{"id":1182987,"date":"2020-08-23T03:56:48","date_gmt":"2020-08-23T02:56:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1182987"},"modified":"2020-08-22T22:50:29","modified_gmt":"2020-08-22T21:50:29","slug":"conversa-bia-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/08\/conversa-bia-dias\/","title":{"rendered":"Conversa | Bia Dias"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">RESID\u00caNCIA ARTISTICA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Bianca Coutinho Dias* \u00e9 psicanalista, escritora, ensa\u00edsta e cr\u00edtica de arte, atua no territ\u00f3rio multidisciplinar da psican\u00e1lise, literatura, filosofia, teoria e pr\u00e1tica art\u00edstica. Mestre em Estudos Contempor\u00e2neos das Artes pela Universidade Federal Fluminense &#8211; UFF (2017). Especialista em Hist\u00f3ria da Arte pela Faculdade Armando Alvares Penteado \u2013 FAAP (2011). Graduada em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora \u2013 CES (2002). Fundou e coordenou o N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Arte e Psican\u00e1lise do Instituto Figueiredo Ferraz \u2013 IFF (Ribeir\u00e3o Preto\/SP 2012-2015). Participou do grupo Redes de Pesquisas Escritas da Experi\u00eancia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro \u2013 UERJ. Co-coordena o Projeto de Cinema e Psican\u00e1lise Cine-Cult USP Ribeir\u00e3o Preto, em parceria com o Centro Lacaniano de Investiga\u00e7\u00e3o da Ansiedade \u2013 CLIN-A.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>A Casa da Escada Colorida promoveu um encontro da cr\u00edtica com os residentes e disponibiliza uma entrevista sobre seu percurso na interlocu\u00e7\u00e3o entre arte e psican\u00e1lise.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Poderia falar da sua trajet\u00f3ria nessa rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda com a arte e a psican\u00e1lise? <\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Nunca soube precisar muito bem o que veio antes, a arte ou a psican\u00e1lise. Um aspecto indiscern\u00edvel entre os dois campos se colocou em minha vida desde cedo, devido ao contexto familiar e geogr\u00e1fico de onde vim. Nasci em Minas Gerais, numa cidade de nome po\u00e9tico e abismal: Descoberto. Uma cidadezinha muito pequena da Zona da Mata mineira, que fica ao lado de Cataguases, terra de Humberto Mauro, que dizia que cinema \u00e9 cachoeira. Eu mesma cresci numa cachoeira que, na inf\u00e2ncia, ficava dentro da fazenda de um tio. Cresci frequentando as \u00e1guas geladas dessa cachoeira, rodeada de bichos e frutas. Ent\u00e3o, eu habitava um mundo de perplexidade, um ambiente rural com algum desejo de ser urbano (vivia entre a fazenda, o s\u00edtio da minha av\u00f3 e a minha casa ao lado da pra\u00e7a principal da cidade). Essa deriva j\u00e1 criou uma imensa ambival\u00eancia que me conduziu inexoravelmente para a arte ou para uma disposi\u00e7\u00e3o sempre atenta para o assombroso da vida, para aquilo que vive num mais al\u00e9m da apar\u00eancia das coisas.<\/p>\n<p>Eu morava numa casa muito singular. Meu pai era muito louco e fascinante, ele colecionava objetos completamente desfuncionais e absurdos, pendurava peda\u00e7os de madeira na parede, como um sarrafo da Mira Schendel, ou acordava num dia qualquer e pintava tudo que era pr\u00f3prio de um c\u00f4modo de uma \u00fanica cor, sem qualquer justificativa racional para um gesto que desestabilizava algo da ordem mineira. Anos mais tarde, passei a frequentar exposi\u00e7\u00f5es de forma sistem\u00e1tica, escrevi sobre bienais de arte, reconhecendo algo que j\u00e1 estava em jogo na minha vida e na minha hist\u00f3ria. Pude ir me reapropriando disso e encontrando um lugar, que \u00e9 tamb\u00e9m uma atopia, por conta da minha pr\u00f3pria an\u00e1lise e da minha rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Esse objeto estranho que desrealiza uma cena harm\u00f4nica sempre esteve presente, organizando algo muito pr\u00f3prio da arte que \u00e9 apari\u00e7\u00e3o e desapari\u00e7\u00e3o. Minha casa era a \u00fanica da cidade com uma imensa biblioteca na sala de entrada, com livros diversos e surpreendentes, de Cam\u00f5es a Carl Sagan e livros de arte. \u00c0s seis da tarde, al\u00e9m do sino da igreja havia uma esp\u00e9cie de flutua\u00e7\u00e3o quando se ouvia <em>\u201cAve Maria\u201d<\/em>. Fui decodificando esses elementos de pura estranheza entranhados num ambiente buc\u00f3lico.