{"id":1224458,"date":"2020-10-25T03:55:47","date_gmt":"2020-10-25T03:55:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1224458"},"modified":"2020-10-25T11:31:56","modified_gmt":"2020-10-25T11:31:56","slug":"o-misterio-de-clara-de-la-hera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/10\/o-misterio-de-clara-de-la-hera\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio de Clara de la Hera"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na biblioteca da pequena cidade de Kearney, procurei pela palavra &#8220;Bergen&#8221; \u2013 vi que era uma varia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da palavra norueguesa Bj\u00f8rgvin, uma pequena localidade na costa oeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Foi mera curiosidade, mas fiz quest\u00e3o de anotar em minha agenda porque esse seria meu primeiro endere\u00e7o, primeiro apartamento pago com meu trabalho, j\u00e1 n\u00e3o mais com economias vindas do Brasil. Pode parecer tolo, mas cada conquista de um imigrante \u2013 quando passamos do quarto alugado a nosso apartamento, conseguimos um emprego e recebemos nosso primeiro pagamento, abrimos nossa primeira conta corrente em um banco, ou tiramos um documento qualquer \u2013 s\u00e3o marcos iniciais de uma nova vida. Imigrar \u00e9 nascer de novo e repetir, muitas vezes depois dos trinta, experi\u00eancias que j\u00e1 vivemos na transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia \u00e0 vida adulta.<\/p>\n<p>Uma das novas sensa\u00e7\u00f5es dessa experi\u00eancia ao se reestabelecer em outro pa\u00eds \u00e9 receber correspond\u00eancia. Nesse caso, ver seu nome em um endere\u00e7o como comprovante de sua nova vida. Por isso escrevi com prazer, no caderninho: Bergen Avenue. Pronto. Eu vivo aqui.<\/p>\n<p>Bergen era uma avenida diferente, uma colina que em seu topo nos dava uma vis\u00e3o direta ao World Trade Center. Foi a primeira coisa que relatei aos amigos, nos primeiros e\u2013mails. O pequeno apartamento era na verdade um s\u00f3t\u00e3o adaptado e eu tinha que subir duas etapas de escadas para chegar at\u00e9 l\u00e1. O aquecimento nem sempre funcionava e as chapas met\u00e1licas do teto converteram o lugar em um freezer nas noites mais frias. Assim que viramos a esquina estavam l\u00e1 no final, no horizonte, Manhattan e as imponentes torres.<\/p>\n<p>Depois de ter um endere\u00e7o, o pr\u00f3ximo, o esperado pr\u00f3ximo passo \u00e9 receber correspond\u00eancias. Como a internet ainda engatinhava, os e-mails eram muito pouco acessados, as cartas ainda eram a principal fonte de comunica\u00e7\u00e3o. Fiz quest\u00e3o de escrever uma e enviar um postal a Dona Arlete, minha m\u00e3e, mostrando que seu filho agora j\u00e1 n\u00e3o mais alugava quartos na casa de estranhos. Eu tinha um c\u00f3digo postal e uma casa, como a dos filmes da sess\u00e3o da tarde.<\/p>\n<p>A casa tinha tr\u00eas andares, branca, com jardim florido e as escadas eram acarpetadas para n\u00e3o gerar ru\u00eddos. Na entrada, um lugar para colocar casacos, chap\u00e9us e uma mesa onde a correspond\u00eancia era posta para que os tr\u00eas inquilinos pudessem organiz\u00e1-las. Na parede aveludada em vermelho escuro, fotos antigas e um rel\u00f3gio de madeira.<\/p>\n<p>Achei estranho que no primeiro e segundo andar ningu\u00e9m estivesse morando. O aluguel era muito barato \u2013 e esse foi um dos motivos que me fez sair de Nova Iorque e ir at\u00e9 aquela pequena cidade, que tinha uma vis\u00e3o de Manhattan, mas ficava em outro estado.