00ea sabe que sou bastante progressista, mas esse grupo paroquial \u00e9 bem conservador. N\u00e3o fa\u00e7a muitas estrepolias &#8211; respeite a igreja em suas pe\u00e7as ou eles n\u00e3o v\u00e3o aprovar a cess\u00e3o do lugar. Nos apresente alguma obra!&#8221; Assegurei ao padre que n\u00e3o haveria pol\u00edtica ou sexo em nossas montagens &#8211; na verdade adiantei que desde o ano anterior est\u00e1vamos ensaiando uma pe\u00e7a crist\u00e3. Padre Fernando respirou aliviado.<\/p>\n<p>Eu acreditava que o trunfo para conquistar a simpatia da igreja na \u00e9poca era resgatar a pe\u00e7a &#8220;Conflito de For\u00e7as&#8221;, escrita pelo colega de turma, meu xar\u00e1, Marco Ferreira. A pe\u00e7a havia sido encenada na escola um ano antes, sem muito sucesso. Foi por causa dos animados atores da Cia. Liberdade que passei a frequentar os ensaios abertos. Era uma explos\u00e3o de alegria e irrever\u00eancia. Por causa daqueles dias, conheci uma nova fam\u00edlia, o amor e enfrentei as primeiras trag\u00e9dias da vida.<\/p>\n<p>O texto da pe\u00e7a que vi ensaiarem cairia como luva para uma aproxima\u00e7\u00e3o com a igreja. Cheio de simbolismos religiosos, o musical era baseado em um conflito em que cada personagem representava uma manifesta\u00e7\u00e3o humana: felicidade, alegria, solidariedade e amor lutando contra outras que simbolizavam \u00f3dio, rancor, ego\u00edsmo e preconceito.<\/p>\n<p>Em \u201cConflito de for\u00e7as\u201d personagens duelavam em palavras e dan\u00e7as at\u00e9 que a figura de Jesus Cristo surgia de uma n\u00e9voa de amor e restaurava a uni\u00e3o em um s\u00f3 corpo, fazendo com que as for\u00e7as positivas dominassem as negativas. O amor de Cristo venceria o mal.<\/p>\n<p>Toda a coreografia e inspira\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a vinha do trabalho de Oswaldo Montenegro, criador da &#8220;Dan\u00e7a dos signos&#8221;, lan\u00e7ada pelo compositor anos antes, em 1982. Foi pensando em Oswaldo, seu grande amor plat\u00f4nico, que Marco Ferreira quase plagiou seu trabalho &#8211; criando uma pe\u00e7a muito similar e trocando os signos por sentimentos. Ele assumia a devo\u00e7\u00e3o por Montenegro e dan\u00e7ava no palco cantarolando as suas letras mais po\u00e9ticas: &#8220;Como, sem licen\u00e7a, o sol&#8230;Rompe a barra da noite. Sem pedir perd\u00e3o! Hoje quem n\u00e3o cantaria. Grita a poesia&#8230;E bate o p\u00e9 no ch\u00e3o!&#8221; Era puro amor.<\/p>\n<p>Pensei novamente em Josu\u00e9 e no elenco. \u201cEle era fisicamente muito parecido \u00e0 imagem de cristo nas pinturas da igreja\u201d, repetia na minha mente, aguardando a reuni\u00e3o do grupo para insistir na substitui\u00e7\u00e3o do ator. Na pe\u00e7a na escola, um outro estudante fazia o papel, mas n\u00e3o tinha nenhuma semelhan\u00e7a, era careca e cheio de tatuagens. Isso &#8211; pensei &#8211; isso seria um problema com os tais conservadores da igreja.<\/p>\n<p>Aproximei-me do grupo no come\u00e7o do ano para me livrar da solid\u00e3o e isolamento na escola. Era a \u00fanica atividade extra curricular. A companhia teatral foi batizada como \u201cliberdade\u201d e atraia os mais loucos e apaixonados da turma da tarde. Fug\u00edamos das aulas chatas para decorar textos e m\u00fasicas. Em poucos meses eles haviam revirado a minha rotina.<\/p>\n<p>Miriam, Josu\u00e9, Suely, Arnaldo, todos do teatro viv\u00edamos em torno de Marco Ferreira como abelhas em busca de algum mel. Um cara encantador, capaz de nos convencer a segui-lo para os mais distante dos lugares com sua arte e talento.