{"id":1153295,"date":"2020-07-06T11:15:53","date_gmt":"2020-07-06T10:15:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1153295"},"modified":"2020-07-06T11:20:29","modified_gmt":"2020-07-06T10:20:29","slug":"luta-memoria-e-libertacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/07\/luta-memoria-e-libertacao\/","title":{"rendered":"Luta, mem\u00f3ria e liberta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Pedro Barreto<\/strong><\/em>\u00b9<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Solo le pido a Dios<\/em><br \/>\n<em>que el dolor no me sea indiferente<\/em><br \/>\n<em>que la reseca muerte no me encuentre<\/em><br \/>\n<em>vac\u00edo y solo sin haber hecho lo suficiente<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Trecho de \u201cSolo le pido a Di\u00f3s\u201d, de Le\u00f3n Grieco.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os versos de Le\u00f3n Grieco, magistralmente eternizados pela voz de Mercedes Sosa, falam da import\u00e2ncia de n\u00e3o sermos indiferentes \u00e0 dor, \u00e0 mentira, ao ex\u00edlio, \u00e0 impunidade e \u00e0 guerra. A can\u00e7\u00e3o foi composta em 1978, auge da ditadura do general argentino Jorge Rafael Videla, quando o continente latino-americano estava tomado por regimes sanguin\u00e1rios apoiados pelo governo dos Estados Unidos da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Sosa e Grieco foram artistas importantes naquele per\u00edodo, emprestando suas vozes \u00e0 luta contra o arb\u00edtrio e as atrocidades cometidas pelos generais latino-americanos. Por este motivo, foram exilados e privados de viver em sua terra natal durante o tempo em que essa ditadura perdurou. No momento da redemocratiza\u00e7\u00e3o, regressaram \u00e0 Argentina e esta can\u00e7\u00e3o tornou-se um s\u00edmbolo da luta pela democracia e pela liberdade.<\/p>\n<p>Outros artistas n\u00e3o tiveram a mesma sorte. O chileno V\u00edctor Jara, cantor, compositor, poeta, professor e diretor teatral, muito popular em seu pa\u00eds nos anos 1970, tornou-se um \u00edcone do governo de Salvador Allende (1970-1973). Seus versos representavam o anseio por igualdade e justi\u00e7a social dos trabalhadores urbanos e camponeses chilenos. No dia 11 de setembro de 1973 \u2013 o mesmo em que as tropas de Augusto Pinochet bombardearam o Palacio de la Moneda, em Santiago, resultando na morte do presidente da Rep\u00fablica \u2013 Jara foi preso na Universidade de Chile, onde lecionava. Levado para o Est\u00e1dio Chile, foi barbaramente torturado e fuzilado cinco dias depois. Durante as sess\u00f5es de tortura, teve as m\u00e3os quebradas, como forma de representar o \u00f3dio que os verdugos sentiam pelo seu trabalho de compositor e ex\u00edmio violonista. Ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o est\u00e1dio foi rebatizado com o nome do artista e uma s\u00e9rie de homenagens lhe foi prestada. Em uma delas, na Universidade do Chile, um monumento representa o corpo de um viol\u00e3o e, em seu prolongamento, um bra\u00e7o erguido e uma m\u00e3o espalmada ao c\u00e9u.<\/p>\n<div id=\"attachment_1153259\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153259\" class=\"wp-image-1153259 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Monumento-a-Victor-Jara-Pedro-Barreto.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"1067\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Monumento-a-Victor-Jara-Pedro-Barreto.jpg 800w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Monumento-a-Victor-Jara-Pedro-Barreto-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Monumento-a-Victor-Jara-Pedro-Barreto-720x960.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Monumento-a-Victor-Jara-Pedro-Barreto-768x1024.