<\/p>\n<p>Estava muito ansioso para receber correspond\u00eancia e todo dia chegava do trabalho com a expectativa de finalmente ver meu nome naquele endere\u00e7o. Eu havia enviado cartas a dezenas de lugares na esperan\u00e7a que me respondessem: Escrit\u00f3rios de turismo, clubes de leitura, tudo. Todos os dias chegavam cartas e revistas para somente um nome: Clara de la Hera. Eram dezenas de cartas, revistas e cupons. Eu entrava, olhava carta por carta, subia as escadas e no outro dia toda correspond\u00eancia havia sumido. No come\u00e7o achei estranho, j\u00e1 que estava sozinho na casa e o senhorio morava longe.<\/p>\n<p>Na terceira semana, sem nenhuma correspond\u00eancia e ainda percebendo o desaparecimento di\u00e1rio de todas as cartas e revistas, decidi levar para meu apartamento todo o material e pensei que em algum momento o propriet\u00e1rio ou a pr\u00f3pria Clara viesse solicitar. Deixei um bilhete explicando, mas nada mudou. As cartas e revistas chegavam, eu invejava Clara, recolhia o material e no final, ningu\u00e9m pedia nada. Coloquei uma cadeira na sala onde toda correspond\u00eancia e revista foi se acumulando. &#8220;Uma hora eles v\u00e3o pedir&#8221; \u2013 imaginei.<\/p>\n<p>Comecei a ler as revistas: Clara gostava de National Geographic, Readers Digests e revistas sobre decora\u00e7\u00e3o de casas de campo. Ela assinava tamb\u00e9m a Time \u2013 que me proporcionou v\u00e1rias tardes de leitura. A misteriosa Clara era tamb\u00e9m assinante de tantas publica\u00e7\u00f5es e cartas que comecei a ficar preocupado. Afinal quem era essa mulher? Por que ningu\u00e9m vinha reclamar as cartas? Quem era a pessoa que coletava a correspond\u00eancia, provavelmente no meio da madrugada?<\/p>\n<p>Nosso Google da \u00e9poca chamava-se biblioteca. Fui at\u00e9 a mais pr\u00f3xima, fiz meu cart\u00e3o de morador local e fui at\u00e9 o setor de peri\u00f3dicos. L\u00e1 havia tamb\u00e9m listas telef\u00f4nicas e jornais locais. Antes das digitaliza\u00e7\u00f5es, os jornais eram fotografados e arquivados em rolos de negativos, microfilmes. O pesquisador pegava um rolo e colocava em um pequeno projetor e como se fosse a tela de um computador pod\u00edamos ver as p\u00e1ginas. N\u00e3o havia indexa\u00e7\u00e3o, como pesquisar por palavras, somente por datas e assim ver a reprodu\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o impressa. Era um trabalho de pesquisa que consumia horas e dias.<\/p>\n<p>A pequena cidade de Kearny tinha somente um jornal, fundado em 1887. A sede ficava na avenida central, n\u00e3o muito longe do pr\u00e9dio da biblioteca. Comecei a navegar pelas p\u00e1ginas aleatoriamente. Pedi os rolos para as m\u00e1quinas ampliadoras para leitura de microfilmes, comecei minha pesquisa para ver se encontrava algum ind\u00edcio de Clara. Por sorte \u2013 ou azar \u2013 me deparei com seu nome em um obitu\u00e1rio de apenas dois meses atr\u00e1s. J\u00e1 estava quase no final do rolo do filme quando a p\u00e1gina passou pelos meus olhos. Clara de la Hera, moradora da Bergen Avenue, missa de s\u00e9timo dia.<\/p>\n<p>Voltei para casa engolindo seco. Tinha em minha posse um amontoado de cartas e revistas de algu\u00e9m que havia morrido. Estava morando na casa de algu\u00e9m que recentemente havia falecido \u2013 em circunst\u00e2ncias que eu tamb\u00e9m n\u00e3o sabia. H\u00e1 semanas o senhorio n\u00e3o aparecia, as cartas de Clara se deixadas na entrada, desaparecem. Todos os componentes t\u00edpicos de hist\u00f3rias de Agatha Christie, minhas favoritas na inf\u00e2ncia: a casa vitoriana, a pequena cidade, um nome sem corpo e um estrangeiro. Resolver esse mist\u00e9rio passou a ser meu objetivo nos dias seguintes.