{"id":1229926,"date":"2020-11-01T04:00:03","date_gmt":"2020-11-01T04:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1229926"},"modified":"2020-10-31T19:07:53","modified_gmt":"2020-10-31T19:07:53","slug":"um-vestido-um-bar-e-um-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/11\/um-vestido-um-bar-e-um-amor\/","title":{"rendered":"Um vestido, um bar e um amor"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O som de \u2018Fly Me To The Moon\u2019, imortalizado por Nat \u2018King\u2019 Cole e Frank Sinatra me transportou no tempo, para algum beco de Chicago nos anos 50. Podia tamb\u00e9m ser Londres e Dublin, mas eu estava em Buenos Aires, na pequena rua 25 de Mayo, onde cheguei depois de descer lentamente a avenida Rivadavia.<\/p>\n<p>A chuva fina no final de outono, o ranger das portas pesadas de madeira, s\u00f3 fui lembrar anos depois, com saudade daqueles dias. Quando fugi do frio e entrei no bar Seddon, tinha um bilhete de recomenda\u00e7\u00e3o na m\u00e3o para Juan \u2013 ou &#8220;John&#8221; como gostava de ser chamado o dono daquela mistura de antiqu\u00e1rio com restaurante. A entrada era estreita e tive que contornar um velho piano de parede, algumas mesas antigas. As paredes, lotadas de rabiscos e mensagens. Pr\u00f3ximo ao porto, viela de mar de marujos, guardava segredos e confiss\u00f5es de amores perdidos e lamentos.<\/p>\n<p>O som do piano, o solo no saxof\u00f4ne de um homem negro, magro e alto e no final, tudo me esperava aquela noite. John havia sido curto e pouco amig\u00e1vel ao telefone: &#8220;precisa de trabalho? Venha as 11, sem falta&#8221;. Era um &#8220;bico&#8221; aos fins de semana, n\u00e3o entendia nada de bebida, mas ele foi muito educado e paciente. Me ensinou a fazer drinks pelas cores e medir por dedos nos copos: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o bebe? \u2013 que \u00f3timo \u2013 meu \u00faltimo gar\u00e7om bebia tudo, s\u00f3 me dava preju\u00edzos, disse brincando. Com os anos, acabei esquecendo os nomes dos drinks, s\u00f3 restou na mem\u00f3ria o &#8220;tia Maria&#8221;, um milk shake alco\u00f3lico que levava, se n\u00e3o me engano, sorvete de creme, caf\u00e9 e dois dedos de um licor marrom escuro. Eu colocava meu dedo do lado de fora do copo e pronto, estava feita a medi\u00e7\u00e3o da quantidade de bebida.\u00a0\u00a0 Tinha uma que era dois dedos laranja mais um de uma garrafa verde. Havia um amarelo que n\u00e3o podia ser servido sem o branco. E nesse arco ir\u00eds alco\u00f3lico eu ia navegando a noite toda. No come\u00e7o eu consultava uma lista, depois memorizei.<\/p>\n<p>Com John aprendi tamb\u00e9m a servir as mesas, entender em meio ao som do piston e sax o que falavam turistas russos e espanh\u00f3is. No in\u00edcio dos anos 90 a cidade atra\u00eda milhares de europeus e muitos estudantes e trabalhadores brasileiros, como eu, em busca do sonho da universidade p\u00fablica e aventuras. O Plano Cavallo dava ainda seus primeiros passos e o peso valia como d\u00f3lares, causando deslumbramento aos que vinham de pa\u00edses que ainda viviam com a hiperinfla\u00e7\u00e3o. Uma boa gorjeta poderia significar quase um sal\u00e1rio m\u00ednimo no pa\u00eds vizinho.