{"id":1152464,"date":"2020-07-05T03:52:28","date_gmt":"2020-07-05T02:52:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1152464"},"modified":"2020-07-06T13:22:55","modified_gmt":"2020-07-06T12:22:55","slug":"theresa-rocha-esse-processo-vem-sendo-profundamente-transformador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/07\/theresa-rocha-esse-processo-vem-sendo-profundamente-transformador\/","title":{"rendered":"Thereza Rocha: &#8220;Esse processo vem sendo profundamente transformador&#8221;"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">DAN\u00c7A<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por<strong> Alice Poppe<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Entrevisto hoje a pesquisadora de danc\u0327a, diretora e dramaturgista Thereza Rocha<\/em>[1]<em>, parceira h\u00e1 longos anos na dan\u00e7a contempor\u00e2nea, desde o encontro por ocasi\u00e3o de nossa forma\u00e7\u00e3o na Escola Angel Vianna at\u00e9 as cria\u00e7\u00f5es em que partilhamos, de diferentes maneiras, processos e atua\u00e7\u00e3o, alguns deles aparecem na nossa conversa aqui. Professora da Universidade Federal do Cear\u00e1 e autora do livro \u201cO que \u00e9 dan\u00e7a contempor\u00e2nea?\u201d (Conex\u00f5es Criativas, 2016), Thereza nos contar\u00e1 sobre aspectos de sua forma\u00e7\u00e3o interdisciplinar, sobre seu livro e, tamb\u00e9m, sobre percep\u00e7\u00f5es do nosso entorno em meio ao cen\u00e1rio atual de pandemia. Esse momento celebra o ingresso dela nos Cadernos de Cultura Pressenza, quando passar\u00e1 a revezar comigo as reda\u00e7\u00f5es acerca do corpo e da dan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u2013 Thereza, voc\u00ea percorre um trajeto interdisciplinar em sua forma\u00e7\u00e3o, tendo passado pelo cinema, pelo teatro, pela m\u00fasica at\u00e9 culminar na dan\u00e7a no Curso T\u00e9cnico para Bailarinos da Escola Angel Vianna. Voc\u00ea p\u00f4de, ent\u00e3o, vivenciar em diferentes linguagens, em lugares diversos, a experi\u00eancia de investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Gostaria que voc\u00ea descrevesse sua trajet\u00f3ria como artista da dan\u00e7a de modo a enfatizar suas influ\u00eancias art\u00edstico-pedag\u00f3gicas nos diferentes campos, bem como conectar o seu percurso ao contexto hist\u00f3rico ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o na dan\u00e7a contempor\u00e2nea.<\/strong><\/p>\n<p>Como voc\u00ea relaciona o seu trabalho enquanto dramaturgista|artista com o exerc\u00edcio de escrita e de sala de aula?<\/p>\n<p>\u2013 Depois de uma longa trajet\u00f3ria art\u00edstica e acad\u00eamica, foi no exerc\u00edcio da dramaturgia que encontrei o termo correto para nomear o que eu fazia. Com isso, quero dizer que o modo de operar, de trabalhar, veio antes e o nome, depois. Minha trajet\u00f3ria profissional coincide com a dissemina\u00e7\u00e3o, que aconteceu aos poucos, desse termo nas artes da cena no Brasil. Dramaturgia, no caso, nomeia a atividade de um artista com tr\u00e2nsito pelos estudos te\u00f3ricos que se associa a um coletivo de cria\u00e7\u00e3o e exerce ali fun\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0s de um(a) <em>dramaturg<\/em>, termo que vem da l\u00edngua alem\u00e3. Inclusive, se voc\u00ea observar as fichas t\u00e9cnicas de espet\u00e1culos que datam da d\u00e9cada de 1990, encontrar\u00e1 esse cr\u00e9dito assim escrito \u201cdramaturg\u201d, emprestado diretamente do alem\u00e3o, quando ainda n\u00e3o existia tradu\u00e7\u00e3o do termo para o portugu\u00eas. Mais tarde, chancelou-se a tradu\u00e7\u00e3o do termo para \u201cdramaturgista\u201d na nossa l\u00edngua, aquele ou aquela que trabalha numa bitola da dramaturgia distinta da autoria de textos dram\u00e1ticos, sendo, portanto, chamada de dramaturgismo. Esse termo n\u00e3o \u201cpegou\u201d muito, ent\u00e3o nomeamos o que fazemos de \u201cdramaturgia\u201d, no entanto, h\u00e1 distin\u00e7\u00f5es importantes. N\u00e3o sei se voc\u00ea se recorda daquele caso que aconteceu conosco por ocasi\u00e3o da estreia da nossa M\u00e1quina de Dan\u00e7ar[2], no Rio. Revis\u00e1vamos o texto do release de imprensa quando, no retorno deste ao assessor, querid\u00edssimo Christovan Chevalier, com corre\u00e7\u00f5es, recebo um e-mail com a pergunta curiosa: por que havia eu modificado o termo \u201cdramaturga\u201d para \u201cdramaturgista\u201d, nomeando a minha fun\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Lembro que rendeu um longo email de resposta, pois, de fato \u00e9 