{"id":120419,"date":"2014-07-20T01:09:06","date_gmt":"2014-07-20T00:09:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pressenza.com\/?p=120419"},"modified":"2014-07-20T01:11:42","modified_gmt":"2014-07-20T00:11:42","slug":"imprensa-renova-instrumentos-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2014\/07\/imprensa-renova-instrumentos-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Imprensa renova instrumentos da ditadura no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Por C\u00e1tia Guimar\u00e3es publicado no <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a><\/p>\n<p>Passaram-se mais de 20 anos, mas a grande imprensa brasileira n\u00e3o desaprendeu o seu papel como bra\u00e7o da ditadura. Os personagens s\u00e3o outros, mas aqueles velhos instrumentos que ajudam a explicar por que se fere a democracia em nome da pr\u00f3pria democracia estiveram sempre guardados e continuam afiados, exatamente como em 1964. N\u00e3o h\u00e1 maior evid\u00eancia disso do que a cobertura que os grandes jornais fizeram das pris\u00f5es de manifestantes efetuadas no \u00faltimo dia 12\/7, v\u00e9spera da final da Copa do Mundo no Brasil.<\/p>\n<p>Numa a\u00e7\u00e3o orquestrada entre executivo e judici\u00e1rio, foram expedidos 26 mandados de pris\u00e3o tempor\u00e1ria preventiva contra cidad\u00e3os que n\u00e3o cometeram nenhum crime, al\u00e9m de, em algum momento, uns mais, outros menos, terem participado de manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas. Sustentando a acusa\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de quadrilha, a pol\u00edcia civil n\u00e3o teve nenhuma vergonha em declarar que o motivo das pris\u00f5es foi evitar que eles cometessem crimes que se supunha que cometeriam. Mas o que \u00e9 pior: ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e profissionais que julgam fazer jornalismo tamb\u00e9m n\u00e3o tiveram a m\u00ednima vergonha de repetir, de forma naturalizada, n\u00e3o s\u00f3 esse argumento como coisa muito pior.<\/p>\n<p>O principal artif\u00edcio ressuscitado dos tempos da ditadura escancarada foi a cria\u00e7\u00e3o de um inimigo p\u00fablico, aquele cujo perigo justifica toda e qualquer viol\u00eancia e arbitrariedade. Houve muitos durante o regime empresarial-militar. Mas o mais novo inimigo p\u00fablico inventado pelo regime empresarial-falsamente democr\u00e1tico chama-se Elisa Quadros e atende pelo apelido de Sininho. N\u00e3o por acaso, a chamada de quase todos os grandes jornais n\u00e3o informava a pris\u00e3o de dezenas de manifestantes, destacando apenas a situa\u00e7\u00e3o dessa personagem renascida dos por\u00f5es da ditadura. \u201cSininho \u00e9 presa por forma\u00e7\u00e3o de quadrilha\u201d, diz a capa do\u00a0<em>Globo<\/em>\u00a0de domingo, 13\/7. O \u201cresto\u201d aparece embaixo, em letras menores, como uma r\u00e1pida refer\u00eancia a \u201coutras 18 pessoas\u201d.<\/p>\n<p>E isso basta, principalmente porque, tamb\u00e9m como na ditadura expl\u00edcita, a imagem do inimigo p\u00fablico est\u00e1 sempre acompanhada da v\u00edtima a ele atribu\u00edda, direta ou indiretamente. Nesse caso, a v\u00edtima (real, mas de outros algozes, e n\u00e3o me refiro aos que foram presos por este crime), instrumentalizada como carni\u00e7a de urubu, \u00e9 Santiago Andrade, o cinegrafista da Rede Bandeirantes que foi morto por um morteiro em uma manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Aos fatos<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o importa que nem a inimiga p\u00fablica de agora nem nenhum dos outros presos tenha rela\u00e7\u00e3o com a morte: no imagin\u00e1rio cuidadosamente constru\u00eddo, os estere\u00f3tipos d\u00e3o conta das rela\u00e7\u00f5es que a realidade insiste em negar. Foi por isso que o\u00a0<em>Globo<\/em>, al\u00e9m do nome e da foto da inimiga p\u00fablica da vez, tratou de providenciar uma coluna de \u201cmem\u00f3ria\u201d intitulada \u201cOnda de viol\u00eancia acabou em morte\u201d, que lembra exatamente o caso do cinegrafista.