{"id":1209060,"date":"2020-10-04T03:51:55","date_gmt":"2020-10-04T02:51:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1209060"},"modified":"2020-10-03T23:29:43","modified_gmt":"2020-10-03T22:29:43","slug":"do-alicerce-a-laje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/10\/do-alicerce-a-laje\/","title":{"rendered":"Do alicerce a laje\u00a0"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">RELATO<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por<strong> Alfredo Soares<\/strong><\/em>*<\/p>\n<p>A casa ainda era de ch\u00e3o, mas a necessidade nos obrigou\u00a0\u00a0a morar l\u00e1 no alto da rua do Jardim Pinheiros \u2013 esse era o nome da rua que depois se chamaria\u00a0\u00a0Jose Rabelo \u2013 logo que papai e mam\u00e3e conseguiram colocar a laje, num mutir\u00e3o que reuniu os amigos de papai, numa empreitada regada a muito p\u00e3o com mortadela, nos mudamos \u2013 n\u00e3o me lembro onde morei antes.<\/p>\n<p>Na subida da rua tinha duas arauc\u00e1rias que geravam pinh\u00f5es que cat\u00e1vamos pra comer at\u00e9 n\u00e3o aguentar mais. Minha\u00a0\u00a0m\u00e3e\u00a0\u00a0cozinhava num fog\u00e3o \u00e0 lenha.\u00a0\u00a0Mas, voltando a falar dos perrengues, pra termos acesso a rua sub\u00edamos uma escada \u00edngreme de ch\u00e3o. Quando chovia escorregava e, \u00e0s vezes, desmoronava. Quando fazia sol desliz\u00e1vamos, caso a pressa fosse maior do que a prud\u00eancia. Eu, moleque pequeno, n\u00e3o ligava muito para as orienta\u00e7\u00f5es dos meus pais, neste sentido. Vivia capotando escada abaixo. Canela ru\u00e7a e ralada, aprendi a saltar os degraus mais perigosos tanto quando subia ou descia pra casa, que ficava num declive bem no meio do morro. As terras ali pertenciam \u00e0 antiga fazenda Pimenteiras. Papai e Tio H\u00e9lio, juntamente com V\u00f4 Z\u00e9 e V\u00f3 Vita, se juntaram e compraram o lote de \u201ca meia\u201d. Meu pai fez a nossa casa num plat\u00f4 mais baixo em rela\u00e7\u00e3o a casa de cima. Desta forma, imagino, poderiam aproveitar melhor o terreno.<\/p>\n<p>Na casa de cima, que na verdade ficava a direita da de baixo, portanto ao lado, morava, al\u00e9m de dos meus av\u00f3s paternos, Tio H\u00e9lio, tia Lenir, Z\u00e9 Carlos (tio) e meu Bisav\u00f4 Jo\u00e3o Mundica, uma figura de um humor \u00fanico. V\u00f3 Vita era do lar, os rapazes trabalhavam, bem como tia Lenir. Aos domingos minha v\u00f3 tinha o h\u00e1bito de fazer galinha para o almo\u00e7o. Normalmente eu, Z\u00e9 Carlos e depois Lu\u00eds Carlos, meu primo, t\u00ednhamos a miss\u00e3o de ir buscar na granja, que ficava na Rua Dr. Oliveira, a principal via da Barra do Imbu\u00ed, o galin\u00e1ceo vivo amarrado pelos p\u00e9s. De vez em quando ou quase sempre, lev\u00e1vamos umas bicadas pelo caminho. Vov\u00f3 era exigente e se o bicho estivesse com g\u00f4go (uma esp\u00e9cie de coriza que d\u00e1 em aves) t\u00ednhamos que voltar \u00e0 granja pra trocar. Mas, duro era participar da decapta\u00e7\u00e3o da ave, fosse frango ou galo. Quantas vezes corri dessa miss\u00e3o. Vov\u00f3, depois de matar recolhia o sangue pra fazer ao molho pardo, mas tamb\u00e9m fazia \u00e0 cabidela, com quiabo ou assada no forno do fog\u00e3o Dako que tia Lenir comprara, com dinheiro do sal\u00e1rio que recebi da loja de cortinas do Joel. Mas o mais comum era fazer ao molho pardo mesmo e ali emergia o falecido numa panela de \u00e1gua fervendo pra depenar, com a m\u00e3o, arrancando pena ap\u00f3s pena. Era um ritual que quase impedia a gente de almo\u00e7ar. Mas a fome sempre ganhava. Assustados fic\u00e1vamos quando ouv\u00edamos o abate dos porcos. Por sorte n\u00e3o \u00e9ramos chamados a ajudar.