{"id":1150663,"date":"2020-07-03T03:12:58","date_gmt":"2020-07-03T02:12:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1150663"},"modified":"2020-07-03T03:12:58","modified_gmt":"2020-07-03T02:12:58","slug":"boaventura-a-universidade-pos-pandemica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/07\/boaventura-a-universidade-pos-pandemica\/","title":{"rendered":"Boaventura: A universidade p\u00f3s-pand\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Boaventura de Sousa Santos<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>Poucas institui\u00e7\u00f5es estar\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7adas. Mas nenhuma ser\u00e1 t\u00e3o importante para ajudar as sociedades pensar um mundo regido por novas l\u00f3gicas. Mais: para transformar, a universidade precisar\u00e1 revolucionar-se. Eis algumas pistas<\/strong><\/p>\n<p>Para compreendermos o que pode vir a passar-se com a universidade \u00e9 necess\u00e1rio lembrar os ataques principais de que era alvo a moderna universidade p\u00fablica (UP) antes da pandemia. Foram dois os ataques globais. Provinham de duas for\u00e7as que se podem sintetizar em dois conceitos: capitalismo universit\u00e1rio e ultradireita ideol\u00f3gica. O primeiro ataque intensificou-se nos \u00faltimos quarenta anos com a consolida\u00e7\u00e3o do neoliberalismo como l\u00f3gica dominante do capitalismo global. A universidade passou a ser concebida como \u00e1rea de investimento potencialmente lucrativo. Iniciou-se ent\u00e3o um processo multifacetado que incluiu, entre outras, as seguintes medidas [que variaram de pa\u00eds para pa\u00eds]: permitir e promover a cria\u00e7\u00e3o de universidades privadas e permitir-lhes acesso a fundos p\u00fablicos; invocar a crise financeira do Estado para sub-financiar as UPs; degradar os sal\u00e1rios dos professores e flexibilizar a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 UP de modo a poderem dar aulas nas universidades privadas, promovendo assim uma transfer\u00eancia do investimento p\u00fablico na forma\u00e7\u00e3o dos professores para o setor privado; instituir o pagamento de taxas onde antes o ensino era gratuito e incentivar as UPs a obter receitas pr\u00f3prias; introduzir a l\u00f3gica mercantil na gest\u00e3o das UPs, o que foi feito em diferentes fases: as UPs devem ser mais relevantes para a sociedade, sobretudo formando pessoal qualificado para o mercado; o estatuto de professor e de investigador deve ser flexibilizado (quer dizer: precarizado), acompanhando a l\u00f3gica global do mercado de trabalho; os estudantes devem ser vistos como consumidores de um servi\u00e7o e os professores devem ser sujeitos a crit\u00e9rios globais de produtividade; as UPs devem ser geridas como uma empresa como qualquer outra; as UPs devem integrar sistemas de ranking global para permitir aferir \u201cobjetivamente\u201d o valor mercantil dos servi\u00e7os universit\u00e1rios. Na Europa, e apesar de toda a ret\u00f3rica em contr\u00e1rio, o principal objetivo do processo de Bolonha foi consolidar a n\u00edvel europeu o modelo de universidade neoliberal. No caso portugu\u00eas, este processo envolveu o fim da elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dos reitores, talvez a \u00fanica medida fatalmente errada do saudoso ministro Mariano Gago.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es mais profundas do ataque do neoliberalismo \u00e0s UPs residem em que estas tinham sido tradicionalmente as formuladoras de projetos nacionais, projetos sem d\u00favida elitistas e por vezes altamente excludentes (racistas, colonialistas, sexistas) mas que procuravam dar consist\u00eancia \u00e0 economia capitalista nacional e \u00e0 sociedade em que ela assentava. Acontece que para o neoliberalismo a ideia de projeto nacional, tal como a ideia de capitalismo nacional, era an\u00e1tema. O objetivo era a globaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, em