pergunta que se responde, tipo: \u201cDesce o tel\u00e3o! Senta, que l\u00e1 vem a hist\u00f3ria\u2026\u201d (risos) A quest\u00e3o \u00e9 boa, se levarmos em considera\u00e7\u00e3o que na ficha t\u00e9cnica eu assinava o cr\u00e9dito \u201cDramaturgia\u201d. Por que ent\u00e3o, a pessoa que fazia a dramaturgia n\u00e3o podia ser chamada no release de \u201cdramaturga\u201d? Votando \u00e0 l\u00edngua alem\u00e3, a atua\u00e7\u00e3o do\/a <em>dramaturg<\/em> difere do que faz o <em>dramatiker<\/em>, autor de textos dram\u00e1ticos para o teatro, que celebrizou, na hist\u00f3ria das artes c\u00eanicas, tantos nomes importantes. N\u00f3s, dramaturgistas, n\u00e3o trabalhamos com a escrita de textos dram\u00e1ticos e o que fazemos depende totalmente do projeto ao qual estamos associados\/as, muda a cada vez, mas, em linhas gerais, \u00e9 mais ou menos o acompanhamento cr\u00edtico de um processo de cria\u00e7\u00e3o no seu durante, gosto de dizer uma cr\u00edtica <em>avant la lettre<\/em>, uma cr\u00edtica avan\u00e7ada ou antes do tempo.<\/p>\n<p>No decurso dos \u00faltimos 20 anos, no Brasil, vem acontecendo uma mudan\u00e7a bastante radical na economia de cria\u00e7\u00e3o e na pol\u00edtica organizacional da cria\u00e7\u00e3o em dan\u00e7a no que diz respeito \u00e0 centralidade que outrora ocupava a fun\u00e7\u00e3o do\/a core\u00f3grafo\/a, centralidade que implicava uma hierarquia de fun\u00e7\u00f5es entre os artistas. Muitos coletivos acentrados apareceram, muitos trabalhos de colabora\u00e7\u00e3o entre artistas independentes, muitos solos foram criados na mudan\u00e7a do\/a bailarino\/a \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de int\u00e9rprete-criador(a). Paralelamente a isso, a figura do\/a dramaturgista come\u00e7a tamb\u00e9m a aparecer com frequ\u00eancia. E isso n\u00e3o \u00e9 uma mera coincid\u00eancia.\u00a0 No caso de um solo de dan\u00e7a, por exemplo, pergunto: como o\/a int\u00e9rprete-criador(a) cria o trabalho no seu pr\u00f3prio corpo e consegue saber o que est\u00e1 fazendo se ele\/a n\u00e3o pode se ver? Ver, aqui, \u00e9 preciso pontuar, mora na decis\u00e3o deste\/a artista por trabalhar na aus\u00eancia da coreopol\u00edtica da coreografia, como o define Andr\u00e9 Lepecki. Talvez a gente possa falar de um olhar cego implicado nesse procedimento, mas eu preferiria dizer de uma tatilidade, uma vez que \u00e9 de corpo que se trata e que \u00e9 justamente a escopia da cria\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica que est\u00e1 sob suspeita. Como ver-se (tocar a cria\u00e7\u00e3o) desde dentro? O\/a dramaturgista muitas vezes \u00e9 convocado\/a nesse processo para trabalhar na beirada, pois o seu of\u00edcio \u00e9 mesmo de beirada, como define bem a pesquisadora Ana Pais.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do nome <em>dramaturg<\/em> ou dramatugista nas fichas t\u00e9cnicas dos trabalhos aponta que ali h\u00e1 um processo de transversaliza\u00e7\u00e3o na economia de cria\u00e7\u00e3o que pode, a depender do caso, estar mais ou menos evidente para os\/as artistas envolvido\/as. E, de fato, se eu observar a minha trajet\u00f3ria de atua\u00e7\u00e3o na dan\u00e7a e no teatro, o que antes eu achava que seria na \u00e1rea da dire\u00e7\u00e3o (para o qu\u00ea fiz forma\u00e7\u00f5es em cursos t\u00e9cnicos robustos, como os de forma\u00e7\u00e3o de atores na CAL &#8211; Casa das Artes de Laranjeiras e o de forma\u00e7\u00e3o de bailarinos em dan\u00e7a contempor\u00e2nea, no antigo Espa\u00e7o Novo, hoje Escola e Faculdade Angel Vianna) passei a entender que era dramaturgia, ou dramaturgia <em>outra<\/em>, ou ainda dramaturgismo, se voc\u00ea preferir. Era o que mais me interessava fazer e onde eu mais poderia contribuir. Nas atua\u00e7\u00f5es exercidas em companhias de dan\u00e7a contempor\u00e2nea na cidade do Rio de Janeiro, na Companhia de dan\u00e7a Marcia Rubin e depois na Staccato Companhia de Dan\u00e7a (hoje Staccato|Paulo Caldas) como assistente de dire\u00e7\u00e3o, e na Dupla de Dan\u00e7a Ikswalsinats, como diretora, o que eu de fato fazia ou desejava fazer se assemelhava em muito ao que eu fa\u00e7o hoje e chamo de dramaturgia ou dramaturgismo.