{"id":1210688,"date":"2020-10-06T21:40:22","date_gmt":"2020-10-06T20:40:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1210688"},"modified":"2020-10-06T21:40:22","modified_gmt":"2020-10-06T20:40:22","slug":"as-palavras-mais-chavistas-para-a-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/10\/as-palavras-mais-chavistas-para-a-venezuela\/","title":{"rendered":"As palavras mais chavistas para a Venezuela"},"content":{"rendered":"<p>Com Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela, ocorreram coisas incr\u00edveis, coisas que jamais esqueceremos nem permitiremos que fiquem no passado. O nascimento de uma esperan\u00e7a gerada-sonhada-reprimida-delirada-ressuscitada durante s\u00e9culos e s\u00e9culos. Uma constitui\u00e7\u00e3o discutida e constru\u00edda por todo o povo, finalmente. A gente humilde que chegou em massa \u00e0s universidades. Os av\u00f4s e as av\u00f3s que, por fim, estudaram. A cultura, que deixou de ser um privil\u00e9gio das elites e voltou da jaula de ouro direto \u00e0 sua casa: ao povo. A alegre derrocada dos mitos dos empregadores e a reinven\u00e7\u00e3o, entre todos, da verdadeira hist\u00f3ria da Venezuela, que sempre se constr\u00f3i partindo de baixo. Mil erros e trope\u00e7\u00f5es, inevit\u00e1veis em qualquer caminho humano, mas, antes de tudo, o amor que se vivia nas ruas e nos cora\u00e7\u00f5es. E o mais lindo do chavismo: o despertar do povo; milh\u00f5es e milh\u00f5es de exclu\u00eddos, an\u00f4nimos, invis\u00edveis, que, pela primeira vez, sentiam que este pa\u00eds \u00e9 deles tamb\u00e9m, que j\u00e1 s\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 levados em considera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m s\u00e3o, definitivamente, os protagonistas de sua hist\u00f3ria desde agora e para sempre. Tantos que sentiram a alegria e o orgulho de serem venezuelanos.<\/p>\n<p>Lembro-me de que Ch\u00e1vez incentivava o seu povo a ler, a duvidar, a pensar de maneira cr\u00edtica, a ser solid\u00e1rio e generoso. Lembro-me do pa\u00eds inteiro como um galinheiro agitado, onde a gente humilde de v\u00e1rios bairros se organizava, estudando, aprendendo e debatendo os destinos da p\u00e1tria. Jamais esqueceremos os rios vermelhos deste povo livre e soberano descendo os morros para interromper a tentativa de golpe contra seu governo e, logo com l\u00e1grimas de alegria, esperando por seu querido Ch\u00e1vez, s\u00e3o e salvo, de volta, de helic\u00f3ptero, ao pal\u00e1cio de Miraflores. Lembro-me tamb\u00e9m de duas senhoras mais velhas que conheci em Puerto Ordaz, que, nas primeiras horas do golpe de 12 de abril de 2002, roubaram um caminh\u00e3o para ir at\u00e9 Caracas resgatar Ch\u00e1vez. Tamb\u00e9m dos camponeses evang\u00e9licos de M\u00e9rida, com os quais passei dias e noites inesquec\u00edveis na sua cooperativa. Eles me falavam das mudan\u00e7as profundas no pa\u00eds e nas suas vidas com as palavras \u201cGra\u00e7as a Deus e a Ch\u00e1vez\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Tampouco esqueceremos como a maioria dos funcion\u00e1rios das embaixadas venezuelanas do mundo, incluindo os do Chile, apoiaram o golpe contra o seu governo e como, junto com a boa gente do Chile \u2013incluindo o escritor Luis Sep\u00falveda\u2013 passamos duas noites com velas em frente da embaixada venezuelana em Santiago esperando por um milagre. Ali soubemos que os milagres realmente existem e que os realizam as pessoas. Depois do milagre, os diplom\u00e1ticos traidores tiveram que voltar para casa, e o \u00fanico que se manteve fiel ao governo e que tamb\u00e9m esteve essas noites conosco voltou a trabalhar na embaixada, j\u00e1 como embaixador. Seu nome \u00e9 V\u00edctor Delgado, um ex-piloto militar e que, durante seu per\u00edodo na embaixada da Venezuela no Chile, se transformou em um verdadeiro territ\u00f3rio do povo, aberto a todo tipo de reuni\u00f5es, encontros, ensaios musicais, apresenta\u00e7\u00f5es teatrais. Meus amigos esquisit\u00f5es, comunistas, humanistas, ecologistas e todo tipo de artistas secund\u00e1rios tinham ali seu asilo e prote\u00e7\u00e3o. Pouco tempo depois, nosso querido companheiro e grande ser humano V\u00edctor Delgado se foi do Chile, expulso pela democracia crist\u00e3 chilena no poder, a maior aliada dos socialistas chilenos e a mesma que conspirou contra Allende. V\u00edctor foi substitu\u00eddo por uma senhora, uma boa diplom\u00e1tica que sabia contornar os problemas pol\u00edticos no Chile, mas suas prioridades, ao que tudo indica, estavam nas butiques da Argentina. Conto isso para definir o contexto em que est\u00e1 o nosso olhar, que \u00e9 e ser\u00e1 a partir dessa Venezuela bolivariana, que sempre defenderemos.