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-1153259\" class=\"wp-caption-text\">Monumento a V\u00edctor Jara em Santiago do Chile. Foto Pedro Barreto<\/p><\/div>\n<p>Incont\u00e1veis museus e monumentos recordam os horrores do nazismo na Europa. Na Alemanha, a legisla\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a men\u00e7\u00e3o p\u00fablica de s\u00edmbolos que remetam a este regime, exceto em caso de &#8220;esclarecimento c\u00edvico, para defesa contra aspira\u00e7\u00f5es inconstitucionais, para arte ou ci\u00eancia, pesquisa ou ensino, para informa\u00e7\u00e3o sobre eventos atuais ou hist\u00f3ricos ou a prop\u00f3sitos similares&#8221; (<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/quando-o-uso-de-s%C3%ADmbolos-nazistas-%C3%A9-permitido-na-alemanha\/a-45284573\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leia mais aqui<\/a>). O objetivo \u00e9 fazer com que ideologias que tenham como premissas o \u00f3dio, a intoler\u00e2ncia e a viol\u00eancia permane\u00e7am em um lugar, n\u00e3o de esquecimento \u2013 posto que este seria o primeiro passo para que voltassem a ocorrer \u2013, mas sim de repulsa, horror e condena\u00e7\u00e3o. O mesmo acontece em alguns pa\u00edses latino-americanos que recordam os regimes ditatoriais das d\u00e9cadas de 1970 e 80, assim como os nomes daqueles que lutaram contra a sua opress\u00e3o. Na Argentina, Chile e Uruguai n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel transitar pelas ruas sem que nos sejam relembrados os horrores da Opera\u00e7\u00e3o Condor, que assassinou cerca de 50 mil argentinos, 40 mil chilenos e 200 uruguaios, segundo o Portal Mem\u00f3rias da Ditadura (<a href=\"http:\/\/memoriasdaditadura.org.br\/sequencias-didaticas\/ditaduras-militares-na-america-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para acessar<\/a>).<\/p>\n<p>No Brasil, os n\u00fameros de mortos e desaparecidos s\u00e3o subestimados. Oficialmente, o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, por meio dos trabalhos realizados pela Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e da Verdade, reconheceu a morte de 357 pessoas pelo regime autorit\u00e1rio e 600 desaparecidos. O antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Porf\u00edrio de Carvalho, contudo, calcula que, entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, cerca de 1.100 ind\u00edgenas da etnia Waimiri-Atroari foram assassinados em suas terras, compreendidas entre os estados do Amazonas e Roraima. Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel supor que algo em torno de 2.000 brasileiros tenham tido as suas vidas retiradas pelo Estado durante o regime militar (<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/brasil\/fraude-em-patrimonio-indigena-na-amazonia-8364415\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>).<\/p>\n<p>A Lei \u00a0n\u00b0 6.683, promulgada em 1979 (durante o governo do general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, portanto), concedeu anistia a todos que \u201centre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes pol\u00edticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos pol\u00edticos suspensos e aos servidores da Administra\u00e7\u00e3o Direta e Indireta, de funda\u00e7\u00f5es vinculadas ao poder p\u00fablico, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judici\u00e1rio, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares e outros diplomas legais\u201d. Conhecida como \u201cLei da Anistia\u201d, as exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o os casos de \u201ccrimes de terrorismo, assalto, seq\u00fcestro e atentado pessoal\u201d, conforme consta no par\u00e1grafo do Artigo 1\u00ba do documento (<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l6683.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para acessar<\/a>). Na pr\u00e1tica, entretanto, o que ocorreu foi um perd\u00e3o \u201camplo, geral e irrestrito\u201d aos integrantes do Ex\u00e9rcito Brasileiro que torturaram e assassinaram cidad\u00e3os civis, por motivos ideol\u00f3gicos, preconceito e \u00f3dio. Passados 41 anos da promulga\u00e7\u00e3o da referida lei, o chefe do Poder Executivo do Estado brasileiro propagandeia valores odientos, torpes e brutais, opostos \u00e0queles afirmados pelo conjunto da sociedade civil no momento da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1985, e firmados na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. Tiv\u00e9ssemos realizado o trabalho de preserva\u00e7\u00e3o e resgate da nossa mem\u00f3ria recente, hoje, talvez, viv\u00eassemos um momento menos tr\u00e1gico.