{"id":1146196,"date":"2020-06-28T03:58:11","date_gmt":"2020-06-28T02:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1146196"},"modified":"2020-06-28T01:43:08","modified_gmt":"2020-06-28T00:43:08","slug":"o-que-resta-de-2013-conversa-com-vladimir-santafe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/06\/o-que-resta-de-2013-conversa-com-vladimir-santafe\/","title":{"rendered":"O que resta de 2013. Conversa com Vladimir Santaf\u00e9"},"content":{"rendered":"<h5><span style=\"color: #999999;\">CINEMA<\/span><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Junho de 2013 foi um acontecimento pol\u00edtico, social, de m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Uma revolta popular. Um <em>acontecimento<\/em> multitudin\u00e1rio que envolveu diversas for\u00e7as e grupos. Um acontecimento em disputa. Conversamos com Vladimir Santaf\u00e9 que, ao lado de Carlos Leal e Diego Felipe Souza realizou aquilo que chama de uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica artesanal, ou seja, um filme: O que resta de junho, que mostra a pluralidade de vozes mais \u00e0 esquerda que estiveram nas ruas e promove uma excelente reflex\u00e3o sobre a revolta. Um pacto de classes sociais foi rompido? Leiam a entrevista e assistam o filme.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Vladimir, conte-me um pouco sobre sua forma\u00e7\u00e3o e\u00a0 a necessidade de fazer um filme sobre 2013.<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sim, sou formado em cinema e filosofia, mestre e doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura pela UFRJ.\u00a0 Sempre trabalhei nesses dois campos, filmando, dando minhas aulas como professor de filosofia e teoria da comunica\u00e7\u00e3o. Hoje continuo na mesma trilha que h\u00e1 20 anos atr\u00e1s, a diferen\u00e7a \u00e9 que a maturidade nos torna mais perceptivos e \u201cmelhores\u201d, mais sens\u00edveis aos nossos limites e possibilidades. A cria\u00e7\u00e3o continua pulsando na minha veia, mas a partir de \u201crecortes\u201d mais realistas, sem perder, no entanto, a dimens\u00e3o do sonho.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/oquerestadejunhodoc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cO que resta de Junho\u201d<\/a> foi um filme feito a 3 (tr\u00eas) m\u00e3os, um \u201cartesanato\u201d cinematogr\u00e1fico que eu nunca havia experimentado antes, mas que rendeu \u201cexcelentes frutos\u201d e momentos inesperados, \u201cdeixamos a vida entrar&#8230;\u201d, como disse Renoir a Fellini. Eu vinha do cinema, Carlos Leal, meu amigo de mestrado na ECO-UFRJ, do jornalismo, Diego Felipe Souza, meu amigo de CAFIL (Centro Acad\u00eamico de Filosofia) da UERJ, do m\u00eddia-ativismo, todos n\u00f3s \u00e9ramos, e at\u00e9 hoje somos, envolvidos na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, do movimento estudantil ao movimento sindical e popular. Enfim, nos reunimos e decidimos fazer um filme que condensasse o acontecimento Junho de 2013. Diego, como m\u00eddia-ativista pelo <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/multidaoWeb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Linhas de Fuga<\/a>, acompanhou, sen\u00e3o todas, a maioria das manifesta\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro, ou seja, ele possu\u00eda um incont\u00e1vel acervo de imagens. Carlos e eu fomos os respons\u00e1veis pelo roteiro, mas toda a pesquisa jornal\u00edstica quem fez foi ele. No final, encontramos uma s\u00edntese de nossas \u201cvozes\u201d na cria\u00e7\u00e3o do filme.<\/p>\n<div id=\"attachment_1146281\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1146281\" class=\"wp-image-1146281 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/perfil-Vladimir_raw.