<\/p>\n<p>Estive apenas uma vez na Venezuela, por pouco mais de um m\u00eas, entre julho e agosto de 2008, ainda com Ch\u00e1vez, em uma dessas viagens loucas, sem planos nem hor\u00e1rios, para tentar ver, ouvir e entender o m\u00e1ximo que eu pudesse. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela, a imprensa mundial j\u00e1 estava furiosa com as hist\u00f3rias de terror, e eu vinha em caminho por terra a partir da Col\u00f4mbia. Uma Col\u00f4mbia esva\u00edda em sangue por causa da guerra de Uribe, muda de medo; onde Ch\u00e1vez era uma esp\u00e9cie de dem\u00f4nio comunista no \u00e2mbito da m\u00eddia, por\u00e9m, com alguns agravantes. Nesses tempos, a maioria dos venezuelanos vivia muito melhor do que os colombianos, o sal\u00e1rio m\u00ednimo na Venezuela era cerca de 500 d\u00f3lares ao m\u00eas e, quanto mais me aproximava da fronteira venezuelana, menos bobagens que os colombianos diziam sobre Ch\u00e1vez escutava; era a \u00e9poca em que muitos habitantes de C\u00facuta e da regi\u00e3o fronteiri\u00e7a procuravam trabalho na Venezuela e sabiam que falar bem do governo vizinho era perigoso.<\/p>\n<p>Acredito que os tr\u00eas piores problemas que o governo bolivariano herdou dos anteriores s\u00e3o a cultura da viol\u00eancia, a delinqu\u00eancia e a corrup\u00e7\u00e3o, que podem ser visualizadas, de maneira esquem\u00e1tica, como uma \u00fanica besta de tr\u00eas cabe\u00e7as que, ao que parece, \u00e9 imposs\u00edvel de combater separadamente, j\u00e1 que uma pode-se transformar na outra e vice-versa. Com seu pensamento humanista, Ch\u00e1vez considerava que, \u00e0 medida que se resolvem os graves problemas sociais e todos os cidad\u00e3os t\u00eam mais acesso \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, o povo ganha consci\u00eancia cada vez mais, e o problema da delinqu\u00eancia come\u00e7a a diminuir por raz\u00f5es \u00f3bvias. Diferentemente de todos os governos pr\u00e9vios, o de Ch\u00e1vez sempre evitou reprimir os bairros pobres, que, historicamente, sempre foram zona f\u00e9rtil para o desenvolvimento da delinqu\u00eancia de rua.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cada vez mais pr\u00f3xima do fascismo e cada vez melhor financiada a partir do exterior, n\u00e3o s\u00f3 se encarregava de produzir e manter focos de viol\u00eancia em todo o territ\u00f3rio nacional, mas tamb\u00e9m trazia ao pa\u00eds os paramilitares colombianos, ao mesmo tempo em que distribu\u00eda armas e drogas na periferia das cidades com o intuito de promover o caos e desestabilizar o governo. Infelizmente, desde os meus primeiros dias na Venezuela, entendi que as hist\u00f3rias sobre a alt\u00edssima delinqu\u00eancia n\u00e3o eram somente hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Com a corrup\u00e7\u00e3o, aconteceu algo ainda pior. A \u201c Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana\u201d foi formulada a partir de um aparelho estatal elaborado a partir da l\u00f3gica capitalista e justamente com a inten\u00e7\u00e3o de impedir qualquer possibilidade de mudan\u00e7a de fundo. Com a chegada de Ch\u00e1vez ao poder, toda a base social come\u00e7a a entrar em alvoro\u00e7o, na tentativa de reajustar a rela\u00e7\u00e3o entre os cidad\u00e3os e o Estado e, logo de cara, esbarra na burocracia bolivariana, interessada, como qualquer outra burocracia do mundo, em manter o status quo, seu poder e seus privil\u00e9gios, para n\u00e3o ter que reparti-los com os que est\u00e3o embaixo. Diante de um novo poder, como o que Ch\u00e1vez representava, do seu enorme apoio ao povo e do apoio decisivo que recebia das for\u00e7as armadas \u2013 pelo jeito, muito menos rom\u00e2ntico e mais interessado do que nos parecia no princ\u00edpio \u2013\u00a0 e diante das vantagens de estar perto do poder, a velha burocracia do Estado muda de tom sem demora e, com um profundo desprezo pela ideologia chavista e pela gentalha iludida com a revolu\u00e7\u00e3o, ocupa todos os espa\u00e7os do poder dentro do governo.