<\/p>\n<h4>O \u201cPacificador\u201d<\/h4>\n<p>Os regimes ditatoriais n\u00e3o s\u00e3o exatamente uma exce\u00e7\u00e3o em nosso continente, assim como n\u00e3o o s\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o de nosso povo, a hegemonia de uma elite autorit\u00e1ria, assassina, machista e racista. Pelo contr\u00e1rio: os per\u00edodos democr\u00e1ticos sim, o s\u00e3o. O fil\u00f3sofo italiano Antonio Gramsci j\u00e1 nos dizia, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que a hegemonia \u00e9 constru\u00edda de duas formas: pelo consenso e pela coer\u00e7\u00e3o. Quando as classes dominantes fracassam na tentativa de impor a sua domina\u00e7\u00e3o por meio da primeira, entra em a\u00e7\u00e3o a segunda. Em outras palavras, quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel convencer o povo de que o modelo apresentado pela elite deve ser implementado, utilizando argumentos, \u00e9 a vez de usar a for\u00e7a para faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Erguer monumentos em homenagem a generais, ditadores e d\u00e9spotas \u00e9 uma forma de legitimar a mem\u00f3ria de homens cujos feitos n\u00e3o passariam no crivo de uma an\u00e1lise mais detida, se observados os princ\u00edpios dos direitos humanos, do respeito \u00e0 vida, da igualdade e da justi\u00e7a social. Homens como Lu\u00eds Alves de Lima e Silva, ou simplesmente Duque de Caxias, batiza um dos munic\u00edpios mais populosos do estado do Rio de Janeiro. Eternizado como patrono do Ex\u00e9rcito Brasileiro, \u00e9 conhecido como \u201co pacificador\u201d pela forma como \u201capaziguava\u201d os territ\u00f3rios considerados \u201cinimigos\u201d: dizimando popula\u00e7\u00f5es inteiras, como fez na Guerra do Paraguai e nas revoltas da Balaiada e Farroupilha, entre outras. Outro militar, o coronel Moreira C\u00e9sar, d\u00e1 nome a uma importante rua na regi\u00e3o de Icara\u00ed, bairro de classe m\u00e9dia alta da cidade de Niter\u00f3i, no estado do Rio de Janeiro. Moreira C\u00e9sar esteve envolvido na \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d de revoltas no s\u00e9culo XIX, que questionavam o poder vigente, como a Sedi\u00e7\u00e3o Baiana (1891), Revolta da Armada (1893-94) e a Revolu\u00e7\u00e3o Federalista (1893-95). Na mais conhecida delas, em que o ex\u00e9rcito republicano enfrentou maior resist\u00eancia, dado o seu car\u00e1ter intrinsicamente popular, a Revolta de Canudos (1896-1897), Moreira C\u00e9sar foi abatido em combate.<\/p>\n<p>Tanto Caxias quanto C\u00e9sar tiveram em comum \u2013 al\u00e9m do rastro de sangue deixado em territ\u00f3rios onde, ao fim e ao cabo, seu povo buscava apenas o fim da opress\u00e3o por parte do Estado brasileiro \u2013 o fato de terem recebido homenagens p\u00f3stumas que eternizaram seus nomes, n\u00e3o apenas nos livros escolares, como nas ruas e pra\u00e7as do Brasil afora. Preservar a mem\u00f3ria de tais personagens serve principalmente a um objetivo: deixar registrado o exemplo de que, por maior e mais violenta que seja a opress\u00e3o, o povo n\u00e3o deve se sublevar em hip\u00f3tese alguma. Este recado parece ser refor\u00e7ado todos os dias nas favelas e periferias das grandes cidades e nos rinc\u00f5es deste pa\u00eds, haja vista a permanente e brutal viol\u00eancia estatal, de car\u00e1ter evidentemente racista, elitista, patrimonialista e colonial, empreendida contra negros, povos origin\u00e1rios, trabalhadores e trabalhadoras, homens e mulheres pobres, que t\u00eam a ousadia de resistir, ou simplesmente, existir. Por este motivo, centenas de milhares de cad\u00e1veres reviram-se em seus t\u00famulos quando algu\u00e9m profere o cl\u00e1ssico argumento perverso e autocentrado: \u201co povo brasileiro \u00e9 pac\u00edfico e acomodado\u201d.