{"id":1249563,"date":"2020-11-29T03:00:30","date_gmt":"2020-11-29T03:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1249563"},"modified":"2020-11-29T01:11:17","modified_gmt":"2020-11-29T01:11:17","slug":"so-o-que-for-possivel-capitulo-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/11\/so-o-que-for-possivel-capitulo-final\/","title":{"rendered":"S\u00f3 o que for poss\u00edvel. Cap\u00edtulo final"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">LIVRO<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Uma tal borboleta azul<\/h4>\n<p>J\u00e1 se passaram 106 dias, desde que me tranquei nesse apartamento e durante todo esse tempo, o medo foi a minha principal companhia. Est\u00e1 sempre flutuando entre o pavor e a minha luta em manter viva a minha f\u00e9. Lembro-me dos ensinamentos dos antepassados, que diante das tempestades, o melhor \u00e9 manter -se flex\u00edvel. Dobrar-se, curvar-se at\u00e9 o ch\u00e3o, sem demonstrar resist\u00eancias para n\u00e3o se quebrar, assim como os bambuzais, que na minha inf\u00e2ncia me serviram de esconderijo para livrar das reprimendas e surras certas diante das minhas traquinagens.<br \/>\nEnquanto a mente flutua entre medo, ansiedade, f\u00e9, vou alimentando minhas asas e preparando para sair do casulo. Sei que asas ainda est\u00e3o em forma\u00e7\u00e3o e que existem muitos empecilhos que ainda me prendem \u2013 e o principal \u00e9 o meu ego. Esse inimigo mortal, que se insinua violentamente, todas as vezes que eu tento romper com os caminhos pr\u00e9 estabelecidos como fam\u00edlia, posses, status social, pessoal , ideais pol\u00edticos e religiosos. \u00c9 como se ele quisesse me manter morto, mesmo contra a minha vontade. \u00c9 um esp\u00e9cie de Deus todo poderoso, com as mesmas pervers\u00f5es do outro Deus, externo, mas n\u00e3o menos perverso na sua humanidade.<\/p>\n<p>O mundo que me cerca \u00e9 apenas uma pergunta sem reposta. Chego a acreditar num sonho de crian\u00e7a, onde s\u00f3 as baratas pensavam e os homens eram insetos que devoravam restos, produtos qu\u00edmicos e a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O triste dessa hist\u00f3ria \u00e9 que quando caminhamos em dire\u00e7\u00e3o ao futuro, mais voltamos a nos encontrar com a nossa face mais primitiva e selvagem. O presente para a humanidade \u00e9 apenas um elo perdido. Nas esquinas, podemos sentir o cheiro podre de nossas consci\u00eancias estragadas pelo sistema que nos subjuga e, que, mesmo assim, elegemos como o nosso salvador. Aquele mundo perfeito da igualdade, continua sendo erguido com cimento, a\u00e7o e muito sangue e suor, enquanto, a inteligencia artificial avan\u00e7a sobre nossas mentes construindo mais desejos e vontade de possuir.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia impede o progresso, mas \u00e9 a ganancia que o deforma. E esta deforma\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo constru\u00edda h\u00e1 s\u00e9culos na base da educa\u00e7\u00e3o, como um projeto muito bem sucedido de domina\u00e7\u00e3o das massas. Vidas s\u00e3o usadas como cobaias num sistema que enriquece poucos, empobrece outros tantos e apodrece tantos outros. \u00c0s vezes me pergunto se a consci\u00eancia humana tem ainda alguma sonoridade e, se tem, porqu\u00ea n\u00e3o ecoa?<\/p>\n<p>Vejo um mundo ansioso para voltar \u00e0 normalidade. As propagandas na TV, na internet, o tempo todo pregam que tudo vai passar e o mundo vai voltar ao normal. Que normal? A normalidade das almas corruptas, das m\u00e1fias soberbas, do imperialismo pol\u00edtico, do mercado nefasto, das ci\u00eancias desumanas, das milicias, das injusti\u00e7as, dos preconceitos, da fome? \u00c9 isso de fato, que queremos?