<\/p>\n<p>Nessas manh\u00e3s dominicais ela tinha em tia Lenir sua principal ajudante. Tia Lenir era a melhor tia do mundo, na nossa vis\u00e3o de crian\u00e7a. Aquela que nunca nos deixava sem presente de natal e anivers\u00e1rio. Minha m\u00e3e fazia nosso almo\u00e7o l\u00e1 em casa, mas eu sempre beliscava o que Dona Vita fazia. Os dias iam passando e logo tio H\u00e9lio fez sua casa por cima da casa do v\u00f4 Z\u00e9 e v\u00f3 Vita. A casa ficou por muito tempo inacabada. Ela s\u00f3 veio ficar pronta quando ele resolveu se casar com tia Creuza. Ele morou embaixo enquanto deu, mas tia Lenir casou com tio Carlinhos e logo veio Anderson e depois Emerson, Shirlei nasceu por \u00faltimo. A casa j\u00e1 n\u00e3o comportava tanta gente. No meio dessas chegadas v\u00f4 Z\u00e9 foi embora antes de v\u00f4 Jo\u00e3o. Tia Lenir foi morar longe com sua fam\u00edlia e n\u00f3s ficamos ali vendo nossos pais fazerem um esfor\u00e7o grande pra nos criar da melhor maneira poss\u00edvel. A vida era dura. Mas as crian\u00e7as eram imensamente felizes. Brinc\u00e1vamos de tudo naquela ladeira da minha inf\u00e2ncia. A nossa rede social era mais rica do que a temos hoje. Vendo que precisava arrega\u00e7ar as mangas pra ajudar meu pai, Ti\u00e3o Z\u00e9, nossa m\u00e3e, Ledilce, que tamb\u00e9m\u00a0\u00a0tinha o apelido de Mocinha, resolveu voltar a trabalhar\u00a0\u00a0em casa de fam\u00edlia. Ela ia todas as manh\u00e3s l\u00e1 para os lados do Alto. Eu fazia um esc\u00e2ndalo com saia para esses afazeres. Seus patr\u00f5es, mais frequentes,\u00a0\u00a0eram Dona Lurdes e seu Fernando \u2013 os dois viraram amigos. Mesmo assim a coisas continuavam dif\u00edceis. Foi ent\u00e3o que ela resolveu estudar. Aquilo soou como uma afronta ao meu pai, que de in\u00edcio relutou bastante, incentivado pelos amigos que diziam que suas mulheres n\u00e3o trabalhavam.<\/p>\n<p>A honra de um homem macho era o pouco de tudo que ele podia manter naqueles anos. O dinheiro n\u00e3o dava pra nada. Mas Dona Ledilce, que saiu aos 11 anos de um canavial de Campos, num trem noturno rumo ao Rio de Janeiro, n\u00e3o desistiria f\u00e1cil. Tinhosa pegou Val\u00e9ria, minha irm\u00e3 mais velha, e foi estudar no Campos Sales \u00e0 noite cursando supletivo. Papai, munido de preconceito e provoca\u00e7\u00e3o dos amigos de bar, n\u00e3o conviveu bem com essa novidade por um bom tempo. Mas logo o tempo mostraria a ele que n\u00e3o era preciso temer. Mam\u00e3e come\u00e7ou a trabalhar na prefeitura na \u00e1rea da sa\u00fade. Tia Helena arrumou o servi\u00e7o. Naquele tempo n\u00e3o tinha concurso. Tinha qualifica\u00e7\u00e3o e indica\u00e7\u00e3o. Mam\u00e3e fez curso de t\u00e9cnica de enfermagem e passou a trabalhar no hospital das cl\u00ednicas no Vale do Para\u00edso. Depois foi ser auxiliar de enfermagem nos postos de sa\u00fade da cidade. A gente cresceu tendo, neles, os melhores exemplos de dedica\u00e7\u00e3o e dignidade. O cora\u00e7\u00e3o afastou Seu Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 da carpintaria. Ele teve que se reinventar e assim o fez. Vendeu roupa, foi seguran\u00e7a de obra, abriu uma loja de pe\u00e7as de carro com apoio do tio Rodoval.