{"id":1187797,"date":"2020-08-31T00:21:20","date_gmt":"2020-08-30T23:21:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1187797"},"modified":"2020-08-31T00:24:54","modified_gmt":"2020-08-30T23:24:54","slug":"o-que-a-historia-do-racismo-em-sao-paulo-diz-sobre-a-violencia-de-estado-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/08\/o-que-a-historia-do-racismo-em-sao-paulo-diz-sobre-a-violencia-de-estado-hoje\/","title":{"rendered":"O que a hist\u00f3ria do racismo em S\u00e3o Paulo diz sobre a viol\u00eancia de Estado hoje"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> J\u00e9ssica Moreira<\/strong><\/em>*<\/p>\n<p>A letalidade policial bateu recordes no primeiro semestre de 2020. Os primeiros seis meses marcaram o per\u00edodo que a pol\u00edcia mais matou em duas d\u00e9cadas, mesmo em meio a uma pandemia.\u00a0Os\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/07\/letalidade-policial-bate-recorde-e-homicidios-durante-a-pandemia-em-sp.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dados da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a>\u00a0divulgados no fim de julho, apontam que, juntas, as pol\u00edcias civil e militar mataram 514 pessoas, um aumento de 20% na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2019.<\/p>\n<p>\u00c9 em meio a esse cen\u00e1rio que o Grupo de Trabalho (GT) da Abordagem Policial: Perpetua\u00e7\u00e3o do Racismo Estrutural, formado por parlamentares e dezenas de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais, realizou nesta segunda-feira (24) uma a\u00e7\u00e3o em frente ao Pal\u00e1cio dos Bandeirantes para cobrar o fim da viol\u00eancia policial e os abusos do Estado.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o faz parte da campanha #1SalveaVida e\u00a0ocorre ap\u00f3s o capoeirista Valdenir Alves dos Santos, o mestre Nen\u00ea, ser brutalmente abordado e espancado por policiais militares enquanto segurava seu filho de cinco anos no colo.<\/p>\n<p>No dia 19 de agosto, por volta das 19h45, policias fizeram uma \u201cabordagem\u201d de extrema viol\u00eancia em alguns moradores da Rua Fidalga, na Vila Madalena. Mestre Nen\u00ea tentou proteger seu filho entrando em uma das casas de seus disc\u00edpulos, quando os policias o perseguiram, estrangularam e o empurraram no ch\u00e3o com seu filho ainda no colo. O algemaram violentamente, quiseram sed\u00e1-lo no Pronto Socorro da Lapa e o levaram\u00a0 para a 14\u00aa DP de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cFoi constatado que o Mestre foi preso pelo fato de ter apenas uma caracter\u00edstica semelhante a pessoa que estava sendo procurada por um assalto cometido na \u00e1rea onde levaram aparelhos eletr\u00f4nicos, a cor negra da sua pele! O culpado pelo assalto foi encontrado pela pol\u00edcia e apresentado na mesma DP em que o Mestre se encontrava\u201d, aponta texto nas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CEIcJR2D2G3\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">redes sociais de Mestre Nen\u00ea<\/a>.<\/p>\n<h4>Dos Estados Unidos a S\u00e3o Paulo: o racismo nunca deu tr\u00e9gua<\/h4>\n<p><strong>De janeiro a junho, as pol\u00edcias civil e militar mataram 514 pessoas, o que representa um crescimento de 20% comparando-se com o mesmo per\u00edodo de 2019, quando houve 426 mortes.<\/strong><\/p>\n<p>O que aconteceu com mestre Nen\u00ea nesta semana n\u00e3o \u00e9 um caso isolado, nem nunca foi, j\u00e1 que o racismo \u00e0 paulista nunca deu tr\u00e9gua, antes ou depois do \u201cfim\u201d falseado da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em julho, as imagens de um policial militar pisando com sua botina sobre o pesco\u00e7o de uma mulher negra, de 51 anos, em S\u00e3o Paulo, tomou os notici\u00e1rios e redes sociais.