{"id":1129592,"date":"2020-06-07T21:03:36","date_gmt":"2020-06-07T20:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1129592"},"modified":"2020-06-08T04:40:00","modified_gmt":"2020-06-08T03:40:00","slug":"a-revolta-como-enigma-conversa-com-camila-jourdan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/06\/a-revolta-como-enigma-conversa-com-camila-jourdan\/","title":{"rendered":"A revolta como enigma. Conversa com Camila Jourdan"},"content":{"rendered":"<p>Camila Jourdan \u00e9 professora do departamento de filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, m\u00e3e e uma das vinte e tr\u00eas pessoas presas e processadas durante os protestos contra a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo de 2014.\u00a0 Camila lan\u00e7ou o livro <em>2013 mem\u00f3rias e resist\u00eancias<\/em> no final de 2018, <a href=\"http:\/\/editoracircuito.com.br\/website\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pela editora Circuito<\/a>, contando detalhes do c\u00e1rcere, do processo e tamb\u00e9m inclui entrevistas para a grande m\u00eddia. Como sete \u00e9 um bom n\u00famero e estamos a sete anos das jornadas de junho &#8211; com grandes chances de novos levantes, s\u00f3 que desta vez em um contexto muito mais sombrio e atormentado &#8211; conversamos sobre ideias, disputas de narrativas, o sentido da a\u00e7\u00e3o e outras reflex\u00f5es que voltam \u00e0 tona neste preciso momento.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Ano passado voc\u00ea lan\u00e7ou o livro 2013 Mem\u00f3rias e resist\u00eancias, com escritos de pr\u00f3prio punho e tamb\u00e9m entrevistas \u00e0 imprensa corporativa e alternativa na \u00e9poca da repress\u00e3o aos protestos contra a Copa. Nele voc\u00ea relata mem\u00f3rias de seu processo e sua pris\u00e3o e tamb\u00e9m entrevistas dadas \u00e0 imprensa e \u00e0 m\u00eddia alternativa. Quero come\u00e7ar a nossa conversa a partir do lan\u00e7amento do seu livro, o que a motivou a publicar?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A principal raz\u00e3o para publicar o livro foi fazer um registro da nossa hist\u00f3ria. Existe um apagamento das lutas que \u00e9 sistem\u00e1tico no Brasil, faz parte da constru\u00e7\u00e3o dessa imagem de \u2018povo pac\u00edfico\u2019, este mito de que o brasileiro n\u00e3o se revolta, que impede que a gente possa criar um sentido continuado de resist\u00eancia. O apagamento n\u00e3o \u00e9 apenas do que houve, mas do significado do que houve, para que n\u00e3o mais se repita. At\u00e9 hoje voc\u00ea pode escutar absurdos como: por que os negros no Brasil n\u00e3o se revoltam? E \u00e9 claro que se revoltam, mas voc\u00eas v\u00e3o l\u00e1 reprimem e desqualificam, dizem que n\u00e3o era bem aquilo. Ent\u00e3o o que a gente tem que fazer \u00e9 um registro da mem\u00f3ria bruta dos combates, para que a hist\u00f3ria das lutas n\u00e3o se perda de sentido. Sabe aquela coisa do Walter Benjamin: se o inimigo vence, nem nossos mortos est\u00e3o seguros? Ent\u00e3o, \u00e9 bem isso, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 importante matar, prender, perseguir.<\/p>\n<p>Para acabar com uma resist\u00eancia, \u00e9 preciso tamb\u00e9m ressignificar como se nada daquilo tivesse acontecido. E isso \u00e9 um processo cont\u00ednuo na disputa de narrativas. At\u00e9 que uma, duas gera\u00e7\u00f5es depois ningu\u00e9m consiga lembrar do que ocorreu. E isso de n\u00e3o poder lembrar significa tamb\u00e9m perder o que n\u00f3s vencemos, o que havia de desestruturante, de singular naquela viv\u00eancia. Primeiro se mata, se anula, se aniquila, depois se cria um <em>fake<\/em> palat\u00e1vel. No momento mesmo da nossa pris\u00e3o isso j\u00e1 estava ocorrendo. Ent\u00e3o \u00e9 importante que a gente possa disputar esses relatos, disputar nossa hist\u00f3ria, enquanto estas lembran\u00e7as est\u00e3o vivas em n\u00f3s porque elas t\u00eam uma pot\u00eancia muito grande, que n\u00e3o podemos deixar que se perca. E quando falo isso n\u00e3o falo s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o a 2013, obviamente, falo no geral, a disputa de narrativas, de significados, \u00e9 t\u00e3o importante quanto a disputa direta, elas n\u00e3o s\u00e3o separadas, de fato.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129615\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129615\" class=\"wp-image-1129615 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/camila-2013.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"462\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/camila-2013.jpg 1024w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/camila-2013-300x135.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/camila-2013-720x325.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/camila-2013-768x347.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129615\" class=\"wp-caption-text\">Imagem da capa e contracapa Rafael Daguerre<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Anarquia no vocabul\u00e1rio corriqueiro \u00e9 entendida como bagun\u00e7a e vontade de depreda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o que o leitor n\u00e3o goste disso de vez em quando, mas, em geral, as pessoas associam \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o de vida \u2013 do seu ir e vir \u2013 do seu trabalho, moradia, etc. Pouco se fala que o anarquismo \u00e9 um conjunto de ideias que tem uma hist\u00f3ria, que nasce das lutas de emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. \u00c9 \u00f3bvio que a direita se interesse por difamar, mas por que essa invisibilidade das ideias anarquistas mesmo nos ambientes vermelhos, de esquerda?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, a hist\u00f3ria do anarquismo \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de um apagamento de uma pot\u00eancia. Justamente porque temos nossa hist\u00f3ria contada pelos que ganham as disputas de poder, as institui\u00e7\u00f5es. E os anarquistas n\u00e3o est\u00e3o interessados em tomar o poder. O movimento anarquista foi extremamente forte ao longo das v\u00e1rias resist\u00eancias no Brasil e no Mundo, e quase n\u00e3o se fala disso. Sem movimento anarquista, a maior parte das grandes modifica\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o teriam ocorrido porque n\u00f3s est\u00e1vamos na linha de frente de todas elas. Inclusive sempre fomos a linha de frente do combate ao fascismo tamb\u00e9m.