<\/p>\n<h4>Monumentos no Rio de Janeiro<\/h4>\n<p>Por outro lado, os monumentos que rememoram a luta do povo oprimido s\u00e3o comumente relegados, ocultados, suprimidos dos locais p\u00fablicos, tais como as narrativas que deveriam contar a sua vers\u00e3o da hist\u00f3ria. Rar\u00edssimos s\u00e3o os relatos da escravid\u00e3o em primeira pessoa dispon\u00edveis no Brasil: como o de Mohmmah Gardo Baquaqua, nascido em uma regi\u00e3o da \u00c1frica, hoje compreendida como Benin, preso e traficado para o Brasil, tendo vivido em Pernambuco e Rio de Janeiro (<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/historia\/relatos-de-cativos-no-brasil-em-1-pessoa-revelam-de-forma-pungente-seu-sofrimento-15402413\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>). Baquaqua chegou a tentar o suic\u00eddio, mas a a\u00e7\u00e3o fracassada resultou em castigo severo: \u201cFui levado \u00e0 casa de meu senhor, que atou minhas m\u00e3os para tr\u00e1s, colocou-me de p\u00e9s juntos, chicoteou-me sem miseric\u00f3rdia e me espancou na cabe\u00e7a e nas faces com uma vara pesada\u201d, relatou Baquaqua ao jornalista irland\u00eas Samuel Moore, que publicou as mem\u00f3rias em 1854. A obra virou tema de pesquisa dos historiadores brasileiros Bruno V\u00e9ras e Nielson Bezerra, orientados pelo professor canadense Paul Lovejoy. O trabalho se transformou no livro \u201cBiografia de Mohammah Gardo Baquaqua\u201d, lan\u00e7ado em 2017 pela Editora Uirapuru (<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/sociedade\/historia\/relatos-de-cativos-no-brasil-em-1-pessoa-revelam-de-forma-pungente-seu-sofrimento-15402413\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>), e \u00e9 considerada a \u00fanica autobiografia escrita por uma pessoa escravizada que viveu no Brasil.<\/p>\n<p>O Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi aquele que mais recebeu pessoas em situa\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o em todo o mundo. Calcula-se que dos cerca de 5 milh\u00f5es de africanos trazidos para o Brasil, 2 milh\u00f5es chegaram ao Rio de Janeiro e 500 mil desembarcaram no Valongo (<a href=\"http:\/\/www.rio.rj.gov.br\/dlstatic\/10112\/91277\/4187002\/NilcemarposseGT.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>), situado na zona portu\u00e1ria da cidade. Hoje, o Cais \u00e9 reconhecido como Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico da Humanidade pela Unesco. O bairro da Sa\u00fade, onde fica o Valongo, possui outros espa\u00e7os representativos da heran\u00e7a africana no Rio de Janeiro, como a Casa da Tia Ciata (clique aqui para acessar https:\/\/bit.ly\/3dG001W), em homenagem \u00e0 mulher considerada respons\u00e1vel por realizar as reuni\u00f5es em que os primeiros sambas foram criados; o Instituto dos Pretos Novos (clique aqui para acessar http:\/\/pretosnovos.com.br\/) e o Museu da Escravid\u00e3o e da Liberdade (<a href=\"http:\/\/museus.cultura.gov.br\/espaco\/14580\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para acessar<\/a>), que re\u00fanem pesquisas arqueol\u00f3gicas e demais registros para que n\u00e3o esque\u00e7amos os horrores perpetrados contra o povo negro.<\/p>\n<div id=\"attachment_1153239\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153239\" class=\"wp-image-1153239 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-mercedes-baptista-Maiara-Barbosa..jpeg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1015\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-mercedes-baptista-Maiara-Barbosa..jpeg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-mercedes-baptista-Maiara-Barbosa.-222x300.jpeg 222w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-mercedes-baptista-Maiara-Barbosa.-720x974.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1153239\" class=\"wp-caption-text\">Est\u00e1tua de Mercedes Baptista. Largo S\u00e3o Francisco da Prainha, Rio de Janeiro. Foto <a href=\"https:\/\/meudestinoelogoali.com.br\/2018\/05\/02\/a-pequena-africa-do-rio-de-janeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Maiara Barbosa<\/a>.<\/p><\/div>\n<p>Perto dali, est\u00e1 a Pedra do Sal, local onde os escravos desembarcavam o sal a ser vendido na cidade. No Largo da Prainha, a 500 metros da Pedra, est\u00e1 instalada a est\u00e1tua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a atuar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (<a href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/morre-mercedes-baptista-primeira-bailarina-negra-theatro-municipal-rio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">credalique aqui para saber mais<\/a>). Baptista \u00e9 considerada a respons\u00e1vel por introduzir elementos da cultura afro-brasileira no bal\u00e9 cl\u00e1ssico. Tamb\u00e9m foi personagem do carnaval