<\/p>\n<p>Com isso, todo o resto \u2013 toda a falta de informa\u00e7\u00e3o, todas as falsas evid\u00eancias, todos os argumentos absurdos, toda a vergonha alheia que a entrevista coletiva da c\u00fapula da pol\u00edcia civil no Rio provocou \u2013 pode ser jogado para debaixo do tapete. Trata-se de uma postura consciente por parte do jornal, passiva e conivente por parte dos jornalistas que aceitam ser seus c\u00famplices, e muito eficaz no papel ideol\u00f3gico que desempenha junto \u00e0 massa de leitores ou telespectadores. Junto com o inimigo p\u00fablico, v\u00e3o-se outras dezenas de vidas, vai-se o respeito \u00e0s leis, vai-se a m\u00e1scara do Estado de direito. Se estivesse vivo, talvez Roberto Marinho repetisse os termos do seu editorial de 1984, deixando \u201cclara a sua cren\u00e7a de que a interven\u00e7\u00e3o fora imprescind\u00edvel para a manuten\u00e7\u00e3o da democracia e, depois, para conter a irrup\u00e7\u00e3o da guerrilha urbana\u201d, nome gen\u00e9rico usado, naquele tempo e ainda hoje, para designar o estranho fen\u00f4meno do povo ocupando as ruas.<\/p>\n<p>Sejamos claros: um jornalista que n\u00e3o s\u00f3 aceita como passa adiante a informa\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edcia encontrou provas \u201crobustas e consistentes\u201d de que os prisioneiros cometeriam a\u00e7\u00f5es violentas na final da Copa, sem confrontar os adjetivos com as evid\u00eancias materiais, n\u00e3o vale o diploma nem o crach\u00e1 que exibe, seja ele qual for. Seria c\u00f4mico, se n\u00e3o se estivesse falando de vidas privadas de liberdade, ver um jornal como\u00a0<em>O Dia<\/em>reproduzir, no melhor estilo de narrativa policial, que \u201cos investigadores\u00a0<em>apreenderam<\/em>m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o contra g\u00e1s, joelheiras, um pouco de gasolina dentro de uma garrafa pl\u00e1stica, maconha, jornais e uma bandeira do Movimento Estudantil Popular Revolucion\u00e1rio (MEPR)\u201d. Seria incompet\u00eancia, se n\u00e3o fosse desonestidade, ver um jornal como o\u00a0<em>Globo<\/em>\u00a0escolher, dessa lista no m\u00ednimo constrangedora, os itens que, por exporem um pouco menos o rid\u00edculo da situa\u00e7\u00e3o, mereceriam destaque nas suas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Assim, sobraram as \u201cm\u00e1scaras de g\u00e1s e explosivos, al\u00e9m de computadores e celulares\u201d. Computadores e celulares, como todo mundo sabe, s\u00e3o armas perigos\u00edssimas. M\u00e1scaras que protegem os olhos dos efeitos do g\u00e1s lacrimog\u00eaneo para uso em manifesta\u00e7\u00f5es acompanhadas por uma pol\u00edcia como a do Rio de Janeiro tamb\u00e9m s\u00e3o uma descoberta t\u00edpica das s\u00e9ries de detetives norte-americanas. Sobre o explosivo, esse foi o nome gen\u00e9rico oportunamente encontrado para descrever uma garrafa com gasolina, encontrada n\u00e3o numa mochila no meio da rua ou de uma manifesta\u00e7\u00e3o, mas dentro de uma resid\u00eancia. Nenhum jornal esqueceu de mencionar que as pris\u00f5es em flagrante foram por \u201carma\u201d (ou rev\u00f3lver, dependendo do gosto do jornalista) e \u201cdrogas\u201d.<\/p>\n<p>Pois bem: como foi amplamente divulgado por ve\u00edculos que se disseminam nas redes sociais \u2013 aqueles que os jornalistas da grande imprensa costumam tratar como n\u00e3o-jornal\u00edsticos \u2013, a arma foi encontrada em uma das casas e era do pai do menor em nome de quem estava expedido um dos mandados. Sua licen\u00e7a \u2013 porte de arma \u2013 estava vencida, o que pode gerar outro processo e outra mat\u00e9ria, mas n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a pris\u00e3o que os policiais foram fazer naquela casa. Por fim, as \u201cdrogas\u201d encontradas foram um cigarro de maconha que, como se sabe, pelas propriedades cientificamente conhecidas, deve tornar os manifestantes ainda muito mais violentos. Curiosamente, os jornais esqueceram essa parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A imprensa alternativa que ocupa as redes sociais denunciou desde muito cedo, advogados e pol\u00edticos se pronunciaram, institui\u00e7\u00f5es importantes e reconhecidas da t\u00e3o aclamada