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que essas pessoas, que carregam a corrup\u00e7\u00e3o como parte de sua cultura, desde o come\u00e7o do processo chegam a ser a esmagadora maioria dos funcion\u00e1rios do Estado, camale\u00f5es e oportunistas sem nenhum princ\u00edpio, na realidade, muito contr\u00e1rios a qualquer mudan\u00e7a social (algo que ficou evidente com a rea\u00e7\u00e3o das embaixadas venezuelanas \u00e0 tentativa de golpe em Caracas em 2002, que se precipitaram em reconhecer o regime golpista que durou poucas horas).<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, desconfio que nem Ch\u00e1vez, nem os funcion\u00e1rios honestos do seu governo, muito menos o povo nunca souberam ter o menor controle sobre o Estado, que, mais do que qualquer outra coisa, se dedicou a criar f\u00f3rmulas novas e cada vez mais criativas para roubar. Era um ambiente de caos e carregado de fervor revolucion\u00e1rio, de falta de conhecimento e de profissionalismo dos novos grupos militares, de uma press\u00e3o brutal internacional, de mil cal\u00fanias da m\u00eddia e de um bloqueio norte-americano sempre \u00e0 beira de uma invas\u00e3o. Podemos agregar a isso outros dois fatores: o primeiro, a corrup\u00e7\u00e3o gigantesca no alto comando do ex\u00e9rcito, que recebeu um poder excessivo do governo, talvez para garantir a sua lealdade; e o segundo e talvez o maior dos equ\u00edvocos: Ch\u00e1vez, ao falar do socialismo do s\u00e9culo xxi dentro de um modelo ainda completamente capitalista, repete a pior li\u00e7\u00e3o dos socialismos do s\u00e9culo passado e cria o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) como o partido do governo, uma estrutura pesada e inorg\u00e2nica que aniquila a rica diversidade das for\u00e7as revolucion\u00e1rias genu\u00ednas e se transforma em um \u00edm\u00e3 para oportunistas que aspiram ao poder.<\/p>\n<p>Junto com isso, a sabotagem real das forcas reacion\u00e1rias e fascistas funciona como uma desculpa perfeita para a inefici\u00eancia e a inoper\u00e2ncia das autoridades dos distintos escal\u00f5es. A partir da mesma l\u00f3gica, toda cr\u00edtica aparece como cal\u00fania ou \u201ctrabalho em favor do inimigo\u201d. \u00c9 incr\u00edvel como a verdadeira agress\u00e3o imperialista e a atua\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica de um Estado supostamente revolucion\u00e1rio aferrado ao poder, que evocam todo tipo de slogans e sempre em nome do povo, complementam-se na destrui\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio. \u00c9 bastante \u00f3bvio que qualquer revolu\u00e7\u00e3o anticapitalista \u00e9 impens\u00e1vel se n\u00e3o houver uma mudan\u00e7a profunda do sistema de valores. A corrup\u00e7\u00e3o sempre gira em torno do principal valor do capitalismo, que \u00e9 o dinheiro. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um obst\u00e1culo ou problema no caminho, mas um elemento de um enorme poder destrutivo que intoxica e anula por completo o sentido mais profundo da mudan\u00e7a a que se aspira. A revolu\u00e7\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o antag\u00f4nicas e incompat\u00edveis como o humanismo e o fascismo. Parece que a insuficiente decis\u00e3o ou a capacidade limitada na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio do processo bolivariano desempenharam um papel catastr\u00f3fico no seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Naquela minha viagem pela Venezuela, aconteceram v\u00e1rias coisas que, mais que sinais de alerta, pareciam press\u00e1gios do que viria. Graves, inevit\u00e1veis e n\u00e3o sei se remedi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Eu tinha uma miss\u00e3o em Caracas de um grande amigo, diretor de um importante grupo folcl\u00f3rico chileno, que j\u00e1 fazia tempo queria ir em turn\u00ea musical \u00e0 Venezuela para apoiar e conhecer de perto o processo bolivariano. Ele me deu o contato de um colega e companheiro venezuelano, integrante de um grupo musical revolucion\u00e1rio \u2013eles haviam-se conhecido na Venezuela j\u00e1 fazia d\u00e9cadas, em um ato de solidariedade com o Chile \u2013, e sab\u00edamos que, agora, esse grupo acompanhava as delega\u00e7\u00f5es de Ch\u00e1vez em v\u00e1rias viagens dentro e fora do pa\u00eds. Antes de tudo, fiquei muito impressionado