<\/p>\n<p>A escultora e elegante Georgina, sua esposa, me acompanhava com os olhos e sua filha Pamela, da minha mesma idade, me fornecia as bandejas e apontava para onde. Ela tamb\u00e9m me ajudava a entender os complicados &#8220;lunfardos&#8221;, as express\u00f5es do tango incorporadas ao &#8220;castelhano&#8221; argentino. Nas paredes, al\u00e9m das mensagens antigas, belas est\u00e1tuas femininas, obras de arte por todos os lados, tulipas alaranjadas francesas \u2013 John havia sido dono de antiqu\u00e1rio e se orgulhava do seu gosto ingl\u00eas refinado. O lugar, de t\u00e3o t\u00edpico e rom\u00e2ntico, foi escolhido no ano anterior para as grava\u00e7\u00f5es do filme \u2013 hoje um cl\u00e1ssico \u2013 &#8220;O lado escuro do cora\u00e7\u00e3o&#8221;, do diretor Eliseo Subiela.<\/p>\n<p>Aprendi r\u00e1pido a fun\u00e7\u00e3o e no final de semana seguinte estava feliz deslizando entre as mesas, dan\u00e7ando de camisa florida \u2013 como me foi recomendado, j\u00e1 que eu era a cota de tropicalismo do lugar. John adorava o Brasil \u2013 uma de suas filhas vivia l\u00e1 \u2013 e acredito que me deu a vaga porque eu era sorridente e incorporava alguma alegria que ele n\u00e3o via nos portenhos. &#8220;Amanh\u00e3 teremos bossa nova&#8221; me disse feliz. Segundo ele, um grupo de baianos iria se apresentar. Ajudei na decora\u00e7\u00e3o com uma bandeira do Brasil no piano. No dia seguinte, quando cheguei, os baianos j\u00e1 estavam tocando e ao contr\u00e1rio do clima l\u00e1 fora, chuvoso e cinza, tudo parecia ter cor e vida. At\u00e9 a fuma\u00e7a dos cigarros bailava ao som de&#8230; pera\u00ed&#8230; isso n\u00e3o \u00e9 coisa de baiano.<\/p>\n<p>Na l\u00edngua portuguesa \u00e9 muito dif\u00edcil chegar a um n\u00edvel de &#8220;nativo&#8221; e comecei a perceber que os rapazes n\u00e3o eram brasileiros. Me aproximei e um dos vocalistas me falou baixinho &#8220;N\u00f3s somos uruguaios mas n\u00e3o fale pra ningu\u00e9m, precisamos ganhar a vida\u2026&#8221; Eu sorri e pensei, se eles chegaram at\u00e9 aqui, n\u00e3o sou eu que vou interromper essa carreira internacional.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2013 E ai? J\u00e1 falou com seus conterr\u00e2neos?, me perguntou Georgina.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2013 Sim! sorri sem gra\u00e7a. E a m\u00fasica varou a noite, passando por Caetano, Gil e algumas de Chico Buarque. As vezes eu disfar\u00e7ava e falava no ouvido de Pedro \u2013 no verso &#8220;voc\u00ea abusou, tirou partido de mim&#8221; o &#8220;s&#8221; tem som de z&#8221; t\u00e1?<\/p>\n<p>No final da noite, Pamela despejava a jarra de gorjetas e divid\u00edamos o total.<\/p>\n<p>Era quando escutava Fito Paez, &#8220;un vestido y un amor&#8221;, a m\u00fasica que pra mim simbolizava o lugar. Muitas vezes me vi sentado, sozinho, a meia luz, entre tantas cadeiras e imaginei quantos amores aquele lugar teria presenciado, quantas paix\u00f5es perdidas, como na can\u00e7\u00e3o &#8220;Te vi, fumabas unos chinos en Madrid&#8221; e eu me transportava para os filmes preto e branco em que mulheres dan\u00e7avam com seus vestidos vermelhos embasadas pelas fuma\u00e7as de charutos, ao som de boleros.