{"id":1153432,"date":"2020-07-11T04:50:12","date_gmt":"2020-07-11T03:50:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1153432"},"modified":"2020-07-11T04:50:12","modified_gmt":"2020-07-11T03:50:12","slug":"os-negros-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/07\/os-negros-da-terra\/","title":{"rendered":"Os &#8216;Negros da Terra&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Mois\u00e9s Ramalho<\/strong><\/em>\u00b9<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 23 de junho, tais quais animais selvagens, dois jovens yanomami foram ca\u00e7ados e abatidos a tiros por garimpeiros na regi\u00e3o do alto rio Parima, na Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima. Tr\u00eas outros rapazes, que os acompanhavam, armados apenas com arco e flechas, s\u00f3 escaparam da morte porque conseguiram fugir da emboscada e n\u00e3o foram alcan\u00e7ados pelos assassinos.<\/p>\n<p>Este foi apenas mais um epis\u00f3dio de uma trag\u00e9dia, o genoc\u00eddio yanomami, que se aproxima do desfecho se nada for feito.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deveria ser lan\u00e7ado ao inferno por duas vezes. Pois \u00e9 justamente o que acontece hoje com os Yanomami, que t\u00eam sua terra invadida por dezenas de milhares de garimpeiros pela segunda vez em menos de uma gera\u00e7\u00e3o. Ou seja, s\u00e3o mais uma vez aqueles que resistem \u00e0 solu\u00e7\u00e3o final dos conquistadores em pleno s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Que tenhamos plena consci\u00eancia disto: mais um cap\u00edtulo da conquista do Novo Mundo acontece agora nas matas da Amaz\u00f4nia, diante de nossos olhos, e temos, como na\u00e7\u00e3o, a desonra e a vergonha da fazer parte desta trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Enquanto o restante da humanidade se d\u00e1 conta de que n\u00e3o deve mais tolerar o racismo e que a vida de todos os seus membros tem igual valor, sejam eles negros, brancos ou \u00edndios, no nosso solo, capitaneados por um governo cuja bandeira \u00e9 a morte, os brasileiros protagonizam o genoc\u00eddio do povo yanomami.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se pode negar o \u00f3bvio, a verdade mais gritante: trata-se de uma quest\u00e3o racial. A na\u00e7\u00e3o s\u00f3 se permite assistir indiferente \u00e0 invas\u00e3o das terras dos Yanomami e o seu massacre porque na verdade trata-os como selvagens, como \u201c\u00edndios\u201d \u2014 perpetuando este estere\u00f3tipo do s\u00e9culo XVI \u2014, como fazendo parte de uma sub-humanidade deca\u00edda, atrasada. S\u00e3o ainda os \u201cnegros da terra\u201d dos s\u00e9culos XVI e XVII.<\/p>\n<p>Trata-se, pois, do racismo estrutural\/estruturante de nossa sociedade. Sucedesse tal horror nas cidades do interior paulista ou nos povoados ga\u00fachos, a m\u00e3o pesada do Estado brasileiro restauraria de imediato a lei e a ordem, protegendo seus cidad\u00e3os. Mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece quando se trata de \u201c\u00edndios\u201d&#8230; Estes podem at\u00e9 coexistir no mesmo espa\u00e7o que o \u2018nosso\u2019, mas n\u00e3o fazem parte, para todos os efeitos, de nossa mesma humanidade. Algu\u00e9m tem d\u00favida a respeito? Pois ent\u00e3o ou\u00e7am o presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, em reflex\u00e3o sobre o tema em janeiro de 2020:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCom toda a certeza, o \u00edndio mudou, t\u00e1 evoluindo. Cada vez mais o \u00edndio \u00e9 um ser humano igual a n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Cada vez mais&#8230; mas ainda n\u00e3o. Tanto \u00e9 que Bolsonaro foi denunciado no Tribunal Penal Internacional (TPI) em novembro de 2019, pela Comiss\u00e3o Arns, por crimes contra a humanidade e incita\u00e7\u00e3o ao genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas do Brasil.