{"id":1188623,"date":"2020-09-02T03:02:22","date_gmt":"2020-09-02T02:02:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1188623"},"modified":"2020-09-02T03:02:22","modified_gmt":"2020-09-02T02:02:22","slug":"precisamos-falar-sobre-masculinidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/09\/precisamos-falar-sobre-masculinidade\/","title":{"rendered":"Precisamos falar sobre masculinidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Renata Souza\/Ururau<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Precisamos falar sobre o modelo de masculinidade vigente. Tratar essa tem\u00e1tica \u00e9 convidar a nossa sociedade a repensar o modelo de masculinidade atual. H\u00e1 algum tempo, a partir de meus estudos de g\u00eanero, das observa\u00e7\u00f5es, dados estat\u00edsticos, conversa com homens, relato de outras mulheres e experi\u00eancias pessoais me levou a formular a seguinte hip\u00f3tese, seja ela: o modelo de masculinidade vigente est\u00e1 falido! Em outras palavras, precisamos, enquanto sociedade, repensar os pap\u00e9is do masculino. \u00c9 urgente reexaminar a \u201cforma com a qual fabricamos\u201d nossos homens. E esse convite \u00e9 para todos, isto \u00e9, homens e mulheres. A sociabilidade masculina pautada em valores patriarcais e machistas j\u00e1 n\u00e3o cabe mais na atualidade.<\/p>\n<p>O modelo de masculinidade calcado na agressividade, virilidade e belicoso est\u00e1 nos matando. N\u00f3s, mulheres, somos as maiores v\u00edtimas desse modelo que acredita e quer manter uma suposta superioridade masculina. N\u00e3o podemos compactuar com essa ideia, precisamos romper com a l\u00f3gica e prezar por rela\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas e saud\u00e1veis . Precisamos desconstruir a ideia de que homem de verdade n\u00e3o leva desaforo para casa, n\u00e3o chora, n\u00e3o sente dor e principalmente que ele tem que provar a sua virilidade e masculinidade 24 horas por dia.<\/p>\n<p>Precisamos romper com o paradigma no qual o marido pensa estar ajudando a sua esposa quando toma conta do pr\u00f3prio filho. Do homem que divide as contas e n\u00e3o quer dividir os trabalhos dom\u00e9sticos. Do homem que n\u00e3o aceita o termino de um relacionamento. Do homem que n\u00e3o assume a parternidade de seus filhos e os abandona. E principalmente do homem que acha que pode violar o corpo de uma mulher.<\/p>\n<p>E \u00e9 importante entender que a cr\u00edtica aqui n\u00e3o \u00e9 direcionada a Pedro, Jo\u00e3o ou Jos\u00e9, mais sim ao modelo de sociabilidade masculina vigente em nossa sociedade. Segundo o antrop\u00f3logo Rolf Malungo \u201cnas sociedades urbanas industriais, a masculinidade \u00e9 uma experi\u00eancia coletiva, em que um homem busca reconhecimento atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas com as quais conquistar\u00e1 visibilidade e status social perante seu grupo\u201d. Malungo segue nos dizendo que as praticas sociais masculinas podem divergir de acordo com classe, regi\u00e3o, origem \u00e9tnica e religi\u00e3o. O que para o autor confirma a tese de que a masculinidade assim como qualquer identidade humana, n\u00e3o \u00e9 universal ou uma determina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para continuar fazendo homens como antigamente, isto \u00e9, um modelo de masculinidade hegem\u00f4nica que se estrutura em valores que naturaliza a misoginia. O machismo n\u00e3o vitimiza s\u00f3 n\u00f3s mulheres. Os homens tamb\u00e9m adoecem e morrem v\u00edtimas desse modelo de sociabilidade. Os homens v\u00e3o menos ao m\u00e9dico e consequentemente cuidam menos de sua sa\u00fade, fator que os leva a morte por uma serie de doen\u00e7as que poderiam ser evitadas com tratamento preventivo. Os altos indices de viol\u00eancia praticadas pelos homens tamb\u00e9m s\u00e3o um term\u00f4metro da fal\u00eancia do modelo de masculinidade vigente.<\/p>\n<p>No campo afetivo o machismo n\u00e3o deixa barato. Quantas fam\u00edlias destru\u00eddas e filhos frustrados porque nunca receberam um beijo e um abra\u00e7o do pr\u00f3prio pai. Que nunca ouviram palavras de afeto e carinho em momento de fraqueza e dor. Filhos que vivem uma vida inteira buscando o reconhecimento e carinho daqueles que foram socializados sobre a \u00e9gide da dureza, onde demonstrar carinho e afeto pode, de alguma forma, faz\u00ea-los serem vistos como menos viris. Um modelo no qual a masculinidade \u00e9 constru\u00edda de forma relacional. De homens que pelo simples fato de terem optado por serem gentis, educados e carinhosos s\u00e3o v\u00edtimas de outros homens que entendem esses valores como femininos.