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/perfil-Vladimir_raw.jpg 800w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/perfil-Vladimir_raw-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/perfil-Vladimir_raw-720x540.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/perfil-Vladimir_raw-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-1146281\" class=\"wp-caption-text\">Vladimir Santaf\u00e9. Foto do seu acervo pessoal.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Para come\u00e7armos nossa conversa, voc\u00ea acha que \u201cos movimentos de dois mil e treze abriram a porta para a direita\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Junho de 2013 foi um acontecimento pol\u00edtico, social, de m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Uma revolta popular. Um acontecimento multitudin\u00e1rio que envolveu diversas for\u00e7as e grupos. Um acontecimento em disputa. No in\u00edcio das manifesta\u00e7\u00f5es pelo Passe Livre, das reivindica\u00e7\u00f5es e <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2013\/01\/aldeia-maracana-e-dos-indios-diz-antropologo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">atos em torno da Aldeia Maracan\u00e3<\/a>, um marco que precipitou a radicaliza\u00e7\u00e3o das lutas durante as \u201cjornadas\u201d que se sucederam, os movimentos de esquerda, anarquistas e comunistas, hegemonizavam o processo. Mas na \u00e9poca, como havia um descontentamento geral, em v\u00e1rios segmentos, em rela\u00e7\u00e3o ao governo de centro-esquerda representado pelo PT, os grupos neoliberais e de extrema-direita se apossaram de alguns aspectos das manifesta\u00e7\u00f5es. Alguns analistas, eu, entre eles, acreditam que o modelo <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/lula-dilma-e-um-projeto-que-pode-se-esgotar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">neodesenvolvimentista<\/a> de coaliza\u00e7\u00e3o de classes (sempre tendendo, naturalmente, \u00e0 defesa dos interesses do grande capital e da classe dominante) gerenciado pelo PT chegou ao seu limite. As ruas, de certa maneira, mostraram isso. O governo petista, apesar dos avan\u00e7os na \u00e1rea econ\u00f4mica e social, \u201cconservava\u201d diversas contradi\u00e7\u00f5es, como <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/08\/10\/indigenas-lancam-relatorio-e-contrapoem-dados-oficiais-sobre-impactos-de-belo-monte\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Belo Monte<\/a>, as rela\u00e7\u00f5es inescrupulosas com as empreiteiras e pol\u00edticos do campo conservador, a defesa dos megaeventos (Copa do Mundo e Olimp\u00edadas), que gerou in\u00fameras remo\u00e7\u00f5es, a mercantiliza\u00e7\u00e3o da cidade, como debatido em nosso filme, a <a href=\"https:\/\/www.brasildefatorj.com.br\/2019\/12\/02\/jornalista-da-mare-lanca-livro-sobre-censura-e-militarizacao-nas-favelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ocupa\u00e7\u00e3o pelo Ex\u00e9rcito da Favela da Mar\u00e9<\/a>, a continuidade do genoc\u00eddio praticado contra as popula\u00e7\u00f5es que habitam as favelas e as periferias do pa\u00eds, principalmente contra os jovens negros moradores dessas comunidades&#8230; Enfim, \u00e9 claro que os movimentos da direita n\u00e3o se importavam com essas quest\u00f5es, muitos se mobilizaram contra as conquistas \u201ccolhidas\u201d com muita luta e suor pelos movimentos sociais durante os governos petistas, mas a verdade \u00e9 que o pa\u00eds estava atravessando o in\u00edcio de uma crise econ\u00f4mica que persiste at\u00e9 os dias de hoje, al\u00e9m do desgaste do PT e da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na democracia liberal burguesa. A maioria das pessoas, em Junho, exigia uma radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia, uma democracia direta, sem intermedi\u00e1rios. Mas isso foi em seu in\u00edcio, com a \u201cchegada\u201d ou ades\u00e3o dos movimentos de direita, e