\u00a0 Seja na\u00a0 luta educativa, no seio da cria\u00e7\u00e3o da escola moderna, seja pegando em armas e enfrentando tiranos.<\/p>\n<p>N\u00f3s vencemos, no sentido de que impulsionamos as modifica\u00e7\u00f5es de modo radical por todos os meios. N\u00f3s vencemos porque as transforma\u00e7\u00f5es reais, profundas, se d\u00e3o de baixo para cima, no \u00e2mbito dos valores, no \u00e2mbito das pr\u00e1ticas, e n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1 impulsionando elas sem separar meios dos fins almejados. Mas n\u00f3s n\u00e3o ocupamos os parlamentos e os cargos, n\u00f3s n\u00e3o contamos a hist\u00f3ria oficial dos vencedores, ent\u00e3o somos invisibilizados. A gente pode pensar aqui na hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa; da Revolu\u00e7\u00e3o espanhola; na hist\u00f3ria do sindicalismo revolucion\u00e1rio; na hist\u00f3ria do primeiro de maio; em maio de 68 ou nas insurrei\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas&#8230; Foi derramado muito sangue anarquista para que as conquistas dos explorados fossem conquistas, e nossa hist\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria das nossas trai\u00e7\u00f5es por alguns que lutaram ao nosso lado (o que foi feito com a makhnovtchina; Kronstadt; etc). N\u00e3o falo para colocar os anarquistas no papel de coitados, nada do que aconteceu deve ser lamentado, mas deve ser lembrado, registrado, retomado.<\/p>\n<p>Temos que saber quem est\u00e1 ao nosso lado e at\u00e9 que ponto, temos que saber no que somos bons e quais as nossas fraquezas enquanto movimento e, a partir disso, podemos colocar peso naquilo que diz respeito \u00e0 nossa for\u00e7a. Pensando no hoje, \u00e9 como se houvesse um grande acordo t\u00e1cito por conveni\u00eancia entre as for\u00e7as institucionais para colocar os anarquistas neste lugar de invisibilidade e criminaliza\u00e7\u00e3o, como se n\u00e3o exist\u00edssemos enquanto alternativa pol\u00edtica real. Isso se deve justamente \u00e0 pot\u00eancia que o anarquismo encarna no momento presente, enquanto alternativa antissist\u00eamica, interessa aos grupos partid\u00e1rios nos invisibilizar como caminho de luta e organiza\u00e7\u00e3o vi\u00e1veis porque querem tragar a insatisfa\u00e7\u00e3o popular para a via institucional e da representa\u00e7\u00e3o. Da mesma maneira que interessa \u00e0 direita nos criminalizar para travar a for\u00e7a da a\u00e7\u00e3o direta enquanto motor das transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129656\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129656\" class=\"wp-image-1129656 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2824.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2824.jpg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2824-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2824-720x480.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129656\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, 2014.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Uma pergunta que copiei do seu livro: o que houve, afinal, em 2013?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Temos que voltar a isso porque aparece como um pano de fundo discursivo sempre que as ruas voltam a ecoar a revolta. Agora mesmo escutamos in\u00fameros discursos: \u2018tomem cuidado, n\u00e3o vamos repetir 2013.\u2019 E o que se quer dizer com isso? Meus alunos de primeiro per\u00edodo, que eram crian\u00e7as naquela \u00e9poca, chegam em sala de aula repetindo a narrativa do PT de que 2013 foi o in\u00edcio do golpe contra a Dilma. Isso \u00e9 terr\u00edvel, isso mata a nossa hist\u00f3ria, isso s\u00e3o os mortos n\u00e3o estando seguros com a vit\u00f3ria do inimigo. \u00c9 uma luta que se trava em um outro campo de batalha, que \u00e9 o das narrativas. \u00c9 isso que voc\u00ea quer contar para os seus filhos? Que quando o povo tomou as ruas, o que se ganhou foi a ascens\u00e3o do fascismo. Isso \u00e9 \u00f3timo para formar um povo passivo, amedrontado, que sempre precisar\u00e1 de rid\u00edculos tiranos, achando que a revolta que n\u00e3o leva a lugar a nenhum. Depois voc\u00ea pode reclamar que as pessoas aqui n\u00e3o se revoltam como l\u00e1 fora e achar que n\u00e3o tem parte nisso.<\/p>\n<p>Ora, se a luta educa, como costumamos dizer, temos que transmitir esses ensinamentos para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.\u00a0 E isso n\u00e3o vai acontecer se voc\u00ea pular alguns cap\u00edtulos importantes. O que eu quero contar para os meus filhos \u00e9 que quando a revolta tomou as ruas, os tiranos morreram de medo, a passagem baixou, a aldeia maracan\u00e3 foi retomada e est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje gra\u00e7as ao levante popular, a popula\u00e7\u00e3o apoiou, se sentiu empoderada. Eu quero contar que foi uma revolta anti-sist\u00eamica; com vasta participa\u00e7\u00e3o das camadas exclu\u00eddas; com influ\u00eancia anarquista e participa\u00e7\u00e3o direta. Que as pautas de direita foram banidas das ruas, porque a gente lutava contra o genoc\u00eddio do povo preto e favelado; por direito \u00e0 cidade, contra \u00e0s remo\u00e7\u00f5es; por sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o contra os megaeventos. Que as representa\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias foram recusadas pelo pr\u00f3prio papel vergonhoso que vinham tendo nas lutas h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Houve rea\u00e7\u00e3o? Claro que houve rea\u00e7\u00e3o, e quando \u00e9 que n\u00e3o haveria?! E houve recha\u00e7o dos setores institucionais que incentivaram a criminaliza\u00e7\u00e3o da revolta com medo de perderem seu espa\u00e7o, que pediram para que os v\u00e2ndalos sa\u00edssem das ruas e ficassem s\u00f3 os verdadeiros manifestantes, que entregaram pessoas pra pol\u00edcia e pediram as nossas cabe\u00e7as. E houve pris\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o, aprova\u00e7\u00e3o da lei antiterrorismo pelo governo do PT\u2026 e, depois de dois anos, e de v\u00e1rios processos, quando os \u201cverdadeiros manifestantes\u201d voltaram paras ruas vazias, vestidos de verde e amarelo, pedindo do impeachment da Dilma, aqueles setores que ajudaram a criminalizar os \u201cv\u00e2ndalos\u201d radicais acharam legal dizer que a culpa foi nossa. Percebe o n\u00edvel da pervers\u00e3o: \u00e9 ajudar a prender algu\u00e9m, abrir caminho para a fascistiza\u00e7\u00e3o social e, depois disso, dizer que a culpa \u00e9 daqueles mesmos que voc\u00ea perseguiu, em vez de encarar o tamanho da desgra\u00e7a que voc\u00ea ajudou a construir. Pra rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta matar ou prender, \u00e9 preciso matar o sentido, s\u00f3 assim se enterra uma luta pra que ela n\u00e3o deixe nada para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129908\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129908\" class=\"wp-image-1129908 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarsila-por-Frechette.