<\/p>\n<p>Entendo o que voc\u00ea diz na pergunta, mas o que ocorre na minha atua\u00e7\u00e3o como dramatugista j\u00e1 n\u00e3o poderia ser chamado apropriadamente de interdisciplinar, pr\u00f3ximo de um hibridismo ou hibrida\u00e7\u00e3o de meios distintos (teatro, dan\u00e7a, m\u00fasica etc.). Talvez seja algo que pudesse ser chamado de <em>indisciplinar<\/em> para lembrar de um precioso conceito de Muniz Sodr\u00e9. Sem contrariar essa bonita defini\u00e7\u00e3o, eu vejo na dramaturgia uma opera\u00e7\u00e3o de transversalidade. Percebo que tanto na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica quanto em minha atua\u00e7\u00e3o como professora do que, tradicionalmente, se chama de disciplinas te\u00f3ricas, o que eu fa\u00e7o tem rela\u00e7\u00e3o com a dramaturgia ou o dramaturgismo, no sentido de questionar os\/as int\u00e9rpretes acerca do que eles e elas est\u00e3o tentando criar e auxili\u00e1-lo\/as a encontrar, mas atuando na beirada, na fronteira entre o dentro e o fora da obra, sem pular para dentro (tornando-me mais uma int\u00e9rprete) ou para fora da cena (tornando-me diretora).<\/p>\n<p>\u00c9 como se eu trabalhasse fiel ao pensamento da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o que se opera por dentro das materialidades eleitas para trabalhar (elas variam de um processo para outro, de uma obra para outra) e, muito importante, muitas vezes esse pensamento, essa subjetividade da obra (que n\u00e3o \u00e9 subjetividade do\/as artistas, entenda bem) contradiz o que acreditam querer os pr\u00f3prios artistas. \u00c9 preciso que a gente entenda que a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o ocorre unicamente, sequer principalmente, a partir da voluntariedade do\/as artistas, muitas vezes opera contra a vontade deles e delas, contra eles e elas. Acho isso muito curioso. Quero dizer que a realiza\u00e7\u00e3o de um projeto art\u00edstico n\u00e3o \u00e9 a consecu\u00e7\u00e3o do que imagina o g\u00eanio criador passado direto \u00e0s materialidades, essas entendidas ent\u00e3o como materiais de cria\u00e7\u00e3o (ideia muito comum). Quando trabalhamos, as materialidades respondem de volta, elas pensam entre si, ent\u00e3o o que vai acontecendo como cria\u00e7\u00e3o \u00e9 um di\u00e1logo e n\u00e3o um mandado ou decreto dos e das criadoras. Eles e elas tamb\u00e9m sofrem modifica\u00e7\u00f5es propostas pela pr\u00f3pria obra. A obra pensa, ela \u00e9 uma forma-pensamento. E \u00e9 esse pensamento que vai se formando, se tecendo, no entre-lugar trabalho-artista, que cabe ao\/\u00e0 dramaturgista ajudar a manejar.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 que esse modo de atuar prov\u00e9m tamb\u00e9m da minha metodologia de trabalho nas disciplinas te\u00f3ricas que difere bastante das aulas expositivas e conteudistas, concentrando-me no acompanhamento de processo de aprendizagem dos alunos e alunas e na tomada de posi\u00e7\u00e3o deles e delas do que est\u00e1 sendo trabalhado, uma esp\u00e9cie de dramaturgia de processo do ensinar-aprender. Isso aparece numa fala muito comum por parte deles, os que lerem essa entrevista podem atestar esse fato, que muitas vezes chegam para mim com um sorriso de soslaio e dizem: \u201csua aula \u00e9 estranha, professora, pois n\u00e3o \u00e9 nem te\u00f3rica, nem pr\u00e1tica\u201d. Acho isso de uma intelig\u00eancia atroz. Ao longo dos anos isso foi se desdobrando na pesquisa acerca dos modos como se escreve em arte, acerca da escrita em arte, acabando por constituir o cerne das pesquisas que desenvolvo na universidade, desde a defesa de meu Doutorado. Minha tese sofreu uma guinada dramat\u00fargica e metodol\u00f3gica perto de sua conclus\u00e3o. A guinada deu-se na assun\u00e7\u00e3o do nosso espet\u00e1culo[3] como sendo a pr\u00f3pria tese: a tese \u00e9 o espet\u00e1culo + o documento escrito que dele se acerca. Essa escrita, entretanto, n\u00e3o \u00e9 mais sobre o espet\u00e1culo, mas caminha com ele, performando no texto o conceito operativo inaugurado na tese que eu chamei de escrita de processo. Desde ent\u00e3o, venho desenvolvendo v\u00e1rios desdobramentos disso, tal como no meu p\u00f3s-doutorado atualmente em desenvolvimento no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Artes C\u00eanicas da Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del Rei sob a supervis\u00e3o do professor Alberto Tibaji. A pesquisa chama <strong>Cena do Texto | Texto da Cena<\/strong>: derivas de uma escrita de processo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1152444\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1152444\" class=\"wp-image-1152444 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Thereza-Rocha.