{"id":1218593,"date":"2020-10-16T20:13:00","date_gmt":"2020-10-16T19:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1218593"},"modified":"2020-10-16T20:13:00","modified_gmt":"2020-10-16T19:13:00","slug":"o-que-os-ativistas-que-lutaram-na-crise-da-aids-podem-nos-ensinar-sobre-organizacao-em-uma-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/10\/o-que-os-ativistas-que-lutaram-na-crise-da-aids-podem-nos-ensinar-sobre-organizacao-em-uma-pandemia\/","title":{"rendered":"O que os ativistas que lutaram na crise da AIDS podem nos ensinar sobre organiza\u00e7\u00e3o em uma pandemia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mais de 30 anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power), suas a\u00e7\u00f5es ousadas em resposta \u00e0 crise da AIDS oferecem li\u00e7\u00f5es fundamentais aos que se mobilizam para agir frente \u00e0 COVID-19.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por<strong> Loretta Graceffo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Durante o pico da pandemia de coronav\u00edrus em Nova York, o apartamento de Avram Finklestein foi inundado pelo som estridente das sirenes das ambul\u00e2ncias. \u201cSimplesmente dia e noite&#8230;. era constante&#8221;, ele disse &#8220;Mesmo mantendo o isolamento social, n\u00e3o pude escapar da pandemia por um segundo.&#8221;<\/p>\n<p>Para Finklestein, um artista de 68 anos e ativista que mora no Brooklyn, testemunhar o governo dos EUA aguardar enquanto o n\u00famero de mortos ultrapassa os \u00a0200.000\u00a0 \u00e9 particularmente doloroso. Como um sobrevivente da crise da AIDS, a pandemia atual \u00e9 o que ele chama de &#8220;retorno a um sofrimento que somente a face mais cruel da America poderia proporcionar.&#8221;<\/p>\n<p>No auge da epidemia da AIDS, Finklestein foi motivado a entrar em a\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte do seu parceiro, Don. Em 1987, Finklestein ajudou a fundar a <em>AIDS Coalition to Unleash Power<\/em>, ou\u00a0ACT UP, um grupo que atuava diretamente em prol das pesquisas, dos tratamentos e das mudan\u00e7as na pol\u00edtica de enfrentamento da AIDS. \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos lutando por nossas pr\u00f3prias vidas&#8221; disse ele\u2013 \u201caquele foi um momento de f\u00faria, aterrorizante.&#8221;<\/p>\n<p>Finklestein tamb\u00e9m fundou o Gran Fury, um coletivo de arte de guerrilha que visava chamar a aten\u00e7\u00e3o para a crise da AIDS atrav\u00e9s de um design gr\u00e1fico provocativo, cujo destaque foi o ic\u00f4nico cartaz\u00a0Sil\u00eancio = Morte, que incentivava os transeuntes com as palavras &#8220;Transforme raiva, medo, dor em a\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O cartaz tinha a ver com quem podia morrer &#8211; ou seja, quais vidas eram valorizadas e quais vidas eram consideradas dispens\u00e1veis\u201d, disse ele. \u201cO que n\u00e3o \u00e9 muito diferente das quest\u00f5es de justi\u00e7a social nos EUA agora.\u201d<\/p>\n<p>A advogada Terry McGovern, que passou grande parte de sua vida defendendo pessoas HIV positivas de baixa renda, descreve a resposta catastr\u00f3fica do governo dos EUA ao COVID-19 como &#8220;completamente previs\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, ao longo de toda essa experi\u00eancia, eu lembrei daqueles prim\u00f3rdios da AIDS\u201d, disse ela. \u201cExiste algo al\u00e9m da busca desesperada por term\u00f4metros e m\u00e1scaras para profissionais de sa\u00fade e iPads para que as pessoas possam se despedir de seus entes queridos\u201d, disse McGovern. \u201cVoc\u00ea s\u00f3 precisa se perguntar: &#8216;como n\u00e3o aprendemos nada?