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de oitenta \u2013 n\u00e3o sei vem bem o ano \u2013 nossa casa foi danificada por uma forte chuva que caiu no ver\u00e3o de Teres\u00f3polis. As ruas alagadas recebiam os entulhos que desciam dos morros. Por pouco a casa n\u00e3o foi junto. Tivemos que nos mudar e passar a pagar aluguel. Eu e Val\u00e9ria j\u00e1 est\u00e1vamos terminando o Segundo Grau no col\u00e9gio Estadual Edmundo Bittencourt e logo ir\u00edamos pra faculdade. Marcia vinha atr\u00e1s com a mesma certeza. Meu pai doente\u00a0\u00a0assistia aquilo com um certo orgulho. O acontecido com a casa nos levou a tomar uma s\u00e9rie de atitudes que fizeram a vida mudar pra melhor. Era Deus escrevendo certo por linhas tortas. Tudo nos fortalecia para o pr\u00f3ximo embate. V\u00f3 Vita viu tudo dar certo de camarote; viveu at\u00e9 os 85 anos. Sua grande dor foi ver papai partir cedo demais. Mas ele foi sabendo que seus filhos estavam no caminho certo. Suas ang\u00fastias ficaram pra tr\u00e1s.\u00a0\u00a0Val\u00e9ria se formou em Letras pela Gama Filho, eu, em jornalismo, na Estacio de S\u00e1 e Marcia, em Psicologia, tamb\u00e9m pela extinta Gama Filho. Todas as Unidades situadas na cidade do Rio de Janeiro. In\u00fameras foram as pessoas que nos acolheram neste sonho estudantil. Agradecer a todos seria imposs\u00edvel. Descer diariamente para o Rio constitu\u00eda uma odisseia di\u00e1ria pra conseguir recursos e manter o foco. Tinha um qu\u00ea de insanidade na gente. Um sangue quente em combust\u00e3o permanente que vinha da jun\u00e7\u00e3o de Ti\u00e3o e Ledilce, v\u00f3 Vita, v\u00f4 Z\u00e9 e Norival e M\u00e3e Maria. O caminho foi sendo pavimentado desde l\u00e1 de tr\u00e1s pelos nossos doces e fortes ancestrais. O que seria da gente sem esses her\u00f3is?<\/p>\n<hr \/>\n<p>* Jornalista, radialista, escritor. Teresopolitano radicalizado em Campos\/RJ. Instagram: alfredosoares49<br \/>\n** Pintor, cartunista e ilustrador. Tamb\u00e9m \u00e9 professor de desenho. <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/d.a_desenhos\/?igshid=3pnm4u7y361t%E2%80%9C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Instagram<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RELATO &nbsp; &nbsp; Por Alfredo Soares* A casa ainda era de ch\u00e3o, mas a necessidade nos obrigou\u00a0\u00a0a morar l\u00e1 no alto da rua do Jardim Pinheiros \u2013 esse era o nome da rua que depois se chamaria\u00a0\u00a0Jose Rabelo \u2013 logo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1685,"featured_media":1209077,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[104,11390,112],"tags":[75238,77214],"class_list":["post-1209060","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-do-sul","category-conteudo-original","category-cultura-pt-pt","tag-caderno-de-cultura","tag-relato-pt-pt"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Do alicerce a laje\u00a0<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"RELATO &nbsp; 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