<\/p>\n<p>E o que faz o Estado brasileiro diante disso tudo? O Minist\u00e9rio da Defesa organiza, no \u00faltimo dia de junho e primeiro de julho, um saf\u00e1ri irrespons\u00e1vel e criminoso na Terra Yanomami para distribuir parte de sua bagagem de 66 mil comprimidos de cloroquina, tirar algumas selfies e talvez mesmo levar \u00e0s comunidades o Sars-Cov-2 atrav\u00e9s dos in\u00fameros membros da comitiva (entre eles, at\u00e9 jornalistas estrangeiros) que visitaram Hospital de Campanha na \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o e Cuidados em Boa Vista (RR), local de tratamento para os doentes do COVID-19, antes de entrar nas comunidades de Surucucu, Auaris e Waik\u00e1s.<\/p>\n<p>De proteger a Terra Ind\u00edgena e expulsar os garimpeiros ningu\u00e9m fala. O assunto sequer \u00e9 tratado pelo ministro da Defesa, General Fernando de Azevedo, que se vangloria de que a pandemia est\u00e1 sobre controle e que nenhum Yanomami testou positivo para o COVID-19.<\/p>\n<p>Enquanto isto, meu \u201ccunhado\u201d Jos\u00e9 Luiz G\u00f3es, da comunidade de Maturac\u00e1, me informa ainda ontem que 17 pessoas j\u00e1 morreram de Covid-19 em sua aldeia e na de e Ariab\u00fa desde o in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n<p>Felizmente, a avalia\u00e7\u00e3o do ministro da Defesa n\u00e3o \u00e9 compartilhada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, que, atrav\u00e9s da Procuradoria da Rep\u00fablica em Roraima, expressou preocupa\u00e7\u00e3o com sua declara\u00e7\u00e3o de que a pandemia est\u00e1 controlada entre os Yanomami. Causa espanto tamb\u00e9m ao MPF a inexist\u00eancia de qualquer medida de prote\u00e7\u00e3o territorial justamente em uma \u2018opera\u00e7\u00e3o\u2019 que visava conter a propaga\u00e7\u00e3o da COVID-19, cujo principal fator de risco entre os Yanomami \u00e9 justamente o garimpo ilegal.<\/p>\n<p>Em nota divulgada na \u00faltima quinta-feira (2), o MPF informa que, frente \u00e0 tentativa de minimizar a gravidade da pandemia e seus riscos por parte dos \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es competentes \u201caguarda decis\u00e3o do TRF1 em recurso interposto na a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica que busca obrigar o Poder Executivo Federal \u00e0 \u00fanica medida eficiente de prote\u00e7\u00e3o: a elabora\u00e7\u00e3o de um plano emergencial de a\u00e7\u00f5es para monitoramento territorial efetivo da Terra Ind\u00edgena Yanomami, combate a il\u00edcitos ambientais e extrus\u00e3o de infratores ambientais que possam transmitir a covid-19, inclusive \u00e0 comunidade isolada Moxihat\u00ebtea, esta exposta a um risco concreto de genoc\u00eddio\u201d.<\/p>\n<p>E n\u00e3o nos fa\u00e7amos de desentendidos: o genoc\u00eddio n\u00e3o \u00e9 uma figura de linguagem. A exist\u00eancia dos Yanomami est\u00e1 por fio. Seu mundo amea\u00e7ado da maneira que sempre foi: atrav\u00e9s da extrema viol\u00eancia, da devasta\u00e7\u00e3o da terra, da morte, da fome, da doen\u00e7a e do desespero.<\/p>\n<p>Pois \u00e9! Infelizmente o destino tem seus caprichos&#8230; Desta vez, a invas\u00e3o de suas terras acontece em plena pandemia do COVID-19, tornando assim os Yanomami ainda mais vulner\u00e1veis: a devasta\u00e7\u00e3o de uma potencializada pelo perigo da outra &#8230;<\/p>\n<p>O pesadelo de ver seu mundo, a floresta, literalmente destru\u00eddo e seus parentes dizimados pelas doen\u00e7as, pela fome e pela viol\u00eancia \u00e9 assim vivido ainda uma vez por aqueles que mal se recuperaram do desastre provocado pela primeira febre do ouro em Roraima entre 1985 e 1990. \u00c9 poss\u00edvel que hoje contemos mais garimpeiros \u2014 muito provavelmente mais de 20 mil \u2014 do que ind\u00edgenas em seu territ\u00f3rio no Brasil.