&#8217;\u201d<\/p>\n<p>Sete meses desde que o pa\u00eds entrou em <em>lockdown<\/em>, hist\u00f3rias de resist\u00eancia, ajuda m\u00fatua e solidariedade s\u00e3o mais cruciais para a sobreviv\u00eancia do que nunca &#8211; e o trabalho da ACT UP tem li\u00e7\u00f5es a ensinar aos organizadores sobre os meses que est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma luta cont\u00ednua para conseguir que essas hist\u00f3rias sejam contadas\u201d, disse McGovern. \u201cMas acho que elas s\u00e3o muito importantes porque, em \u00faltima an\u00e1lise, s\u00e3o hist\u00f3rias de esperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<h4>Usando &#8216;todas as estrat\u00e9gias poss\u00edveis&#8217;<\/h4>\n<p>Quando a ACT UP foi formada pela primeira vez, em 1987, a crise da AIDS j\u00e1 estava acontecendo h\u00e1 seis anos. Aproximadamente 41.000\u00a0pessoas morreram e mais de 50.000 pessoas foram diagnosticadas com a doen\u00e7a. O governo Reagan, que foi flagrado rindo\u00a0da epidemia nos bastidores e n\u00e3o reconheceu publicamente o v\u00edrus antes que se passassem quatro anos acumulando v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u201cAssim como ocorre hoje com o coronav\u00edrus, durante epidemia de AIDS havia dois aspectos importantes\u201d, disse Jim Hubbard, um cineasta cujos document\u00e1rios narram a vida <em>queer<\/em> e a resist\u00eancia, \u201cum deles \u00e9 doen\u00e7a em si e o outro \u00e9 a forma como a sociedade lida com ela. Al\u00e9m disso, o governo, quando n\u00e3o era abertamente hostil, simplesmente ignorava o que estava acontecendo\u201d.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a e frieza do governo dos Estados Unidos ao lidar com a crise assumiu muitas formas: os pol\u00edticos da \u00e9poca proibiram os indiv\u00edduos soropositivos de entrar no pa\u00eds, recusaram-se a atualizar os programas de educa\u00e7\u00e3o sexual ministrados nas escolas, n\u00e3o estabeleceram programas de troca de agulhas e n\u00e3o fizeram nada para reduzir a venda de drogas.<\/p>\n<p>A zidovudina, conhecida como AZT, acabava de se tornar a primeira droga anti-HIV a ser aprovada pela Food and Drug Administration &#8211; e a US $ 10.000 por ano, era a droga mais cara\u00a0da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O engajamento de Hubbard ao ACT UP se deu quando viu um cartaz no metr\u00f4 anunciando a manifesta\u00e7\u00e3o de 24 de mar\u00e7o em Wall Street. \u201cNo in\u00edcio, n\u00e3o entendi por que eles estavam fazendo uma demonstra\u00e7\u00e3o ali\u201d, lembra Hubbard. \u201cEu pensei &#8216;O problema \u00e9 o governo.&#8217; Mas esse foi o meu equ\u00edvoco, porque a crise da AIDS foi uma crise do capitalismo.\u201d<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise foi fundamental para o trabalho da ACT UP, que assumiu muitas formas \u2013 desde trabalhar com cientistas de todo o mundo at\u00e9 protestos em massa nas ruas.<\/p>\n<p>Membros da ACT UP interromperam as transmiss\u00f5es de not\u00edcias, cobriram a casa de um senador homof\u00f3bico com um preservativo gigante, acorrentaram-se a uma varanda na Bolsa de Valores de Nova York e deitaram no ch\u00e3o durante a missa na Catedral de S\u00e3o Patr\u00edcio para protestar contra a igreja que condenava a contracep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando se trata de resistir ao capitalismo, sempre achei que voc\u00ea realmente precisa usar todas as estrat\u00e9gias poss\u00edveis\u201d, disse Finklestein. \u201cQuer dizer, n\u00f3s \u00e9ramos movidos pela raiva e pelo fato de que as pessoas estavam literalmente morrendo nos corredores dos hospitais. N\u00e3o havia nada que consider\u00e1ssemos inadequado.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 certa altura, a bancada feminina da ACT UP registrou-se como republicana para que pudessem participar de um fundo republicano. Em contrapartida, eles forneceram biscoitos da sorte que continham dados cl\u00ednicos sobre imunossupress\u00e3o em mulheres.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, ativistas invadiram os Centros de Controle de Doen\u00e7as de Nova York, onde inseriram folhetos informativos sobre a AIDS em cada uma das pastas e livros do escrit\u00f3rio do diretor de forma que ele n\u00e3o pudesse abrir nada sem antes ver as reivindica\u00e7\u00f5es do grupo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1212951\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1212951\" class=\"wp-image-1212951\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/1024px-Aids_Quilt-300x226.jpg\" alt=\"\" width=\"714\" height=\"538\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/1024px-Aids_Quilt-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/1024px-Aids_Quilt-720x542.