com o carro do \u201cm\u00fasico do povo\u201d: no Chile, esse era o tipo de carro de grandes empres\u00e1rios ou de traficantes. Ele expressou a sua surpresa sobre o meu hotel em Caracas, que n\u00e3o tinha a quantidade de estrelas dos hot\u00e9is que ele costumava visitar; tamb\u00e9m me impressionaram as grandes correntes de ouro nas m\u00e3os, no pesco\u00e7o e sua apar\u00eancia geral. Enquanto tom\u00e1vamos caf\u00e9 e discut\u00edamos sobre as possibilidades da turn\u00ea do grupo chileno, diante da sua pergunta de cortesia sobre o que tinha achado da Venezuela, tive o desatino de responder-lhe que me preocupavam os n\u00edveis da corrup\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00e3o mentiras do inimigo\u201d, disseram-me, e me senti bastante est\u00fapido. Nem preciso dizer que a turn\u00ea jamais se materializou.<\/p>\n<p>Na cidade de Carora, Estado de Lara, conheci um dirigente social fant\u00e1stico, adorado por todos os vizinhos, um grande batalhador pelas mudan\u00e7as desde os tempos em que ningu\u00e9m na Venezuela conhecia Ch\u00e1vez. Antes das elei\u00e7\u00f5es locais, o rec\u00e9m-criado PSUV praticamente o obrigou a retirar sua candidatura para deixar o caminho aberto para um desconhecido, mas que era da bancada do partido.<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios do partido ofereciam coisas a pre\u00e7os preferenciais a quem votasse por seus candidatos. Em Barquisimeto, um companheiro, antigo lutador social que conhece todas as pris\u00f5es do pa\u00eds, que trabalhava em apoio \u00e0s iniciativas do governo dia e noite, por pura convic\u00e7\u00e3o e de forma totalmente volunt\u00e1ria, mostrou-me uma mensagem que havia chegado de uma autoridade regional ao seu celular: \u201cPara o evento X do partido, precisamos de 10.000 no est\u00e1dio. Quanto \u00e9?\u201d.<\/p>\n<p>Durante os primeiros minutos do meu passeio pelo famoso Boulevard da Sabana Grande, no cora\u00e7\u00e3o de Caracas, fui assaltado pelos policiais que pegavam os turistas estrangeiros para extorquir-lhes dinheiro. Eles inventavam acusa\u00e7\u00f5es absurdas, amea\u00e7avam com pris\u00e3o e deporta\u00e7\u00e3o e, finalmente, pediam \u201ccem d\u00f3lares para terminar tudo como amigos\u201d. Eu vinha chegando de zonas n\u00e3o tur\u00edsticas da Col\u00f4mbia, cidadezinhas do Choc\u00f3 que estavam sob controle paramilitar e, para mim, chegar \u00e0 Venezuela significava cruzar do territ\u00f3rio inimigo para o \u201cnosso lado\u201d. Portanto, diante dessa oferta de \u201camizade\u201d, perdi a cabe\u00e7a, acabei insultando os delinquentes uniformados, menti que sou um jornalista internacional importante convidado por grandes amigos no governo e que, se n\u00e3o me deixassem em paz imediatamente, os\u00a0 nomes deles e os dos chefes apareceriam no dia seguinte nas manchetes da imprensa mundial como traidores da p\u00e1tria e c\u00famplices do imp\u00e9rio. A minha loucura surtiu efeito, e eles me deixaram ir, por\u00e9m, nesse dia, acabou a minha vontade de continuar o passeio.<\/p>\n<p>Depois de tantas hist\u00f3rias sobre aquela viagem, muita \u00e1gua correu. A morte de Ch\u00e1vez, a elei\u00e7\u00e3o de Maduro, quem, naquela estranha e fat\u00eddica noite de uma longa apura\u00e7\u00e3o de votos, parecia n\u00e3o acreditar no seu triunfo, e suas palavras de vencedor mais soavam a uma derrota. Sua promessa irrespons\u00e1vel e v\u00e3 de investigar as causas do c\u00e2ncer de Ch\u00e1vez, \u201cinculcado\u201d pelo inimigo. O mais cafona dos seus discursos sobre o passarinho miudinho \u201cque pode ser nosso comandante Ch\u00e1vez\u201d. Sua claramente desastrosa e improvisada gest\u00e3o da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que se seguia agravando&#8230;<\/p>\n<p>Deixemos de lado o discurso classista de alguns sobre \u201co chofer que governa\u201d, tenhamos em conta a press\u00e3o internacional brutal com o roubo dos bens do Estado venezuelano nos Estados Unidos e na Europa e as incurs\u00f5es armadas dos mercen\u00e1rios que, a partir da Col\u00f4mbia, mantenhamos o benef\u00edcio da d\u00favida, considerando que a pol\u00edtica \u00e9 a arte do poss\u00edvel dentro de um contexto t\u00e3o ca\u00f3tico, manipulado e complexo como o venezuelano&#8230; Conservando uma respeitosa dist\u00e2ncia, sempre entendia a tarefa do governo de Maduro como algo extremamente dif\u00edcil e, principalmente, devido ao meu grande respeito para com os homens e mulheres que, apesar de tudo, lutam pelo sonho bolivariano, sentia que qualquer opini\u00e3o cr\u00edtica que viesse da minha distante comodidade simplesmente n\u00e3o tinha valor.