tamb\u00e9m do senso comum conservador que caracteriza o nosso tecido social, cartazes pedindo o AI-5 ou a volta da ditadura militar, bandeiras monarquistas, outros exigindo o fim das demarca\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e das cotas raciais, a privatiza\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s, etc. come\u00e7aram a \u201cpulular\u201d nas ruas, redes sociais e janelas da cidade. Mas a direita nunca foi hegem\u00f4nica nessa \u00e9poca, as reivindica\u00e7\u00f5es e os movimentos de esquerda dominavam a din\u00e2mica de Junho que se estendeu (e se estende) at\u00e9 hoje. No entanto, com a apropria\u00e7\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es pela m\u00eddia corporativa e o redirecionamento das demandas para o Impeachment da Dilma, as for\u00e7as neoliberais e conservadoras, algumas representadas pelo que h\u00e1 de mais abjeto na pol\u00edtica, como o bolsonarismo presente, tomaram posse do processo, mas isso s\u00f3 ocorreu em 2015. N\u00f3s mostramos isso em nosso filme, tanto que filmamos essas manifesta\u00e7\u00f5es em seu in\u00edcio, em seu germe, assim como os atos organizados em defesa da ex-presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p><strong>\u2013 O movimento passe livre, estopim de 2013, fazia manifesta\u00e7\u00f5es frequentes, todo ano, pelo direito \u00e0 cidade.\u00a0 Algu\u00e9m esperava que precisamente naquele ano a coisa tomasse as propor\u00e7\u00f5es gigantescas que tomou?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A verdade \u00e9 que ningu\u00e9m esperava por isso, Carlos. Na \u00e9poca, eu estava em Alto Araguaia \u2013 MT, dando aulas na UNEMAT (Universidade Estadual do Mato Grosso) na Faculdade de Jornalismo como substituto. Nenhum analista, trovador, poeta ou \u201cvidente\u201d previu o vigor e a pot\u00eancia que se desdobrou em Junho de 2013, agora, dizer que Junho foi o \u201covo da serpente\u201d do bolsonarismo \u00e9 uma vis\u00e3o estreita e oportunista, Junho foi uma eclos\u00e3o de for\u00e7as sociais d\u00edspares, multitudin\u00e1rias, que encontraram nas ruas a sua melhor forma de express\u00e3o e \u201crepresentatividade\u201d, uma pol\u00edtica rizom\u00e1tica, antiestatal no sentido libert\u00e1rio do termo, ou seja, \u201cn\u00f3s por n\u00f3s mesmos\u201d, tal como foram a Comuna de Paris, os sovietes ou os conselhos de oper\u00e1rios e estudantes em Maio de 68. As jornadas ou a rebeli\u00e3o de Junho reuniu movimentos hegemonicamente de esquerda, como dito anteriormente, movimentos cuja \u201cess\u00eancia\u201d est\u00e1 em sua mobilidade e flexibilidade estrat\u00e9gicas, enxames que ocupam os lugares sem medir, tal como \u201cm\u00e1quinas de guerra n\u00f4mades\u201d, mas que se mobilizam para al\u00e9m da \u201cguerra\u201d, ou seja, se comp\u00f5em a partir de novos espa\u00e7os de liberdade: sexual, pol\u00edtica, est\u00e9tica&#8230; Mas tamb\u00e9m houve movimentos (de extrema-direita) que se apropriaram dessa m\u00e1quina e lhe deram um\u00a0 car\u00e1ter fascista e suicid\u00e1rio, Bolsonaro seria a efetiva\u00e7\u00e3o estatal desse arranjo abjeto. Junho foi um acontecimento paradigm\u00e1tico na hist\u00f3ria do Brasil e seus rastros se ramificam at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>\u2013 <em>N\u00e3o me convidaram, para esta festa pobre que os homens armaram para me convencer.<\/em> Acreditava-se que os megaeventos trariam mais empregos para a cidade e que inclusive seriam eventos populares. Meu pai que era um grande f\u00e3 de futebol achou um absurdo os pre\u00e7os dos ingressos e assistiu toda a Copa e toda as Olimp\u00edadas pela tev\u00ea. H\u00e1 quem mora ao lado do est\u00e1dio do Maracan\u00e3 e assistiu tudo pela telinha, como se estivessem sendo realizados em Paris, T\u00f3kio ou at\u00e9 no Alaska \u2013 tanto fez, como tanto faz. Seria mais justo que estes jogos fossem realizados em est\u00fadios de tev\u00ea, logo, de uma vez \u2013 pois aturamos obras que nunca nos comtemplaram de fato. Ser\u00e1 que caiu a ficha para o carioca que tipo de modelo de cidade estava sendo implementado atrav\u00e9s dos grandes jogos?