{"id":1125063,"date":"2020-06-04T01:29:10","date_gmt":"2020-06-04T00:29:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1125063"},"modified":"2020-06-04T01:29:10","modified_gmt":"2020-06-04T00:29:10","slug":"arte-e-antifascismo-no-jornal-o-homem-livre-1933-1934","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/06\/arte-e-antifascismo-no-jornal-o-homem-livre-1933-1934\/","title":{"rendered":"Arte e antifascismo no jornal \u201cO Homem Livre\u201d\u00a0(1933-1934)"},"content":{"rendered":"<p><em>Por<strong> Thiago Fernandes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em 1933, chegavam ao Brasil not\u00edcias sobre a ascens\u00e3o dos fascistas ao poder na Alemanha. Aqui, a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira (AIB) j\u00e1 se organizava desde o ano anterior, unificando grupos fascistas em diferentes partes do Brasil. Tal conjuntura fez ampliar o movimento antifascista no Brasil, \u00e0 princ\u00edpio radicado na capital paulista, e o fez acelerar suas a\u00e7\u00f5es, culminando na cria\u00e7\u00e3o da Frente \u00danica Antifascista (FUA).<\/p>\n<p>Para conseguir apoio da popula\u00e7\u00e3o diante da propaga\u00e7\u00e3o de ideais fascistas, um instrumento de contrapropaganda precisava ser criado, e assim surgiu o jornal\u00a0<em>O Homem Livre<\/em>, que em sua curta exist\u00eancia, entre 1933 e 1934, contribuiu para a articula\u00e7\u00e3o do movimento antifascista em S\u00e3o Paulo. O jornal, lan\u00e7ado em 27 de maio de 1933, cerca de um m\u00eas antes da cria\u00e7\u00e3o da FUA, contou com artigos, assinados ou sob pseud\u00f4nimos, de autores como Jos\u00e9 P\u00e9rez, M\u00e1rio Pedrosa, L\u00edvio Xavier, Aristides Lobo, Goffredo Rosini, Geraldo Ferraz e Miguel Macedo, e foi ilustrado pelo gravador L\u00edvio Abramo.<\/p>\n<p>Apesar dos problemas financeiros, <em>O Homem Livre<\/em>\u00a0tinha boas qualidades t\u00e9cnicas e editoriais devido ao fato de ser produzido por jornalistas e gr\u00e1ficos profissionais, em grande parte ligados ao jornal\u00a0Di\u00e1rio da Noite. Al\u00e9m de utilizar servi\u00e7os de ag\u00eancias de not\u00edcias internacionais, o jornal tinha se\u00e7\u00f5es fixas sobre artes pl\u00e1sticas, cinema, economia, cultura, ci\u00eancias, etc. Seu primeiro editorial, intitulado \u201cContra o Fascismo\u201d, j\u00e1 deixava claro seus objetivos e o principal inimigo a ser combatido. Tamb\u00e9m por meio do jornal os leitores tomaram conhecimento sobre acontecimentos hist\u00f3ricos, como a famosa queima de cerca de 20 mil livros realizada pelos nazistas numa pra\u00e7a p\u00fablica de Berlim na noite de 10 de maio de 1933, cujos alvos eram obras de autores considerados inimigos pol\u00edticos, representantes de etnias minorit\u00e1rias ou de modos de pensar e viver diferentes. Entre outros temas abordados no jornal estavam o voto feminino, a Frente Negra Socialista, a situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, a cultura popular, o antissemitismo e o racismo. Sua postura era denunciativa, cr\u00edtica e por vezes did\u00e1tica, buscando explicar os perigos do fascismo e dos conceitos por ele adotados, a exemplo de um artigo da se\u00e7\u00e3o de biologia que trata da defini\u00e7\u00e3o de \u201cesp\u00e9cie\u201d. Mas o humor tamb\u00e9m costumava ser utilizado como arma de contrapropaganda, sobretudo em charges oriundas de jornais estrangeiros e artigos que tratavam o fascismo e o integralismo de maneira sat\u00edrica.<\/p>\n<p><em>O Homem Livre<\/em>\u00a0foi lan\u00e7ado numa d\u00e9cada em que a arte brasileira era assinalada pelas tem\u00e1ticas sociais: Tarsila pintava oper\u00e1rios, Portinari lavradores, Segall a imigra\u00e7\u00e3o e a matan\u00e7a de judeus. Ao mesmo tempo, a gravura, por sua natureza reprodutiva, era adotada com maior frequ\u00eancia pelos artistas, de modo a romper com a unicidade da imagem e ampliar seu valor de exposi\u00e7\u00e3o, podendo ser vista em jornais e revistas, por exemplo, e n\u00e3o apenas em galerias de arte. O potencial pol\u00edtico da gravura, sua capacidade de levar a imagem \u00e0s massas, foi explorado pelos artistas em colabora\u00e7\u00e3o com a imprensa alternativa. A preocupa\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento de uma identidade nacional por meio do projeto antropof\u00e1gico de assimila\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o das vanguardas europeias, caracter\u00edstica dos anos 1920, cedeu lugar a uma produ\u00e7\u00e3o vinculada ao povo e destinada \u00e0s massas, sendo a arte vista como instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Essa segunda gera\u00e7\u00e3o de modernistas era formada, em parte, por artistas de origem modesta, prolet\u00e1ria, ao contr\u00e1rio da anterior, cujos principais nomes provinham das elites e realizaram sua forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Alemanha e Estados Unidos.