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"513\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarsila-por-Frechette.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Tarsila-por-Frechette-300x214.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129908\" class=\"wp-caption-text\">Tarsila, de Alex Frechette, obra em homenagem aos presos e processados durante os protestos de 2013 e 2014.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 A condena\u00e7\u00e3o dos 23 serviu para condenar tamb\u00e9m as in\u00fameras pautas trazidas para as ruas e que permanecem: educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, mobilidade urbana, discrimina\u00e7\u00e3o racial, religi\u00f5es perseguidas, LGBTI&#8230;, fim da viol\u00eancia do Estado ?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Na medida em que a nossa criminaliza\u00e7\u00e3o e posterior condena\u00e7\u00e3o atinge tamb\u00e9m o significado da nossa resist\u00eancia claramente atinge as pautas que estavam em cena, por isso eu gosto de lembrar as palavras de ordem das ruas naquele momento. S\u00e3o lutas ainda em curso, todas elas e os processos s\u00e3o cap\u00edtulos nessas lutas. Isso \u00e9 algo importante de ser pontuado, porque lutar contra a criminaliza\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m de pedir a liberdade de indiv\u00edduos.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Michel Foucault escreveu textos e deu entrevistas \u00e0 imprensa ocidental elogiando a digna revolta do povo iraniano em 1979, que logo descambou para uma teocracia, o governo dos aiatol\u00e1s. O pessoal caiu de pau no Foucault depois disso. Voc\u00ea v\u00ea similaridades entre este fato e as acusa\u00e7\u00f5es de que \u201cos movimentos de 2013 abriram a porta para a direita\u201d?\u00a0 \u00c9 melhor ficar engessado em um sistema sufocador com certos benef\u00edcios ou arriscar-se no inesperado?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Aconteceu algo similar com 68 tamb\u00e9m, s\u00e3o in\u00fameros exemplos, de rea\u00e7\u00f5es \u00e0 direita que se seguiram \u00e0s insurrei\u00e7\u00f5es e pelas quais aqueles que se insurgiram foram culpabilizados. Ent\u00e3o seria melhor que n\u00e3o houvessem as revoltas? Ora, claramente n\u00e3o se segue. Se voc\u00ea quer procurar culpados, procure entre aqueles que apoiaram a rea\u00e7\u00e3o, seja por qual motivo for, e n\u00e3o do lado dos revoltosos. Mas, al\u00e9m disso, e eu acho que este \u00e9 o ponto do Foucault, a revolta tem uma dimens\u00e3o \u00e9tica que \u00e9 um fim em si. Eu gosto muito dessas considera\u00e7\u00f5es do Foucault sobre a revolta, da sua abertura para o inesperado, da singularidade que ela carrega enquanto acontecimento, que a diferencia da ideia de uma revolu\u00e7\u00e3o, mas que a torna em certo sentido um fim em si. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo hist\u00f3rico, no tempo, dentro da cadeia causa-efeito. A insurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um corte, e por isso pode possibilitar o surgimento do imprevisto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a revolta tem uma dimens\u00e3o valorativa, ela afirma algo como necess\u00e1rio quando carrega a ideia: prefiro arriscar a vida do que viver sob esses termos, ent\u00e3o ela diz o que a nossa vida pode valer para al\u00e9m da mera sobreviv\u00eancia. Ela instaura algo com um valor de ess\u00eancia. E quando tantos n\u00e3o tem escolha entre arriscar ou n\u00e3o a vida para que o capital continue onipresente, dizer um \u2018n\u00e3o\u2019 a tudo isso tem um significado muito profundo, criador.<\/p>\n<p>Foucault foi muito criticado por isso porque parece haver em suas observa\u00e7\u00f5es sobre a revolta um elemento m\u00edstico, e obviamente que isso \u00e9 mal visto pela tradi\u00e7\u00e3o materialista, este flerte com a religi\u00e3o, digamos assim. Mas \u00e9 f\u00e1cil\u00a0 explicar isso para quem viveu algo similar, sem fazer uso de qualquer comprometimento metaf\u00edsico. H\u00e1 algo no acontecimento insurrecion\u00e1rio que tem pouco ou nada com o que voc\u00ea vai ganhar com ele no tempo hist\u00f3rico. Ele \u00e9 a pr\u00f3pria viv\u00eancia de uma outra configura\u00e7\u00e3o. As pessoas dizem, mas se n\u00e3o houver organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o adianta se revoltar, e com isso se esquecem que a pr\u00f3pria revolta tamb\u00e9m organiza, ainda que pela necessidade concreta. N\u00e3o existe processo insurrecion\u00e1rio que n\u00e3o carregue consigo ganhos organizacionais. E disso voc\u00ea pode at\u00e9 retirar um ganho para o futuro, em outros processos certamente ser\u00e3o retomados, mas o mais importante \u00e9 que ali, naquilo que voc\u00ea foi feito, houve um ganho em si. O que os anarquistas sempre lembraram: fazer agora a sociedade que voc\u00ea quer, os meios j\u00e1 s\u00e3o os fins, por isso a a\u00e7\u00e3o \u00e9 direta.