<\/p>\n<p>Durante esses 106 dias trancado, assistindo da janela todas as mazelas que nos impusemos durante s\u00e9culos. Milh\u00f5es de pessoas morrendo pela Covid, pela tuberculose, pelo c\u00e2ncer, pela fome e, fundamentalmente, pelo ego\u00edsmo. Paro e respiro. Sinto saudades daquilo que eu nunca vivi \u2013 um mundo de paz, de n\u00e3o viol\u00eancia \u2013 das minhas utopias mais rom\u00e2nticas e infantis.<\/p>\n<p>Ontem uma amiga me ligou e conversamos sobre v\u00e1rios temas. No meio da conversa, ela me perguntou o que a pandemia mudou em mim. Respirei fundo e tentei ser mais verdadeiro poss\u00edvel na minha resposta, mas percebi que tudo o que eu dissesse, seria apenas, reflexo de uma ilus\u00e3o de que alguma coisa teria que mudar diante do medo da morte.<\/p>\n<p>Acabei falando que a pandemia mudou minha silhueta. E rimos&#8230;cada um dentro do seu casulo.<\/p>\n<p>Acabamos chegando a conclus\u00e3o que somos um abismo entre as mudan\u00e7as que pregamos e \u00e0quelas que estamos, verdadeiramente, dispostos a fazer.<\/p>\n<p>Abri uma garrafa de vinho. Coloquei uma m\u00fasica alta, apaguei todas as luzes e dancei sozinho no quarto. Cantava a plenos pulm\u00f5es. Acendi um pito. Queria transgredir todas as regras&#8230;voar, como uma borboleta azul, que povoava as cachoeiras de Minas na minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Certa vez, tentei persegui-las e quase morri. Estava com um amigo, numa cachoeira bem escondida na mata. Sa\u00edmos de casa, por volta das cinco da manh\u00e3. Ajustamos as bicicletas, preparamos os lanches e pegamos a estrada. Andamos uns 20 km at\u00e9 chegar na trilha principal que nos levaria ao para\u00edso. Da trilha at\u00e9 o ponto que dava acesso \u00e0 cachoeira foram mais oito quil\u00f4metros de trilha. A regi\u00e3o era completamente isolada. Chegamos a um ponto que era imposs\u00edvel continuar com as bicicletas. Fizemos um esconderijo e as guardamos. Continuamos seguindo para o nosso destino.<\/p>\n<p>Caminhamos pelo menos mais 40 minutos entre trilhas que subiam e desciam. Mas, todo esfor\u00e7o valeu a pena. Alguns minutos antes de chegar ao nosso destino, j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir o ronco da cachoeira e, quando a avistamos, a sensa\u00e7\u00e3o de liberdade foi ainda maior. A \u00e1gua ca\u00eda de uma altura de 30 metros em um lago de um verde profundo e um imenso v\u00e9u branco provocado pelo impacto. At\u00e9 chegar ao lago, a \u00e1gua ia batendo em rochas protuberantes no cost\u00e3o da montanha, fazendo um efeito de uma escada de nuvens. Eram sete degraus do ponto mais alto at\u00e9 o lago e em cada degrau formavam-se pequenos arco iris.<\/p>\n<p>Chegamos no lago, nos livramos das roupas e mergulhamos completamente nus. Est\u00e1vamos na cachoeira do Sossego. S\u00f3 os dois ali sentindo todas as energias e vibra\u00e7\u00f5es daquele santu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois de quase uma hora, mergulhando e brincando, recuperando e me nutrindo de novas energias, decidi explorar o local. E minha ideia foi subir pelo cost\u00e3o at\u00e9 o topo. Meu amigo n\u00e3o quis participar da aventura e decidiu tomar um pouco de sol nas pedras, que ficavam dispostas bem no centro da clareira, o que permitia o sol banhar a cachoeira a maior parte do dia.