<\/p>\n<p>E fomos naquele ano, como mambembes, circulando pelas pra\u00e7as, trens, cantando &#8220;Cora\u00e7\u00e3o de Estudante&#8221;, de Milton Nascimento, acompanhando aquela revolu\u00e7\u00e3o que era o fim da ditadura militar. Havia uma efervesc\u00eancia nas escolas e faculdades, grupos se formavam em c\u00e9lulas para duelar politicamente. Tamb\u00e9m nasciam novos grupos de teatro, m\u00fasica, bandas de rock e varais de poesia rebelde, encenando e provocando em todos os lugares. Quer\u00edamos explorar nossos corpos, sentidos, falar palavr\u00e3o, tudo que o regime militar havia nos impedido de fazer e expressar. O fim da ditadura era um pulverizador de emo\u00e7\u00f5es e desejos. Por isso precis\u00e1vamos tanto do nosso grupo teatral porque era o espa\u00e7o que t\u00ednhamos para expressar nossas alegrias e ang\u00fastias.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou enfim a reuni\u00e3o decisiva e minha primeira tentativa de me entrosar. Eu havia conseguido um novo espa\u00e7o para a companhia e queria ser \u00fatil naquele momento em que o grupo estava sem poder ensaiar. Fiz a proposta da nova montagem e descrevi a igreja como um espa\u00e7o que nos garantiria um futuro melhor. Para completar lancei Josu\u00e9 como um Cristo ideal. S\u00f3 esqueci de um detalhe &#8211; seria blasf\u00eamia um Cristo \u2026 gay?<\/p>\n<p>Suely, que interpretava o personagem &#8220;ego\u00edsmo&#8221;, na pe\u00e7a, me lembrou que Josu\u00e9 seria uma escolha muito arriscada para uma nova montagem &#8211; Ele parece Jesus mas \u00e9 muito viado e maconheiro. Ali\u00e1s, aqui no grupo, metade \u00e9 gay e fuma maconha, como \u00e9 que vamos ensaiar numa igreja?&#8221;<\/p>\n<p>Josu\u00e9 se levantou com semblante indignado com o coment\u00e1rio e caminhou lentamente saindo do c\u00edrculo que estava formado com todos n\u00f3s, sentados em uma pra\u00e7a. P\u00e9 ante p\u00e9, como se estivesse de salto alto, chegou ao meio do c\u00edrculo e gritou: &#8220;Eu sou viado e quase travesti, mas n\u00e3o sou maconheira, t\u00e1 boa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas \u00e9 tamb\u00e9m b\u00eabada, disse o diretor, interrompendo a performance. Marco sorria e parecia gostar da ideia mesmo com as brincadeiras iniciais.<\/p>\n<p>Todos riram da minha proposta inicialmente, mas lembrei ao grupo que era um desafio profissional apresentar uma pe\u00e7a para um grande p\u00fablico cat\u00f3lico. Atores de verdade &#8211; disse &#8211; podem encenar qualquer papel sem que seus trejeitos pessoais fossem notados. Conter a \u201c pinta\u201d e segurar o uso do baseado. Tudo era poss\u00edvel, se fossem realmente bons atores.<\/p>\n<p>Ferreira gostou do desafio. Tamb\u00e9m sabia que a sobreviv\u00eancia do grupo dependia em achar um lugar fechado para ensaiar. As pra\u00e7as com as chuvas de ver\u00e3o seriam invi\u00e1veis ao longo prazo. T\u00ednhamos planos gigantes mas pouqu\u00edssimos recursos.<\/p>\n<p>Miriam e Arnaldo aceitaram de imediato a minha proposta da nova montagem. Suely era uma esp\u00e9cie de coordenadora de elenco e olhava torto para o poss\u00edvel Jesus, n\u00e3o acreditando que fosse poss\u00edvel ele se controlar. Josu\u00e9 nos garantiu que faria abstin\u00eancia da erva ou \u00e1lcool e que seria um Cristo perfeito e bem comportado. As apostas foram lan\u00e7adas. Minha proposta foi aceita e partimos entusiasmados para a montagem e para conquistar nossa sede de ensaios e produ\u00e7\u00f5es. Seria a primeira vez que sair\u00edamos do circuito escolar e passar\u00edamos para um p\u00fablico mais amplo e diverso.