{"id":1225863,"date":"2020-10-26T01:38:01","date_gmt":"2020-10-26T01:38:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1225863"},"modified":"2020-10-26T11:24:27","modified_gmt":"2020-10-26T11:24:27","slug":"o-relato-de-um-haitiano-vivendo-a-pandemia-no-brasil-racismo-e-desesperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/10\/o-relato-de-um-haitiano-vivendo-a-pandemia-no-brasil-racismo-e-desesperanca\/","title":{"rendered":"O relato de um haitiano vivendo a pandemia no Brasil: racismo e desesperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Mariana Branco<\/strong><\/em>*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram 9h da manh\u00e3. Patrick Akon estava tomando banho quando percebeu que n\u00e3o sentia o cheiro do sabonete. Era abril e os casos e mortes por Covid-19 subiam a cada dia no Brasil, onde o haitiano vive com a fam\u00edlia desde 2012. Preocupado, Akon foi tomar caf\u00e9 da manh\u00e3 e come\u00e7ou a provar tudo que havia na mesa. N\u00e3o sentiu o gosto das frutas. O caf\u00e9 parecia \u00e1gua. Ele ent\u00e3o teve a certeza de que estava infectado pelo novo coronav\u00edrus. Tomou a decis\u00e3o de se isolar dentro de casa.<\/p>\n<p>Separou um colch\u00e3o, copo, prato e talheres e se fechou em um quarto, para proteger a esposa e o filho pequeno. Passou dois dias sozinho, mas n\u00e3o se sentia melhor. Estava fraco e tinha dificuldades para respirar. Ouviu a esposa ao telefone pedindo a ajuda do Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia (Samu). Mas o Samu estava sobrecarregado e n\u00e3o podia mandar uma ambul\u00e2ncia. A esposa de Akon, ent\u00e3o, ligou para a irm\u00e3, que tamb\u00e9m mora no Brasil e tem carro. Uma das \u00faltimas coisas de que ele se lembra \u00e9 de ouvir a conversa entre as duas.<\/p>\n<p><em>\u201cEu acordei no hospital. Fiquei nervoso. Gritei, mas n\u00e3o conseguia falar. Eu acho que eu estava muito longe, \u2018cruzado\u2019 com a morte. Quando olhei, nos dois cantos, estavam pessoas entubadas\u201d<\/em>, conta o haitiano, formado em jornalismo e cinema e que atua como produtor de v\u00eddeos e cineasta em sua pr\u00f3pria empresa no Brasil. Akon usou a rede p\u00fablica de sa\u00fade porque, cerca de um ano antes, tinha parado de pagar o pr\u00f3prio plano de sa\u00fade para conseguir manter o da esposa gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Imigrantes e refugiados t\u00eam o mesmo direito que os brasileiros a acessar os servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica, reunidos sob o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). O acesso \u00e9 assegurado pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que prev\u00ea o direito universal \u00e0 sa\u00fade, e pela Lei n\u00b0 13.445\/2017, a nova Lei de Imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a mesma legisla\u00e7\u00e3o, conforme regulamentada pela Portaria Interministerial n\u00b0 10\/2018, os haitianos, como Patrick Akon, t\u00eam direito a tratamento priorit\u00e1rio na concess\u00e3o de visto e autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia no Brasil para fins humanit\u00e1rios. O Brasil permite resid\u00eancia tempor\u00e1ria por dois anos, que pode depois ser convertida em resid\u00eancia por prazo indeterminado.<\/p>\n<p>Se os haitianos t\u00eam direito a utilizar o SUS e s\u00e3o bem-vindos a se tornarem moradores do Brasil na letra da lei, na pr\u00e1tica, enfrentam muitas barreiras e sofrimento ao chegar ao pa\u00eds, por um motivo evidente para quem conhece um pouco da din\u00e2mica social brasileira: o Haiti \u00e9 uma Rep\u00fablica Negra. E, no Brasil, onde 7,6% da popula\u00e7\u00e3o se autodeclara negra, o racismo \u00e9 uma chaga aberta.<\/p>\n<p>Patrick Akon foi confrontado com essa realidade assim que colocou os p\u00e9s no pa\u00eds. \u201c<em>N\u00e3o sabia o que era racismo. Aquilo que estou vivendo no Brasil agora foi resolvido no meu pa\u00eds h\u00e1 300 anos\u201d<\/em>, comenta. Quando se viu sozinho no hospital em meio \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diferente. Akon conheceu m\u00e9dicos que, em suas pr\u00f3prias palavras, eram \u201cda hora\u201d (ele aprendeu a g\u00edria brasileira para designar uma pessoa bacana). Mas nem todo mundo o tratava bem.