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/1024px-Aids_Quilt-768x578.jpg 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/1024px-Aids_Quilt.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 714px) 100vw, 714px\" \/><p id=\"caption-attachment-1212951\" class=\"wp-caption-text\">Wikipedia\/ Dom\u00ednio p\u00fablico. NAMES Project AIDS Memorial Quilt<\/p><\/div>\n<p>Em outubro de 1992, mais de 300 pessoas marcharam do Capit\u00f3lio at\u00e9 a Casa Branca, gritando \u201ctraga os mortos para sua porta, n\u00e3o vamos aguentar mais\u201d. L\u00e1, ativistas encenaram um funeral pol\u00edtico para aqueles que foram \u201cassassinados pela AIDS e mortos por neglig\u00eancia do governo\u201d, espalhando as cinzas\u00a0de seus entes queridos no gramado da Casa Branca.<\/p>\n<p>\u201cFizemos todo o poss\u00edvel\u201d, disse Finklestein. \u201cA natureza [da luta contra] o capitalismo \u00e9 o engajamento constante. N\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o isolada. N\u00e3o \u00e9 ao acaso. \u00c9 constante.&#8221;<\/p>\n<p>Embora os membros da ACT UP fossem treinados em desobedi\u00eancia civil n\u00e3o violenta, muitos adotaram a n\u00e3o viol\u00eancia como uma t\u00e1tica, e n\u00e3o como uma filosofia absoluta. \u00c0 medida que a contagem de mortes e o desespero aumentavam, um grupo pequeno mas significativo da ACT UP come\u00e7ou a considerar o emprego de bombas corporais para chamar a aten\u00e7\u00e3o para a causa, tirando suas pr\u00f3prias vidas. \u201cN\u00e3o se pode dizer que foi uma surpresa o surgimento de posturas mais radicais\u201d, disse Finklestein.\u201cMuitos de n\u00f3s sentiam que j\u00e1 estavam morrendo e que \u00edamos morrer de qualquer maneira.\u201d<\/p>\n<p>Finalmente, as campanhas de a\u00e7\u00e3o direta empregadas pela ACT UP tiveram sucesso em mudar drasticamente a resposta do governo dos EUA \u00e0 epidemia. As suas vit\u00f3rias inclu\u00edram a garantia que indiv\u00edduos HIV positivos fossem inclu\u00eddos em ensaios cl\u00ednicos, mudando os procedimentos do FDA para acelerar o lan\u00e7amento de medicamentos experimentais, o desenvolvimento de um plano de distribui\u00e7\u00e3o de preservativos que foi aprovado pelo Conselho de Educa\u00e7\u00e3o de Nova York e a redu\u00e7\u00e3o significativa do pre\u00e7o de drogas que salvam vidas.<\/p>\n<h4>A luta pela acessibilidade<\/h4>\n<p>De acordo com Hubbard, uma das semelhan\u00e7as mais devastadoras entre AIDS e COVID-19 tem sido o efeito desproporcional com que atinge pessoas &#8220;n\u00e3o brancas&#8221; de baixa renda.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, nas reuni\u00f5es do ACT UP, pessoas se levantavam e falavam sobre essas coisas, e outras gritavam:\u2018O que isso tem a ver com a AIDS? \u2019\u201d Lembra Hubbard. \u201cMas se voc\u00ea \u00e9 um morador de rua com HIV, n\u00e3o se trata apenas do tratamento, mas de uma casa. \u00c9 sobre um lugar para dormir. \u00c9 sobre comida. Nem todo mundo est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o. E coisas que n\u00e3o parecem estar conectadas para algumas pessoas, mas podem estar intimamente conectadas para outras.\u201d<\/p>\n<p>Em 1989, McGovern fundou o HIV Law Project para fornecer servi\u00e7os jur\u00eddicos a indiv\u00edduos soropositivos de comunidades carentes, particularmente mulheres negras de baixa renda que n\u00e3o tinham a quem recorrer.<\/p>\n<p>\u201cHavia muita discrimina\u00e7\u00e3o\u201d, disse ela. \u201cLembro-me da recepcionista borrifando Lysol quando meus clientes chegavam. Muitos advogados sequer aceitavam casos de pessoas com HIV\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, McGovern representou um homossexual n\u00e3o assumido que estava gravemente doente. Seu parceiro havia morrido com o v\u00edrus &#8211; e como o aluguel do apartamento estava no nome dele e a lei n\u00e3o reconhecia casais homossexuais, o homem enfrentava um processo de despejo.