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Thereza-Rocha.jpg 1024w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Thereza-Rocha-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Thereza-Rocha-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Thereza-Rocha-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1152444\" class=\"wp-caption-text\">Thereza Rocha<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea poderia nos contar um pouco o que te levou a escrever o livro \u201cO que \u00e9 dan\u00e7a contempor\u00e2nea?\u201d Seria interessante voc\u00ea nos trazer aspectos que te impulsionaram \u00e0 pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro.<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Escrevi esse livro ao longo de 10 anos, desde a minha palestra proferida no I Encontro Internacional de Dan\u00e7a e Filosofia, nos idos de 2005, evento que organizei junto com Charles Feitosa e o nosso querido e saudoso Roberto Pereira, no Espa\u00e7o SESC\/RJ. Ao longo desse tempo fui desenvolvendo uma suspeita que desdobrava filosoficamente, em implica\u00e7\u00f5es graves e rigorosas, uma coisa aparentemente muito simples: n\u00e3o h\u00e1 resposta para a pergunta \u201cO que \u00e9 dan\u00e7a contempor\u00e2nea?\u201d, pois a pergunta \u00e9 mais interessante que tentar respond\u00ea-la. Como diz o fil\u00f3sofo Maurice Blanchot, \u201ca resposta \u00e9 a desgra\u00e7a da pergunta\u201d. Adoro essa frase! Escrevi esse livro tamb\u00e9m para ver se param de me infernizar com essa pergunta, pois ela sempre foi a quest\u00e3o que mais me assediou em todos os cursos e palestras que ministrei pelo Brasil afora desde ent\u00e3o. O que quer que eu estivesse tentando desenvolver como tem\u00e1tica, fosse a coisa mais distante, algu\u00e9m sempre arrumava uma maneira de me perguntar: \u201cMas, afinal, professora, o que \u00e9 dan\u00e7a contempor\u00e2nea?\u201d. Quando digo que escrevi para me livrar desse inferno, n\u00e3o o fiz colocando uma p\u00e1 de cal definitiva sobre o debate, escrevendo um livro que diria definitivamente o que a dan\u00e7a contempor\u00e2nea \u00e9 e fim de papo. Isso \u00e9 imposs\u00edvel, pois o estado de pergunta\u00e7\u00e3o acerca do que ela \u00e9 seria a melhor maneira de defini-la.<\/p>\n<p>Veja que eu fa\u00e7o um giro geneal\u00f3gico aqui muito interessante que rendeu, sim, uma s\u00e9rie de artigos j\u00e1 publicados em livros e revistas indexadas. Diferente da escrita exercida nesses contextos, o projeto deste livro em particular apareceu de uma vontade de escrever para pessoas jovens, jovens do pensamento e n\u00e3o de idade, me entenda bem. Pessoas que est\u00e3o come\u00e7ando no caminho dos estudos em dan\u00e7a e a quem muitas vezes a escrita acad\u00eamica assusta e aparta. Mas queria fazer isso sem negociar, sem baratear o conte\u00fado, com o rigor que os estudos em filosofia que me acompanham desde cedo, me exigem. Da\u00ed, depois de muitas tentativas distintas, que inclusive me custaram muito tempo, mais tempo do que a paci\u00eancia das ag\u00eancias de fomento[4] podia suportar, consegui chegar ao formato que ele tem hoje, a de um livro-brinquedo ou um livro-objeto formado por diversos aforismos de diferentes tamanhos versando sobre temas importantes em dan\u00e7a contempor\u00e2nea que se ligam uns aos outros por constela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por uma linearidade capitular. N\u00e3o h\u00e1 cap\u00edtulos. Pode-se entrar na leitura por qualquer p\u00e1gina e segui-la tamb\u00e9m ao sabor da <em>composi\u00e7\u00e3o em tempo real<\/em> da leitura, digamos assim, roubando aqui o conceito do querido Jo\u00e3o Fiadeiro. Para que esse jogo da escrita\/leitura permanecesse em estado de composi\u00e7\u00e3o mesmo com o livro impresso, h\u00e1 uma s\u00e9rie de QRcodes dispostos nas p\u00e1ginas, acess\u00e1veis por qualquer aplicativo gratuito de celular, que abre uma plataforma online com conte\u00fados desdobrados e que poder\u00e3o ser acrescidos e\/ou modificados por mim ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Com todos esses procedimentos, tentei tornar operativo o pr\u00f3prio conceito de dan\u00e7a contempor\u00e2nea que anima o livro cuja unidade, identidade, \u00e9 inencontr\u00e1vel. Proponho ao leitor-Alice e \u00e0 leitora-Alice (de Lewis Carrol) cair divertidamente no buraco. Por isso mesmo, o livro n\u00e3o cita os fil\u00f3sofos que est\u00e3o nele inevitavelmente. Os \u00fanicos fil\u00f3sofos e fil\u00f3sofas citados t\u00eam entre 4 e 7 anos, inclusive a sua filha Luiza. Ao fim e ao cabo do que acho \u00e9 que estudar, pensar, refletir, pode ser ao mesmo tempo rigoroso e divertido! Neste sentido o livro tamb\u00e9m traz um marcador de p\u00e1gina na forma de uma lupa feita com gelatina, utilizada na ilumina\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos c\u00eanicos que auxilia o\/a leitor(a) a desvendar coisas escondidas a olho nu nos textos e nas ilustra\u00e7\u00f5es de Clara Domingas. Preciso dizer que no caminho de feitura do livro encontrei uma equipe batuta de Salvador, <strong>Tanto<\/strong> \u2013 cria\u00e7\u00f5es compartilhadas <a href=\"http:\/\/www.tantocria.