<\/p>\n<p>Ela? Uma comerciante, dona de um bar e moradora de Parelheiros, zona sul de S\u00e3o Paulo. Estava trabalhando quando tentou conter um policial que golpeava um de seus clientes, como contou \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/ponte.org\/pm-pisa-em-pescoco-de-mulher-durante-abordagem-quase-cheguei-a-morte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ponte Jornalismo<\/a>.<\/p>\n<p>Eles? Representantes de um Estado que tem como premissa pisotear, pisar, matar o povo preto, pobre e perif\u00e9rico. N\u00e3o, governador Jo\u00e3o D\u00f3ria Jr., esse n\u00e3o foi um caso distante e at\u00edpico, a PM que atua sob sua responsabilidade possui um procedimento corriqueiro para com os nossos. Os dados da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica n\u00e3o nos deixa mentir.<\/p>\n<p>Em junho, Jo\u00e3o D\u00f3ria Jr. anunciou que os oficiais da Policia Militar receberiam um novo treinamento para reduzir os \u00edndices de viol\u00eancia policial. A medida surgiu como resposta contra a escalada de viol\u00eancia nas periferias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 importante lembrar que, embora hoje o governador critique o abuso de viol\u00eancia policial, em sua campanha de 2018, e logo quando assumiu o Governo de SP, o discurso era outro. O governador declarava que a pol\u00edcia militar iria \u201catirar para matar\u201d, al\u00e9m de prometer \u201cos melhores advogados\u201d aos policiais que tenham tirado uma vida\u201d.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia paulista n\u00e3o difere daquela dos Estados Unidos. No fim de maio deste ano, policiais nos Estados Unidos matavam, asfixiado, George Floyd. Um policial o manteve pressionado debaixo dos joelhos, sem respirar, por mais de oito minutos.<\/p>\n<p>Campanhas nas redes com hashtags (palavras-chave) culminaram em um movimento massivo, junto \u00e0\u00a0mea culpa\u00a0da branquitude oferecendo suas redes sociais aos pretos e pretas.\u00a0Houve uma verdadeira mobiliza\u00e7\u00e3o de quem descobriu\u00a0 o racismo. Antes tarde do que nunca, n\u00e3o \u00e9 mesmo? \u00c9 importante dizer, no entanto, que combater o racismo e ser antirracista \u00e9 o m\u00ednimo que todas e todos n\u00f3s \u2013 brancos e negros \u2013 devemos ter em mente.<\/p>\n<p>Minha pergunta \u00e9: onde est\u00e3o todas essas pessoas diante de situa\u00e7\u00f5es semelhantes em terras brasileiras? Por que tem um peso t\u00e3o forte o que acontece l\u00e1, mas \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil olhar para a mesma imagem aqui e sair em sua defesa? Ser\u00e1 que a viol\u00eancia contra uma pessoa negra s\u00f3 \u00e9 pass\u00edvel de como\u00e7\u00e3o quando ela \u00e9 assassinada?<\/p>\n<p>As respostas s\u00e3o m\u00faltiplas, mas todas com uma mesma raiz: o racismo estrutural e institucional de nosso pa\u00eds. Precisamos lembrar que, a cada 23 minutos, uma pessoa negra \u00e9 assassinada no Brasil.<\/p>\n<p><strong>O Atlas da Viol\u00eancia de 2019, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) e F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, mostra que, em 2017, 75,5% das pessoas assassinadas no pa\u00eds eram negras \u2014 a maior propor\u00e7\u00e3o da \u00faltima d\u00e9cada.<\/strong><\/p>\n<p>O Unicef (Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia) apontou em um estudo que, por dia, 32 crian\u00e7as e adolescentes de 10 a 19 anos s\u00e3o assassinados no Brasil. S\u00f3 em 2017, foram 11,8 mil, sendo 82,9% negros e do sexo masculino.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantos os dados, que n\u00e3o caberiam num s\u00f3 texto, comprovando, mais uma vez, que a gente n\u00e3o tem o que chamam de racismo velado no Brasil: ele \u00e9 bem descarado e mata todos os dias, das mais diversas formas.