<\/p>\n<p>\u201cQuando fomos \u00e0 autoridade habitacional para defender o status de fam\u00edlia, eles eram muito homof\u00f3bicos e basicamente nos expulsaram\u201d, disse McGovern. Pouco depois, seu cliente morreu por suic\u00eddio. A trag\u00e9dia levou os ativistas a organizarem uma manifesta\u00e7\u00e3o, que gerou uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as proibindo a discrimina\u00e7\u00e3o contra o HIV em habita\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Um ponto de inflex\u00e3o no ativismo pela AIDS ocorreu em 1990, quando McGovern entrou com uma a\u00e7\u00e3o coletiva contra o Departamento de Sa\u00fade e Servi\u00e7o Social para expandir a defini\u00e7\u00e3o de AIDS no \u00e2mbito da Administra\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia Social.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a defini\u00e7\u00e3o utilizada inclu\u00eda sintomas encontrados predominantemente em homens gays, cujo diagn\u00f3stico automaticamente os qualificava para invalidez e uma s\u00e9rie de benef\u00edcios de moradia. Enquanto isso, os pedidos dos usu\u00e1rios de drogas intravenosas e das mulheres com o v\u00edrus ao Seguro Social e ao &#8220;Medicaid&#8221; eram negados por n\u00e3o se enquadrarem nas regras para invalidez, mesmo quando estavam morrendo. Muitos viviam em habita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e enfrentavam o despejo. Alguns estavam enfrentando batalhas judiciais com a cidade para evitar que seus filhos fossem levados.<\/p>\n<p>\u201cA maior li\u00e7\u00e3o que aprendi com o ACT UP \u00e9 que um pequeno grupo de pessoas &#8211; extremamente focado em an\u00e1lises e solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para o problema &#8211; pode mudar o mundo\u201d<\/p>\n<p>Os autores do processo judicial, dentre os quais alguns optavam pelo anonimato, eram em sua maioria mulheres negras homossexuais, incluindo Iris De La Cruz e Phyliss Sharpe, cuja filha de 5 anos tamb\u00e9m tinha o v\u00edrus. \u201cTodas eram mulheres extremamente empoderadas e muito corajosas\u201d, disse McGovern. \u201cPara muitos deles, essa luta estava acontecendo no \u00faltimo ano de suas vidas.\u201d<\/p>\n<p>Entre seus clientes estava Katrina Haslip, uma mulher negra mu\u00e7ulmana, ex-prostituta e advogada carcer\u00e1ria que era amada por suas colegas presidi\u00e1rias. Durante seu tempo na institui\u00e7\u00e3o correcional de Bedford Hills em Nova York, houve um surto de HIV atr\u00e1s das grades &#8211; e depois de meses adormecendo ouvindo outras pessoas morrerem em suas celas, Haslip se tornou uma educadora e defensora da causa.<\/p>\n<p>Duas semanas ap\u00f3s ser posta em liberdade, Haslip violou as regras da liberdade condicional ao se dirigir a Washington, D.C. para protestar no Departamento de Sa\u00fade e Servi\u00e7o Social, onde ela compartilhou publicamente sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cEla esteve muito, muito doente no final da sua vida\u201d, disse McGovern. \u201cFoi muito perturbador e envolvente. Ela morreu sem nunca cumprir os requisitos necess\u00e1rios para obter o aux\u00edlio do governo para a invalidez.\u201d<\/p>\n<p>Haslip morreu em dezembro de 1992, apenas um m\u00eas antes de o CDC anunciar a amplia\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios a fim de incluir tamb\u00e9m os sintomas frequentemente encontrados em mulheres, permitindo, assim, que milhares de mulheres obtivessem os servi\u00e7os de que necessitavam desesperadamente. Nenhuma das oito mulheres envolvidas no processo sobreviveu para ver o avan\u00e7o do tratamento de 1995.<\/p>\n<p>Para McGovern, a corrida atual para desenvolver uma vacina COVID-19 levanta quest\u00f5es semelhantes de acessibilidade: \u201cdigamos que recebamos uma vacina que funcione &#8211; quem ser\u00e1 imunizado? Como podemos ter certeza de que haver\u00e1 igualdade na distribui\u00e7\u00e3o?