<\/p>\n<p>Fui subindo aos poucos, explorando com cuidado as pedras que estavam bastante escorregadias, mas a vegeta\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 queda era uma esp\u00e9cie de cip\u00f3, o que facilitou a subida. Alcancei o primeiro degrau com uma certa facilidade. Dali, contemplei todo o lago, as pedras onde meu amigo estava e uma infinidade de p\u00e9s de l\u00edrios brancos, contornando toda a margem. Passei de um lado para o outro debaixo da queda d&#8217;\u00e1gua. A medida que ca\u00eda, a \u00e1gua ia se transformando numa esp\u00e9cie de vapor e pela grande quantidade, muito denso. Mas dava para respirar e ficar de p\u00e9 sobre a pedra que formava o degrau. Tinha pouco mais de dois metros de largura e menos de um metro de profundidade. A sensa\u00e7\u00e3o de estar naquele lugar, vendo e sentindo a \u00e1gua passar foi indescrit\u00edvel. Come\u00e7ou com uma esp\u00e9cie de p\u00e2nico, mas a medida que meu corpo ia absorvendo aqueles pingos microsc\u00f3picos, meus batimentos card\u00edacos foram se tornando mais compassivos e minha respira\u00e7\u00e3o foi se estabilizando. Parei ali por alguns minutos e decidi seguir. Minha meta era o topo.<\/p>\n<p>Continuei a escalada pela lateral com a ajuda dos cip\u00f3s. Quanto mais subia, mais escorregadio ficava. Ao chegar no segundo degrau, sentei na pedra e deixei a \u00e1gua cair sobre meu rosto. Estava sem folego. Olhei ao redor e v\u00e1rios tipos de vegeta\u00e7\u00e3o que nascia das estranhas do rochedo. O perfume era t\u00e3o forte que chegava a roubar os sentidos. N\u00e3o me demorei muito e segui subindo. No terceiro degrau, a rocha se deslocava para a frente, e seguia o mesmo padr\u00e3o de tamanho dos dois \u00faltimos, mas apresentava uma abertura, que a principio me pareceu a entrada de uma caverna. Me aproximei e olhei para dentro. A escurid\u00e3o tomava conta de todo o ambiente e quando me aproximei mais, quase ca\u00ed para tr\u00e1s de susto com uma revoada de morcegos que saiu trissando.<\/p>\n<p>Deixei de lado a caverna, me recuperei do susto contemplando o visual. A cada patamar alcan\u00e7ado, tudo ia ficando muito mais bonito.<\/p>\n<p>Continuei a subir. Do terceiro para o quarto degrau, a distancia era bem pequena. Pouco mais de dois metros separavam um degrau do outro. Apesar dos cip\u00f3s, que estavam a minha disposi\u00e7\u00e3o, resolvi subir de uma pedra para outra, sem passar pela lateral da cachoeira. Mas, para fazer alcan\u00e7ar a pedra de cima, teria que dar um salto, correndo o risco de escorregar e me estabacar.<\/p>\n<p>Estudei com muita aten\u00e7\u00e3o o movimento e percebi que um impulso razoavelmente forte levaria minha m\u00e3os a uma fenda, que daria o suporte necess\u00e1rio para al\u00e7ar meu corpo para parte decima da gruta. E assim o fiz. Fui preciso. Me agarrei na fenda e fiz um esfor\u00e7o descomunal para levar meu corpo. Dei um tranco no quadril e levantei as duas pernas e me arrastei at\u00e9 estar em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o parecia uma escola de samba&#8230;batia alucinadamente. Descansei e enquanto descansava fechei os olhos e deixei o som entrar em meus ouvidos. A cascata, que passava bem a minha frente, jogava em meu corpo alguns pingos, que chegavam a queimar a pele do meu rosto, mas me brindava com uma m\u00fasica vibrante que entrava pelos ouvidos e ecoava em cada \u00f3rg\u00e3o dentro mim.<\/p>\n<p>Fiquei alguns minutos deixando o corpo se nutrir daquelas ondas sonoras at\u00e9 me sentir forte para continuar a subida. Olhei em volta e vi que haviam pequenos degraus que me dariam acesso \u00e0 pr\u00f3xima plataforma. Fui tateando e pisando com o m\u00e1ximo cuidado para n\u00e3o escorregar e com alguns passos alcancei a quinta plataforma.