{"id":1190481,"date":"2020-09-06T03:51:42","date_gmt":"2020-09-06T02:51:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1190481"},"modified":"2020-09-05T19:35:49","modified_gmt":"2020-09-05T18:35:49","slug":"os-cheiros-das-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/09\/os-cheiros-das-cidades\/","title":{"rendered":"Os aromas das cidades"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CR\u00d4NICA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A esquina da Rue de Clignancourt com o Boulevard Rochechouart, em Paris, sempre foi um cruzamento bo\u00eamio. N\u00e3o est\u00e1\u00a0 longe do Moulin Rouge, de prost\u00edbulos e lojas de produtos er\u00f3ticos. Durante o dia \u00e9 um ponto de encontro de jovens mu\u00e7ulmanos e alguns em busca da venda de rel\u00f3gios e t\u00eanis importados. Foi l\u00e1 que comecei a perceber uma coisa muito interessante sobre as cidades que passei. Elas, todas, possuem aromas \u00fanicos. Mais do que cores e sons, elas me fazem viajar pela minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Um t\u00fanel do tempo e da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um jovem \u00e1rabe vendendo incensos passou por mim e o cheiro de alm\u00edscar me levou a uma noite em um baile no sub\u00farbio do Rio. Por segundos, veio uma lembran\u00e7a m\u00e1gica, cercada de outras sensa\u00e7\u00f5es: a soul music, a cal\u00e7a acetinada fazendo barulho ao andar, os sorrisos dos amigos na entrada do baile. Lembrei da lo\u00e7\u00e3o de Alfazema, que passava ap\u00f3s o banho, queimado de praia do dia anterior, com o pesco\u00e7o cheio de polvilho antiss\u00e9ptico Granado, o cheiro da pomada min\u00e2ncora, do leite de rosas da minha av\u00f3, que entrava pela janela nas tardes de domingo.<\/p>\n<p>Cada cidade\u00a0 e sua \u00e9poca tem um cheiro predominante e ao longo da hist\u00f3ria v\u00e1rios relatos nos deixaram saber desses aromas m\u00e1gicos: a pimenta-do-reino, a noz-moscada, o cardamomo, canela, cravo, cominho, gengibre s\u00e3o os que predominam na \u00cdndia. J\u00e1 os tr\u00f3picos registram na literatura o cheiro das jacas, bananas, flores gigantescas. As montanhas frias, os pinhais, o eucalipto.<\/p>\n<p>Cada hist\u00f3ria de vida, um cheiro, um aroma que nos faz lembrar de onde passamos, mais at\u00e9 do que as fotografias e anota\u00e7\u00f5es que fazemos. Tudo vai se conectando, m\u00fasica, cor e textura das roupas, len\u00e7\u00f3is e toalhas, cheiro do couro da bolsa.<\/p>\n<p>Resolvi mergulhar minha mem\u00f3ria nos aromas: a inf\u00e2ncia suburbana carioca tinha cheiro de cimento molhado, aquele vapor da chuva ap\u00f3s o t\u00f3rrido dia, de cal\u00e7adas mal cuidadas com capim, o cheiro dos trilhos dos trens, o vag\u00e3o com perfume barato. As areias brancas das praias da minha inf\u00e2ncia n\u00e3o tinham cheiro, somente ru\u00eddo. Eram acetinadas e faziam um som j\u00e1 descrito por Tom Jobim..era \u201d cuim cuim\u201d ao mergulhar meus p\u00e9s. Tinha muito tatu\u00ed, mas esses n\u00e3o tinham cheiro e nem som, tinham s\u00f3 cor de areia. Espere: \u00c0s vezes vinha um aroma da lo\u00e7\u00e3o de bronzear, \u00e0 noite, da maresia. Maizena depois da praia, amenizando a queimadura. Espuma de coca cola nos jogos no Maracan\u00e3, bala de hortel\u00e3, aniz.<\/p>\n<p>Cores, sons e ru\u00eddos s\u00e3o os que marcam nossas viagens. \u00c9 bem verdade que o mundo globalizado nos tirou muito disso. Hoje shoppings centers cheiram a shopping centers e podem estar em qualquer lugar do mundo. At\u00e9 o produto de limpeza que usam no banheiro parece ser o mesmo. O cheiro da lavanda de &#8220;Provence&#8221;est\u00e1 na porta da loja de sabonetes e o som da pra\u00e7a da alimenta\u00e7\u00e3o pode ser o rock da Filad\u00e9lfia ou de Miami, tanto faz, ningu\u00e9m percebe a diferen\u00e7a. \u00c9 preciso muita concentra\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o para perceber as diferen\u00e7as das cidades, no ocidente pelo menos. As cidades modernas s\u00e3o ass\u00e9pticas, mas, suas periferias, exalam a temperos e perfumes baratos, vendidos por ambulantes.