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Exatamente, como debatido em nosso filme, os megaeventos foram feitos e \u201cdesfrutados\u201d pela elite, a mercantiliza\u00e7\u00e3o da cidade foi aprofundada, o monop\u00f3lio das empreiteiras ligadas aos governos da \u00e9poca, a partir de uma coaliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios partidos da ordem (PT, PMDB, PSDB, DEM, etc.), foram consumados em diversas cidades do Brasil. O povo ou uma parte consider\u00e1vel de segmentos populares e da classe m\u00e9dia, de certa forma, sentiu esse \u201cesquema\u201d, a partir de percep\u00e7\u00f5es e ideias variadas, e foi para as ruas, protestou em suas redes, em seus locais de sociabilidade, enfim&#8230; Eu me lembro que havia obras tanto em Cuiab\u00e1 quanto no Rio de Janeiro, dentre outras capitais do pa\u00eds, na \u00e9poca eu fazia essa ponte a\u00e9rea com frequ\u00eancia. As cidades estavam em constante processo de transforma\u00e7\u00e3o, elas sempre est\u00e3o, mas n\u00e3o com essa \u201ccarga de investimentos\u201d, n\u00e3o com essas cifras megaloman\u00edacas&#8230; Agora, essa mobiliza\u00e7\u00e3o urbana sempre se deu em fun\u00e7\u00e3o dos interesses das elites econ\u00f4micas e pol\u00edticas do pa\u00eds, ainda que novos atores tenham surgido no seio dessa elite. Na \u00e9poca, os logotipos da Odebrecht, Camargo Correia, Andrade Gutierrez, dentre outras empresas que compunham este oligop\u00f3lio, dominavam as paisagens urbanas. Os PACs promovidos pelos governos petistas, certamente, tiveram alguma rela\u00e7\u00e3o, de forma direta e indireta, com esta reinven\u00e7\u00e3o capitalista da cidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_1146271\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1146271\" class=\"wp-image-1146271 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Frames-protestos.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"745\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Frames-protestos.jpeg 1024w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Frames-protestos-300x218.jpeg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Frames-protestos-720x524.jpeg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Frames-protestos-768x559.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1146271\" class=\"wp-caption-text\">Frames de &#8220;O que resta de junho&#8221;. Fotomontagem por Carlos Contente<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 \u201cSem partido!\u201d um grito que pode soar esquisito, por\u00e9m revelou uma insatisfa\u00e7\u00e3o com um comportamento \u2013 apontado por Mauro Iasi, no filme &#8211; que os partidos de esquerda aos quais hav\u00edamos outrora depositado esperan\u00e7a, vinham se comportando na \u00e9poca: capturando bandeiras de luta para as elei\u00e7\u00f5es e depois abandonando. N\u00e3o teria sido este v\u00e1cuo de representa\u00e7\u00e3o que de fato, \u201cabriu a porta para a direita\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na democracia liberal burguesa, ou democracia representativa, \u00e9, em si, um v\u00e1cuo. Um nada, um vazio. No sentido em que reproduz o padr\u00e3o das sociedades dominantes no capitalismo atual, o que Deleuze e Guattari chamam de \u201cmaioria\u201d, mas que n\u00e3o \u00e9 uma maioria quantitativa, e sim dominante, qualitativa. Nas sociedades atuais, quem enuncia a verdade \u00e9 o \u201chomem branco, morador de uma metr\u00f3pole, falante de uma l\u00edngua europeia\u201d, todas as rela\u00e7\u00f5es de poder tendem a ele como