<\/p>\n<p>Outro marco para o ano de 1933 \u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o da gravadora expressionista alem\u00e3 K\u00e4the Kollwitz, organizada pelo Clube dos Artistas Modernos de S\u00e3o Paulo (CAM), criado por Fl\u00e1vio de Carvalho. Artista dedicada a motivos sociais, Kollwitz teve sua obra profundamente marcada pela Primeira Guerra Mundial e caracterizada pelo vi\u00e9s melanc\u00f3lico. Abordava temas como a classe oper\u00e1ria, a mis\u00e9ria, a guerra, a dor e a morte, tendo figuras femininas como protagonistas em grande parte de suas obras, o que levou M\u00e1rio Pedrosa a considera-la \u201ca artista da mulher prolet\u00e1ria\u201d. A figura da m\u00e3e \u00e9 recorrente em seus trabalhos, como um ser protetor e oprimido pelos males da guerra. Kollwitz foi perseguida pelos nazistas na d\u00e9cada de 1930 devido a seu interesse pelo socialismo. Sua obra e trajet\u00f3ria j\u00e1 eram admiradas no Brasil desde a d\u00e9cada de 1920, quando seu nome foi destaque em alguns impressos, e a artista j\u00e1 havia exposto no pa\u00eds em outras ocasi\u00f5es. A individual de 1933 tem tamanha notoriedade devido, entre outros fatores, a um texto publicado no jornal <em>O Homem Livre<\/em>\u00a0por M\u00e1rio Pedrosa, cr\u00edtico conhecido por sua intensa atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u201cK\u00e4the Kollwitz e as tend\u00eancias sociais da arte\u201d, originalmente uma confer\u00eancia apresentada por Pedrosa no CAM, marca n\u00e3o apenas sua estreia na cr\u00edtica de arte, como tamb\u00e9m \u00e9 um divisor de \u00e1guas para a cr\u00edtica brasileira, uma vez que at\u00e9 ent\u00e3o os escritos sobre arte eram caracterizados por um cunho descritivo, laudat\u00f3rio, ou por uma ret\u00f3rica ran\u00e7osa, sendo muitas vezes ligados ao colunismo social e \u00e0 literatura, e era uma pr\u00e1tica exercida por poetas, jornalistas e escritores menos preocupados com a interpreta\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno art\u00edstico.<\/p>\n<div id=\"attachment_1125077\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1125077\" class=\"wp-image-1125077 size-full\" src=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/not_detected_235985.jpglarge.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/not_detected_235985.jpglarge.jpg 720w, https:\/\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/not_detected_235985.jpglarge-300x250.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><p id=\"caption-attachment-1125077\" class=\"wp-caption-text\">K\u00e4the Kollwitz, As m\u00e3es, 1922<\/p><\/div>\n<p>Em seus primeiros escritos sobre arte, Pedrosa acreditava que o tema (de cunho social) desempenha um papel central na obra de arte, assim como seu v\u00ednculo com a classe trabalhadora. No texto sobre K\u00e4the Kollwitz, no qual o cr\u00edtico pioneiramente (no Brasil) adota uma interpreta\u00e7\u00e3o marxista da arte, \u00e9 poss\u00edvel perceber sua inten\u00e7\u00e3o de articular arte e pol\u00edtica e afastar a produ\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do individualismo burgu\u00eas. Pedrosa, contudo, n\u00e3o enxerga a arte como dado ilustrativo ou a reduz a mera propaganda ideol\u00f3gica. Ele se atenta para a din\u00e2mica do processo cultural e para os procedimentos art\u00edsticos. Essa no\u00e7\u00e3o mais ampla de uma arte revolucion\u00e1ria, para al\u00e9m de um engajamento pol\u00edtico, se tornar\u00e1 mais clara na segunda fase de sua produ\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, na qual se interessa mais pela forma, os princ\u00edpios da Gestalt e os meios de express\u00e3o espec\u00edficos da arte, partindo em defesa da arte abstrata. O que se quer aqui destacar \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o de Pedrosa, como cr\u00edtico, para a luta antifascista e o papel do jornal\u00a0<em>O Homem Livre<\/em>\u00a0na dissemina\u00e7\u00e3o de um dos mais importantes textos da hist\u00f3ria da cr\u00edtica brasileira. A veicula\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia de Pedrosa num peri\u00f3dico antifascista \u00e9 um relevante marcador da associa\u00e7\u00e3o entre arte, pol\u00edtica e coletividade pela qual se militava na d\u00e9cada de 1930, n\u00e3o apenas no Brasil, como tamb\u00e9m no mundo afora. Confere-se relev\u00e2ncia \u00e0 arte e \u00e0 sua capacidade de interferir nas visibilidades. A arte \u00e9 encarada como uma potente arma pelos revolucion\u00e1rios, como tamb\u00e9m \u00e9 assim reconhecida pelos reacion\u00e1rios \u2013 e por isso tantas vezes a interditaram, a censuraram, como ainda o fazem hoje.