<\/p>\n<p>Descoberto \u00e9 uma cidade super cat\u00f3lica e h\u00e1 algo foi fundamental para minha di\u00e1spora pelo mundo: me intrigava o fato do mundo ser imenso, o que soube atrav\u00e9s da leitura sistem\u00e1tica que meu pai fazia do livro \u201cA volta ao mundo em 80 dias\u201d. Mineiro n\u00e3o se desloca muito, ningu\u00e9m saia de l\u00e1 e isso me causava um desejo imenso de me arriscar para al\u00e9m daquele universo. Mas mineiro, quando vai embora, leva Minas junto. Como est\u00e1 em Drummond,<em> &#8220;Itabira \u00e9 s\u00f3 uma fotografia na parede, mas como d\u00f3i&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>A artista Maria Martins fala da Amaz\u00f4nia, mas a refer\u00eancia \u00e0 sua cidade mineira sempre retornava em algum lugar que nem ela sabia bem. Penso que \u00e9 o que acontece com mineiros que rompem com a tradi\u00e7\u00e3o. Sou uma mineira de forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e assimila\u00e7\u00e3o rebelde que cresceu num ambiente repressor, numa casa onde a rela\u00e7\u00e3o com os livros e com os objetos sempre foi exc\u00eantrica. Minha casa tinha um p\u00falpito de madeira que, em todas as outras casas, abrigava a b\u00edblia, mas n\u00e3o na nossa. Quando perguntei se n\u00e3o deveria ter um objeto ali, meu pai respondeu: \u201cH\u00e1 um objeto, o pr\u00f3prio vazio\u201d. Acho que ali ele selou algo da transmiss\u00e3o paterna e meu destino, pois com uma revela\u00e7\u00e3o dessas era imposs\u00edvel que n\u00e3o fosse fisgada pela psican\u00e1lise. A partir dessa fala-convoca\u00e7\u00e3o do meu pai, percebi essa estranheza e essa rela\u00e7\u00e3o com o vazio, que me levaram tanto para a arte quanto para a psican\u00e1lise que, de alguma forma, j\u00e1 estavam l\u00e1. Al\u00e9m disso, t\u00ednhamos a cole\u00e7\u00e3o &#8220;O Pensamento Vivo&#8221; com textos de v\u00e1rios pensadores. Fiquei completamente capturada pelo volume sobre Freud. Ent\u00e3o essa rela\u00e7\u00e3o, com a arte e com a psican\u00e1lise, se colocou de maneira org\u00e2nica e indissoci\u00e1vel na minha vida, pois s\u00e3o dois discursos que lidam com a rela\u00e7\u00e3o com o vazio e com o objeto, a partir de um ponto que desrealiza esse objeto como um objeto comum. Cursei em psicologia para, na gradua\u00e7\u00e3o, me encontrar com a psican\u00e1lise. Octavio Paz fala do lugar da transgress\u00e3o po\u00e9tica, o lugar da palavra que, ao inv\u00e9s de anunciar o mundo, cria uma enuncia\u00e7\u00e3o, uma revela\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria opacidade das coisas.<\/p>\n<p>Em 2003 tive um encontro fundamental com Miriam Schnaiderman, psicanalista que me apresentou a uma dimens\u00e3o essencial da arte. Miriam me apresentou seu document\u00e1rio \u201cGilete Azul\u201d: um document\u00e1rio sobre Nazareth Pacheco, uma artista important\u00edssima da cena da arte contempor\u00e2nea brasileira, que produziu uma obra impressionante com vestidos de gilete, estiletes, de camas e brinquedos de acr\u00edlico com pregos ou materiais cortantes. Aquilo me emocionou muito e, a partir desse encontro, assumi essa quest\u00e3o da escrita da cr\u00edtica de arte. O trabalho de Nazar\u00e9 \u00e9 de uma brutalidade e uma delicadeza e, ao mesmo tempo, revela esse objeto estranho na rela\u00e7\u00e3o com o corpo mas, sobretudo, desnaturaliza essa rela\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, foi uma