<\/p>\n<p>Mas o racismo brasileiro, e mais especificamente o racismo paulista, nunca foi brando. A cena da senhora de 51 anos com a botina no pesco\u00e7o nos acompanha h\u00e1 centenas de anos. E, embora essa imagem nos traga a tristeza de ter nossos corpos pisados, pra gente \u2014 e infelizmente \u2014 isso \u00e9 corriqueiro e di\u00e1rio.<\/p>\n<h4>Racismo \u00e0 paulista: uma hist\u00f3ria n\u00e3o contada<\/h4>\n<p>No livro \u201cUma hist\u00f3ria n\u00e3o contada: negro, racismo e branqueamento em S\u00e3o Paulo no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o\u201d (Editora Senac SP, 2004), de Petr\u00f4nio Domingues, \u00e9 poss\u00edvel entender que o racismo \u00e0 paulista nunca deixou nada \u201c\u00e0 desejar\u201d ao apartheid norte-americano.<\/p>\n<p>Enquanto os intelectuais brasileiros vendiam a ideia da miscigena\u00e7\u00e3o cordial brasileira ao mundo, a din\u00e2mica do racismo \u00e0 paulista era violenta, muitas vezes expressa em leis e amparada em normas segregacionistas.<\/p>\n<p>\u201cO racismo \u00e0 paulista era diferente daquele convencionado brasileiro: \u2018o cordial\u2019. Apesar de muitas vezes n\u00e3o apurada pela historiografia, havia uma exclus\u00e3o do negro traduzida pelos c\u00f3digos legais e pelos costumes, impedindo que o negro desfrutasse dos mesmos direitos civis assegurados aos brancos\u201d, pontua Domingues.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que, antes mesmo da aboli\u00e7\u00e3o, algumas leis j\u00e1 deixavam a discrimina\u00e7\u00e3o racial expl\u00edcita no pa\u00eds, principalmente nos programas de imigra\u00e7\u00e3o. A Lei de Terras, de 1850, oferecia privil\u00e9gios aos migrantes europeus, como concess\u00f5es de terras, favorecendo italianos, espanh\u00f3is ou outros, em detrimento dos negros, muitos j\u00e1 nascidos em solo brasileiro.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de imigrantes europeus entraram no pa\u00eds, substituindo os negros, tanto nos campos, quanto na crescente industrializa\u00e7\u00e3o brasileira, construindo assim um estere\u00f3tipo de que o trabalhador europeu era superior ao negro que aqui j\u00e1 estava. Mas a verdade \u00e9 que o negro sequer teve oportunidade de ingressar neste mercado, mesmo quando j\u00e1 realizava as atividades em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas cidades, foram diversos tamb\u00e9m os estigmas ligados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra. Empresas como as lojas Mappin Store, que ficava onde hoje est\u00e1 a Pra\u00e7a Ramos de Azevedo, recebia orienta\u00e7\u00f5es para n\u00e3o contratar negros.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m de \u201cpreferidos\u201d, eles recebiam uma s\u00e9rie de facilidades ou incentivos para viabilizar seu pr\u00f3prio empreendimento, como doa\u00e7\u00f5es de lotes de terra, incentivos fiscais, cr\u00e9ditos agr\u00edcolas, empr\u00e9stimos banc\u00e1rios, anistia de d\u00edvidas. Benesses negadas aos negros\u201d, aponta o livro.<\/p>\n<p>Em 1893, Toledo Pisa realizou um levantamento mostrando que, dos 14.104 trabalhadores dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, apenas 5.878 eram nacionais (41,6%), enquanto 8.226 eram estrangeiros (58,3%). \u201cCom a europeiza\u00e7\u00e3o da cidade, uma parcela das mulheres negras foi exclu\u00edda dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos de algumas casas\u201d, mostrando, em dados, o processo racista em curso.<\/p>\n<p>Mas o livro mostra, ainda, que o racismo dessa cidade n\u00e3o estava inscrito apenas nas pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias, mas estava presente tamb\u00e9m nas leis, nos documentos oficiais, como a legisla\u00e7\u00e3o do estado, nas normas de reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, nos estatutos de clubes e das escolas.