<\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o causada pela atividade de extra\u00e7\u00e3o do ouro \u00e9 inimagin\u00e1vel. Sugiro ao leitor que fa\u00e7a uma busca no Google Images, teclando \u00abgarimpo em terra yanomami\u00bb para se dar conta do que estamos falando. A selva se transforma em uma paisagem lunar irreconhec\u00edvel. N\u00e3o somente a floresta \u00e9 totalmente destru\u00edda como tamb\u00e9m os rios, que s\u00e3o dragados, desviados de seu curso, aterrados e se tornam uma infinidade de lagos estagnados e sem nenhuma vida.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, todo ser vivo \u00e9 contaminado pelo merc\u00fario, amplamente usado no garimpo \u2014para separar o ouro de outros metais e amalgam\u00e1-lo. Por que tenhamos uma ideia do que estamos falando, cito um estudo da Fiocruz em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), realizado no ano de 2019, que registrou na regi\u00e3o de Waik\u00e1s uma aldeia yanomami com um \u00edndice de contamina\u00e7\u00e3o de mais de 90% de seus moradores.<\/p>\n<p>Mas toda essa destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma face da moeda. A outra, menos conhecida, \u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o humana que o garimpo provoca nas comunidades yanomami \u2014 t\u00e3o terr\u00edvel quanto a primeira. O exemplo mais cru dessa tempestade de viol\u00eancia que se abate sobre as aldeias envolvidas pelo garimpo foi o massacre do Haximu, em que 16 membros de uma aldeia da regi\u00e3o do Homoxi, em Roraima, foram trucidados por garimpeiros em junho e julho de 1993.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o dos garimpeiros, armados de fac\u00f5es, espingardas e rev\u00f3lveres era exterminar toda a aldeia, no entanto a maioria dos adultos tinha partido para um acampamento na floresta. Quem permaneceu na casa coletiva e n\u00e3o conseguiu fugir, 12 pessoas, entre elas, um adulto, mulheres, crian\u00e7as e idosos, foram mortos a tiros e tiveram os corpos retalhados a fac\u00e3o; uma idosa foi morta a pontap\u00e9s e mesmo um beb\u00ea n\u00e3o foi poupado.<\/p>\n<p>Outros quatro jovens yanomami dessa mesma comunidade j\u00e1 tinham sido assassinados algumas semanas antes, no m\u00eas de junho, elevando o total de mortos para 16. Esse massacre foi \u00fanico caso no Brasil julgado como genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Durante a primeira invas\u00e3o garimpeira de seu territ\u00f3rio, os Yanomami viram sua popula\u00e7\u00e3o dizimada em 20% \u2014comparativamente, \u00e9 como se 42 milh\u00f5es perecessem. Certamente, todos esses mortos n\u00e3o sucumbiram \u00e0s armas dos garimpeiros. Mas nem por isso, deixam de ser v\u00edtimas da viol\u00eancia e brutalidade que regem as rela\u00e7\u00f5es entre garimpeiros e Yanomami. Instalado o garimpo e a corrutela os ind\u00edgenas s\u00e3o tragados por uma espiral infernal.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as local ainda n\u00e3o est\u00e1 do lado dos garimpeiros, armas de fogo e bebida alco\u00f3lica s\u00e3o moeda corrente para comprar sen\u00e3o a simpatia ao menos a toler\u00e2ncia dos Yanomami, que de qualquer forma logo se veem subjugados por milhares de intrusos com bastante disposi\u00e7\u00e3o e poder \u2014 possuindo balsas, maquin\u00e1rio, armas de fogo, avi\u00f5es, helic\u00f3pteros \u2014, para dominar a regi\u00e3o onde se instalam.