<\/p>\n<p><em>\u201cEu senti que eu era diferente e que alguns m\u00e9dicos tinham medo. Algumas pessoas n\u00e3o estavam querendo mexer em mim. Eu acho essa quest\u00e3o do racismo muito forte no Brasil. Se voc\u00ea \u00e9 negro, voc\u00ea \u00e9 atendido como um animal. No Brasil, \u00e9 visto como algo muito natural. Mas, quando eu cheguei, eu achei esquisito o racismo em um pa\u00eds que tem tanta cultura, tanta diversidade\u201d<\/em>, diz.<\/p>\n<p>Ele conta pelo menos duas experi\u00eancias que o incomodaram durante o per\u00edodo de interna\u00e7\u00e3o. Afirma que, quando a equipe colheu seu sangue para fazer exames, recebeu muitas picadas doloridas. <em>\u201cNunca tinha sido picado assim\u201d<\/em>, comenta. O outro epis\u00f3dio foi durante o exame para detectar o comprometimento do pulm\u00e3o. <em>\u201cQuando fiz exame de pulm\u00e3o o cara me tratou muito mal, n\u00e3o queria estar perto, ficava falando de longe. As pessoas que estavam antes, ele estava ficando ao lado\u201d<\/em>, conta. A percep\u00e7\u00e3o de um tratamento cruel relatada por Akon \u00e9 documentada em pesquisas.<\/p>\n<p>Em 2017, Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), analisou com uma equipe o recorte de ra\u00e7a e cor dos dados de uma pesquisa nacional sobre partos e nascimentos, a \u201cNascer no Brasil\u201d, realizada com prontu\u00e1rios m\u00e9dicos de 23.894 mulheres coletados entre 2011 e 2012. Os resultados mostraram que, apesar de sofrerem menos episiotomias (corte na regi\u00e3o do per\u00edneo para facilitar a passagem do beb\u00ea) em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s brancas, mulheres negras tinham chances 50% menores de receber anestesia durante o procedimento.<\/p>\n<p>Patrick Akon conta que, antes de contrair a Covid-19, j\u00e1 tinha vivido experi\u00eancias ruins no sistema de sa\u00fade brasileiro. <em>\u201cUma vez eu ca\u00ed e fui ao hospital e fui tratado muito mal. As pessoas sem falar bom dia, sem nem perguntar o que voc\u00ea tem. Eu viajei para muitos pa\u00edses para fazer interc\u00e2mbio, para visitar amigos, e nunca fui tratado assim\u201d<\/em>, afirma.<\/p>\n<p>O racismo tamb\u00e9m est\u00e1 presente nos supermercados, onde Akon costuma vivenciar algo bastante comum no Brasil: ser seguido por seguran\u00e7as assim que passa pela porta. <em>\u201cMuitas vezes eu fui ao supermercado e as pessoas come\u00e7aram a me seguir. E, na maioria das vezes, quem est\u00e1 te seguindo tamb\u00e9m \u00e9 negro\u201d<\/em>, surpreende-se. \u00c9 uma face realmente cruel da discrimina\u00e7\u00e3o: quem ocupa postos de trabalho como o de seguran\u00e7a de supermercado, que exige menos qualifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os moradores das periferias. Essa popula\u00e7\u00e3o, em sua maioria, \u00e9 formada por pessoas negras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cerca de uma semana internado, Akon voltou para casa. Ganhou uma nova chance, sorte que muitas v\u00edtimas da Covid-19 n\u00e3o tiveram. Sente-se grato. Mas considera o Brasil um lugar cada vez mais hostil para se viver. Segundo ele, a situa\u00e7\u00e3o piorou desde a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro. <em>\u201cCom os nazistas (como ele se refere aos apoiadores do novo governo), o racismo est\u00e1 assumindo na cara dura\u201d<\/em>, diz. Ele admite que pensa em se mudar com a fam\u00edlia, mas ainda n\u00e3o se decidiu. <em>\u201cEu estava pensando em montar minha empresa em outro lugar. A gente pensou em ir para Dublin<\/em>\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p>* Jornalista formada pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), especializada em Tradu\u00e7\u00e3o. Trabalhou como rep\u00f3rter no Correio Braziliense e fez parte da equipe da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o (EBC) at\u00e9 2018. Atualmente, atua como tradutora e jornalista freelancer, sempre em busca de hist\u00f3rias que mere\u00e7am ser contadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Branco* &nbsp; Eram 9h da manh\u00e3. 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