carioca, quando, em 1963, coreografou a comiss\u00e3o de frente da G.R.E.S Acad\u00eamicos do Salgueiro, que trazia o enredo sobre Xica da Silva, mesclando elementos do bal\u00e9 cl\u00e1ssico ao samba no desfile carnavalesco. A coreografia causou pol\u00eamica \u00e0 \u00e9poca, mas influenciou desfiles de anos posteriores. O document\u00e1rio \u201cBal\u00e9 de p\u00e9 no ch\u00e3o \u2013 a dan\u00e7a afro de Mercedes Baptista\u201d (2005) as diretoras Lilian Sol\u00e1 Santiago e Marianna Monteiro reconhecem Baptista como a criadora do bal\u00e9 afro-brasileiro, inspirado em movimentos dos terreiros de candombl\u00e9, e respons\u00e1vel pela consolida\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a moderna no Brasil (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=x9CMU4aayjU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>).<\/p>\n<p>Saindo dali, caminhando pela orla da zona portu\u00e1ria, depois de passar pela Pra\u00e7a Mau\u00e1, chega-se \u00e0 Pra\u00e7a XV de Novembro. Um pouco antes de avistar a esta\u00e7\u00e3o das barcas, \u00e9 poss\u00edvel observar a descomunal est\u00e1tua equestre de General Os\u00f3rio, primeiro monumento da Rep\u00fablica no Rio de Janeiro, inaugurado em 1894, em homenagem ao militar que comandou as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. A est\u00e1tua, feita com o bronze dos canh\u00f5es tomados dos vencidos naquele conflito, mede oito metros de altura e pesa mais de cinco toneladas (<a href=\"http:\/\/maisrio.com.br\/monumento-general-osorio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para saber mais<\/a>).<\/p>\n<p>Os visitantes que passam pelo local dificilmente observam outro monumento de personagem hist\u00f3rico da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de Jo\u00e3o C\u00e2ndido Felisberto, o \u201cAlmirante Negro\u201d, homenageado por Aldir Blanc e Jo\u00e3o Bosco na can\u00e7\u00e3o \u201cO mestre-sala dos mares\u201d, aquele \u201cque tem por monumento as pedras pisadas do cais\u201d. Separadas por poucos metros uma da outra, a est\u00e1tua de Jo\u00e3o C\u00e2ndido mede dois metros de altura (<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/estatua-de-joao-candido-na-praca-xv-recuperada-6965125\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para saber mais<\/a>), \u00bc do tamanho daquela que homenageia o General Os\u00f3rio. Avistar o monumento que rememora o Almirante Negro fica ainda mais dif\u00edcil para quem chega da esta\u00e7\u00e3o das barcas, ou da Avenida 1\u00ba de mar\u00e7o, pois h\u00e1 uma esta\u00e7\u00e3o de VLT que atrapalha a sua observa\u00e7\u00e3o ao longe. Portanto, para conhecer a est\u00e1tua \u00e9 preciso j\u00e1 conhecer a hist\u00f3ria do marinheiro, que, em 1910, enfrentou os seus superiores e liderou a Revolta da Chibata.<\/p>\n<div id=\"attachment_1153282\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1153282\" class=\"wp-image-1153282 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-joao-candido-Pedro-Barreto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"762\" height=\"573\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-joao-candido-Pedro-Barreto-1.jpg 762w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-joao-candido-Pedro-Barreto-1-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/estatua-joao-candido-Pedro-Barreto-1-720x541.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 762px) 100vw, 762px\" \/><p id=\"caption-attachment-1153282\" class=\"wp-caption-text\">Est\u00e1tua de Jo\u00e3o C\u00e2ndido. Pra\u00e7a XV, Rio de Janeiro. Foto Pedro Barreto<\/p><\/div>\n<p>O motim teve como objetivo protestar contra os a\u00e7oites, que, mesmo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, comumente castigavam a tripula\u00e7\u00e3o, de maioria negra. Jo\u00e3o C\u00e2ndido e os demais marujos conseguiram que cessassem os castigos f\u00edsicos. Contudo, o l\u00edder da revolta foi perseguido, preso e expulso da Marinha (<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_C%C3%A2ndidohttps:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_C%C3%A2ndido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para saber mais<\/a>). A est\u00e1tua que o homenageia foi inaugurada