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre bom lembrar que os Yanomami passaram a ter contato mais permanente com a sociedade nacional apenas a partir de meados da d\u00e9cada de 1960. Mesmo assim, de forma muito limitada e pontual, atrav\u00e9s das miss\u00f5es religiosas, da FUNAI e, mais tarde, com a abertura da Perimetral Norte (mais tarde abandonada) e com o Projeto Calha Norte, em 1980, e a instala\u00e7\u00e3o das unidades de fronteira do Ex\u00e9rcito Brasileiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_1153435\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153435\" class=\"wp-image-1153435 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/mae-e-crianc\u0327a-yanomami-Sam-valadi.jpg\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/mae-e-crianc\u0327a-yanomami-Sam-valadi.jpg 799w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/mae-e-crianc\u0327a-yanomami-Sam-valadi-300x152.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/mae-e-crianc\u0327a-yanomami-Sam-valadi-720x364.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/mae-e-crianc\u0327a-yanomami-Sam-valadi-768x388.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><p id=\"caption-attachment-1153435\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e3e yanomami com o seu filho. Foto Sam valadi<\/p><\/div>\n<p>A maioria das pessoas vive como seus ancestrais e fala apenas sua pr\u00f3pria l\u00edngua em aldeias com pouco mais de 50 habitantes. O horizonte social do Yanomami vivendo na floresta s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que mant\u00e9m com mais tr\u00eas ou quatro comunidades vizinhas, ou seja, um coletivo humano de 200 indiv\u00edduos. Assim, o desconhecimento da dimens\u00e3o que pode tomar a invas\u00e3o garimpeira, do n\u00famero de invasores que o ouro pode atrair, e a incompreens\u00e3o dos perigos que ir\u00e3o necessariamente amea\u00e7ar seu futuro e sua exist\u00eancia, faz com que os ind\u00edgenas nem sempre se mostrem hostis \u00e0 chegada desses estranhos em seu mundo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando um garimpo e a corrutela se instalam em sua floresta, j\u00e1 \u00e9 tarde demais&#8230;<\/p>\n<p>Nesta mesma regi\u00e3o onde os dois jovens foram assassinados, no alto rio Parima, em Roraima, em fevereiro de 2019, os Yanomami j\u00e1 haviam revelado a devasta\u00e7\u00e3o social provocada pelo garimpo. Em of\u00edcio \u00e0 FUNAI e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, a Associa\u00e7\u00e3o dos Povos Yanomami de Roraima \u2013 Hwenama, denunciava o trabalho escravo, a prostitui\u00e7\u00e3o de mulheres e crian\u00e7as ind\u00edgenas, a dissemina\u00e7\u00e3o de armas de fogo e bebida alco\u00f3lica e a viol\u00eancia dos garimpeiros.<\/p>\n<p>\u201cOs homens adultos s\u00e3o arregimentados para o trabalho de extra\u00e7\u00e3o do ouro, em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas a de escravo, o que leva ao abandono das ro\u00e7as e das atividades de ca\u00e7a e pesca. O resultado disso \u00e9 uma aguda escassez de alimentos e um quadro de fome sem precedentes, que tem levado a popula\u00e7\u00e3o ao desespero\u201d, relata o documento, acrescentando em seguida: \u201caproveitando-se desta situa\u00e7\u00e3o, o garimpo promove a prostitui\u00e7\u00e3o das mulheres e crian\u00e7as, em troca de alimento. As mulheres e jovens yanomami que engravidam e t\u00eam filhos retornam \u00e0 comunidade, tendo que se sustentar sozinhas, sem o apoio de um marido ou da fam\u00edlia, agravando ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. Sem falar na transmiss\u00e3o de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Apesar da gravidade dos fatos denunciados, praticamente nenhuma provid\u00eancia foi tomada e chegamos onde estamos. E \u00e9 importante ressaltar que na den\u00fancia feita pela Hwenama, os Yanomami enfatizam uma das consequ\u00eancias inevit\u00e1veis da presen\u00e7a do garimpo em suas terras: a fome, que se instala de maneira permanente.