<\/p>\n<p>Mas, gra\u00e7as \u00e0s noticias que t\u00eam chegado ultimamente, mudei de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata dos relat\u00f3rios da ONU, manipulados pelos poderes mundiais e elaborados por figuras sem credibilidade. Tampouco se trata das interpreta\u00e7\u00f5es da imprensa: sabemos bem o que os grandes meios procuram ao publicar sobre a Venezuela. Para os seus donos, \u00e9 vital demonstrar que todas as tentativas de sair do capitalismo levam-nos, inexoravelmente, aos Gulags, \u00e0s Chernobis, \u00e0s torturas e \u00e0s execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, podemos dar-nos ao luxo de n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o neles.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, por\u00e9m, trata-se da informa\u00e7\u00e3o que chega da Venezuela, proveniente das pessoas e das organiza\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dos nossos.<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, o ponto de n\u00e3o retorno do governo de Nicol\u00e1s Maduro come\u00e7a com a cria\u00e7\u00e3o do comando da Pol\u00edcia Nacional Bolivariana, chamado de For\u00e7as de A\u00e7\u00f5es Especiais (FAES) em abril de 2016. Seu objetivo era combater a delinqu\u00eancia organizada que j\u00e1 era quase dona das ruas e dos bairros do pa\u00eds a essas alturas. Parecia uma medida dr\u00e1stica e desesperada que, ao substituir o humanismo ing\u00eanuo de Ch\u00e1vez, apostava pelo terror contra as quadrilhas que atuavam impunemente at\u00e9 aquele momento. O logotipo das FAES, uma caveira disforme, reflete muito bem o prop\u00f3sito do comando. Tenho a impress\u00e3o de que uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o venezuelana\u00a0 \u2013chavistas e n\u00e3o chavistas, todos cansad\u00edssimos da extrema delinqu\u00eancia cotidiana\u2013 guiada pelo medo, aceitou bem essa not\u00edcia.<\/p>\n<p>Assim, o governo, que se diz bolivariano e revolucion\u00e1rio, escolhe um mecanismo terrorista, sem d\u00favida bastante eficiente e muito utilizado pela maioria dos governos de direita do continente contra a delinqu\u00eancia dos pobres. Dentro das institui\u00e7\u00f5es corruptas de um governo corrupto, as FAES entram nos bairros populares e come\u00e7am a trabalhar por conta pr\u00f3pria em grande medida, com um poder quase ilimitado e com a mesma l\u00f3gica dos esquadr\u00f5es da morte nos pa\u00edses vizinhos: atacam e abatem todos os delinquentes e os suspeitos, praticam execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e montagens policiais, dessa maneira, espalham o horror ao redor. E, como a atua\u00e7\u00e3o das FAES logrou reduzir a delinqu\u00eancia de rua em pouco tempo, sua conduta fora da lei, a princ\u00edpio, preocupa somente alguns poucos. Psicologicamente, repetem-se na Venezuela as situa\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia de Uribe ou do Brasil de Bolsonaro, onde um eleitorado que se sente desprotegido e cansado da debilidade do Estado diante da delinqu\u00eancia aposta na m\u00e3o de ferro, sem dar import\u00e2ncia aos \u201cexcessos\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o problema, aqui, n\u00e3o s\u00e3o somente os \u201cexcessos\u201d. Dentro de um sistema de poder totalmente corrupto e preocupado em n\u00e3o abrir m\u00e3o dele, custe o que custar, qualquer guerra contra a delinqu\u00eancia se converte, irremediavelmente, em uma contra o povo. Se Ch\u00e1vez sempre apostava pela mais ampla participa\u00e7\u00e3o popular, livre e sem medos, aqueles que falam hoje em nome do chavismo e do povo a partir de cima apostam no medo e no sil\u00eancio. Enquanto uns mercen\u00e1rios, como Guaid\u00f3, continuam livres e impunes, e outros recebem indultos do Executivo, dentro das suas t\u00e1ticas pol\u00edticas desconexas e incompreens\u00edveis, v\u00e1rios cr\u00edticos do governo do lado do chavismo s\u00e3o intimidados, encarcerados ou assassinados pelos \u00f3rg\u00e3os de um Estado que se diz revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A burocracia corrupta que sequestrou a revolu\u00e7\u00e3o entende que o \u00fanico perigo real para seu poder n\u00e3o vem do seu advers\u00e1rio pol\u00edtico declarado \u00ad\u2013 a direita fascista que chega a ser sua s\u00f3cia em muitas manobras econ\u00f4micas \u2013, mas dos revolucion\u00e1rios coerentes, que questionam a atua\u00e7\u00e3o do governo a partir da \u00e9tica do chavismo.