democracia, como a OAB, emitiram notas que ganharam espa\u00e7o no p\u00e9 das mat\u00e9rias, apresentadas como manifesta\u00e7\u00e3o de \u201crep\u00fadio\u201d \u00e0s pris\u00f5es, num mero registro protocolar do \u201coutro lado\u201d jornal\u00edstico. A refer\u00eancia ao objetivo evidente de desmobilizar os protestos do dia seguinte \u2013 cujo grau insano de repress\u00e3o e viol\u00eancia s\u00f3 chegou \u00e0s p\u00e1ginas da grande imprensa porque alguns de seus jornalistas foram atingidos \u2013 foi citada de escanteio, como a \u201copini\u00e3o\u201d de alguns, nunca como insumo para se questionarem as fontes oficiais.<\/p>\n<p>Nenhum jornalista ousou fazer (ou nenhum jornal ousou publicar) o m\u00ednimo que se espera de um profissional da informa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 usar os conhecimentos jur\u00eddicos dessas institui\u00e7\u00f5es e seus atores para questionar a legalidade e o fundamento da opera\u00e7\u00e3o policial e os mandados de pris\u00e3o. Ningu\u00e9m investigou e explicou a real funcionalidade e pertin\u00eancia jur\u00eddica de uma pris\u00e3o tempor\u00e1ria de car\u00e1ter preventivo; ningu\u00e9m comparou a precau\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e da justi\u00e7a nessa situa\u00e7\u00e3o com a oposta complac\u00eancia mostrada, dias antes, quando um alvar\u00e1 de soltura expedido no meio da madrugada fez do executivo da empresa ligada \u00e0 Fifa \u2013 cidad\u00e3o ingl\u00eas, sem domic\u00edlio fixo no pa\u00eds e preso com provas muito mais \u201crobustas e consistentes\u201d de forma\u00e7\u00e3o de uma quadrilha de cambistas \u2013 um foragido.<\/p>\n<p><strong>Um consenso em torno da coer\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 cada vez mais concreto o quanto essa no\u00e7\u00e3o abstrata de democracia e o seu correspondente Estado de direito s\u00e3o dois elementos circulares de uma farsa produzida para manter ou estabilizar as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o. Em nome da democracia e do Estado de direito, vale tudo, at\u00e9 ferir a democracia e o Estado de direito, desde que se fa\u00e7a isso atrav\u00e9s de institui\u00e7\u00f5es como a pol\u00edcia, o judici\u00e1rio e a imprensa, que comp\u00f5em o Estado de direito garantidor da democracia. H\u00e1 muito que a tradi\u00e7\u00e3o marxista sabe que a forma assumida pelo Estado \u2013 democracia, ditadura, monarquia&#8230; \u2013 representa varia\u00e7\u00f5es coerentes com a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e o grau de hegemonia vigente em cada local, em cada contexto hist\u00f3rico, mas que, em todas essas situa\u00e7\u00f5es, a fun\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 garantir, com as armas que estiverem dispon\u00edveis, os interesses da classe dominante. Por isso, no capitalismo, a combina\u00e7\u00e3o de mecanismos de coopta\u00e7\u00e3o e consenso nos regimes ditatoriais com mecanismos de viol\u00eancia e coer\u00e7\u00e3o nos contextos democr\u00e1ticos \u00e9 e sempre ser\u00e1 parte do jogo.<\/p>\n<p>Isso se expressa de forma muito direta na grande imprensa que \u00e9, tamb\u00e9m, instrumento da democracia burguesa. Por isso, ela pode pluralizar seus p\u00fablicos, diversificar os colunistas, usar de vez em quando uma imagem produzida por midiativistas, denunciar um senhor aqui, ajudar a prender um policial violento acol\u00e1. Pode at\u00e9 escrever e ler em voz alta um belo editorial de\u00a0<em>mea culpa<\/em>, lamentando seu apoio \u00e0 ditadura encerrada. Mas sempre que for preciso, ela vai afiar as ferramentas, espalhar a poeira, tirar a ferrugem e usar todas as armas de que dispuser para, em nome da democracia, legitimar um consenso em torno da coer\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Est\u00e1 no seu DNA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por C\u00e1tia Guimar\u00e3es publicado no Observat\u00f3rio da Imprensa Passaram-se mais de 20 anos, mas a grande imprensa brasileira n\u00e3o desaprendeu o seu papel como bra\u00e7o da ditadura. 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