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea conversar com qualquer ex-secundarista que viveu uma ocupa\u00e7\u00e3o escolar em 2016, por exemplo, e vou usar isso pra n\u00e3o falar da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia individual, ele vai te dizer que o principal da ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi ter ou n\u00e3o ganho as pautas pelas quais se lutava, mas o que se conseguiu construir ali mesmo no processo de luta, a pequena comuna autogerida que encarnava em ato uma nova maneira de viver e construir conhecimento, e que se expressava como um fim em si. Essa viv\u00eancia \u00e9 educativa, claro, porque ela ensina muito para quem esteve ali, ensina que a escola pode ser diferente, que a hierarquia n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o retira essa experi\u00eancia de quem viveu ela, mesmo que voc\u00ea persiga, prenda, tente dar um outro significado ao processo hist\u00f3rico que seja uma falsifica\u00e7\u00e3o espetacular. Essa pessoa se torna um agente transformador porque ela carrega aquela experi\u00eancia consigo para onde for e ela n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o facilmente govern\u00e1vel. A pessoa vai querer reviver aquela experi\u00eancia, \u00e9 como se tivesse sido inoculada com algo, s\u00e3o experi\u00eancias que unem as pessoas, quase como uma irmandade, e da\u00ed \u00e9 f\u00e1cil fazer paralelos com aspectos religiosos, mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer pressuposto metaf\u00edsico nisso. O nosso modo de vida capitalista contempor\u00e2neo, sem forma, \u00e9 que \u00e9 muito destitu\u00eddo de sentido mesmo. \u00c9 preciso lembrar que existe sentido imanente na exist\u00eancia, por vezes a revolta nos possibilita isso.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129676\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129676\" class=\"wp-image-1129676 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-53.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-53.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-53-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129676\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, 2014<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Recentemente com a eclos\u00e3o da revolta nos Estados Unidos as redes sociais evocam o s\u00edmbolo do antifascismo. Professores antifascistas, garis antifascistas, muse\u00f3logas antifascistas&#8230; \u00e9 bonito de se ver, o que pode ser uma populariza\u00e7\u00e3o da causa. Por\u00e9m o desgovernador que at\u00e9 ontem falava em atirar na cabecinha referindo-se a incurs\u00f5es policiais na favela hoje demagogicamente se diz antifascista; por outro lado um min\u00fasculo grupo cal\u00e7ando sapat\u00eanis se apropria do s\u00edmbolo, o pinta de amarelo e negro e reivindica o termo anarco capitalismo uma esp\u00e9cie de extremismo neoliberal. Existe isso? Como os anarquistas est\u00e3o se contrapondo a estas apropria\u00e7\u00f5es malucas de seus termos?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Bom, neste momento que tantos se declaram antifas, n\u00e3o somos n\u00f3s que vamos reclamar, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Estudantes do pr\u00e9-comunit\u00e1rio pedindo aula sobre antifascismo \u00e9 tudo que queremos. Esse tamb\u00e9m o efeito da propagando pelo ato, e as a\u00e7\u00f5es no EUA s\u00e3o formadoras e educativas tamb\u00e9m neste sentido. Mas, da\u00ed para que seja de fato formador, algumas coisas precisam ser pontuadas. Primeiramente, na contemporaneidade, a designa\u00e7\u00e3o <em>antifa<\/em> diz respeito a uma orienta\u00e7\u00e3o que certos coletivos e movimentos revindicam quanto a n\u00e3o tolerar o fascismo de maneira alguma. N\u00e3o diz respeito a um grupo espec\u00edfico, que pudesse ser uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista, mas tamb\u00e9m n\u00e3o diz respeito a ser simplesmente contra o fascismo. Trata-se de uma orienta\u00e7\u00e3o geral e pr\u00e1tica revindicada por certos grupos, em sua maioria anarquistas, mas n\u00e3o apenas anarquistas. Grupos que legitimam a a\u00e7\u00e3o direta, e que afirmam que com o fascismo n\u00e3o se discute, se combate diretamente. Grupos que n\u00e3o legitimam a luta jur\u00eddica ou institucional no combate ao fascismo, mas que se organizam para diretamente impedir o fascismo de crescer, seja por impedir uma manifesta\u00e7\u00e3o fascista, seja por impedir o fascismo no micro da sociedade, etc\u2026 Da\u00ed penso que \u00e9 importante agora quando todos se viram e dizem: <em>somos todos antifas<\/em>! Isso \u00e9 bom porque caminha no sentido oposto da criminaliza\u00e7\u00e3o. Mas isso significa que estamos todos juntos na luta contra o fascismo? N\u00e3o exatamente, h\u00e1 uma tentativa de assimila\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em curso, de domestica\u00e7\u00e3o, de coopta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de fakes palat\u00e1veis. Faz parte da rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me agrada ver liberais revindicando o r\u00f3tulo antifa e fazendo refer\u00eancia \u00e0 frente ampla da segunda guerra mundial, por exemplo. Ser antifa n\u00e3o \u00e9 ser contra o Bolsonaro. N\u00e3o \u00e9 nem ser de esquerda exatamente. Anarco-capitalismo ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada de positivo nisso, \u00e9 uma designa\u00e7\u00e3o que confunde e que me parece mesmo uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. Se \u00e9 anarquismo \u00e9 necessariamente anticapitalista e se \u00e9 capitalista \u00e9 necessariamente estatal. Este \u00e9 o ponto de vista que eu e Ac\u00e1cio Augusto defendemos no <a href=\"https:\/\/faccaoficticia.noblogs.org\/post\/2019\/08\/18\/libertario-anarquista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo<\/a> que <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/08\/anarquismo-ultraliberal-e-so-uma-moda-dizem-pesquisadores.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicamos na Folha de S\u00e3o Paulo<\/a>\u00b9. A populariza\u00e7\u00e3o do termo antifa, ou anarquista, n\u00e3o pode significar o apagamento da nossa identidade pol\u00edtica e das diversidades de t\u00e1ticas, caso contr\u00e1rio essa propaga\u00e7\u00e3o se torna a nossa dilui\u00e7\u00e3o. Os movimentos antifas s\u00e3o movimentos que defendem a auto-defesa; a a\u00e7\u00e3o direta e a resist\u00eancia n\u00e3o-institucional. N\u00e3o se deve apagar a identidade pol\u00edtica dos movimentos antifas, que s\u00e3o m\u00faltiplos em termos ideol\u00f3gicos, \u00e9 verdade, mas que possuem essas caracter\u00edsticas que elenquei em comum. O efeito desse apagamento \u00e9 muito nefasto porque \u00e9 novamente a invisibilidade de uma alternativa de luta, como coment\u00e1vamos antes. Em todo caso, \u00e9 sempre um jogo de for\u00e7as, Mark Bray comentou recentemente na <a href=\"https:\/\/faccaoficticia.noblogs.org\/post\/2020\/06\/05\/antifa-entrevista-com-mark-bray\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrevista\u00b2 que deu \u00e0 Fac\u00e7\u00e3o Fict\u00edcia<\/a> que tentar se revindicar antifa tamb\u00e9m pode levar setores da esquerda institucional a uma radicaliza\u00e7\u00e3o. Otimismo? Talvez. De qualquer forma, temos que lidar com esse jogo de for\u00e7a aproveitando o que ele tem de positivo, que \u00e9 divulgar a for\u00e7a do nosso posicionamento pol\u00edtico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129645\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129645\" class=\"wp-image-1129645 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_9879.