<\/p>\n<p>E se as v\u00edtimas das FAES fossem somente os advers\u00e1rios pol\u00edticos? E se unicamente retirassem das suas casas e assassinassem sem julgamento os ladr\u00f5es e os assaltantes? Torturar os malvados para o bem de todos os bons \u00e9 parte da nova moral revolucion\u00e1ria? Ficar\u00edamos calados? Com que moral criticaremos o paramilitarismo na Col\u00f4mbia a partir de hoje? Ao silenciar sobre as execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias na Venezuela?<\/p>\n<p>Os defensores do governo ir\u00e3o certamente falar (como de costume) da interfer\u00eancia externa e da impossibilidade de controlar tudo o ocorre dentro de um contexto t\u00e3o complexo. Talvez n\u00e3o compreendam que esse discurso coincide quase completamente com os dos regimes de ultradireita, que justificam os brutais crimes das suas forcas de seguran\u00e7a com a \u201cagress\u00e3o do comunismo internacional\u201d e a \u201csubvers\u00e3o interna\u201d. Mais que os crimes dos seus \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, impressiona a clara indiferen\u00e7a do governo venezuelano a respeito ao tema. Minha \u00fanica aprecia\u00e7\u00e3o sobre essa indiferen\u00e7a \u00e9: a cumplicidade. Tamb\u00e9m podemos agregar a isso o discurso de que \u201cagora, primeiro, temos que nos defender da agress\u00e3o externa; os problemas da corrup\u00e7\u00e3o e dos abusos de poder, resolvemo-los depois\u201d, como uma postura ideal para defender os interesses dos corruptos.<\/p>\n<p>Todo governo, n\u00e3o importa qual seja sua tend\u00eancia pol\u00edtica, \u00e9 o principal respons\u00e1vel pelas a\u00e7\u00f5es das suas for\u00e7as de ordem. Entendo um projeto anticapitalista revolucion\u00e1rio somente como algo inspirado em uma profunda sensibilidade humanista. Creio que, a partir desta sensibilidade, nem um \u00fanico caso de tortura nas pris\u00f5es nem de execu\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias s\u00e3o toler\u00e1veis. Um s\u00f3 caso deveria bastar para que, desde o mais alto n\u00edvel do governo e da maneira mais dr\u00e1stica poss\u00edvel, primeiro se ofere\u00e7am ao povo (chavista e n\u00e3o chavista) as mais sinceras desculpas p\u00fablicas e imediatamente um \u201cnunca mais\u201d. N\u00e3o reagir ou reagir com demora ou de maneira incompleta significa ser c\u00famplice.<\/p>\n<p>Carlos Lanz, especialista em guerras n\u00e3o convencionais e um dos intelectuais revolucion\u00e1rios mais coerentes e l\u00facidos do pa\u00eds, desaparece estranhamente de sua casa em Maracay, no dia 8 de agosto deste ano. O governo, que se gaba de ter servi\u00e7os de intelig\u00eancia capazes de infiltrar nas organiza\u00e7\u00f5es terroristas nos Estados Unidos e na Col\u00f4mbia, que perseguiu e capturou mercen\u00e1rios em todo o territ\u00f3rio venezuelano nos \u00faltimos meses, responde com uma clara demora, e, agora, um m\u00eas e meio depois do sequestro pol\u00edtico de Carlos Lanz, \u00e9 incapaz de apresentar qualquer resultado da sua busca. N\u00e3o podemos acusar a ningu\u00e9m pelo momento, mas a resposta tardia e d\u00e9bil do governo n\u00e3o \u00e9, claro, o que Carlos Lanz merecia. Sua busca atual, mais do que uma prioridade do governo, passa a ser uma tarefa cada vez mais para sua fam\u00edlia, amigos, ativistas e organiza\u00e7\u00f5es sociais, que pouco ou nada t\u00eam a ver com as estruturas do poder.<\/p>\n<p>No \u00faltimo 22 de agosto, Andr\u00e9s Eloy Nieves Zacar\u00edas e V\u00edctor Torres, dois jovens jornalistas venezuelanos do canal Guacamaya TV, do Estado de Zulia, ambos chavistas, foram assassinados em uma opera\u00e7\u00e3o das FAES. As FAES os descreveram como \u201cdelinquentes mortos em uma confronta\u00e7\u00e3o\u201d. Gra\u00e7as \u00e0 rea\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e oportuna da comunidade, a montagem policial foi comprovada, e o motivo do crime, ao que tudo indica, foi o roubo dos equipamentos de televis\u00e3o. H\u00e1 nove agentes das FAES detidos.