significante hegem\u00f4nico, toda a sociedade se articula em torno de sua reprodu\u00e7\u00e3o e da acumula\u00e7\u00e3o do capital. Junho de 2013 dinamitou as bases dessa democracia burguesa hip\u00f3crita e decadente, numa sociedade altamente desigual e <em>neoescravocrata<\/em> como a nossa, os partidos ou movimentos sociais que n\u00e3o se reinventarem, aprofundando essa pot\u00eancia libert\u00e1ria de radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que Junho trouxe \u00e0 tona, descortinou em diversas nuances, devem ser \u201centerrados\u201d com os ossos dessa <a href=\"https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/ae\/article\/view\/8993\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">necropol\u00edtica<\/a>, essa jun\u00e7\u00e3o soberana do biopoder com o neoliberalismo em sua face mais cruel e eficiente, que chamam de Estado. Mas a an\u00e1lise de Mauro Iasi, sociologicamente, faz sentido, pois parte da ascens\u00e3o da direita e da extrema-direita se deu pela defesa dos megaeventos, das empreiteiras e dos neg\u00f3cios que eram realizados durante o governo petista, ou seja, o PT se \u201cacovardou\u201d e, de certa forma, criou esse v\u00e1cuo citado pelo Iasi.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como foi a conversa com o pessoal na Aldeia Maracan\u00e3? Ser\u00e1 que a Aldeia n\u00e3o foi a precursora das jornadas de junho carioca \u2013 por causa da resist\u00eancia \u00e0 remo\u00e7\u00e3o em abril do mesmo ano?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sem d\u00favida, a Aldeia Maracan\u00e3 impulsionou as Jornadas de Junho no Rio de Janeiro e sua milit\u00e2ncia esteve presente em quase todos os atos. Inclusive, muitos militantes do MPL (Movimento Passe Livre) e de outros movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que integraram as manifesta\u00e7\u00f5es participavam das atividades pol\u00edticas e culturais na Aldeia. Pode-se dizer que a milit\u00e2ncia na Aldeia Maracan\u00e3 deu corpo a Junho no Rio de Janeiro. Nosso filme mostra essas conex\u00f5es e a forma como elas se realizaram nas jornadas.<\/p>\n<p><strong>\u2013 O filme \u00e9 bastante completo em mostrar as v\u00e1rias vozes que protagonizaram os enfrentamentos mais radicais nas cidades \u2013 e tamb\u00e9m na periferia, como vemos na entrevista com o MTST .\u00a0 Bandeiras da moradia, da periferia e do direito \u00e0 cidade, a pauta ind\u00edgena, a luta contra as remo\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m d\u00e1 voz ao pessoal das m\u00eddias independentes, novidade na \u00e9poca que foi abra\u00e7ada como alternativa ao tremendo monop\u00f3lio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil. Isto foi um recorte, espec\u00edfico do teu filme ?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Sim, s\u00e3o recortes importantes e in\u00e9ditos na maioria dos document\u00e1rios sobre Junho de 2013. Quer\u00edamos fazer um document\u00e1rio a partir da fala dos atores sociais que participaram diretamente das \u201cjornadas\u201d, um filme que fosse, ao mesmo tempo, plural e realista, que fosse um mergulho est\u00e9tico e pol\u00edtico neste acontecimento singular e inexor\u00e1vel da hist\u00f3ria. As maiores manifesta\u00e7\u00f5es populares que o pa\u00eds que j\u00e1 conheceu e vivenciou.<\/p>\n<p><strong>\u2013 A Dilma , poderia ter abra\u00e7ado os movimentos de 2013 e ela sim, golpeado seus s\u00f3cios na governabilidade, chacoalhando o sistema de uma vez \u2013 ou estava amarrada pelos neg\u00f3cios?