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">(http:\/\/www.tantocria.com.br\/)<\/a>, sem a qual ele n\u00e3o teria sido poss\u00edvel, que cuidadosamente o reinventou na forma de projeto de editora\u00e7\u00e3o, um projeto de arte, tudo isso gra\u00e7as ao trabalho cheio de esmero feito pela Conex\u00f5es Criativas, tamb\u00e9m de Salvador, bra\u00e7o editorial da Dimenti Produ\u00e7\u00f5es Culturais. Para quem tiver interesse em adquiri-lo, o livro est\u00e1 \u00e0 venda no site da editora, acessar: conexoescriativas.com.br\/publicacoes\/o-que-e-danca-contemporanea-2016.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como voc\u00ea est\u00e1 entendendo o momento atual, levando em conta a instabilidade do contexto pol\u00edtico associado a toda problem\u00e1tica que envolve a pandemia do novo Covid19? Na sua perspectiva sobre o pa\u00eds, quais seriam as apostas poss\u00edveis para os artistas brasileiros diante de tamanho desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas culturais?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Para responder a essas perguntas ter\u00edamos que saber antes ou conjuntamente, como diz o poeta do Legi\u00e3o Urbana, \u201cque pa\u00eds \u00e9 esse\u201d. A grav\u00edssima crise institucional que se encravou nas din\u00e2micas s\u00f3cio-pol\u00edticas do Brasil desde o golpe de 2016 \u201ccom Supremo com tudo\u201d ainda n\u00e3o terminou seus efeitos escabrosos. Estamos sem qualquer dimens\u00e3o de futuro. Nunca antes como agora as palavras da sua filha citadas em meu livro, estiveram t\u00e3o necess\u00e1rias e vigentes. Mal sabia ela, no sabor de seus 4 ou 5 anos de idade, que estava a predizer o futuro do futuro. Vou citar o trecho do livro em que ela aparece:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>A minha amiga e fil\u00f3sofa Luiza Poppe Taborda refere-se ao que vem, seja ele qual for, na conta que for, quer para referir-se a amanh\u00e3, ou ao m\u00eas que vem, mesmo ao ano que vem, abstra\u00e7\u00e3o por ela desconhecida e respons\u00e1vel pela intelig\u00eancia da formula\u00e7\u00e3o, dizendo: \u2018Depois desse dia\u2019. H\u00e1 em sua pron\u00fancia uma no\u00e7\u00e3o de porvir, mas nela o porvir n\u00e3o foi colonizado (ainda) pela no\u00e7\u00e3o de futuro.<\/em><\/p>\n<p>Claro, h\u00e1 nesta fabula\u00e7\u00e3o, a partir da fil\u00f3sofa, uma aposta na qualqueridade do porvir, um pessimismo alegre, como define Viveiros de Castro, que implica n\u00e3o controlar o que est\u00e1 por vir e uma afirma\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia do agora, sempre gr\u00e1vida de possibilidades, um tempo de inaugura\u00e7\u00e3o extempor\u00e2nea, irruptiva, tempo do acontecimento. Bem diferente disso, h\u00e1 neste doloroso momento que vivemos, um tempo que machuca fundo, a captura dantesca do tempo. O que se mostra neste agora intermin\u00e1vel \u00e9 este presente eterno em que vivemos. O que h\u00e1 para n\u00f3s hoje \u00e9: s\u00f3 conseguimos pensar esse dia. Cada dia \u00e9 pauta de um programa inteiro de retrospectiva do ano, tal a quantidade de absurdos que mal temos condi\u00e7\u00e3o de elaborar.\u00a0 (Acredito que ao final do ano teremos que maratonar uma longu\u00edssima s\u00e9rie Netflix, \u00fanica possibilidade de fazer uma Retrospectiva 2020, e n\u00f3s ainda estamos em final de junho!) Claro! Isso \u00e9 manejo muito eficiente do capitalismo neoliberal vigente cujas corpora\u00e7\u00f5es continuam lucrando nas bolsas de commodities sem que as pessoas, confinadas, estejam trabalhando efetivamente nas empresas, sem que qualquer linha de produ\u00e7\u00e3o esteja em funcionamento. Isso \u00e9 muito absurdo. E a estrat\u00e9gia \u00e9 de fato muito eficiente, deixando a massa cr\u00edtica confusa e perdida em meio \u00e0 tormenta de not\u00edcias, permanecendo no estado de n\u00e3o-elabora\u00e7\u00e3o do que de fato est\u00e1 acontecendo. Por isso acho fundamental o recuo, certo recuo da sensibilidade que a atividade art\u00edstica suscita para que consigamos ter uma apreens\u00e3o est\u00e9tica dos movimentos de porvir que se anunciam. Neste sentido, os artistas s\u00e3o fundamentais. Talvez seja por a\u00ed que venhamos a compreender como podemos atuar e influir no curso dos acontecimentos e entender como produzir em meio a esse caos.