<\/p>\n<p>Um exemplo do racismo paulista pode ser visualizado nos C\u00f3digos de Postura de S\u00e3o Paulo, criado em meados de 1883, com leis altamente racistas. O artigo 46 desse documento dizia, por exemplo, que eram \u201cproibidos na cidade os bailes de pretos\u201d, com multa e tr\u00eas dias de pris\u00e3o em caso de desacato.\u00a0No artigo 58, apontava-se que era \u201cproibido ao negociante de molhados consentir em seus neg\u00f3cios pretos e cativos, sem que estejam comprando\u201d, sublinha Domingues.<\/p>\n<p>O futebol tamb\u00e9m n\u00e3o ficava de fora. At\u00e9 1930, existia uma entidade reguladora dos clubes de futebol que impedia a participa\u00e7\u00e3o de negros no campeonato principal. Por isso, havia times de brancos e time de pretos. Muitos clubes de lazer da cidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o permitiam associados negros, tampouco a presen\u00e7a negra em bailes e demais festividades. Havia um c\u00f3digo racial pautado, mesmo quando o negro era parte da classe m\u00e9dia ou alta da cidade.<\/p>\n<p>O mesmo acontecia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as. O Servi\u00e7o Sanit\u00e1rio de S\u00e3o Paulo realizou, em 1929, um concurso p\u00fablico para escolher o beb\u00ea mais robusto da cidade. \u201cA comiss\u00e3o organizadora inclu\u00eda uma cl\u00e1usula que proibia a participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as negras\u201d, aponta o livro, apenas para exemplificar.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m alguns mecanismos mais sutis de discrimina\u00e7\u00e3o. Em vez de dizer que negros n\u00e3o eram permitidos no Concurso da Guarda Civil, davam nova roupagem ao racismo apontando as caracter\u00edsticas desej\u00e1veis do candidato, que, por sinal, era racista: homens maiores de 25 anos de cor branca.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es religiosas tamb\u00e9m n\u00e3o agiam de forma diferente. Em Cotia, na Grande S\u00e3o Paulo, o negro n\u00e3o podia assistir \u00e0 missa no mesmo espa\u00e7o da igreja onde estivessem os brancos.<\/p>\n<p>Outros semin\u00e1rios e ordens religiosas tamb\u00e9m n\u00e3o admitiam negros. Era o caso da Pia Uni\u00e3o das Filhas de Maria, em Aparecida (interior de SP), que, em 1907, tinha na descrimina\u00e7\u00e3o racial sua norma, n\u00e3o permitindo as mulheres negras. S\u00f3 eram aceitos nas igrejas nas quais os santos padroeiros eram tamb\u00e9m negros, como Nossa Senhora do Ros\u00e1rio dos Homens Pretos e S\u00e3o Benedito.<\/p>\n<h4>Conhecer o passado para criar um futuro antirracista<\/h4>\n<p>Como podemos ver s\u00e3o muitos os exemplos desde o come\u00e7o do s\u00e9culo, se paramos para pensar desde a liberta\u00e7\u00e3o inconclusa deste pa\u00eds. Conhecer esse passado \u00e9 importante para entender o racismo enraizado principalmente na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O livro de Domingues aponta que, muitas vezes, os negros n\u00e3o podiam nem caminhar pelo mesmo espa\u00e7o que os brancos estavam em uma pra\u00e7a. Percebe a repeti\u00e7\u00e3o com o caso de mestre Nen\u00ea? E tamb\u00e9m com a comerciante de Parelheiros? Ou, ent\u00e3o, nos v\u00e1rios dados sobre a morte de meninos negros em nossa cidade?<\/p>\n<p>\u00c9 urgente e necess\u00e1rio discutirmos os casos no presente, relembrar de onde esse \u00f3dio aos corpos negros v\u00eam, para assim criarmos pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de construir um futuro antirracista \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<hr \/>\n<p>* <em>J\u00e9ssica Moreira \u00e9 jornalista, cofundadora do N\u00f3s, mulheres da periferia e moradora de Perus<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por J\u00e9ssica Moreira* A letalidade policial bateu recordes no primeiro semestre de 2020. 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