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Estava amarrada pelos neg\u00f3cios e, simultaneamente, ou em fun\u00e7\u00e3o desses neg\u00f3cios, \u201cdeu mole\u201d. O PT nunca quis \u201cchacoalhar o sistema de uma vez\u201d, apesar da ingenuidade de alguns militantes que ainda acreditam nesse discurso e fetichizam o partido. O PT se alimentou do sistema e o conservou, e ainda que tenham tido avan\u00e7os sociais e econ\u00f4micos importantes em seus governos, as contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais que estruturam o nosso pa\u00eds n\u00e3o foram superadas, em muitos casos, elas foram \u201camenizadas\u201d, mas em dado momento, explodiram. Junho \u00e9 um efeito dessa explos\u00e3o&#8230;<\/p>\n<div id=\"attachment_1146251\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1146251\" class=\"wp-image-1146251 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Rodrigo-uma-vida-Captura-de-video.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Rodrigo-uma-vida-Captura-de-video.jpg 800w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Rodrigo-uma-vida-Captura-de-video-300x176.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Rodrigo-uma-vida-Captura-de-video-720x422.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Rodrigo-uma-vida-Captura-de-video-768x450.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-1146251\" class=\"wp-caption-text\">Imagem de &#8220;Rodrigo, uma vida&#8221;. Captura de tela.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 com um novo filme <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=O1C0ZJS7Cv4&amp;t=1069s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rodrigo, uma vida<\/a> relacionado ao tema dos autos de resist\u00eancia. Conte-nos um pouco mais sobre ele.<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Este document\u00e1rio fiz com um amigo, Pedro Guilherme Freire, que foi professor do <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/05\/23\/operacao-policial-interrompe-doacao-de-cestas-e-deixa-mais-um-jovem-morto-no-rj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rodrigo Cerqueira, assassinado cruelmente pela PM do Rio de Janeiro<\/a> e, em seguida, criminalizado pela institui\u00e7\u00e3o, que alega \u201cauto de resist\u00eancia\u201d para justificar o assassinato, como ocorre em milhares de casos espalhados pela cidade e no resto do pa\u00eds. Um verdadeiro genoc\u00eddio, uma necropol\u00edtica articulada pelo Estado para defender seus interesses de classe e manter as rela\u00e7\u00f5es de poder inalteradas. \u00c9 um filme essencial, necess\u00e1rio, no sentido de resgatar a mem\u00f3ria do Rodrigo e provar sua inoc\u00eancia. Foi, sem d\u00favida, o filme mais emocionante que j\u00e1 fiz, e um dos mais importantes. O Pedro n\u00e3o \u00e9 do meio audiovisual, ele \u00e9 da Sociologia e da Letras, ent\u00e3o as imagens n\u00e3o foram t\u00e3o bem trabalhadas. O filme \u00e9 composto de imagens captadas por ele, por alunos do <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/premachadoassis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pr\u00e9-Vestibular Comunit\u00e1rio Machado de Assis<\/a> e por amigos e familiares do Rodrigo.<\/p>\n<p>(Esta \u00e9 parte da sinopse que escrevi com o Pedro para publicitar o caso)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>&#8220;No dia 21 de Maio de 2020, quando professores e estudantes do Col\u00e9gio Estadual Reverendo Clarence e do Pr\u00e9 Vestibular Comunit\u00e1rio Machado de Assis, na Provid\u00eancia, se organizavam para come\u00e7ar mais uma entrega de cestas b\u00e1sicas para os alunos da escola, do pr\u00e9 e da Ocupa\u00e7\u00e3o Elma, policiais da UPP da Provid\u00eancia assassinaram o estudante Rodrigo Cerqueira da Concei\u00e7\u00e3o. Rodrigo era aluno da escola e estava na fila para receber uma cesta. Infelizmente n\u00e3o pode, pois foi assassinado antes. Na v\u00e9spera do assassinato completar 1 (uma) semana, mais de 100 (cem) pessoas se despediram de Rodrigo em uma cerim\u00f4nia pr\u00f3xima \u00e0 escola onde estudava, local em que as cestas b\u00e1sicas continuam sendo entregues todas as quartas-feiras, com exce\u00e7\u00e3o do dia em que ele foi covardemente assassinado. Rodrigo estava no 2\u25e6 Ano do Ensino M\u00e9dio, trabalhava como ambulante para ajudar a fam\u00edlia, nunca teve passagens pela pol\u00edcia, mas, ainda assim, foi assassinado cruelmente por policiais militares na Rua do Livramento, Morro da Provid\u00eancia, Rio de Janeiro. Este filme \u00e9 tamb\u00e9m parte da luta de familiares e amigos de Rodrigo em defesa de sua mem\u00f3ria e da luta por justi\u00e7a.