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca eu morava em uma ador\u00e1vel pens\u00e3o em Palermo, que tinha uma entrada com mosaicos franceses, um casar\u00e3o muito elegante, convertido em pousada para estrangeiros. Foi l\u00e1, na cozinha coletiva que aprendi com uma diarista paraguaia que &#8220;bife ancho&#8221; n\u00e3o era para comer sem fritar muito \u2013 mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria. N\u00e3o quero falar de dores de barriga e sim de tangos.\u00a0\u00a0 Meu trajeto para o bar Seddon era de metr\u00f4 e alguns quarteir\u00f5es caminhando. Isso era tudo que eu precisava saber naqueles tempos. Era trabalhar, dormir e sonhar.<\/p>\n<p>Meus tempos de atendente de mesas durou pouco. Na \u00e9poca eu tamb\u00e9m cobria as f\u00e9rias de uma jornalista correspondente do Jornal do Brasil e fui escalado para alguns trabalhos como a turn\u00ea de Madonna e Michael jackson. A fam\u00edlia Seddon entendeu que a prioridade era escrever e me deu um longo abra\u00e7o na despedida, depois de um longo inverno de noites acaloradas de jazz.<\/p>\n<p>Deixei Buenos Aires logo depois, em 1994, e voltei ao Rio. Da cidade maravilhosa iniciei minha jornada nos Estados Unidos. Mesmo de longe, acompanhei a trajet\u00f3ria do bar, pelos jornais e por liga\u00e7\u00f5es que fazia para John. Na \u00faltima vez que nos falamos, pelo velho e pesado telefone negro que ficava no balc\u00e3o, ele disse que o pessoal da banda U2 havia tomado &#8220;Tia Maria&#8221; com ele, assim como Fito P\u00e1ez e a atriz Vanessa Redgrave. O bar tamb\u00e9m virou set de filmagem na mesma d\u00e9cada, com &#8220;El muro del silencio&#8221;. Para minha alegria soube que finalmente Caetano Veloso esteve em uma noite dos brasileiros e imaginei o desespero da banda de &#8220;baianos&#8221; de Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>John n\u00e3o renovou o contrato de aluguel e o bar se mudou para uma esquina famosa de San telmo, onde at\u00e9 hoje \u00e9 uma refer\u00eancia da cidade, inclusive tombado como patrim\u00f4nio. Ele faleceu no ano seguinte, em 2002, e Pamela assumiu a ger\u00eancia. Estive l\u00e1 em 2014, mas nos desencontramos. Entrei lentamente no Seddon e reconheci v\u00e1rios m\u00f3veis e pinturas. Sorri ao ver uma mesma escultura que havia no balc\u00e3o \u2013 que linda, ainda com a mesma meia luz, deslizando nas curvas de um corpo feminino. O bar estava mais arejado, sem as paredes rabiscadas, mas havia preservado o clima de antiqu\u00e1rio. Lembrei muito do velho Juan e as noites de inverno que aquecia nossos cora\u00e7\u00f5es naqueles tempos.<\/p>\n<p>Um rapaz alto, de camisa branca e cal\u00e7a preta, veio em minha dire\u00e7\u00e3o. &#8220;Ol\u00e1 seja bem vindo. Voc\u00ea j\u00e1 conhecia o Bar Seddon?&#8221;<\/p>\n<p>Respondi com um sorriso. Reconheci aquela sauda\u00e7\u00e3o. &#8220;Sim, de longa data&#8221; respondi. Pela primeira vez, cliente daquele lugar m\u00e1gico da minha juventude.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u2013 Voc\u00eas ainda servem Tia Maria?<\/p>\n<p>E juro que no fundo tocava Fito P\u00e1ez, &#8220;Te vi, te vi, te vi\u2026 yo no buscaba a nadie y te vi&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA &nbsp; &nbsp; O som de \u2018Fly Me To The Moon\u2019, imortalizado por Nat \u2018King\u2019 Cole e Frank Sinatra me transportou no tempo, para algum beco de Chicago nos anos 50. 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