<\/p>\n<p>Meu nariz urbano n\u00e3o sabe diferenciar aromas de flores ou das feiras e suas ervas. Estou mais pr\u00f3ximo da diferen\u00e7a entre tijolos e cimentos. Como cresci perto de ferrovia e gosto de trens, comecei a perceber que cada cidade tem um metr\u00f4 que cheira de forma diferente. Ao contr\u00e1rio dos shoppings, os metr\u00f4s n\u00e3o foram (ainda) globalizados nesse item.\u00a0 Mesmo os novos vag\u00f5es chineses, claros como o dia, n\u00e3o tiraram o charme das esta\u00e7\u00f5es mais antigas e cada cidade tem sua hist\u00f3ria cravada em suas entranhas e trilhos. Al\u00e9m da graxa e do \u00f3leo, cada trilho tem uma madeira diferente que reage aos l\u00edquidos de forma diferente.<\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 de Nova York t\u00eam cheiro de raticida e p\u00f3lvora. Buenos Aires, borracha queimada. Boston, a madeira de lei molhada. No ver\u00e3o, as escadas que nos levam \u00e0s esta\u00e7\u00f5es sopram o cheiro das plataformas em nossos rostos, no inverno somos n\u00f3s que levamos o cheiro molhado ao interior das esta\u00e7\u00f5es, carregados por casacos e naftalinas. E por a\u00ed vamos anotando os cheiros. Paris se parece mais com Buenos Aires, Washington lembra o metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>San Francisco n\u00e3o cheira a mar, mas em compensa\u00e7\u00e3o o bonde conservado dos anos 50 nos leva no tempo a uma viagem ao passado, com cheiro de chiclete e milk shake. As montanhas do Colorado me trazem o vento frio, filtrado pelas altas \u00e1rvores e pinheiros, cheiro de madeira verde, crua.\u00a0 Se respiro fundo, posso lembrar de Woodstock, de lenha sendo queimada, de fuma\u00e7a saindo de uma chamin\u00e9.\u00a0 Quando chegar o Natal ser\u00e1 o cheiro de canela com ma\u00e7\u00e3 verde.<\/p>\n<p>Na volta para a serra, em Teres\u00f3polis,\u00a0 depois de tantas viagens, sentia o cheiro das plantas e da vegeta\u00e7\u00e3o ao subir a estrada. Nos dias de ver\u00e3o, a chuva levanta o aroma da vegeta\u00e7\u00e3o da Floresta tropical de altitude. No Rio n\u00e3o h\u00e1 como Paris, flores nas pra\u00e7as, tudo \u00e9 verde. E cheira a mato molhado e a barro.\u00a0 Mas o cheiro \u2013 bom ou ruim \u2013 n\u00e3o deixa de estar presente. O centro hist\u00f3rico do Rio de Janeiro cheira a urina e borracha, a capim lim\u00e3o, a baga\u00e7o de cana, triturado nas m\u00e1quinas nas esquinas ao lado do frango que assa e exala gordura.\u00a0 O cheiro de nossa casa\u00a0 &#8211; em qualquer cidade &#8211; \u00e9 mais dif\u00edcil de perceber, pois j\u00e1 nos acostumamos. Deve ser o aroma do perfume que gostamos, do sab\u00e3o em p\u00f3 para as roupas de cama. S\u00e3o perfumes nada ex\u00f3ticos na maioria das vezes. Nosso cheiro se confunde com as lo\u00e7\u00f5es e cremes.<\/p>\n<p>Viajar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mudar de paisagem. \u00c9 mudar de aroma. \u00c9 guardar na mem\u00f3ria nossa hist\u00f3ria registrada por meio do olfato. Toda nossa vida \u00e9 muito mais que um emaranhado de imagens e sons, de l\u00e1grimas e de sorrisos. Podemos tra\u00e7ar toda nossa vida, do cheiro da fralda e do pl\u00e1stico da mamadeira, ao vestido de noiva, ao primeiro terno do trabalho. As cidades v\u00e3o nos impregnando de aromas, que roubamos das coisas. Saber diferenciar lugares pelo aroma \u00e9 o exerc\u00edcio afetivo que nos torna humanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CR\u00d4NICA &nbsp; &nbsp; A esquina da Rue de Clignancourt com o Boulevard Rochechouart, em Paris, sempre foi um cruzamento bo\u00eamio. N\u00e3o est\u00e1\u00a0 longe do Moulin Rouge, de prost\u00edbulos e lojas de produtos er\u00f3ticos. 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