\u201d Perguntou McGovern. Ela teme que, devido ao hist\u00f3rico de experi\u00eancias m\u00e9dicas com negros americanos, muitas comunidades carentes possam considerar a vacina suspeita. \u201cVamos precisar de l\u00edderes de sa\u00fade p\u00fablica que conhe\u00e7am as caracter\u00edsticas das comunidades e que contem com a confian\u00e7a das pessoas.\u201d<\/p>\n<h4>Raz\u00f5es para ter esperan\u00e7a<\/h4>\n<p>Finklestein passou os \u00faltimos meses servindo no comit\u00ea organizador do Free the Vaccine for COVID-19, um coletivo internacional de artistas, estudantes e profissionais da \u00e1rea m\u00e9dica que lutam para garantir a distribui\u00e7\u00e3o equitativa de uma vacina COVID. Enquanto a comunidade global luta com um futuro incerto, ele acredita que \u00e9 decisivo estudar os movimentos sociais do passado em toda a sua complexidade.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria da ACT UP pode ser descrita como: uma comunidade que, agindo solidariamente em seu pr\u00f3priointeresse, protestou, e isso levou ao lan\u00e7amento de drogas que acabaram colocando a AIDS na posi\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a cr\u00f4nica\u201d, disse ele. \u201cNa realidade, a hist\u00f3ria \u00e9 muito maior, perturbadora e complexa do que isso. Mas conv\u00e9m ao capitalismo contar sua vers\u00e3o, porque indica que o sistema funciona\u201d.<\/p>\n<p>O que muitas vezes fica de fora da hist\u00f3ria \u00e9 que o lan\u00e7amento acelerado de medicamentos para a AIDS andou de m\u00e3os dadas com o movimento de direita pela desregulamenta\u00e7\u00e3o durante a era Reagan. \u201cOs medicamentos que salvam vidas foram apressados por consequencia do ACT UP\u201d, disse Finklestein. \u201cMas se voc\u00ea pensar nisso no contexto, as pessoas estavam pedindo uma libera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de medicamentos, e as empresas farmac\u00eauticas adoram isso.\u201d<\/p>\n<p>Ainda assim, Finklestein acredita que h\u00e1 motivos para ter esperan\u00e7a &#8211; entre eles, os levantes em todo o mundo ap\u00f3s o assassinato de George Floyd. \u201cPode ser um reflexo do meu pr\u00f3prio privil\u00e9gio dizer que considero este momento de resist\u00eancia nos EUA inspirador, quando tantas pessoas est\u00e3o sofrendo e morrendo, mas \u00e9 inspirador\u201d, disse ele. \u201cAssistir a este momento pol\u00edtico \u00e9 como uma aula magistral de organiza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>McGovern tamb\u00e9m ficou comovido com os protestos. \u201cO que eu adorei no ACT UP \u00e9 que estava cheio de artistas\u201d, disse ela. \u201cE tem havido uma criatividade incr\u00edvel em todo o movimento <em>Black Lives Matter<\/em> -Vidas Negras Importam. Ent\u00e3o, eu diria que o ativismo est\u00e1 vivo e bem, apenas est\u00e1 tomando uma forma diferente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Traduzido do ingl\u00eas por Magui A. Vallim \/ Revisado por Elisa Dias da Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Mais de 30 anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power), suas a\u00e7\u00f5es ousadas em resposta \u00e0 crise da AIDS oferecem li\u00e7\u00f5es fundamentais aos que se mobilizam para agir frente \u00e0 COVID-19. &nbsp; Por Loretta&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":545,"featured_media":1212930,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42,1253],"tags":[70574,72401,7110],"class_list":["post-1218593","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-internacional-2","category-saude","tag-aids-pt-pt","tag-covid-19-pt-pt","tag-vacina"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O que os ativistas que lutaram na crise da AIDS podem nos ensinar sobre organiza\u00e7\u00e3o em uma pandemia<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"&nbsp; 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