termos de livre circula\u00e7\u00e3o de capitais e de bens e servi\u00e7os (n\u00e3o de trabalhadores). Em consequ\u00eancia de tudo isto, as UPs estavam antes da pandemia muito desfiguradas, sem qualquer vis\u00e3o de miss\u00e3o social, a bra\u00e7os com crises financeiras cr\u00f4nicas. Em geral, os reitores refletiam este panorama, gestores de crises financeiras, incapazes de p\u00f4r em pr\u00e1tica ideias inovadoras mesmo se as tivessem, o que passou a ser raro, sobretudo onde deixaram de ser eleitos pela comunidade universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O segundo ataque, mais recente, veio da direita ultraliberal ideol\u00f3gica, portadora de uma ideologia extremamente conservadora, quando n\u00e3o reacion\u00e1ria, por vezes formulada em termos religiosos. Esta direita, apoiada socialmente por grupos radicais, de extrema-direita, de tipo neo-nazi ou de proselitismo religioso. Esta ultra-direita chegou ao governo em diferentes pa\u00edses, da Hungria \u00e0 Turquia, do Brasil \u00e0 \u00cdndia, da Pol\u00f3nia aos EUA. Mas em alguns pa\u00edses, como, por exemplo, nos EUA, vinha h\u00e1 muito influenciando a pol\u00edtica universit\u00e1ria, ao n\u00edvel dos estados da federa\u00e7\u00e3o e a partir das estruturas de governa\u00e7\u00e3o das UPs. Este ataque, apesar de altamente ideol\u00f3gico, apresentou-se como anti-ideol\u00f3gico e foi formulado de duas formas principais. A primeira foi a de que todo o pensamento cr\u00edtico, livre e independente visa subverter as institui\u00e7\u00f5es e desestabilizar a ordem social. A UP \u00e9 o ninho onde se alimentam os esquerdistas e se propaga o \u201cMarxismo cultural\u201d, uma express\u00e3o usada pelo Nazismo para demonizar os intelectuais de esquerda, muitos dos quais eram judeus. A segunda tem sido particularmente dominante na \u00cdndia e concebe como ideologia tudo o que n\u00e3o coincide com entendimento pol\u00edtico conservador do Hindu\u00edsmo pol\u00edtico. Tanto o iluminismo euroc\u00eantrico como o Isl\u00e3 s\u00e3o considerados perigosamente subversivos. Noutros contextos, \u00e9 o Isl\u00e3 pol\u00edtico que faz o papel de guardi\u00e3o ideol\u00f3gico contra as ideologias.<\/p>\n<p>Os dois ataques, apesar de diferentes na formula\u00e7\u00e3o e na base de sustenta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o convergentes no mesmo objetivo: impedir que a UP continue a produzir conhecimento cr\u00edtico, livre, plural e independente. Muitas das cr\u00edticas anti-ideol\u00f3gicas usaram a crise financeira das UPs para reduzir o ensino \u00e0s mat\u00e9rias b\u00e1sicas, supostamente isentas de ideologia e mais \u00fateis para o mercado de trabalho. Muitas das mat\u00e9rias ditas ideol\u00f3gicas eram dadas em cursos optativos, em departamentos de literatura e de filosofia ou em departamentos rec\u00e9m-criados. O ataque consistiu em eliminar as op\u00e7\u00f5es e fechar esses departamentos por supostas raz\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, estes ataques atenuaram-se e as UPs centraram as suas prioridades em adaptar-se \u00e0s mudan\u00e7as causadas pela pandemia. Muitas viram a sua visibilidade p\u00fablica aumentar gra\u00e7as ao protagonismo dos cientistas com investiga\u00e7\u00e3o em \u00e1reas relevantes para a covid-19. O per\u00edodo que se vai seguir n\u00e3o ser\u00e1 um tempo livre de pandemia e com a UP a regressar rapidamente ao seu normal. Vai ser um per\u00edodo de pandemia intermitente. Para projetar o que est\u00e1 em causa no pr\u00f3ximo per\u00edodo h\u00e1 que responder a v\u00e1rias perguntas.<\/p>\n<p><strong>Como se comportou a universidade durante a pandemia?