em 2008 pelo ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que em seu pronunciamento, declarou: \u201cEste \u00e9 um daqueles momentos quase m\u00e1gicos que todo presidente sonha viver. Hoje lembramos um her\u00f3i nacional no Rio de Janeiro. S\u00f3 conhecendo a nossa hist\u00f3ria \u00e9 que vamos formar uma consci\u00eancia pol\u00edtica\u201d (<a href=\"https:\/\/gov-rj.jusbrasil.com.br\/noticias\/223771\/almirante-negro-ganha-estatua-na-praca-xv?ref=amp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique aqui para ler mais<\/a>), disse Lula, sem imaginar que, dez anos depois, seria ele a ser condenado em um processo, digamos, juridicamente falho e eivado de v\u00edcios e convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h4>Ressignificando o passado<\/h4>\n<p>Dito isso, \u00e9 preciso falar sobre os recentes atos antirracistas ocorridos em Minneapolis, Estados Unidos, por ocasi\u00e3o da morte de George Floyd, homem negro assassinado por um policial branco, que se ajoelhou sobre sua garganta e ali permaneceu at\u00e9 que os clamores de \u201cpare, eu n\u00e3o estou conseguindo respirar\u201d cessassem e Floyd perdesse a vida. Os dias posteriores \u00e0 morte de mais uma v\u00edtima negra da viol\u00eancia policial foi marcada por intensos protestos, n\u00e3o apenas nos EUA como em outras cidades de todo o mundo, que exigiam Justi\u00e7a e o fim da brutalidade do Estado contra a popula\u00e7\u00e3o negra. Em alguns desses protestos, est\u00e1tuas de personagens identificados com o racismo, o colonialismo, o genoc\u00eddio e a opress\u00e3o foram derrubadas. Foi o caso do monumento em homenagem ao colonizador Crist\u00f3v\u00e3o Colombo que, al\u00e9m de retirado de seu pedestal, foi incendiado e arremessado em um lago da cidade de Richmond, no estado da Virginia. Esculpida em bronze e erguida em 1895, na cidade de Bristol, Inglaterra, a est\u00e1tua de Edward Colston \u2013 que entre os s\u00e9culos XVII e XVIII traficou mais de 80 mil africanos para as Am\u00e9ricas (dentre os quais, cerca de 20 mil morreram na travessia) \u2013 tamb\u00e9m foi derrubada do alto de sua at\u00e9 ent\u00e3o inexpugn\u00e1vel base, por ativistas antirracistas.<\/p>\n<p>No Brasil, manifesta\u00e7\u00f5es nas redes sociais sugeriram a destrui\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua do bandeirante Borba Gato, assassino de negros e ind\u00edgenas do s\u00e9culo XVIII. N\u00e3o tardou, contudo, que entrassem em cena os defensores dos direitos das est\u00e1tuas. N\u00e3o casualmente. Sabem o que fazem quando defendem a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria daqueles que trabalharam para a manuten\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da elite branca, racista, machista, colonial e patrimonialista, que orienta os rumos deste pa\u00eds h\u00e1 520 anos.<\/p>\n<p>A luta daqueles que acreditam ser necess\u00e1rio o fim dessa estrutura social \u2013 que beneficia uma elite mesquinha, individualista, perversa e que n\u00e3o hesita em utilizar a viol\u00eancia para conservar os seus privil\u00e9gios\u2013 deve se dar tamb\u00e9m pela an\u00e1lise cr\u00edtica de nosso pr\u00f3prio passado, de nossa mem\u00f3ria, ressignificando s\u00edmbolos e tradi\u00e7\u00f5es, denunciando a viol\u00eancia perpetrada por aqueles que hoje s\u00e3o exaltados, contra aqueles que desde sempre s\u00e3o oprimidos, explorados, dizimados. A derrubada de monumentos e est\u00e1tuas pode ser apenas um gesto simb\u00f3lico. Assim como cantarolar can\u00e7\u00f5es antigas que nos lembrem a import\u00e2ncia de n\u00e3o sermos indiferentes \u00e0 dor, \u00e0 mentira, ao ex\u00edlio, \u00e0 impunidade e \u00e0 guerra. Mas, podem ser o come\u00e7o do caminho da tomada de consci\u00eancia de um povo rumo \u00e0 sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00b9 Pedro Barreto \u00e9 jornalista, antifascista e antirracista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pedro Barreto\u00b9 Solo le pido a Dios que el dolor no me sea indiferente que la reseca muerte no me encuentre vac\u00edo y solo sin haber hecho lo suficiente Trecho de \u201cSolo le pido a Di\u00f3s\u201d, de Le\u00f3n 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