revela\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 estava inscrito em mim, e me lembro de concluir que era aquilo que eu queria pensar. A partir da\u00ed, comecei a escrever para a Revista B, uma publica\u00e7\u00e3o local, depois para outras publica\u00e7\u00f5es nacionais, at\u00e9 que tive contato com a cole\u00e7\u00e3o de arte contempor\u00e2nea do Instituto Figueiredo Ferraz, em Ribeir\u00e3o Preto, onde estruturei e coordenei durante alguns anos o \u201cN\u00facleo de investiga\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise e arte\u201d. Foram anos fundamentais para minha forma\u00e7\u00e3o, convivendo com uma grande cole\u00e7\u00e3o, conhecendo curadores, cr\u00edticos e artistas que vinham realizar cursos. At\u00e9 meu mestrado no Rio de Janeiro, a cidade de Ribeir\u00e3o Preto foi um local de forma\u00e7\u00e3o, uma base para um percurso que culminou no acompanhamento de artistas do pa\u00eds todo, na realiza\u00e7\u00e3o de cursos e participa\u00e7\u00e3o em livros e cat\u00e1logos. Recebi convites para visitar at\u00ealies e passei a escrever para revistas de amplo alcance. Acompanhando artistas e visitando at\u00ealies, teci \u201cconversas infinitas\u201d\u2013 para citar aqui uma ideia magn\u00edfica de Maurice Blanchot \u2013 que est\u00e1 viva no processo de uma exposi\u00e7\u00e3o ou da publica\u00e7\u00e3o de um livro.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Nesse caos e incerteza em que vivemos hoje, o que a motiva a produzir?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Posso dizer que, pessoalmente, n\u00e3o deixo a chama do desejo se apagar. Sou teimosa, mas tamb\u00e9m acho que, num campo mais amplo, a rela\u00e7\u00e3o com a produtividade ser\u00e1 afetada. Devemos repensar tudo e sobretudo uma rela\u00e7\u00e3o maquinal com a exist\u00eancia. O sistema da arte est\u00e1 sendo afetado e tenho percebido projetos muito interessantes, coletivos surgindo, sa\u00eddas que tocam um senso de comunidade. N\u00e3o d\u00e1 para prosseguir nesse regime de produtividade e competitividade. N\u00e3o \u00e9 somente o cen\u00e1rio da pandemia, mas tamb\u00e9m o pandem\u00f4nio pol\u00edtico, as crises sanit\u00e1ria, econ\u00f4mica e \u00e9tica sem precedentes, em que o lugar do artista \u00e9 precarizado e atacado. Devemos nos unir e encontrar frestas de sobreviv\u00eancia, espa\u00e7os de vida e de encontro. Precisamos insistir na puls\u00e3o de vida, apesar de tudo.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como pensar, hoje, a quest\u00e3o do feminino no campo da cr\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sempre pensei o feminino como algo da ordem do contingente, do encontro fortuito, do acaso. Penso que tanto a psican\u00e1lise quanto a arte encarnam essa dimens\u00e3o do feminino, mas penso tamb\u00e9m que \u00e9 preciso destacar e desenhar fronteiras do feminismo que criam uma incid\u00eancia importante no campo da arte. O grande impasse \u00e9 n\u00e3o criar uma moldura \u00fanica para todas as mulheres e aceitar a diferen\u00e7a dessa variedade que n\u00e3o se deixa dobrar pela l\u00f3gica do Um. Se o feminino na\u0303o tem fronteiras, devemos escrever um litoral para enfrentar, no campo da cr\u00edtica, a preval\u00eancia hist\u00f3rica do pensamento masculino.<\/p>\n<p>Importante destacar aqui toda uma produ\u00e7\u00e3o de mulheres artistas que estabeleceram di\u00e1logos e tens\u00f5es com o mundo, abrindo um campo importante: Anna Maria Maiolino, Sanja Ivekovic, Eva Hesse, D\u00f3ra Maurer, Alix Cl\u00e9o Roubaud. S\u00e3o grandes refer\u00eancias de artistas que me guiaram em pesquisas sobre o corpo na arte: corpos mut\u00e1veis que incorporam de maneira ativa outros corpos. H\u00e1 uma dimens\u00e3o ind\u00f3cil do corpo que todas elas sustentaram, inscrevendo um lugar para a mulher que fura o discurso tradicional, patriarcal. No mestrado, busquei pensar num corpo po\u00e9tico e pol\u00edtico dando destaque ao cinema de Naomi Kawase e de Agn\u00e9s Varda, incluindo depois Sophie Calle e Christian Boltanski pela via do testemunho, mas h\u00e1 um imenso campo a ser descortinado, numa pesquisa que pensa a arte e a vida entranhadas e que pensa o feminino como um discurso que pode circular para al\u00e9m das mulheres, um discurso que inclua a dimens\u00e3o do furo, do real no sentido lacaniano.