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_9879.jpg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_9879-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_9879-720x480.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129645\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, 2019<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 A luta anarquista contra a farsa da democracia burguesa reivindica a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o neste jogo. O voto nulo n\u00e3o colabora indiretamente com o fascismo molecular, cotidiano, ao deixar que outros elejam governantes racistas, machistas, autorit\u00e1rios e fascistas?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Bom, os anarquistas sempre denunciaram a farsa da democracia representativa, isso carrega tamb\u00e9m um outro modo de pensar a pol\u00edtica que n\u00e3o seja pelo vi\u00e9s da representa\u00e7\u00e3o, mas que foque nas constru\u00e7\u00f5es e na participa\u00e7\u00e3o direta. O processo eleitoral \u00e9 um jogo de cena, as pessoas percebem isso de modo muito forte, \u00e9 mais um nicho de mercado espetaculoso, os pol\u00edticos s\u00e3o produtos, e agora o algoritmo da sociedade de controle parece resolver tudo pra voc\u00ea. Mas n\u00e3o participar disso n\u00e3o \u00e9 um fim em si, pode ser uma t\u00e1tica, esvaziar o que j\u00e1 e vazio, n\u00e3o colocar peso, deixar minguar, investir em outras frentes de a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o serve pra nada se n\u00e3o se procura construir outras formas de fazer pol\u00edtica. A quest\u00e3o \u00e9 que votar ou n\u00e3o votar n\u00e3o \u00e9 o importante, muitos anarquistas votaram na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, quase que por desespero. Eu n\u00e3o vejo essa a\u00e7\u00e3o como o diferencial exatamente, o importante \u00e9 que se entenda que essa n\u00e3o \u00e9 face primordial da pol\u00edtica, que n\u00e3o \u00e9 isso que pode gerar modifica\u00e7\u00f5es profundas na sociedade. E obviamente que abdicar disso tamb\u00e9m n\u00e3o nos torna respons\u00e1vel pela ascens\u00e3o da extrema direita, que tem causas profundas na nossa sociedade.<\/p>\n<p>Denunciar a farsa eleitoral sempre foi um modo de trazer \u00e0 cena outro modo de fazer pol\u00edtica, porque o processo espetacular se nutre de capturar a for\u00e7a do concreto. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os movimentos sociais aparelhados se p\u00f5em em fun\u00e7\u00e3o das candidaturas, e que, com isso muita luta direta \u00e9 entregue, \u00e9 tra\u00edda. Ent\u00e3o algo que poderia desembocar em transforma\u00e7\u00f5es profundas \u00e9 tratado como meio para um fim que n\u00e3o serve pra nada ou serve pra muito pouco. Ainda agora muitos que advogam para se n\u00e3o ir para rua, dizendo falar em nome de uma preocupa\u00e7\u00e3o com a pandemia, ou com um poss\u00edvel golpe, est\u00e3o de fato depositando suas fichas na aposta furada do processo eleitoral que, j\u00e1 vimos o filme, para ser ganho demanda que a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponda ao representado. N\u00e3o fomos n\u00f3s anarquistas que conseguimos convencer as pessoas da fal\u00eancia da representa\u00e7\u00e3o, foi o pr\u00f3prio\u00a0 processo, foi por exemplo o cartaz da guerrilheira na campanha eleitoral que n\u00e3o correspondia \u00e0 Dilma no poder, acho mesmo que depois desse cartaz o \u2018isso n\u00e3o \u00e9 um cachimbo\u2019 se tornou ultrapassado, Magritte jamais conseguiria denunciar os limites da representa\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem quanto o pr\u00f3prio processo eleitoral.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129625\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129625\" class=\"wp-image-1129625 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/poster-foto-60x80cm-ceci-nest-pas-une-pipe-rene-magritte-D_NQ_NP_689621-MLB20826922617_072016-F.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/poster-foto-60x80cm-ceci-nest-pas-une-pipe-rene-magritte-D_NQ_NP_689621-MLB20826922617_072016-F.jpg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/poster-foto-60x80cm-ceci-nest-pas-une-pipe-rene-magritte-D_NQ_NP_689621-MLB20826922617_072016-F-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/poster-foto-60x80cm-ceci-nest-pas-une-pipe-rene-magritte-D_NQ_NP_689621-MLB20826922617_072016-F-720x540.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129625\" class=\"wp-caption-text\">*Isto n\u00e3o \u00e9 um cachimbo. Ren\u00e9 Magritte. A trai\u00e7\u00e3o das imagens. 1929. \u00d3leo sobre tela. 63,5 x 93,98 cm. Museu de Arte do Condado de Los Angeles.<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1129605\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129605\" class=\"wp-image-1129605 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose-Oiticica-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"505\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose-Oiticica-1.jpeg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose-Oiticica-1-300x202.jpeg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose-Oiticica-1-720x485.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129605\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia do prontu\u00e1rio de Jos\u00e9 Oiticica. Imagem Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro, no livro Clevel\u00e2ndia, Anarquismo, sindicalismo e repress\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, de Alexandre Samis.