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de Kollwitz se deve tamb\u00e9m \u00e0 not\u00e1vel influ\u00eancia que exerceu na trajet\u00f3ria de artistas brasileiros que tiveram contato suas obras que aqui chegaram, entre eles L\u00edvio Abramo. Considerado por seu amigo M\u00e1rio Pedrosa o primeiro artista brasileiro a transpor para a xilogravura o tema da luta de classes, Abramo foi um artista militante, autodidata por falta de op\u00e7\u00e3o, que construiu imagens ideologicamente em conformidade com seus pressupostos pol\u00edticos, fazendo da arte um instrumento de den\u00fancia. Sua obra, ao menos na d\u00e9cada de 1930, \u00e9 insepar\u00e1vel de sua atua\u00e7\u00e3o no campo da pol\u00edtica e da luta sindical. Concentrou-se em temas como oper\u00e1rios nas f\u00e1bricas ou em protestos, cenas de guerra e bombardeios, paisagens de vilas oper\u00e1rias e outros elementos diretamente relacionados \u00e0 figura do trabalhador brasileiro por meio de uma linguagem expressionista. Abramo colocou sua arte \u00e0 servi\u00e7o da imprensa cr\u00edtica e foi colaborador do jornal\u00a0<em>O Homem Livre<\/em>\u00a0durante sua curta exist\u00eancia. Paulista e oriundo de uma fam\u00edlia de imigrantes italianos, o artista desenvolveu em S\u00e3o Paulo um papel semelhante ao de Oswaldo Goeldi no Rio de Janeiro, como impulsionador do desenvolvimento da gravura, e em particular da gravura de motivos sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 importante pontuar que o restrito circuito art\u00edstico limitava a atua\u00e7\u00e3o dos artistas em geral e prejudicava, sobretudo, aqueles que tinham na arte o \u00fanico meio de sobreviv\u00eancia. No entanto, o crescimento do mercado editorial foi bastante significativo para gravadores, que encontraram na ilustra\u00e7\u00e3o de jornais e livros um destino para sua cria\u00e7\u00e3o. Antes de ilustrar\u00a0<em>O Homem Livre<\/em>, L\u00edvio Abramo trabalhou para outras publica\u00e7\u00f5es, como o\u00a0Di\u00e1rio da Noite, o seman\u00e1rio anarquista\u00a0Lo Spaghetto\u00a0e os jornais de esquerda\u00a0Luta de Classes\u00a0e\u00a0Petracchone. Seus desenhos lhe renderam duas pris\u00f5es e o teor excessivamente cr\u00edtico de suas charges no\u00a0Di\u00e1rio da Noite\u00a0o fez ser deslocado para outro setor do jornal. A postura cr\u00edtica se fazia presente n\u00e3o apenas na obra de Abramo, mas igualmente em sua vida. Em 1932, foi expulso do Partido Comunista acusado de ser trotskista (assim como fora M\u00e1rio Pedrosa, em 1929, pela mesma raz\u00e3o).<\/p>\n<p>As gravuras que L\u00edvio Abramo produziu constituem seu ethos pol\u00edtico, identificam-se com sua pr\u00f3pria vida e integram sua luta contra o fascismo. Mas al\u00e9m do car\u00e1ter instrumental, essas imagens t\u00eam profundo valor expressivo. O artista se mantem original em suas solu\u00e7\u00f5es formais, no tratamento da luz, e as peculiaridades encontradas em suas obras assinalam seu impulso experimental, o que lhe garante um lugar de destaque entre os grandes nomes da gravura moderna no Brasil. Sua atua\u00e7\u00e3o na imprensa, em especial no jornal\u00a0<em>O Homem Livre<\/em>\u00a0aqui abordado, afirma o compromisso de sua arte em reproduzir-se. De aproximar-se das massas. De dar a ver as condi\u00e7\u00f5es daqueles que s\u00e3o oprimidos e marginalizados. De promover a for\u00e7a e a uni\u00e3o diante da amea\u00e7a fascista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Thiago Fernandes Em 1933, chegavam ao Brasil not\u00edcias sobre a ascens\u00e3o dos fascistas ao poder na Alemanha. Aqui, a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira (AIB) j\u00e1 se organizava desde o ano anterior, unificando grupos fascistas em diferentes partes do Brasil. 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