<\/p>\n<p>O que dizer dos homens que rompem com a heteronormatividade e t\u00eam a coragem de assumir rela\u00e7\u00f5es afetivas com outros homens. Esses \u00faltimos t\u00eam seus rostos e corpos constantemente estampados nas p\u00e1ginas policiais ou nos obitu\u00e1rios. S\u00e3o julgados e sentenciados pelo tribunal da \u201csagrada masculinidade heterossexual\u201d. \u00c9 bom lembrar que a masculinidade hegem\u00f4nica \u00e9 constru\u00edda em cima dos valores da branquitude, heteronormatividade e burguesia, logo, os privil\u00e9gios da masculinidade n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos ou usados de forma uniforme por todos os homens. H\u00e1, como mostrado por Malungo, \u201cuma assimetria baseada na classe, ra\u00e7a\/etnia, religi\u00e3o e, obviamente, orienta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O caso da crian\u00e7a de dez anos que tomou uma propor\u00e7\u00e3o indevida e gerou mais problemas do que os que ela j\u00e1 tinha, me faz pensar que precisamos ter essa conversa o quanto antes. Uma crian\u00e7a \u00e9 violentada desde os seis anos de idade e o seu algoz s\u00f3 foi descoberto porque ela engravidou, \u00e9, para mim, muito emblem\u00e1tico. A todo momento a repercuss\u00e3o e acusa\u00e7\u00f5es eram direcionadas a v\u00edtima, mesmo o aborto, em caso de estupro, sendo uma a\u00e7\u00e3o legal prevista em nosso velho c\u00f3digo penal desde 1940. Eu n\u00e3o vi ningu\u00e9m problematizando a a\u00e7\u00e3o do estuprador. Eu n\u00e3o vi manifesta\u00e7\u00f5es que questionasse o modelo de masculinidade que leva um indiv\u00edduo a abusar sexualmente de uma crian\u00e7a. A discuss\u00e3o do aborto ressurgiu com for\u00e7a total, ou seja, o corpo feminino como campo de disputas do poder estatal e religioso est\u00e3o na ordem do dia.<\/p>\n<p>Penso que enquanto n\u00e3o repensarmos o modelo de masculinidade vigente, \u00e9 necess\u00e1rio problematizar o aborto dos homens. Sim os homens tamb\u00e9m abortam ( o n\u00e3o registro de seus filhos, n\u00e3o contribui\u00e7\u00e3o com a manuten\u00e7\u00e3o da vida material, e o n\u00e3o suporte emocional). Se os homens continuarem a serem isentos de sua reponsabilidade paterna e a nossa sociedade delegar somente as mulheres o papel da contracep\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de abortos masculinos, ou melhor dizendo, o n\u00famero de filhos sem o nome do pai no registro civil, que segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Registradores Civis de Pessoas naturais (Arpen Brasil), j\u00e1 chega a mais de 80 mil, s\u00f3 tende a crescer.<\/p>\n<p>Minha ideia inicial com esse texto era falar sobre viol\u00eancia sexual, mas n\u00e3o d\u00e1 para falar de viol\u00eancia sexual de forma honesta sem questionarmos o modelo de masculinidade vigente. Precisamos questionar a ideia de masculino, (de acordo com dados do Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica), a cada hora, quatro meninas com menos de 13 anos s\u00e3o vitimas do crime de estupro.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os casos que chegaram a ser registrados. Tenho certeza que h\u00e1 muita sub-notifica\u00e7\u00e3o nesse tipo penal, haja vista a culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima por causa da sua roupas ou locais em que estavam na hora do crime.<\/p>\n<p>E o pior de tudo isso, que no pa\u00eds que Deus e a fam\u00edlia se tornaram os basti\u00f5es da p\u00e1tria, a maioria dos crimes \u00e9 cometido por um familiar ou por algu\u00e9m pr\u00f3ximo a v\u00edtima. Mais uma vez digo: \u00e9 urgente repensar o modelo de masculinidade vigente! Do contr\u00e1rio, vai chegar o dia em que a probabilidade de uma menina aprender a ler ser\u00e1 menor do que as chances dela ser estuprada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renata Souza\/Ururau Precisamos falar sobre o modelo de masculinidade vigente. Tratar essa tem\u00e1tica \u00e9 convidar a nossa sociedade a repensar o modelo de masculinidade atual. 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