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Os artistas pl\u00e1sticos simplesmente amam trabalho de H\u00e9lio Oiticica pelo pioneirismo, pela liberdade e alegria com as quais ele rompeu, nos anos sessenta com a conversa\u00e7\u00e3o modernista na pintura ou na escultura e mistura os meios, faz a cor brincar no espa\u00e7o com seus parangol\u00e9s e labirintos. Seu pai fot\u00f3grafo tamb\u00e9m \u00e9 um nome conhecido no circuito de artes. J\u00e1 o av\u00f4, Jos\u00e9 Oiticica, autor de <em>\u201cA doutrina anarquista ao alcance de todos\u201d<\/em> nunca \u00e9 citado, porque evoca um espectro que incomoda a classe que compra e se adorna com o bom e o melhor da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de arte \u2013 o do anarquismo e sindicalismo do in\u00edcio do s\u00e9culo XX ou a da velha viol\u00eancia do Estado. Enfim, \u00e9 longa e ainda atual a hist\u00f3ria de apagamento da ideologia anarquista apesar dela haver adiantado h\u00e1 cem anos atr\u00e1s, temas como o feminismo, a ecologia e a produ\u00e7\u00e3o de outros modos de vida.\u00a0 Hoje temos produtos org\u00e2nicos caros e elitistas. Hoje alguns parangol\u00e9s est\u00e3o guardados em cole\u00e7\u00f5es, agregando valor \u00e0 vaidade de seus donos \u2013 suas cores j\u00e1 n\u00e3o giram mais no espa\u00e7o como quando Nildo da Mangueira os vestia. Ao que parece o capitalismo e o Estado com todas as crises que provocam, se fortaleceu. Artistas engajados geralmente se perguntam: como resistir \u00e0 captura? Vale a pena insistir nisso?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Eu j\u00e1 te disse uma vez que a toda resist\u00eancia corresponde uma captura, mas que a volta tamb\u00e9m \u00e9 verdadeira, e a toda captura corresponde uma nova resist\u00eancia. E o jogo de for\u00e7as segue em curso&#8230;eu penso que n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de insistir n\u00e3o, \u00e9 uma quest\u00e3o de n\u00e3o ter escolha, \u00e9 isso ou ser esmagado. E a vida resiste por todas as frestas apesar do capital. O que eu tenho percebido \u00e9 que h\u00e1 um \u00e2mbito que n\u00e3o \u00e9 captur\u00e1vel, e este \u00e2mbito \u00e9 sempre uma singularidade imprevista, eu acredito que a gente tenha que construir narrativas sobre esse \u00e2mbito. As vezes d\u00e1 um des\u00e2nimo porque parece que a gente s\u00f3 perde, e nada avan\u00e7a, a gente olha e parece que tudo foi em v\u00e3o. \u00c9 por isso que \u00e9 importante lembrar das pequenas brechas, do quanto a gente incomodou e transformou apesar dos apagamentos e capturas, enquanto resist\u00eancia hist\u00f3rica coletiva. Essa semana eu estava olhando as fotos dos protestos em S\u00e3o Paulo, algu\u00e9m pichou numa barricada: \u20182013 vive!\u2019 Sabe, \u00e9 uma bobagem, mas isso me emocionou, apesar de todos os apagamentos, apesar de tudo que se produz de lixo sobre n\u00f3s, nossa hist\u00f3ria est\u00e1 a\u00ed nas ruas, sendo continuada, a hist\u00f3ria das lutas sempre ser\u00e1 da tentativa de apagamento, mas ainda assim sempre ser\u00e1 melhor que elas tenham existido naquilo que foram. Curta \u00e9 a vida, longa \u00e9 a arte.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129666\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129666\" class=\"wp-image-1129666 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-308.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-308.jpg 750w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-308-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-308-720x480.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129666\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, 2014<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Por que n\u00e3o viver, n\u00e3o viver este mundo? A liberdade assusta? A liberdade TE assusta?<\/strong><\/p>\n<p>Eu gosto da continua\u00e7\u00e3o: <em>e pra ter outro mundo \u00e9 preci-necess\u00e1rio viver\u2026<\/em> \u00e9 preciso viver este mundo pra fazer outro mundo, apesar do que quer que seja, n\u00e3o h\u00e1 outro mundo, ainda temos que fazer um e \u00e9 no aqui e agora que temos que fazer isso. Da\u00ed isso assusta, o indeterminado, a aus\u00eancia de garantias. Se isso \u00e9 a liberdade, ela carrega o imponder\u00e1vel, a liberdade enquanto indetermina\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o acredito em liberdade inata, liberdade liberal do sujeito atomizado. Liberdade de escolher sua pris\u00e3o, de ter a chave da sua cela. A liberdade que me interessa \u00e9 aquela que precisa ser conquistada neste mundo, no conflito, apesar das mazelas, e esta \u00e9 necessariamente coletiva. Por um lado, \u00e9 um princ\u00edpio da rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas que n\u00e3o pode ser jamais completamente suprimido, por outro, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o permanente em disputa. N\u00e3o creio que respondi, mas enfim, esse tema ultrapassa em muito o que se pretende nessa conversa.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129930\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129930\" class=\"wp-image-1129930 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patria-racista-Contente-2019.jpeg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"479\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patria-racista-Contente-2019.jpeg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/patria-racista-Contente-2019-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129930\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, setembro de 2019.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Certa vez, caminhando buc\u00f3lico entre duas pistas de alta velocidade em Laranjeiras, em frente \u00e0 sede do governo do Estado vi uma faixa negra, com o \u201cA\u201d circunscrito e os seguintes dizeres \u201cContra o genoc\u00eddio nas favelas \/ A ditadura nunca acabou\u201d. Fiquei dias com aqueles dizeres na cabe\u00e7a\u2013na minha mem\u00f3ria foram se encaixando as pe\u00e7as de um quebra cabe\u00e7as \u2013 pessoas pagando parra morrer na \u201csa\u00fade\u201d privada ou na fila do SUS; cenas de jovens covardemente assassinados pelo Estado, que n\u00e3o \u00e9 de agora. Existe democracia no Brasil? Se existe, onde ela est\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma discuss\u00e3o longa. Ser\u00e1 que a democracia n\u00e3o foi desde sempre uma grande mentira? Ser\u00e1 que n\u00e3o foi inventada para se manter pela exce\u00e7\u00e3o e ser um governo da elite? Ser\u00e1 que dever\u00edamos ainda revindicar uma democracia real que nunca existiu em lugar nenhum? O pr\u00f3prio termo \u2018democracia\u2019 se tornou vazio de sentido, cada um entende algo diverso por isso e todos dizem defender a democracia, talvez dev\u00eassemos parar de falar em democracia e passarmos a usar outros termos, autogest\u00e3o, liberdade, auto-determina\u00e7\u00e3o dos povos. Sobre isso, eu queria recomendar o livro do coletivo Crimethinc, <em>Da democracia \u00e0 Liberdade.