<\/p>\n<p>No presente present\u00edssimo momento, estamos ocupados com os modos de subsist\u00eancia mais b\u00e1sica dos trabalhadores da cultura. Enquanto falamos aqui, Oxal\u00e1 aben\u00e7oe os trabalhadores da cultura!, est\u00e1 sendo sancionada a Lei Aldir Blanc. Blanc, que d\u00e1 nome \u00e0 lei, artista do seu quilate, morreu de Covid-19 e n\u00e3o tinha sequer um plano de sa\u00fade. O setor da cultura (primeiro a parar e o \u00faltimo a voltar) emprega muito no Brasil (s\u00e3o 5 milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras), \u00e9 respons\u00e1vel por 2,64% do PIB nacional (dados de 2018), economistas adoram esses dados. Falo isso provocando esta guederiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, refiro-me a Paulo Guedes, o posto-ipiranga do (des)presidente do Brasil, que \u00e9 de fato quem atualmente governa o executivo. Concordo com Vladimir Safatle em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-BwaL0FFzgk&amp;t=995s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">recente entrevista<\/a> , quando diz que devemos nos ocupar com o depois, no caso, o depois do depois desse dia (hegeliano que ele \u00e9, o Safatle), pois o abismo j\u00e1 est\u00e1 posto. Assim, creio que a restrutura\u00e7\u00e3o do campo econ\u00f4mico mundial imp\u00f5e reestrutura\u00e7\u00e3o do campo da economia da cultura, ou economia criativa se assim preferir, cujos desdobramentos ainda est\u00e3o muito incertos.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como voc\u00ea percebe o seu corpo no confinamento? Voc\u00ea poderia nos descrever algumas a\u00e7\u00f5es recorrentes do seu dia a dia que sejam espec\u00edficas desse momento de isolamento? Alguma dessas novas a\u00e7\u00f5es voc\u00ea gostaria de manter mesmo que a vida volte ao normal, ou ao \u201cnovo normal\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Meu processo de confinamento come\u00e7ou a partir da minha volta de S\u00e3o Paulo da MITsp[5] cuja programa\u00e7\u00e3o fora quase toda cancelada a partir do decreto municipal de fechamento dos centros de cultura. No meu hotel houve um caso de suspeita de Covid-19, por isso fiquei fechada em casa naquele tempo de espera pela tormenta. Eu poderia ser agente patog\u00eanico. Mergulhei num profundo desentendimento do que estava acontecendo. Nesse primeiro tempo, meu corpo precisou se recombinar l\u00e1 no fundo do sistema l\u00edmbico, l\u00e1 nos confins dos processos fisiol\u00f3gicos mais b\u00e1sicos. O medo era reinante, era basal e incontorn\u00e1vel, parecia que est\u00e1vamos metidos numa fic\u00e7\u00e3o dist\u00f3pica (e n\u00e3o \u00e9 que de fato n\u00e3o estejamos nela). Foi muito dif\u00edcil. Eu precisei de um bom tempo para responder ao novo tempo. Claro, falamos aqui tamb\u00e9m de um privil\u00e9gio, pude dar-me esse tempo. N\u00e3o precisei correr imediatamente a entender de modo quase autof\u00e1gico como faria para sobreviver. Muitas pessoas precisaram assim fazer. Nunca antes como agora um programa de renda b\u00e1sica, por cuja elabora\u00e7\u00e3o Eduardo Suplicy foi outrora chamado de maluco caduco, fazia tanto sentido. Mas o mais significativo de tudo que vivi, e gra\u00e7as, mais uma vez, a um privil\u00e9gio de classe, \u00e9 que pude deixar-me sentir o tempo.<\/p>\n<p>Eu sabia que algo muito novo se acercava de n\u00f3s como grupalidade e n\u00e3o queria ser muito r\u00e1pida em entender, capturar e normalizar logo. Queria ficar ali, habitar aquele in\u00e9dito tempo que eu sabia que n\u00e3o haveria outra oportunidade de vivenciar. Curiosamente eu tinha tempo de n\u00e3o adiar mais as coisas: n\u00e3o \u00e9 interessante? Naquele \u201cnormal\u201d de antes, a gente adiava as coisas para ter tempo de n\u00e3o ter tempo para nada. Da\u00ed passei a querer, a efetivamente me provocar \u00e0 prontid\u00e3o de fazer a coisa logo, agora. N\u00e3o adiar. Isso \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de <em>queda no corpo<\/em>, como fala bonito o Ant\u00f3nio Pinto Ribeiro, de assun\u00e7\u00e3o de uma escala humana do tempo e do espa\u00e7o, mas principalmente do tempo. N\u00e3o leremos todos os livros, n\u00e3o veremos todos os v\u00eddeos dispon\u00edveis, n\u00e3o assistiremos a todas <em>as very