<\/p>\n<p>Dias depois, no primeiro ensaio, Josu\u00e9 conseguiu dar alguns passos firmes, mas, na metade, rebolou at\u00e9 o final e ainda jogou o cabelo para o lado como se estivesse no comercial das perucas \u201clady\u201d &#8211; propaganda muito famosa na \u00e9poca em que uma atriz balan\u00e7ava sua peruca mostrando flexibilidade e brilho natural.<\/p>\n<p>&#8211; Calma gente, t\u00f4 pegando a personagem.<\/p>\n<p>Ferreira interrompeu o ensaio e ressaltou a responsabilidade do grupo: &#8220;O personagem \u00e9 Jesus Cristo e a audi\u00eancia, um monte de idosos de uma igreja, tem que ser tudo com muito respeito&#8221;, disse, olhando pra mim e fazendo o sinal de \u201clegal\u201d com o dedo.<\/p>\n<p>Vamos conseguir!<\/p>\n<p>No ensaio Suely arrastava uma corrente met\u00e1lica enorme, de seu personagem &#8211; o ego\u00edsmo &#8211; e seguia me olhando com cara de quem tinha avisado que n\u00e3o daria certo. Em um intervalo se aproximou e me disse:<\/p>\n<p>&#8220;Olha, Josu\u00e9 \u00e9 o cara mais viado que j\u00e1 conheci e olha que sou a rainha gay de Marechal&#8221; &#8211; Isso n\u00e3o vai dar certo!<\/p>\n<p>Nos anos 80 ainda era pouco comum no sub\u00farbio a demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de afeto ou afeta\u00e7\u00e3o entre jovens gays. Tudo estava muito escondido, com sabor de subvers\u00e3o para quem fosse \u00f3bvio, como Josu\u00e9. Era uma postura pol\u00edtica para ele ser feminino de barba e tra\u00e7os f\u00edsicos masculinos. Para n\u00f3s, aquilo soava como algo que n\u00e3o combinava: uma cara de homem com voz e trejeitos de mulher.<\/p>\n<p>Dias antes da estreia, resolvi procurar nosso Jesus para garantir que ele cumpriria a promessa de abstin\u00eancia. Peguei o trem e fui at\u00e9 sua casa em Anchieta. Ele vivia nos fundos de um terreno bem grande e eu tive que gritar seu nome no port\u00e3o para que escutassem. De repente, Josu\u00e9 apareceu na varanda aparentemente s\u00f3brio, mas veio em minha dire\u00e7\u00e3o jogando os cabelos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se preocupe, estou quase no ponto.<\/p>\n<p>Olhei incr\u00e9dulo. &#8220;Mas e a fala, decorou?&#8221;, perguntei<\/p>\n<p>Josu\u00e9 se afastou, abaixou o corpo se ajoelhando e levantou lentamente a cabe\u00e7a enquanto seus cabelos se abriram mostrando seus olhos:<\/p>\n<p>&#8220;O que fazes aqui? Quem s\u00e3o voc\u00eas sen\u00e3o for\u00e7as em conflito&#8221;? Disse, bem forte, com voz grossa e convincente.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de l\u00e1 certo que conseguir\u00edamos fazer uma pe\u00e7a sobre Cristo, na qual metade dos personagens seriam crucificados pela audi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e3o todos prontos?&#8221;, perguntou Ferreira nos bastidores, no dia da estreia.<\/p>\n<p>&#8220;Josu\u00e9 ainda n\u00e3o chegou&#8221;, algu\u00e9m me sussurrou no ouvido. Suely entrou pela porta do camarim esbaforida. &#8220;Gente, Josu\u00e9 est\u00e1 b\u00eabada, gritando e sem a roupa do personagem.&#8221;<\/p>\n<p>Corremos at\u00e9 uma pequena salinha que ficava nos fundos, uma esp\u00e9cie de espa\u00e7o para guardar roupas e fazer maquiagem. L\u00e1, Josu\u00e9 dan\u00e7ava e rodopiava cantando &#8220;Meu Nome \u00e9 Gal&#8221;, com \u00eanfase nas letras finais &#8220;Gal..Gal..Galll&#8221;. Era um claro ataque de p\u00e2nico, regado a aguardente. O cheiro de \u00e1lcool era fort\u00edssimo.