<\/em> Agora, sobre a pol\u00edtica de exterm\u00ednio na qual vivemos n\u00e3o me resta d\u00favida de que n\u00e3o h\u00e1 respeito \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o, garantias legais, estado de direito&#8230;a situa\u00e7\u00e3o das favelas e periferias s\u00e3o grandes territ\u00f3rios de exce\u00e7\u00e3o permanente, onde nem a capa superficial de respeito \u00e0 legalidade \u00e9 mantida. \u00c9 por isso que esse medo do golpe militar que ainda vir\u00e1 parece t\u00e3o irreal. As pessoas j\u00e1 est\u00e3o sendo mortas dentro das suas casas sem\u00a0 limite ao poder absoluto das for\u00e7as policiais.<\/p>\n<div id=\"attachment_1129595\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1129595\" class=\"wp-image-1129595 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-251.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-251.jpg 1024w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-251-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-251-720x480.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/GARIS-251-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-1129595\" class=\"wp-caption-text\">Foto Carlos Contente, 2014<\/p><\/div>\n<p><strong>\u2013 Certa vez lhe encontrei no lan\u00e7amento de um livro contundente <a href=\"https:\/\/www.brasildefatorj.com.br\/2019\/10\/19\/auto-de-resistencia-heranca-da-ditadura-militar-nas-favelas-do-rio-de-janeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Auto de resist\u00eancia<\/a>\u00b3\u00a0 de Gizele Martins. L\u00e1 ouvimos hist\u00f3rias extremamente dolorosas contadas por m\u00e3es que perderam seus filhos para a viol\u00eancia de Estado\u00a0 e em certa altura voc\u00ea comentou que at\u00e9 havia repensado a sua pr\u00f3pria pris\u00e3o: foi detida por se revoltar, entretanto a necropol\u00edtica desce o n\u00edvel e fuzila quem quer simplesmente existir;\u00a0 Marielle perguntou e eu tamb\u00e9m vou perguntar &#8211; quantos mais t\u00eam que morrer para esta guerra acabar? E esta guerra, vai acabar?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 A gente sabe que a guerra \u00e0s drogas \u00e9 uma desculpa para manter territ\u00f3rios sitiados, \u00e9 uma desculpa para o genoc\u00eddio do povo preto, \u00e9 uma desculpa para aterrorizar locais onde a autogest\u00e3o da vida poderia constituir uma resist\u00eancia, \u00e9 uma desculpa para o controle do povo pobre. N\u00e3o faria sentido uma guerra \u00e0s drogas que mata mais que as drogas, ent\u00e3o o que temos \u00e9 uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a genocida. N\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o est\u00e1 funcionando, ela est\u00e1 funcionando muito bem porque o projeto \u00e9 este mesmo. A guerra n\u00e3o vai acabar porque ela n\u00e3o existe, trata-se de uma guerra fabricada pra mascarar o exterm\u00ednio, a pol\u00edtica de morte pura e simples. Quando Mbembe apresenta o conceito de necropol\u00edtica ele salienta exatamente este ponto: \u00e9 necess\u00e1rio ao poder constitu\u00eddo criar a figura ficcional de um inimigo interno para poder estabelecer a exce\u00e7\u00e3o e, a partir disso, a divis\u00e3o entre os que devem morrer para que outros vivam. O combate ao tr\u00e1fico de drogas cumpre este papel. Que a morte das pessoas pobres, pretas e faveladas \u00e9 um projeto se mostra claramente quando as opera\u00e7\u00f5es policiais continuam durante a pandemia, e matam diariamente.<\/p>\n<p>Toda a pol\u00edtica de suposta guerra que vivemos se estabelece para possibilitar o exterm\u00ednio, n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com combate ao tr\u00e1fico, essa \u00e9 a desculpa discursiva. \u00c9 a fabrica\u00e7\u00e3o de um inimigo capaz de justificar as maiores atrocidades. O Estado fomenta o tr\u00e1fico de drogas, mant\u00e9m as armas, tudo para justificar as incurs\u00f5es violentas cuja finalidade \u00e9 a morte dos mais pobres, \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios sitiados e de pessoas vivendo sob constante terror. A viol\u00eancia \u00e9 um produto, Witzel se elegeu vendendo este produto. Para a classe m\u00e9dia fascistizada, isso aparece como combate \u00e0 criminalidade; para os mais pobres, isso significa que suas vidas s\u00e3o alvos. Precisamos nos voltar para essa quest\u00e3o como uma pauta primeira e urgente, trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel, \u00e9 preciso parar o genoc\u00eddio nas favelas.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como a classe m\u00e9dia brasileira comprou um discurso fascista em 2018 e por que as pessoas apoiam, as posi\u00e7\u00f5es absurdas do presidente durante a pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Bom, por um lado, existe a fascistiza\u00e7\u00e3o da sociedade que sempre existiu e apenas saiu do arm\u00e1rio. A verdade \u00e9 que a sociedade brasileira \u00e9 extremamente conservadora, racista, machista, homof\u00f3bica&#8230;nunca houve uma modifica\u00e7\u00e3o desses valores de baixo pra cima na nossa sociedade. Nunca se prezou por um projeto de modifica\u00e7\u00e3o profunda dessas mentalidades. N\u00e3o podemos sequer dizer que este projeto falhou porque ele nunca existiu seriamente, ele nunca foi interessante para aqueles que ocupavam o poder. Ent\u00e3o o Bolsonaro capta bem esses elementos. Ele cresce naquilo que sempre fomos fingindo n\u00e3o ser. Outra quest\u00e3o \u00e9 como a nova direita foi capaz de trazer para si os elementos anti-sist\u00eamicos da sociedade, de um modo que a esquerda institucional se recusou a fazer. Da\u00ed temos agora um governo que rasga a constitui\u00e7\u00e3o federal e uma oposi\u00e7\u00e3o que