<\/p>\n<p>Para entender a extens\u00e3o do desastre \u00e9 preciso conhecer o funcionamento das comunidades ind\u00edgenas. A atividade econ\u00f4mica principal dos Yanomami \u00e9 a agricultura de coivara. Cada aldeia, que pode contar de 30 a 100 pessoas planta sua ro\u00e7a, de onde prov\u00e9m boa parte de sua alimenta\u00e7\u00e3o. Planta-se sobretudo banana e mandioca, fornecendo o principal dos carboidratos da dieta yanomami, que \u00e9 completada com a prote\u00edna da ca\u00e7a, pesca e colheita dos frutos da floresta.<\/p>\n<p>A produtividade da ro\u00e7a yanomami se limita a apenas alguns anos. Depois disso, a floresta recome\u00e7a a retomar seu terreno e o trabalho de limpeza da ro\u00e7a demanda tamanho esfor\u00e7o que torna sua manuten\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel. Abre-se ent\u00e3o uma nova lavoura em um novo s\u00edtio. Por esse motivo, cada grupo sempre disp\u00f5e de mais de um ro\u00e7ado. Vemos assim um padr\u00e3o de mobilidade do assentamento e escalonamento a longo prazo da explora\u00e7\u00e3o do solo.<\/p>\n<p>Na verdade, uma comunidade precavida possui tr\u00eas lavouras: uma, mais antiga, j\u00e1 sendo retomada pela floresta, mas de onde ainda \u00e9 poss\u00edvel colher alguma coisa, sobretudo banana; outra, pr\u00f3xima \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o atual da aldeia, em plena produ\u00e7\u00e3o; e finalmente uma terceira sendo aberta, para substituir a atual quando esta n\u00e3o fornecer o suficiente para alimentar a todos.<\/p>\n<p>Mas com o garimpo, os Yanomami passam a viver literalmente sitiados em suas aldeias, amea\u00e7ados por milhares de forasteiros que reviram a terra e os leitos dos igarap\u00e9s e rios a procura de ouro, consumem o produto das suas ro\u00e7as, espantam ou exterminam a ca\u00e7a com armas de fogo e amea\u00e7am ou matam quem resiste \u00e0 invas\u00e3o. Desta forma, todo trabalho na lavoura \u00e9 abandonado ou inviabilizado.<\/p>\n<p>Por outro lado, a geografia da regi\u00e3o torna a alimenta\u00e7\u00e3o dos milhares de garimpeiros um problema de log\u00edstica insol\u00favel: tudo o que \u00e9 consumido deve ser transportado por avi\u00f5es monomotores ou helic\u00f3pteros de Boa Vista, a pelo menos 200 kms de dist\u00e2ncia de l\u00e1, tornando quase proibitivo o pre\u00e7o da comida. Na melhor das hip\u00f3teses, quando poss\u00edvel, os garimpeiros t\u00eam que subir os rios nas voadeiras (botes de alum\u00ednio motorizados) enfrentando corredeiras e navegando durante dias.<\/p>\n<p>A sa\u00edda, muitas vezes, \u00e9 simplesmente saquear as ro\u00e7as yanomami ou, quando muito, obrig\u00e1-los a negociar seu produto. O resultado \u00e9 a desestrutura\u00e7\u00e3o da lavoura, de cujo fr\u00e1gil equil\u00edbrio depende a seguran\u00e7a alimentar da aldeia. A comunidade n\u00e3o tem outra forma de superar tal crise na selva \u2014n\u00e3o h\u00e1 mercado, estoque, moeda ou coisa que o valha!<\/p>\n<p>O desfecho \u00e9 o desespero. \u00c9 a fome ent\u00e3o empurra as mulheres e crian\u00e7as para a prostitui\u00e7\u00e3o e os homens para se prestar a qualquer trabalho em troca de comida.