<\/p>\n<p>Dali era poss\u00edvel ver por cima das \u00e1rvores. Vi muitas copas e ninhos de p\u00e1ssaros e muitos animais \u2013 at\u00e9 macacos. Meus ouvidos estavam super apurados e era poss\u00edvel ouvir os sons, que eles faziam, mesmo com todo o ronco da cachoeira. Parecia uma festa. Observei por um tempo e decidi seguir na subida.<\/p>\n<p>Voltei meus olhos para a lateral esquerda da cachoeira e percebi que um galho de uma grande arvore avan\u00e7ava para o sexto degrau. Com um pequeno pulo, subi no galho, me agarrei e fui subindo. Me arrastava como uma serpente com medo de cair. Passei pelas folhas e alcancei a plataforma de pedra. Essa era bem menor que as outras e, quase n\u00e3o consegui ficar de p\u00e9 sobre ela, pois \u00e1gua ca\u00eda com tanta for\u00e7a que jogava meu corpo para baixo. Me sentei e tentei me equilibrar, recebendo todo aquele volume de \u00e1gua na minha cabe\u00e7a e nas costas. Parecia que meu corpo ia ser dilacerado por tanta for\u00e7a. Sentado, fui me arrastando at\u00e9 alcan\u00e7ar a parede do roch\u00e3o e para minha surpresa, uma pedra se moveu e percebi que ali tinha mais uma caverna. Consegui deslocar a pedra e entrei na caverna.<\/p>\n<p>Fiquei deslumbrado com o que vi. A \u00e1gua jorrava pelo teto lentamente e formava v\u00e1rios estalactites dourados e em alguns pontos da caverna haviam estalagmites em v\u00e1rios formatos, mas a maioria deles eram uma esp\u00e9cie de falos num tom ocre e cheios de brilho. Avancei um pouco mais e percebi que vinha do fundo da caverna uma luz forte. Segui e encontrei uma escada de pedras bem rudimentar e v\u00e1rios desenhos nas paredes. A mais genu\u00edna arte rupestre j\u00e1 vista por mim. O local era cheio de encantamentos. Fui subindo a escada e alcancei uma fenda muito pequena, que mal dava para passar uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Me contorci todo, me espremendo entre os dois lados e consegui passar pelo buraco. Finalmente cheguei ao meu destino. O ponto mais alto da cachoeira do Sossego. Fui at\u00e9 o limite onde se quedava a \u00e1gua e olhei para baixo. Senti minhas pernas tremerem e uma vertigem me fez balan\u00e7ar o corpo. Era assustador olhar toda aquela beleza ali de cima. Deitei no topo da pedra e avancei minha cabe\u00e7a para fora e poder contemplar com um minimo de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ouvi vozes. Me virei e vi dois homens. Uma estava vestido com uma esp\u00e9cie de manto vermelho e parecia ser muito forte. J\u00e1 o outro, carregava um fac\u00e3o na cintura e vestia uma esp\u00e9cie de jaqueta azul meio camur\u00e7a. Os dois me olhavam e riam. Em seus p\u00e9s, v\u00e1rias borboletas azuis saltitavam de uma po\u00e7a de \u00e1gua a outra. Eram lindas e em dezenas. Muitas voaram at\u00e9 onde eu estava e pousaram em meu corpo molhado.<\/p>\n<p>O homem, que portava a espada, a empunhou e a apontou para mim e disse: \u2013 V\u00e1! Pule.<\/p>\n<p>Olhei para ele com medo e disse que n\u00e3o tinha coragem e preferia lutar e enfrentar uma espada. Ele riu e me disse que a espada n\u00e3o era uma amea\u00e7a para mim.<\/p>\n<p>O outro tamb\u00e9m riu e disse; \u2013 Voe !<\/p>\n<p>Fiquei ali parado tentando entender quem eram aqueles homens e o que queriam de mim \u2013 um me mandava pular, o outro, voar.<\/p>\n<p>O homem de vermelho disse: \u2013Eu sou Miguel e ele, Judas. \u2013 Voe!<\/p>\n<p>Fui arrastando o meu corpo aos poucos para longe da queda e me preparando para correr, mesmo sem conhecer o territ\u00f3rio. Um pavor tomou conta de mim.<\/p>\n<p>E mais apavorado ainda fiquei, quando o homem de vermelho arrancou a capa e duas asas brancas surgiram em seu corpo. E ele se voltou, novamente para mim e disse: \u2013 Voe, filho.