chora em cima da democracia que morreu sem nunca ter existido de fato. A chamada crise da representa\u00e7\u00e3o acabou sendo canalizada por esta direita que se diz, no discurso, anti-institui\u00e7\u00e3o, mas que nada mais \u00e9 do que a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o sem vergonha de se mostrar. O que vem \u00e0 tona com o governo Bolsonaro s\u00e3o for\u00e7as pol\u00edticas que j\u00e1 estavam a\u00ed, nas sombras, os coron\u00e9is; a mil\u00edcia; os grandes latifundi\u00e1rios; aqueles que nunca se conformaram com o fim da ditadura militar&#8230;<\/p>\n<p>A esquerda institucional tem muita responsabilidade nesta ascens\u00e3o neofascista por nunca ter levado a cabo um projeto real de modifica\u00e7\u00e3o de sociedade; por ter sido sempre uma direita envergonhada e conciliadora de classe; por pensar mais na manuten\u00e7\u00e3o de um nicho de poder do que na transforma\u00e7\u00e3o de baixo para cima da sociedade. Da\u00ed tamb\u00e9m a for\u00e7a que o anarquismo pode ter hoje, como alternativa de a\u00e7\u00e3o. O discurso do Bolsonaro acaba que dialoga com uma parte do povo, porque as pessoas foram formadas na meritocracia, na moral do trabalho\u2026 Quem consegue viver com um aux\u00edlio de 600 reais, que na maior parte das vezes nem chega aos mais necessitados? \u00c9 claro que as pessoas querem ent\u00e3o sair pra trabalhar, elas foram ensinadas que sem trabalhar n\u00e3o se tem direito de sobreviver e muitas delas est\u00e3o passando necessidade real, da\u00ed parece que faz sentido arriscar a pr\u00f3pria vida para dar lucro ao patr\u00e3o, j\u00e1 que sem comer n\u00e3o viver\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O discurso compassivo n\u00e3o vai dialogar com as pessoas, \u201cfique em casa e morra de fome\u201d n\u00e3o convence ningu\u00e9m. Elas responder\u00e3o: f\u00e1cil pra voc\u00ea falar! \u00c9 mais plaus\u00edvel ent\u00e3o acreditar que Bolsonaro est\u00e1 defendendo a liberdade quando diz que as pessoas devem circular. O que \u00e9 preciso contrapor a isso \u00e9 que a vida vale nela mesmo, n\u00e3o para manter a economia funcionando. Da\u00ed a pergunta que precisa ser feita seriamente: o que \u00e9 um bem em si? O sistema capitalista ou a sobreviv\u00eancia? Quem diz o sistema capitalista pode at\u00e9 defender um isolamento social (essas s\u00e3o as for\u00e7as moderadas hoje, liberais no discurso como a rede Globo de televis\u00e3o, por exemplo), mas apenas para depois tudo voltar ao normal melhor. O que temos que dizer \u00e9: n\u00e3o queremos o normal, o normal gerou isso que est\u00e1 a\u00ed e s\u00f3 vai piorar, se n\u00e3o for o v\u00edrus, ser\u00e1 outra trag\u00e9dia, isso \u00e9 o capitalismo, a vida \u00e9 outra coisa, e essa vida \u00e9 que precisa ser defendida\u00a0 acima do que quer que seja. \u00c9 esse \u201cpulo do gato\u201d que os governantes mais temem que as pessoas tenham neste momento, que elas finalmente percebam que este modo de vida \u00e9 insustent\u00e1vel e se revoltem. Enquanto a esquerda se recusar a fazer um discurso radical e continuar focando nas elei\u00e7\u00f5es e na manuten\u00e7\u00e3o do insustent\u00e1vel status quo, Bolsonaro vai sempre dialogar mais com as massas do que a gente. Eu acredito que apenas os anarquistas est\u00e3o preparados para fazer este discurso, pois sempre tiveram a coragem de apontar estas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>N\u00e2o acabou, tem que acabar. Eu quero o fim:<\/em><br \/>\n<em>do sistema militar<\/em><br \/>\n<em>dessa gente de chorar<\/em><br \/>\n<em>da pol\u00edtica de matar!<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>\u00b9 Folha de S\u00e3o Paulo, Ilustr\u00edssima. Agosto de 2019.\u00a0 (Para quem n\u00e3o \u00e9 assinante, o texto publicado na Folha, na \u00edntegra no site da Fac\u00e7\u00e3o Fict\u00edcia <a href=\"https:\/\/faccaoficticia.noblogs.org\/post\/2019\/08\/18\/libertario-anarquista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Libert\u00e1rio \u00e9 sin\u00f4nimo de anarquismo<\/a>)<br \/>\n2. <a href=\"https:\/\/faccaoficticia.noblogs.org\/post\/2020\/06\/05\/antifa-entrevista-com-mark-bray\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Entrevista ao Mark Bray<\/a> no site da Fac\u00e7\u00e3o Fict\u00edcia<br \/>\n3. Lan\u00e7amento do livro <a href=\"https:\/\/www.brasildefatorj.com.br\/2019\/10\/19\/auto-de-resistencia-heranca-da-ditadura-militar-nas-favelas-do-rio-de-janeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cAuto de resist\u00eancia a omiss\u00e3o que mata\u201d<\/a> de Gisele Martins, comunicadora e ativista da Frente Mar\u00e9 \u2013 Jornal Brasil de Fato, 19 de dezembro de 2019.<br \/>\n4. <a href=\"http:\/\/editoracircuito.com.br\/website\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cat\u00e1logo da Editora Circuito<\/a>.<br \/>\n5. Samis, Alexandre. <a href=\"https:\/\/noticiasanarquistas.noblogs.org\/post\/2019\/09\/13\/comecou-a-pre-venda-do-livro-clevelandia-anarquismo-sindicalismo-e-repressao-politica-no-brasil-de-alexandre-samis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Clevel\u00e2ndia: anarquismo, sindicalismo e repress\u00e3o pol\u00edtica no Brasil.<\/a> S\u00e3o Paulo: Entremares; Intermezzo, 2019.<br \/>\n6. Martins, Gisele. Auto de resist\u00eancia, a omiss\u00e3o que mata \u2013 1 ed \u2013 Rio de Janeiro: A. M Designer, 2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Jourdan \u00e9 professora do departamento de filosofia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, m\u00e3e e uma das vinte e tr\u00eas pessoas presas e processadas durante os protestos contra a realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo de 2014.\u00a0 Camila lan\u00e7ou&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1825,"featured_media":1129635,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[104,11390,159,111],"tags":[76951,2744,76950],"class_list":["post-1129592","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-do-sul","category-conteudo-original","category-entrevista-pt-pt","category-politica-pt-pt","tag-anarquismo-pt-pt","tag-brasil","tag-protestos-2013"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.1.1 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A revolta como enigma. 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