<\/p>\n<p>Outros dois jovens chavistas, Aryenis Torrealba e Alfredo Chirinos, engenheiros, trabalhadores da PDVSA (empresa petrol\u00edfera estatal), foram detidos pela Dire\u00e7\u00e3o Geral da Contraintelig\u00eancia Militar (DGCIM) no dia 28 de fevereiro de 2020, depois de denunciarem circunst\u00e2ncias escandalosas de corrup\u00e7\u00e3o dos seus chefes. O Ministro do Interior, N\u00e9stor Reverol, garantiu que s\u00e3o traidores da p\u00e1tria e que passavam informa\u00e7\u00f5es para a intelig\u00eancia dos Estados Unidos. Sofreram torturas. V\u00e1rios movimentos sociais venezuelanos exigem sua libera\u00e7\u00e3o, mas at\u00e9 agora n\u00e3o obtiveram sucesso. H\u00e1 poucos dias, as acusa\u00e7\u00f5es de trai\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria foram retiradas depois de uma forte press\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>O professor Jos\u00e9 Carmelo Bislick Acosta, destacado revolucion\u00e1rio da cidade de Guiria (Estado de Sucre), que, constantemente, denunciava o tr\u00e1fico de gasolina e a corrup\u00e7\u00e3o das autoridades, foi sequestrado na sua casa no dia 17 de agosto de 2020 por v\u00e1rios indiv\u00edduos encapu\u00e7ados e rapidamente assassinado depois de sofrer torturas monstruosas. At\u00e9 hoje, n\u00e3o se fez nada para esclarecer o crime.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, em 17 de setembro deste ano, no Estado de Apure, as FAES invadiram a propriedade do Partido Comunista da Venezuela e concorrente do PSUV. O objetivo era amedrontar Franklin Gonz\u00e1lez, candidato da Alternativa Popular Revolucion\u00e1ria para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Isso, al\u00e9m de v\u00e1rios ataques, provoca\u00e7\u00f5es, agress\u00f5es e amea\u00e7as nos \u00faltimos dias contra os dirigentes comunistas por parte de agentes do Estado e de grupos pr\u00f3-governo em Caracas, Valencia, Bol\u00edvar, Miranda e outras partes do pa\u00eds. Al\u00e9m do Partido Comunista, outras organiza\u00e7\u00f5es da esquerda venezuelana est\u00e3o sendo atacadas e amea\u00e7adas pelo governo e por suas for\u00e7as de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Tudo isso junto com os chamados para \u201cn\u00e3o dividir o chavismo\u201d e \u201cmanter a unidade revolucion\u00e1ria\u201d. Talvez o discurso mais honesto do poder devesse soar algo assim como \u201cAjudem-nos porque, se perdermos, os que vir\u00e3o depois v\u00e3o persegui-los e mata-los muito mais do que a gente\u201d.<\/p>\n<p>As FAES, \u00e0 semelhan\u00e7a dos seus colegas brasileiros, colombianos ou hondurenhos, repetem o conhecido paradigma racista latino e norte-americano e matam mais que todos os pardos, os negros e os pobres; os mais indefesos econ\u00f4mica e juridicamente e sempre sob a suspeita de serem delinquentes.<\/p>\n<p>Esse belo galinheiro agitado por Ch\u00e1vez j\u00e1 \u00e9 coisa do passado. Um passado em que as periferias mais pobres se sentiram dignas e importantes finalmente; quando elas estavam dispostas a morrer defendendo seu governo at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s. E \u00e9 tamb\u00e9m em nome de um governo, que assegura ser chavista, que homens encapu\u00e7ados, com a caveira como ins\u00edgnia e que trabalham a ferro e fogo, devolvem os pobres ao seu lugar de sempre.<\/p>\n<p>Poder\u00e3o nos dizer que todos os processos revolucion\u00e1rios apresentam seus desgastes e seus revezes. Isso bem pode ser certo, e acrescentamos que tamb\u00e9m podem ter seus pontos de n\u00e3o retorno. Foi o que sucedeu no caso da linda revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense quando os dirigentes sandinistas, ao perder uma elei\u00e7\u00e3o, repartiram, atrav\u00e9s da famosa \u201cpinhata\u201d, as propriedades da ditadura somozista, expropriadas uma vez, depois da revolu\u00e7\u00e3o, para o povo. E, sob a mesma bandeira da mil vezes heroica Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, come\u00e7aram a fazer novas alian\u00e7as com a direita e a perseguir seus ex-companheiros que os acusavam de trai\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que a revolu\u00e7\u00e3o cubana, muito mais antiga que a nicaraguense ou a venezuelana, a que se encontra muito mais pr\u00f3xima do imp\u00e9rio, a que desde sempre teve talvez mais problemas do que qualquer outra revolu\u00e7\u00e3o do hemisf\u00e9rio e que depois de cometer todos os erros do mundo, conseguiu evitar os horrores e ainda n\u00e3o tem nem um s\u00f3 executado extrajudicialmente, preso desaparecido ou torturado? N\u00e3o ser\u00e1 esse o verdadeiro segredo da sua longa vida e da sua infinita capacidade para resistir?