best<\/em> palestras online. D\u00e1 muita paz interna saber disso de fato e tomar isso como uma decis\u00e3o. Assim, no agora do agora, eu podia ouvir sem stress a antes insuport\u00e1vel mensagem de \u00e1udio do WhatsApp do amigo que elabora enquanto fala, com pausas intermin\u00e1veis e rodeios mirabolantes, seu racioc\u00ednio. Eu n\u00e3o arquivava mais pra ver depois (leia-se nunca) o v\u00eddeo de sua dan\u00e7a que voc\u00ea me enviava \u2013 eu via no tempo em que a mensagem chegava. Podia ler at\u00e9 o fim um text\u00e3o sem achar que estava a perder o pr\u00f3ximo, o pr\u00f3ximo, o pr\u00f3ximo. Pude sobretudo parar o rel\u00f3gio mata-tempo, pude voltar ao tempo, pude acessar o tempo do corpo novamente.<\/p>\n<p>Esse processo vem sendo profundamente transformador, mas n\u00e3o uma transforma\u00e7\u00e3o que fala de avan\u00e7o, fala de recuo. De recuo e de ren\u00fancia. Eu que tanto gosto de pensar o of\u00edcio da dramaturgia como recuo. Assim, eu o sinto \u2013 como uma retirada elegante, um ausentar-se progressivo: quando meu trabalho mais funciona \u00e9 quando vou me tornando dispens\u00e1vel, quando eu desapare\u00e7o em meio \u00e0s materialidades da composi\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o sempre essa correla\u00e7\u00e3o entre o trabalho que fa\u00e7o como dramaturgista e o que aprendi com os m\u00e9todos som\u00e1ticos. Ainda vou escrever sobre isso. \u00c9 muito bonito o movimento que faz desaparecer as urg\u00eancias na aten\u00e7\u00e3o ao corpo. \u00c9 uma dan\u00e7a muito sutil, dos micromovimentos impercept\u00edveis em meio \u00e0 grosseria e o barulho da vida contempor\u00e2nea. N\u00e3o quero aqui romantizar a pandemia, tampouco o confinamento. Entenda bem. Sabemos dos horrores que est\u00e3o sendo vividos (no momento em que respondo essa entrevista, interrompo e des\u00e7o as escadas \u00e0s pressas para acudir com mantimentos e dinheiro um pai de fam\u00edlia que veio fazer manifesto de apelo aos berros de desespero \u00e0 porta dos grandes edif\u00edcios chiques de Fortaleza. N\u00e3o era o caso do meu pr\u00e9dio, mas n\u00e3o consegui n\u00e3o ouvir. Achei de uma coragem atroz, a dele! H\u00e1 um apartheid social asqueroso que, na pandemia-pandem\u00f4nio que estamos vivendo, fica muito evidente, irremedi\u00e1vel.) Ent\u00e3o voltando ao que falava sobre o corpo, n\u00e3o h\u00e1 aqui qualquer romantismo. Sim, h\u00e1 esses horrores, h\u00e1 horrores nas linhas de frente nos hospitais, mas sabemos tamb\u00e9m que o corpo \u00e9 grande pol\u00edtica, pol\u00edtica dos afetos, inclusive nas linhas de frente, e \u00e9 por ele que talvez venhamos a encontrar uma sa\u00edda.<\/p>\n<p>Esse recuo do tempo e da sensibilidade permitiu certa descoloniza\u00e7\u00e3o da subjetividade. Pois \u00e9 de fato muito eficiente o tanto que o capitalismo conseguiu adentrar e transformar em commodities a nossa aten\u00e7\u00e3o e nossa subjetividade. Isso \u00e9 muito grave. Nesse processo todo, eu n\u00e3o percebi de pronto, estava voltando para casa: o corpo. E voltar ao corpo, retornar \u00e0 casa, \u00e9 voltar a escrever. Tenho escrito muito, diariamente, e isso est\u00e1 me salvando.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de escrever, voltei a fazer aulas, a ser aluna de novo e a fazer nota\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3o \u2013 musculaturas finas da caligrafia estavam muito adormecidas, desencontradas, para al\u00e9m desta alt\u00edssima atividade dos dedos, principalmente do ded\u00e3o da m\u00e3o direita (sou destra) \u00e1gil no teclado do celular. Pude retomar uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas som\u00e1ticas que integraram a nossa forma\u00e7\u00e3o corporal na Angel[6], coisa que eu desejava tanto, mas n\u00e3o conseguia acessar nas urg\u00eancias cotidianas daquele \u201cnormal\u201d para o qual n\u00e3o quero mais voltar. Isso foi poss\u00edvel tamb\u00e9m porque uma s\u00e9rie de aulas incr\u00edveis foram sendo acessibilizadas via Zoom ou via podcasts. Ent\u00e3o eu vejo com profundo gosto este movimento de contra-captura das redes que nos sujeitam: estamos nos reunindo novamente via Zoom, Google Meet etc., um movimento que reuniu pessoas que estavam apartadas. Penso no quanto podemos vislumbrar for\u00e7as de mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia. Ouso dizer que a esquerda brasileira, morta at\u00e9 aquele momento, pode encontrar em meio \u00e0 pandemia-pandem\u00f4nio alguma for\u00e7a de remobiliza\u00e7\u00e3o. Isso tudo