<\/p>\n<p><strong>\u2013 A partir de um trabalho de luto, voc\u00ea escreveu um livro. Como surgiu a ideia de \u201cN\u00e9voa e Assobio\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e9voa e assobio\u201d \u00e9 da ordem do milagre: inexplicavelmente, me levantava da cama e escrevia, todos os dias, algo sobre Caetano \u2013 um filho que fez sua inscri\u00e7\u00e3o para me deixar cinco dias ap\u00f3s ter nascido. Era algo que eu n\u00e3o sabia que se tornaria um livro. No meio daquela tristeza, eu podia extrar da dor dilacerante um pressentimento de beleza eterna. Queria conservar na escrita a experi\u00eancia m\u00edstica que pude acessar, precisava enfrentar o aspecto aterrador do acontecimento e sentia que, ao escrever sobre o horror inomin\u00e1vel de perder um filho em condi\u00e7\u00f5es absolutamente dram\u00e1ticas, algo me conduzia, paradoxalmente, para uma esp\u00e9cie de extravio, um deslizamento para al\u00e9m da morte. Fala-se muito de um \u201cesfor\u00e7o de poesia\u201d, mas isto s\u00f3 pode verdadeiramente acontecer quando se sente no corpo que a pr\u00f3pria vida \u00e9 colocada em risco. Sentia que compunha uma paisagem nessa travessia e escrevia todos os dias. Um dia, Arthur Dapieve e Zuenir Ventura, amigos para quem mandava not\u00edcias atrav\u00e9s de e-mails, disseram que eu deveria publicar. Ent\u00e3o, lembrei-me de \u201cO ano do pensamento m\u00e1gico\u201d, livro de Joan Didion que come\u00e7a assim: \u201cA vida se transforma rapidamente. A vida muda num instante. Voc\u00ea se senta para jantar e a vida que voc\u00ea conhecia acaba de repente\u201d. J\u00e1 conhecia seu trabalho com a escrita e achei bonito e potente que uma ensa\u00edsta brilhante se dedicasse a escrever sobre uma experi\u00eancia radical e que pode transmitir o essencial da vida. Na \u00e9poca, ela havia perdido seu marido, o grande amor com quem passou a vida, e enfrentava uma grave doen\u00e7a da filha que chegou em seguida. Havia ali uma dignidade que me deixou impressionada.<\/p>\n<p>Eu escrevia no auge de uma dor e de um mist\u00e9rio ainda cambaleante, me segurando nas palavras. Certamente, este livro se configura como uma travessia, como um trabalho de luto e a escrita surgiu como um meio inst\u00e1vel e prec\u00e1rio de introduzir alguma ordem, uma maneira de me rodear de um sil\u00eancio necess\u00e1rio. Escrever e colher flores num campo minado, escrever para al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o e amando de maneira obstinada o n\u00e3o-sentido. Lembrava-me de Herberto Helder, poeta portugu\u00eas que me acompanha sempre: \u201cJ\u00e1 sei que a minha for\u00e7a est\u00e1 em saber manejar a minha fraqueza. Sou hoje uma esp\u00e9cie de campe\u00e3o nesta estranha gin\u00e1stica. Estou em ressurei\u00e7\u00e3o lenta\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Quais s\u00e3o seus pr\u00f3ximos planos? Qual sua vis\u00e3o do futuro diante do esgar\u00e7amento simb\u00f3lico e da incerteza em que vivemos?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito nas utopias. Assim como Edson Luiz Andr\u00e9 de Souza, um psicanalista que admiro, creio que a utopia tem muito mais uma dimens\u00e3o de subtra\u00e7\u00e3o de um excesso de imagens e de sentido \u2013 exatamente como na interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, suspendendo as certezas do sujeito \u2013 do que de prescri\u00e7\u00e3o de novos c\u00f3digos de conduta e projetos de felicidade.