<\/strong>\u00a0\u00c9 muito dif\u00edcil generalizar, mas pode-se dizer que se aprofundou o centralismo e n\u00e3o se alterou um mil\u00edmetro a l\u00f3gica burocr\u00e1tica, que domina hoje nas rela\u00e7\u00f5es intra-universit\u00e1rias; cuidou-se pouco dos estudantes fora dos breves momentos online ou a bra\u00e7os com as exclus\u00f5es que suposta cidadania digital provocou; os professores que dedicaram mais tempo aos estudantes fizeram-no por iniciativa pr\u00f3pria e esp\u00edrito de miss\u00e3o; descuidou-se totalmente a situa\u00e7\u00e3o dos professores, enfrentando altera\u00e7\u00f5es na vida familiar, recorrendo a tecnologias de ensino com que a maioria estava pouco familiarizada, com uma carga burocr\u00e1tica imensa, com a vontade de inovar, quase por necessidade ante os desafios da pandemia, mas barrados pelo muro de burocracia. Em suma, a pandemia veio agravar as tend\u00eancias de degrada\u00e7\u00e3o da universidade que j\u00e1 se vinham a notar h\u00e1 muito.<\/p>\n<p><strong>Como vai a UP posicionar-se na disputa da narrativa?<\/strong>\u00a0Logo que passe a fase aguda da pandemia vai haver um conflito ideol\u00f3gico e pol\u00edtico sobre a natureza da crise e os caminhos de futuro. A especificidade da UP \u00e9 ter que responder a esta pergunta a dois n\u00edveis: ao n\u00edvel da sociedade em geral e ao n\u00edvel da universidade em especial. Desenham-se tr\u00eas cen\u00e1rios: vai tudo voltar ao normal rapidamente; vai haver mudan\u00e7as m\u00ednimas para que tudo fique na mesma; a pandemia \u00e9 a oportunidade para pensar numa alternativa ao modelo de sociedade e de civiliza\u00e7\u00e3o em que temos vivido, assente numa explora\u00e7\u00e3o sem precedentes dos recursos naturais que, em conjunto com a iminente cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica, vai lan\u00e7ar-nos num inferno de pandemias recorrentes. Como vai a UP expor os cen\u00e1rios e posicionar-se perante eles?<\/p>\n<p><strong>Como vai responder aos ataques que precederam a pandemia?\u00a0<\/strong>O modo como a UP interpretar a crise e lhe responder vai ser decisivo para ela se posicionar perante os dois ataques precedentes: o neoliberalismo universit\u00e1rio e a ultra-direita ideol\u00f3gica. Tenho para mim que a UP s\u00f3 se defender\u00e1 eficazmente deles na medida em que se centrar no terceiro cen\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 apenas a institui\u00e7\u00e3o que melhor pode equacionar o terceiro cen\u00e1rio e caracterizar o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o que ele implica. \u00c9 a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que o pode fazer. Se ela o n\u00e3o fizer, ser\u00e1 devorada pela vertigem neoliberal que agora se v\u00ea fortalecida pela orgia tecnol\u00f3gica de zoom, streamyard, webex, webinar, etc. Vir\u00e3o os vendedores do primeiro e do segundo cen\u00e1rios. E, para eles, a UP do futuro \u00e9 online: imensas poupan\u00e7as em pessoal docente, t\u00e9cnico, e em instala\u00e7\u00f5es; modo expedito de acabar com mat\u00e9rias \u201cideol\u00f3gicas\u201d e com os protestos universit\u00e1rios (n\u00e3o h\u00e1 est\u00e1tuas online); elimina\u00e7\u00e3o de processos deliberativos presenciais disfuncionais. Finalmente, o fim da crise financeira. Mas tamb\u00e9m o fim da universidade como a conhecemos.<\/p>\n<p><strong>Como vai a UP lutar pelo seu futuro?<\/strong>\u00a0Como disse, o futuro da UP est\u00e1 vinculado \u00e0 credibiliza\u00e7\u00e3o do terceiro cen\u00e1rio. A estrat\u00e9gia pode resumir-se nas seguintes palavras-chaves: democratizar, desmercantilizar, descolonizar, despatriarcalizar.<\/p>\n<p><strong>Democratizar.