<\/p>\n<p>Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de Stalin, havia o ditado: \u201c Quando cortam a floresta, as farpas voam\u201d. Se n\u00e3o se compreende, a floresta, segundo a vis\u00e3o stalinista, eram os \u201cinimigos do povo\u201d, e as farpas, as v\u00edtimas inocentes.<\/p>\n<p>Sempre quis pensar que, ao falar das revolu\u00e7\u00f5es anticapitalistas deste novo s\u00e9culo, todos poder\u00edamos partir de algum aprendizado do passado.<\/p>\n<p>O mais duro do final do s\u00e9culo xx foi a queda de quase todos os \u201csocialismos reais\u201d, que, evidentemente, ficaram reprovados na prova de hist\u00f3ria. Fora das opera\u00e7\u00f5es encobertas da CIA e de outras organiza\u00e7\u00f5es inimigas, fora das eternas press\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es e intromiss\u00f5es dos governos imperialistas do mundo \u2013 fatos absolutamente reais que s\u00e3o uma constante e, inclusive, uma obviedade, h\u00e1 algo que enfraqueceu por dentro essas sociedades alternativas ao capitalismo. Algo que foi a principal causa da sua ru\u00edna. Acredito que foi a falta de um verdadeiro poder do povo e um excesso do poder das burocracias que sempre tendem a parasitar o organismo do Estado at\u00e9 lev\u00e1-lo \u00e0 inani\u00e7\u00e3o e que sempre nos falam em nome do povo. Nenhum verdadeiro poder do povo jamais vai se referir \u00e0s pessoas como as \u201cfarpas\u201d, muito menos ver\u00e1 as massas humanas como um material de constru\u00e7\u00e3o. Acho que o principal ensinamento do passado \u00e9 que os fins e os meios sempre s\u00e3o os mesmos.<\/p>\n<p>Por isso, atualmente sinto tanta vergonha da postura de tantas esquerdas que n\u00e3o fazem mais do que justificar seus sil\u00eancios e omiss\u00f5es atrav\u00e9s das \u201cconjunturas\u201d e \u201cconveni\u00eancias\u201d. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ensinavam-nos a n\u00e3o criticar o governo para \u201c n\u00e3o dar argumentos para o inimigo\u201d. Assim aprendemos a ser hip\u00f3critas. Dessa mesma maneira, perdemos um maravilhoso pa\u00eds onde um governo, que se afastava cada vez mais do seu povo e da realidade, com um discurso triunfalista e demag\u00f3gico, nunca foi capaz de descobrir e de atender a tempo os problemas reais do seu povo. Exatamente por isso temos agora, em vez das 15 rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas socialistas, os 15 Estados semicoloniais, dilacerados por guerras e por ditaduras, que competem entre si no seu n\u00edvel de anticomunismo e na constru\u00e7\u00e3o dos seus capitalismos terceiro-mundistas.<\/p>\n<p>E, a respeito das conveni\u00eancias e das conjunturas, entendo que talvez o \u00fanico aspecto que diferencia completamente os revolucion\u00e1rios dos demais \u00e9 a sua nega\u00e7\u00e3o em procurarem ou em seguirem as precau\u00e7\u00f5es, conjunturas ou conveni\u00eancias, mas serem capazes de construir junto com outros, nos momentos mais loucos e inoportunos da hist\u00f3ria, as novas realidades que outras conjunturas v\u00e3o impor ao mundo, mais interessantes e com mais possibilidades para todos.<\/p>\n<p>Como nos sentiremos se os Estados Unidos invadirem a Venezuela e a ultradireita venezuelana realizar seu sonho de d\u00e9cadas desencadeando um banho de sangue? Muito mal, certamente. Por\u00e9m, n\u00e3o como c\u00famplices daqueles que sequestraram o sonho mais lindo que seu povo teve alguma vez.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Traduzido por Gra\u00e7a Pinheiro \/ Revisado por Claudionor Aparecido\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela, ocorreram coisas incr\u00edveis, coisas que jamais esqueceremos nem permitiremos que fiquem no passado. O nascimento de uma esperan\u00e7a gerada-sonhada-reprimida-delirada-ressuscitada durante s\u00e9culos e s\u00e9culos. Uma constitui\u00e7\u00e3o discutida e constru\u00edda por todo o povo, finalmente. 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