<\/p>\n<p>Sabemos bem que toda a parafern\u00e1lia capitalista e a ci\u00eancia ao redor da supera\u00e7\u00e3o \u00e9 opaca ao vivo e pulsante do desejo. Penso que h\u00e1 uma ferida incontorn\u00e1vel e uma dimens\u00e3o, justamente, do insuper\u00e1vel. N\u00e3o se trata de passar por cima disso e encontrar uma solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica protocolar e lugar comum, como pensar que basta colocar outro filho no lugar e tudo se supera. Aposto numa ultrapassagem que guarda a ferida como uma marca preciosa, possibilidade que creio ser menos melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>E, se acredito nas utopias, acredito na cria\u00e7\u00e3o e na possibilidade do novo. Sou uma lacaniana apaixonada em igual medida por Walter Benjamin: \u201cQue as coisas continuem como antes, eis a cat\u00e1strofe\u201d. A cren\u00e7a na utopia faz com que eu caminhe do \u00edntimo ao pol\u00edtico e faz tamb\u00e9m vicejar meu desejo de resist\u00eancia junto ao outro. Vivemos um momento cruel, autorit\u00e1rio, dogm\u00e1tico, catastr\u00f3fico mas, como diz Edson Luiz, ao citar Roger Dadoun, podemos inverter o sentido do vetor de como usualmente se pensa a utopia e pens\u00e1-la como um movimento que vai do futuro ao passado, numa correnteza contra a realidade. A utopia adquire aqui sua virtude de cr\u00edtica social. E, aqui, meu futuro e meus planos encontram um solo: a psican\u00e1lise, tamb\u00e9m como instrumento cr\u00edtico. N\u00e3o por acaso, minha rela\u00e7\u00e3o com a arte \u2013 que data desde a inf\u00e2ncia \u2013 foi se solidificando a ponto de ser indiscern\u00edvel da minha rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise. Sou ensa\u00edsta, escrevo textos e cr\u00edticas para revistas e outras publica\u00e7\u00f5es, acompanho o trabalho de artistas, com quem produzo cat\u00e1logos, exposi\u00e7\u00f5es e semin\u00e1rios, ministro cursos e palestras. Estudei teoria e cr\u00edtica, pude fundar um n\u00facleo de psican\u00e1lise e arte, me especializei em hist\u00f3ria da arte, enveredei pela vida acad\u00eamica numa pesquisa de mestrado e pude colocar algo do meu estilo a\u00ed, pela fineza e agudeza que me foram concedidas pela an\u00e1lise pessoal e por uma forma\u00e7\u00e3o heterodoxa, atravessada pelo cinema, pela literatura, pela filosofia, pela poesia. Creio que \u00e9 este fazer \u2013 que vacila entre o dentro e o fora, mas \u00e9 marcado por uma esp\u00e9cie de ferocidade desejante \u2013 que me levar\u00e1 ao amanh\u00e3. E sei que o amanh\u00e3 nos acossa. Temos medo quando n\u00e3o sabemos. Para nos defendermos, n\u00e3o precisamos muito: basta insistir na l\u00f3gica do ontem insuflada pelas formas institu\u00eddas. Criar \u00e9 abrir descontinuidades, interrup\u00e7\u00f5es no fluxo do mesmo. Isto \u00e9 o que encontro na tens\u00e3o proposta criticamente pela psican\u00e1lise e pela arte. Seguirei curiosa e inventando. N\u00e3o h\u00e1 revolta sem a alegria da inven\u00e7\u00e3o e o entusiasmo de compartilhar com o outro, e sem apostar em qualquer coisa que nos conduza al\u00e9m da obscenidade e da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Psicanalista e cr\u00edtica de arte<\/p>\n<p><strong>Casa da Escada Colorida<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/casadaescadacolorida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">instagram<\/a>\u00a0|\u00a0<a href=\"https:\/\/www.casadaescadacolorida.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">site<\/a>\u00a0|\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/casadaescadacolorida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">facebook<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RESID\u00caNCIA ARTISTICA &nbsp; &nbsp; Bianca Coutinho Dias* \u00e9 psicanalista, escritora, ensa\u00edsta e cr\u00edtica de arte, atua no territ\u00f3rio multidisciplinar da psican\u00e1lise, literatura, filosofia, teoria e pr\u00e1tica art\u00edstica. 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