<\/p>\n<p>Rapidamente fui at\u00e9 a igreja para verificar o tamanho da trag\u00e9dia. Estava lotada, mais de trezentos convidados e o conselho paroquial esperando nas primeiras fileiras. Metade do elenco j\u00e1 dan\u00e7ava no palco e a cena final da reden\u00e7\u00e3o, se aproximava. Era um desastre o que se anunciava, como quem v\u00ea um navio afundar, incapaz de interferir no destino.<\/p>\n<p>Marco Ferreira usando todo seu talento conseguiu ter uma ideia: Cristo deveria entrar &#8220;embebecido&#8221; pelo conflito de for\u00e7as, tonto e ajudado pelas for\u00e7as do bem &#8211; Essa seria a explica\u00e7\u00e3o caso ele tivesse alguma queda ou demonstrasse seu estado alco\u00f3lico. Ningu\u00e9m solta a m\u00e3o de ningu\u00e9m &#8211; frase que garanto foi criada naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Josu\u00e9 entrou um pouco cambaleante, mas virou um vulto em meio a tanta n\u00e9voa. Vestido com uma t\u00fanica improvisada fez a paz entre as for\u00e7as, sem falar, apenas com gestos. Uma nuvem que fizemos com gelo seco tomou conta da cena e ele foi majestosamente carregado at\u00e9 o fim do palco.<\/p>\n<p>Nosso plano era jogar bastante fuma\u00e7a para que n\u00e3o vissem que ele n\u00e3o estava bem. Parecia funcionar, provocando l\u00e1grimas na primeira fila. Cristo finalmente havia chegado, eliminando os conflitos, acalmando as for\u00e7as que estavam em conflito. Aleluia!<\/p>\n<p>&#8220;Estou cercado de \u00f3dio e ambi\u00e7\u00e3o, mas vencerei essa batalha\u201d disse Josu\u00e9 em uma fala n\u00e3o prevista. Acho que naquele momento ele se referia a terminar a pe\u00e7a e n\u00e3o sobre Cristo vencendo os sentimentos ruins do palco. O que importa \u00e9 que o personagem ficou firme no final. Respiramos aliviados atr\u00e1s das cortinas. A audi\u00eancia se levantou para aplaudir, fechando a noite com total sucesso.<\/p>\n<p>Na plat\u00e9ia, os membros do conselho paroquial se entreolharam e pareciam gostar da mensagem da pe\u00e7a &#8211; logicamente sem saber que o grupo era movido a vapor de cannabis e a show de drag queens. &#8211; conseguimos! disse Ferreira. Me senti finalmente inclu\u00eddo no grupo. Havia conseguido o espa\u00e7o na igreja!<\/p>\n<p>Assim que acabou a pe\u00e7a desaparecemos com Josu\u00e9 antes que o Padre e outros fossem ao camarim abra\u00e7ar o &#8220;Jesus&#8221; da pe\u00e7a e partimos de l\u00e1 correndo para uma kombi estacionada na porta da igreja &#8211; que seguiu ladeira abaixo lotada de felicidade e fuma\u00e7a de maconha. Eu, caret\u00edssimo, sem fumar e sem beber, gargalhava com o desfecho. Acho que era o \u00fanico s\u00f3brio do grupo, como se predestinado a sobreviver para contar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve outra pe\u00e7a &#8211; &#8220;Conflito de for\u00e7as&#8221; foi encenada a pedido da igreja v\u00e1rias outras vezes: sete, na verdade. Todos da par\u00f3quia foram convidados &#8211; grupos de casais, grupo jovem &#8211; todo o bairro assistiu e adorou. Cada vez mais Josu\u00e9 estava \u201cincorporando a personagem&#8221; mas coitado, nunca deixamos que ele falasse com ningu\u00e9m, sempre escoltado como se fosse um ator famoso &#8211; e ele adorava. Se sentia um astro, quando na verdade estava apenas cercado de nossos preconceitos.<\/p>\n<p>&#8220;Conflito de For\u00e7as&#8221; virou a atra\u00e7\u00e3o daquele Natal e ultrapassou todos os limites de p\u00fablico que imagin\u00e1vamos. Centenas de fam\u00edlias, jovens e idosos na audi\u00eancia em todas as sess\u00f5es. Aplausos e at\u00e9 aut\u00f3grafos nos bastidores. A plateia cantava as m\u00fasicas, adoravam as coreografias dram\u00e1ticas e claro, a reden\u00e7\u00e3o em fuma\u00e7a de gelo seco e Jesus selando a paz. A igreja foi nossa \u00fanica e \u00faltima ceia.