<\/p>\n<p>A primeira coisa a resolver seria descobrir quem estaria recolhendo a correspond\u00eancia de Clara \u2013 e por que fazia isso sem que ningu\u00e9m percebesse. Tamb\u00e9m minhas noites na casa ficaram cercadas de medo. Como Clara havia morrido? Meu primeiro endere\u00e7o seria marcado para sempre como uma hist\u00f3ria de suspense e terror? No s\u00e1bado seguinte decidi n\u00e3o recolher as cartas e ficar na janela esperando a pessoa que iria l\u00e1 em busca da correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Coloquei o rel\u00f3gio para despertar as cinco e fiquei observando a rua escura. As seis, ainda amanhecendo um vulto passou pelo poste de luz e vi que entrou na casa. Desci rapidamente as escadas e me deparei com uma mulher alta, de capuz e mochila.<\/p>\n<p>Buenos d\u00edas \u2013 me disse a mulher, ao recolher na mesa a correspond\u00eancia, colocando-a na mochila.<\/p>\n<p>Essas cartas s\u00e3o para uma ex-inquilina, voc\u00ea mora aqui ? perguntei em espanhol. Ela retirou o capuz e estendeu a m\u00e3o \u2013 muito prazer, Clara.<\/p>\n<p>Nesse momento gelei. Ela percebeu meu susto.<\/p>\n<p>\u2013 Antes que voc\u00ea pense que eu sou um fantasma. Eu explico. Voc\u00ea \u00e9 o Brasileiro, novo inquilino? J\u00e1 me falaram de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Respondi positivamente ainda com o corpo r\u00edgido e com um frio que subia pela espinha.<\/p>\n<p>Clara de la Hera estava viva, muito viva.<\/p>\n<p>Ela me disse que provavelmente o senhorio tenha falado sobre seu caso \u2013 mas como disse que n\u00e3o sabia de nada, resolveu me contar o &#8220;arranjo&#8221;. Clara era v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica e em comum acordo com o senhorio decidiu forjar seu desaparecimento \u2013 e not\u00edcia de morte \u2013 para despistar um namorado que a perseguia. Ela havia se mudado para North Arlington, uma cidade pr\u00f3xima e ficado com a chave da portaria para poder recolher suas cartas, que fazia com certa frequ\u00eancia. At\u00e9 minha chegada.<\/p>\n<p>Escolhia as manh\u00e3s para n\u00e3o ser vista na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Suspirei com al\u00edvio. Minha casa da Bergen Avenue n\u00e3o era mal assombrada. Era apenas mais um registro de uma rela\u00e7\u00e3o que terminou mal. Como tantas outras. Clara era uma pessoa incr\u00edvel e descobri isso pelo tipo de cartas e revistas que ela recebia. Combinei de reunir tudo que chegasse e levar para ela pessoalmente. Assim e por meses era a desculpa para nosso caf\u00e9 em Manhattan, onde ambos trabalh\u00e1vamos. Fomos interrompidos pelo onze de setembro que paralisou nossas vidas, destruiu nossos empregos e nos jogou para longe. Nos comunicamos nos anos seguintes e sei que ela se casou novamente, tem dois filhos e vive em uma pequena cidade em New Hampshire.<\/p>\n<p>Quase 20 anos depois recebi um email de um sistema de sorteio de moradias populares que havia me inscrito. Fiquei feliz por fugir dos altos alugu\u00e9is de Nova Iorque e fui na construtora ver onde ficaria meu novo apartamento \u2013 Bergen avenue \u2013 dessa vez no Bronx.<\/p>\n<p>Lembrei de Clara e como ela vai rir disso tudo. O nome da pequena cidadezinha na Noruega, muito popular na Am\u00e9rica, voltou a me rondar. Dessa vez, sem mist\u00e9rios, sem suspense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA &nbsp; &nbsp; Na biblioteca da pequena cidade de Kearney, procurei pela palavra &#8220;Bergen&#8221; \u2013 vi que era uma varia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da palavra norueguesa Bj\u00f8rgvin, uma pequena localidade na costa oeste do pa\u00eds. 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