ainda est\u00e1 por fazer, \u00e9 l\u00f3gico. Mas pude ter algum sentido de grupalidade novamente, pude me sentir junto de novo de pessoas que vibram como eu, que lutam como eu. A retomada das ruas da exclusividade dos verde-amarelistas em sua visada dist\u00f3pica atual foi muito importante. Acredito que essas novas t\u00e9cnicas que aprendemos em meio ao confinamento de realizar coisas juntos veio para ficar. Pois \u00e9 mais ou menos como disse Georges Bataille: \u201cN\u00e3o \u00e9 permitido a quem quer que seja n\u00e3o pertencer \u00e0 minha aus\u00eancia de comunidade\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>[1] Thereza RochaA \u00e9 pesquisadora de dan\u00e7a, diretora de espet\u00e1culos e dramaturgista de processos de cria\u00e7\u00e3o. Doutora em Artes C\u00eanicas pela UNIRIO. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura pela ECO|UFRJ. Tem forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em teatro pela CAL\/RJ e, em dan\u00e7a, pela atual Escola e Faculdade Angel Vianna. Professora dos cursos de Bacharelado e de Licenciatura em dan\u00e7a da Universidade Federal do Cear\u00e1 onde coordena o grupo de pesquisa Dramaturgias: o que quer e o que pode o corpo?, uma parceria entre o Instituto de Cultura e Arte &#8211; ICA|UFC e o Porto Iracema das Artes. Coautora da quase-instala\u00e7\u00e3o M\u00e1quina de Dan\u00e7ar, junto com Maria Alice Poppe (SESC Pompeia\/SP, 2016 e Espa\u00e7o Cultural S\u00e9rgio Porto\/RJ, 2014). Concebeu a dramaturgia e dirigiu 3Mulheres e um Caf\u00e9: uma confer\u00eancia dan\u00e7ada com o pensamento em Pina Bausch, criado tamb\u00e9m em colabora\u00e7\u00e3o com Poppe (Espa\u00e7o SESC\/RJ, 2010). Autora do livro O que \u00e9 dan\u00e7a contempor\u00e2nea? (Conex\u00f5es Criativas, 2016). Coautora do livro Di\u00e1logo|Dan\u00e7a (SENAC, 2012), junto com M\u00e1rcia Tiburi. Email: thereza-rocha@hotmail.com.<\/h6>\n<h6>[2] Quase-instala\u00e7\u00e3o de dan\u00e7a criada em colabora\u00e7\u00e3o entre Thereza Rocha e Maria Alice Poppe, comemorando os 20 anos de parceria de trabalho da dupla, contemplada com o Fomento \u00e0 Cultura Carioca da Prefeitura do Rio, que cumpriu temporadas de exposi\u00e7\u00e3o\/apresenta\u00e7\u00e3o no SESC Pompeia (SP), em 2016, e no Espa\u00e7o Cultural Municipal S\u00e9rgio Porto\/RJ, em 2014, quando foi considerada um dos 10 Melhores espet\u00e1culos de dan\u00e7a do ano pelo jornal O Globo.<\/h6>\n<h6>[3] 3 Mulheres e um Caf\u00e9: uma confer\u00eancia dan\u00e7ada com o pensamento em Pina Bausch, espet\u00e1culo criado em colabora\u00e7\u00e3o entre Thereza Rocha e Maria Alice Poppe e contemplado com o Pr\u00eamio FUNARTE de Dan\u00e7a Klauss Vianna, que cumpriu temporada no Espa\u00e7o SESC\/RJ, apresentando-se tamb\u00e9m no Festival Interrnacional de Dan\u00e7a do Recife, em 2010, considerado um dos 10 Melhores espet\u00e1culos de dan\u00e7a do ano pelo jornal O Globo. (\u00c0 guisa de curiosidade,\u00a0 a imagem que acompanha esta entrevista \u00e9 da obra Puzzle-P\u00f3lis, da artista Livia Flores, em foto de Paulo Jares, retrabalhada pela designer Karyn Mathuiy, que foi utilizada, \u00e0 \u00e9poca, em todos os materiais gr\u00e1ficos do espet\u00e1culo.)<\/h6>\n<h6>[4] O livro foi contemplado em dois editais brasileiros: Pr\u00eamio FUNARTE de Dan\u00e7a Klauss Vianna e RUMOS Ita\u00fa Cultural.<\/h6>\n<h6>[5] Mostra Internacional de Teatro de S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<h6>[6] Escola e Faculdade Angel Vianna.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAN\u00c7A &nbsp; &nbsp; Por Alice Poppe Entrevisto hoje a pesquisadora de danc\u0327a, diretora e dramaturgista Thereza Rocha[1], parceira h\u00e1 longos anos na dan\u00e7a contempor\u00e2nea, desde o encontro por ocasi\u00e3o de nossa forma\u00e7\u00e3o na Escola Angel Vianna at\u00e9 as cria\u00e7\u00f5es em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1685,"featured_media":1152454,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[104,11390,112,159],"tags":[75238,75337,78252],"class_list":["post-1152464","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-do-sul","category-conteudo-original","category-cultura-pt-pt","category-entrevista-pt-pt","tag-caderno-de-cultura","tag-danca","tag-theresa-rocha"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Thereza Rocha: &quot;Esse processo vem sendo profundamente transformador&quot;<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"DAN\u00c7A &nbsp; 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