<\/p>\n<p>A companhia de Teatro Liberdade se esfacelou nos meses seguintes, antes de me dar oportunidade de escrever algo. Minha carreira de autor terminava ali, sem choro nem vela. O grupo cambaleou como nosso personagem na pe\u00e7a, tonto e embriagado por brigas, ci\u00fames e amores sem chances &#8211; e nenhum Jesus apareceu para dar vit\u00f3ria \u00e0s for\u00e7as positivas em nossas vidas. Depois da formatura, cada um trilhou seu caminho. Alguns foram interrompidos, como uma pe\u00e7a que termina no primeiro ato.<\/p>\n<p>Um ano depois, em 1987, a AIDS nos levou Marco Ferreira e antes dos anos 90 tamb\u00e9m nosso ator mais louco, Josu\u00e9 Castro. Ficamos esfacelados por dentro, por todos os lados. Desaparecemos uns dos outros.<\/p>\n<p>O teatro, as can\u00e7\u00f5es da juventude, os amores que n\u00e3o deram certo, sempre voltar\u00e3o em nossas mem\u00f3rias &#8211; um dia juro que vi Josu\u00e9 nas ruas desertas de Marechal, cambaleando de salto alto, na chuva.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m cheio de saudades vi Marco Ferreira em muitos outros meninos, com seus cabelos encaixados e olhar penetrante. Me deixou de heran\u00e7a aqueles dias e um rabisco com um trecho de uma can\u00e7\u00e3o que mais gostava, &#8220;Estrelas&#8221;, do Oswaldo. &#8220;Quando eu n\u00e3o estiver por perto canta aquela m\u00fasica. Que a gente ria. \u00c9 tudo o que eu cantaria. Quando eu for embora, voc\u00ea cantar\u00e1.&#8221; N\u00e3o podia acreditar que era uma profecia &#8211; e nunca mais nos vimos. Isolado e confuso com a doen\u00e7a, desapareceu.<\/p>\n<p>Ele foi o amor de nossa juventude, o garoto que eu queria ter sido &#8211; desejado e popular &#8211; e o talento que projetava para meu futuro. Na \u00e9poca, ach\u00e1vamos que toda nossa gera\u00e7\u00e3o morreria varrida pela epidemia que nos punia pela forma de amar. E em parte, foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>O sorriso de Marco Ferreira ficou l\u00e1, congelado em 1987, preso em uma pe\u00e7a de Natal sem fim, em poucas fotos e sobreviventes. Suas can\u00e7\u00f5es, suas letras bem trabalhadas, seu amor por meninos e meninas, seu olhar \u00fanico ficou somente nas lembran\u00e7as e escorrem em l\u00e1grimas e sorrisos quando falamos daqueles tempos. Especialmente no Natal quando vem a imagem do nosso audacioso espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Uma \u00e9poca que foi de drama e com\u00e9dia, blasf\u00eamia, como a imagem de um Jesus, s\u00f3 nosso, inventado e clandestino, saindo daquela fuma\u00e7a no palco. Um Natal que renasce a cada ano na mem\u00f3ria, para alegrar nossos cora\u00e7\u00f5es suburbanos e a mem\u00f3ria daqueles jovens que ainda vivem em n\u00f3s &#8211; em tempos de euforia e paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda hoje escuto ao longe o tema da minha favorita &#8211; a personagem alegria: &#8220;Um sonho, pensamento, luz. Quisera eu voltar a te abra\u00e7ar, te encontrar, te querer. Quisera eu viver em seus bra\u00e7os&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA &nbsp; &nbsp; Josu\u00e9 era perfeito para fazer o papel de Jesus em uma pe\u00e7a de Natal &#8211; pensei. Olhos amendoados, cabelos castanhos aloirados nas pontas, caindo at\u00e9 o ombro. Tinha uma barba cheia, sem nenhuma falha. 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