<\/p>\n<p>Os dois vieram caminhando em minha dire\u00e7\u00e3o e me imprensando, sem me dar alternativa para correr. O \u00fanico caminho que eu tinha era a queda. Em nenhum momento pensei em tentar derrubar os homens e fugir. At\u00e9 porqu\u00ea, acho que n\u00e3o conseguiria, ainda mais, era demais para mim lutar contra um homem armado e outro alado.<\/p>\n<p>Me enchi de coragem, dei dos passos atr\u00e1s e pulei. Senti meu corpo avan\u00e7ando contra o ch\u00e3o. Minha cabe\u00e7a dava mil voltas e o meu corpo cortava o vento. A sensa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico foi aumentando. Estava caindo em queda livre e nem percebia o tempo que aquilo duraria.<\/p>\n<p>Olhei pra cima e vi os dois homens me observando. E de l\u00e1, eles gritaram: \u2013 Voe, filho!<\/p>\n<p>Sem entender comecei a levantar e baixar os bra\u00e7os, como se realmente, fosse poss\u00edvel voar . Senti uma dor forte, me rasgando as costas e rompendo minha roupa. Duas asas azuis surgiram de dentro de mim. Ainda em p\u00e2nico comecei a fazer movimentos com elas e, pouco antes de atingir o lago, consegui me equilibrar e, finalmente voar. N\u00e3o pensei muito e voei at\u00e9 o topo e, quando l\u00e1 cheguei, nem sinal de Judas e Miguel.<\/p>\n<p>Estava plainando sobre a cachoeira e vi meu amigo, as \u00e1rvores, os bichos, o horizonte e, tudo mais que eu queria.<\/p>\n<p>Voei&#8230;voei para longe&#8230;ganhei confian\u00e7a e continuei a voar. Todas as vezes, que o medo me atinge e tenta me paralisar, liberto minhas asas e voo. Vou para longe, contemplar a beleza e todas as possibilidades que a vida nos oferece em cada nascer de dia, mas que nos recusamos a ver, por estar presos dentro de um casulo que o mundo nos imp\u00f5e a todo momento.<\/p>\n<p>Voar&#8230;soltar as asas e ganhar a imensid\u00e3o sempre, mesmo com os p\u00e9s fincados no ch\u00e3o ou preso dentro do quinto andar de um apartamento, em plena pandemia.<\/p>\n<p>Queria escrever poesias<br \/>\nsoltar as letras e construir o mais profundo sentir<br \/>\nVoar at\u00e9 os horizontes<br \/>\nMais pr\u00f3ximo de Deus<br \/>\nTirar f\u00e9rias de mim e do medo que aprisiona<br \/>\ndeixar os bra\u00e7os ca\u00edrem<br \/>\nos olhos cerrarem<br \/>\no p\u00eanis brochar<br \/>\nAmansar o desejo<br \/>\ndar e receber aconchego<br \/>\nQueria guardar o perfume da terra em mim<br \/>\n&#8230;assim como as flores,<br \/>\nser a luz no fim do t\u00fanel<br \/>\nme transformar<br \/>\nmetamorfosear<br \/>\nbater as asas<br \/>\nrespirar e ser eterno&#8230;enquanto dure.<\/p>\n<p>Fim<\/p>\n<hr \/>\n<h6>*\u00a0 A hist\u00f3ria, dividida em cap\u00edtulos, n\u00e3o segue uma linearidade de tempo que se constr\u00f3i seguindo a l\u00f3gica de um rel\u00f3gio, mas se insere acerca de um per\u00edodo imensur\u00e1vel de uma quarentena, durante uma pandemia mundial. As cr\u00f4nicas s\u00e3o narradas na primeira pessoa, mas usam personagens e lembran\u00e7as do narrador para criar um ambiente de comunica\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rios mundos em diversos tempos.<\/h6>\n<h6>S\u00f3 o que for poss\u00edvel conta com as ilustra\u00e7\u00f5es da artista pl\u00e1stica, Fernanda N\u00f3brega, numa t\u00e9cnica mista de carv\u00e3o e nanquim.<\/h6>\n<h6>Acesse <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/tag\/so-o-que-for-possivel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">nesse link<\/a> os cap\u00edtulos j\u00e1 publicados.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LIVRO &nbsp; Uma tal borboleta azul J\u00e1 se passaram 106 dias, desde que me tranquei nesse apartamento e durante todo esse tempo, o medo foi a minha principal companhia. 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