<\/p>\n<p>Mas, como se n\u00e3o bastasse tudo isso, essa situa\u00e7\u00e3o de ruptura social \u00e9 agravada pelo caos sanit\u00e1rio, com a multiplica\u00e7\u00e3o dos casos de Covid-19 e mal\u00e1ria entre as comunidades situadas pr\u00f3ximo aos garimpos e corrutelas, conforme os pr\u00f3prios Yanomami v\u00eam relatando desde o in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como negar que o governo de Jair Bolsonaro, ele pr\u00f3prio um garimpeiro amador confesso, e seus burocratas fardados ou \u00e0 paisana, s\u00e3o respons\u00e1veis diretos pela dimens\u00e3o da invas\u00e3o das terras ind\u00edgenas, pela recrudesc\u00eancia do garimpo e pelo genoc\u00eddio que amea\u00e7a o povo Yanomami.<\/p>\n<p>A anunciada foi\u00e7ada na Funai, foi certeira e a Funda\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o passa de um entulho que mais atrapalha do que ajuda os povos ind\u00edgenas. O presidente n\u00e3o se cansa de dizer que as riquezas minerais das terras ind\u00edgenas devem ser liberadas para a explora\u00e7\u00e3o pelos brasileiros. Recuamos s\u00e9culos! Enquanto o resto do mundo derruba as est\u00e1tuas e remove os monumentos aos conquistadores colonialistas, somos obrigados a ouvir do presidente este louvor ao genoc\u00eddio: \u201cO que seria do Brasil sem os bandeirantes que exploraram os diamantes? Ter\u00edamos um ter\u00e7o do territ\u00f3rio atual se n\u00e3o fossem eles. \u00c9 preciso parar de tratar o garimpeiro como bandido no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Mas o que realmente pensa a respeito foi revelado em uma declara\u00e7\u00e3o de 1998 quando ainda era um med\u00edocre e obscuro deputado federal e talvez n\u00e3o tivesse escr\u00fapulos em camuflar suas convic\u00e7\u00f5es: \u201ca cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus \u00edndios no passado e, hoje em dia, n\u00e3o tem esse problema em seu pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 esperan\u00e7a e alguma luz nas nossas trevas&#8230;<\/p>\n<p>A Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil (Apib) e partidos de oposi\u00e7\u00e3o protocolaram, na \u00faltima ter\u00e7a-feira (30) uma peti\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal (STF), exigindo que o governo seja obrigado a adotar medidas para proteger as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas da pandemia de covid-19. O ministro Lu\u00eds Roberto Barroso intimou na quinta-feira (2) o presidente Jair Bolsonaro a se manifestar a respeito em um prazo de 48 horas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns e o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu), grupo de advogadas que atua voluntariamente promovendo os direitos humanos, denunciaram no dia 28 de novembro de 2019 ao Tribunal Penal Internacional (TPI) o presidente Jair Bolsonaro por &#8220;crimes contra a humanidade e atos que levam ao genoc\u00eddio de comunidades ind\u00edgenas e tradicionais&#8221;. Bolsonaro, se a den\u00fancia for aceita pelo TPI, sediado em Haia, na Holanda, deve responder por atos e omiss\u00f5es que levaram ao assassinato de l\u00edderes ind\u00edgenas, viol\u00eancia a comunidades, ao desmatamento e ao desmantelamento de \u00f3rg\u00e3os estatais encarregados de supervisionar a atua\u00e7\u00e3o governamentais e a prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente.<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00b9 Jornalista e antrop\u00f3logo. <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=579920012\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mois\u00e9s Ramalho\u00b9 No \u00faltimo dia 23 de junho, tais quais animais selvagens, dois jovens yanomami foram ca\u00e7ados e abatidos a tiros por garimpeiros na regi\u00e3o do alto rio Parima, na Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima. 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