&#8221;<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_1146261\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1146261\" class=\"wp-image-1146261 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491.png 1024w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491-300x169.png 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491-720x405.png 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491-768x432.png 768w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Captura-de-Tela-491-750x422.png 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1146261\" class=\"wp-caption-text\">Frame do filme O que resta de junho.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 O que resta de junho, sete anos depois?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Como eu disse anteriormente, <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/06\/a-revolta-como-enigma-conversa-com-camila-jourdan\/?fbclid=IwAR2GxM7d514XA_FJer5hFVDJMEUd6Teeh3Oj4UYNhMxgRPbFXo57ZdPsFJM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Junho<\/a> ainda est\u00e1 vivo, pois a democracia burguesa e o capitalismo ainda se conservam, mesmo que em percal\u00e7os, \u201csolu\u00e7os\u201d, tens\u00f5es constantes. Como acontecimento, como incorporal, Junho vive e amedronta aqueles que se acomodam na representatividade pol\u00edtica dos gabinetes, no <a href=\"http:\/\/www.justificando.com\/2017\/04\/15\/um-comite-para-gerir-os-negocios-da-burguesia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cgalp\u00e3o de neg\u00f3cios da burguesia\u201d<\/a>, como escreveu Marx, e sua materialidade se efetiva nos movimentos sociais que instauram uma nova forma de fazer pol\u00edtica, sem intermedi\u00e1rios, sem as delimita\u00e7\u00f5es que o capital imp\u00f5e, uma pol\u00edtica rizom\u00e1tica que n\u00e3o se centraliza num partido ou num aparato estatal, mas que cria o comum a partir das diferen\u00e7as que o comp\u00f5em. Atualmente, enfrentamos a rearticula\u00e7\u00e3o do campo neoliberal e os ataques constantes do neofascismo ou populismo de direita representado pelo governo Bolsonaro, mas repetir os \u201cvelhos esquemas\u201d, como o populismo neodesenvolvimentista do governo anterior, o chamado lulismo, para se contrapor a essas for\u00e7as reacion\u00e1rias, n\u00e3o \u00e9 e nunca foi a \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d. Ou a esquerda se reinventa ou ela \u201cperecer\u00e1\u201d, ampliando as bases do novo fascismo que ascende, assustadoramente, no Brasil e no mundo. Como eu escrevi h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s no meu Facebook, relan\u00e7ando o trailer do nosso filme: \u201cE as perguntas continuam, voltam com um teor de intensidade renovado, abrem novas brechas e fecham alguns canais, mas sempre a partir da singularidade &#8220;absoluta&#8221;, irredut\u00edvel, dos eventos&#8230; O que resta de Junho?\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gQvK9RzOPP8\" width=\"720\" height=\"405\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CINEMA &nbsp; &nbsp; Junho de 2013 foi um acontecimento pol\u00edtico, social, de m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Uma revolta popular. Um acontecimento multitudin\u00e1rio que envolveu diversas for\u00e7as e grupos. Um acontecimento em disputa. 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