\u00a0<\/strong>A democratiza\u00e7\u00e3o da UP tem m\u00faltiplas dimens\u00f5es. A UP tem de democratizar a elei\u00e7\u00e3o dos seus reitores e dirigentes. Institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o democr\u00e1ticas para elei\u00e7\u00f5es indiretas est\u00e3o historicamente condenadas. S\u00e3o, no pior dos casos, antros de compadrio e coopta\u00e7\u00e3o e, no melhor, espelhismos de irrelev\u00e2ncia. S\u00f3 a comunidade universit\u00e1ria no seu conjunto tem legitimidade para eleger os reitores e demais dirigentes. A UP tem de democratizar as suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade. A UP produz conhecimento v\u00e1lido que \u00e9 tanto mais precioso quanto melhor souber dialogar com os outros saberes que circulam na sociedade. Uma UP encerrada em si \u00e9 um instrumento f\u00e1cil dos poderes econ\u00f4micos e pol\u00edticos que a querem p\u00f4r ao seu servi\u00e7o. A UP tem de democratizar as suas rela\u00e7\u00f5es com os estudantes que uma pedagogia retr\u00f3grada e ran\u00e7osa ainda v\u00ea como ignorantes vazios onde os professores enfiam o recheio do conhecimento. A verdade \u00e9 que se aprende-com e se ensina-com. Nada \u00e9 unilateral, tudo \u00e9 rec\u00edproco.<\/p>\n<p><strong>Desmercantilizar.\u00a0<\/strong>As UPs t\u00eam de passar a avaliar os seus docentes por outros crit\u00e9rios de produtividade que n\u00e3o excluam a responsabilidade social da universidade, sobretudo no dom\u00ednio da extens\u00e3o universit\u00e1ria. N\u00e3o podem privilegiar as ci\u00eancias e a investiga\u00e7\u00e3o que geram patentes, mas antes, a ci\u00eancia que contribui para o bem comum de toda a popula\u00e7\u00e3o e cria cidadania. Neste dom\u00ednio, as humanidades, as artes e as ci\u00eancias sociais voltar\u00e3o a ter o destaque que j\u00e1 tiveram. Os estudantes nacionais e os que v\u00eam [em Portugal] das antigas col\u00f4nias n\u00e3o devem pagar propinas. N\u00e3o podem cobi\u00e7ar estudantes estrangeiros na l\u00f3gica de ca\u00e7a-mensalidades. Esta \u00e9 uma estrat\u00e9gia central para a democratiza\u00e7\u00e3o analisada acima e para a descoloniza\u00e7\u00e3o analisada a seguir.<\/p>\n<p><strong>Descolonizar.<\/strong>\u00a0As UPs europeias e de inspira\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica nasceram ou prosperaram com o colonialismo e continuam hoje a ensinar e legitimar a hist\u00f3ria dos vencedores da expans\u00e3o europeia. S\u00e3o c\u00famplices do epistemic\u00eddio que acompanhou o genoc\u00eddio colonial. As est\u00e1tuas (e amanh\u00e3 os edif\u00edcios, os museus, os arquivos e cole\u00e7\u00f5es coloniais) s\u00e3o os alvos errados de muita justa revolta. O importante \u00e9 que o poder que elas representam seja deslegitimado e contextualizado na aprendizagem universit\u00e1ria. Por isso t\u00eam os curriculos de ser descolonizados. N\u00e3o se trata de destruir conhecimento, trata-se antes de acrescentar conhecimento para que se torne evidente que o conhecimento dominante \u00e9 muitas vezes uma ignor\u00e2ncia especializada e intencional. As UPs t\u00eam de iniciar com urg\u00eancia pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa para uma maior justi\u00e7a cognitiva e etno-racial, tanto entre estudantes como entre professores.<\/p>\n<p><strong>Despatriarcalizar.\u00a0<\/strong>Em muitas universidades as mulheres s\u00e3o a maioria, mas os lugares de governo administrativo e cient\u00edfico continuam dominados por homens. Os curriculos continuam a ser mis\u00f3ginos e cheios de preconceitos sexistas. Onde est\u00e3o as cientistas, as artistas, as escritoras, as lutadoras, as hero\u00ednas? E as rela\u00e7\u00f5es entre o pessoal docente, t\u00e9cnico e discente tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o livres dos mesmos preconceitos. Estas e muitas outras iniciativas que emergir\u00e3o dos processos de democracia universit\u00e1ria constituem um caderno de encargos pesado, mas a alternativa \u00e9 a universidade n\u00e3o ter futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Boaventura de Sousa Santos Poucas institui\u00e7\u00f5es estar\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7adas. Mas nenhuma ser\u00e1 t\u00e3o importante para ajudar as sociedades pensar um mundo regido por novas l\u00f3gicas. Mais: para transformar, a universidade precisar\u00e1 revolucionar-se. 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