{"id":1104090,"date":"2020-05-10T03:59:21","date_gmt":"2020-05-10T02:59:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pressenza.com\/?p=1104090"},"modified":"2020-05-10T21:08:19","modified_gmt":"2020-05-10T20:08:19","slug":"editorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pressenza.com\/pt-pt\/2020\/05\/editorial\/","title":{"rendered":"Editorial"},"content":{"rendered":"<p>As pessoas que estavam no <em>m\u00e9tier<\/em> das diversas modalidades art\u00edsticas da minha gera\u00e7\u00e3o se deliciavam com os suplementos culturais que sa\u00edam, sempre aos domingos, nos maiores jornais do pa\u00eds. Neles encontr\u00e1vamos todas as ofertas culturais para este dia e para o resto da semana. Como jovem ator, aparecer numa entrevista ou num artigo sobre a pe\u00e7a teatral que t\u00ednhamos em cartaz era todo um acontecimento. Recortar e guardar estas not\u00edcias de jornal era como juntar um tesouro, que ao revelar-se colados num caderno qualquer iam dando brilho \u00e0s nossas trajet\u00f3rias profissionais. At\u00e9 os tijolinhos contavam.<\/p>\n<p>Os paulistas tinham a Folha e o Estado de S\u00e3o Paulo, os cariocas, o Segundo Caderno de O Globo e o Caderno B do Jornal do Brasil, o meu preferido, pelo time de cronistas, cr\u00edticos, poetas e pensadores de todas as artes que, independente da imediata rea\u00e7\u00e3o de \u201cades\u00e3o ou recha\u00e7o\u201d , na hora da leitura, iam nos ajudando a ver com outros olhos tudo aquilo que l\u00edamos nos livros, ouv\u00edamos nos \u00e1lbuns ou sobre os espet\u00e1culos de nossos cantores prediletos, o que v\u00edamos nas exposi\u00e7\u00f5es de pintura, nos palcos de teatro e dan\u00e7a, nas telas do cinema ou mesmo da TV.<\/p>\n<p>Eu nasci em 1966, ou seja, entre o Golpe de 64 e a instaura\u00e7\u00e3o em 68, do AI-5, decreto emitido pela Ditadura Militar que inaugurou o per\u00edodo mais sombrio desse regime ao dar carta branca para que as for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado ampliassem sua persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o contra qualquer oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Neste endurecimento, os golpistas fecharam o Congresso Nacional, decretaram estado de s\u00edtio por tempo indeterminado, cassaram mandatos, confiscaram bens privados, interviram em estados e munic\u00edpios. Come\u00e7aram com as pr\u00e1ticas de tortura e a censura aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e a todos os seguimentos culturais.<\/p>\n<p>Assim, muitos de n\u00f3s, crescemos num clima de vigil\u00e2ncia e conten\u00e7\u00e3o e o Caderno B do jornal do Brasil, por seu conceito human\u00edstico da Imprensa no mundo, como bem dizia Carlos Drummond de Andrade, representava de algum modo a possibilidade de externar nossa \u00e2nsia de liberdade tirando esta esp\u00e9cie de roupa apertada que asfixia os jovens em momentos de dial\u00e9tica geracional.<\/p>\n<p>Este suplemento de cultura, o era, verdadeiramente, porque em sua diversidade inclu\u00eda textos sobre o comportamento e o cotidiano do Rio Janeiro. E as tiras c\u00f4micas do Henfil, n\u00e3o se limitavam \u00e0 s\u00e1tira pol\u00edtica sobre as figuras acomodadas do \u201csul maravilha\u201d, como ele gostava de chamar os que eram do sul e do sudeste brasileiro, e nos fazia empatizar com os personagens nordestinos da Turma da Caatinga que clamavam aten\u00e7\u00e3o, ou melhor, exclamavam aten\u00e7\u00e3o, principalmente, pela boca de uma ave divertida com a forma desse sinal de pontua\u00e7\u00e3o. Gra\u00fana! A Mafalda do nordeste! Ah Gra\u00fana!!<\/p>\n<p>Felizmente contamos, tamb\u00e9m neste Caderno de Cultura de Pressenza, com colegas, que formaram sua \u201cpaisagem interior\u201d em outras \u00e9pocas, outros lugares, outros contextos sociais&#8230; S\u00e3o mais jovens ou mais velhos e navegaram mais ou menos por outras culturas do que eu e cada um dos que estamos colaborando aqui, complementando-nos necessariamente nesta aventura digital lan\u00e7ada ao porvir!!<\/p>\n<p>E hoje, assistimos todos, com nossas bem-vindas diferen\u00e7as de paisagem, o surgimento de uma onda fascista, que volta a amea\u00e7ar nossa jovem democracia, conquistada e reconquistada tantas vezes a duras penas porque desde que se consumou o processo de destitui\u00e7\u00e3o, em maio de 2016, da Presidenta Dilma Roussef, com lament\u00e1vel e amplo apoio parlamentar, midi\u00e1tico e do Judici\u00e1rio, os cientistas do Brasil, as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, os movimentos sociais, os artistas e pensadores que atuaram para ampliar as liberdades individuais, o sentido, as leis e as pr\u00e1ticas que promoveram o pouco de Justi\u00e7a Social alcan\u00e7ado a partir de 1985 vem sofrendo sucessivos ataques.<\/p>\n<p>Mas \u00e9, exatamente por isso, que nem eles nem n\u00f3s, iremos nos submeter, de novo, \u00e0s r\u00edgidas, violentas e velhas \u201ctablas morais\u201d que as empresas religiosas Neopentecostais querem nos impor. Em conson\u00e2ncia com estas velhas tablas estiveram sempre os programas televisivos de \u201cmundo c\u00e3o\u201d que h\u00e1 d\u00e9cadas, s\u00e3o emitidos por diversos canais promovendo o \u201colho por olho, dente por dente\u201d, tirando proveito da aus\u00eancia do Estado. Infelizmente esses dois elementos serviram como \u201cbase de forma\u00e7\u00e3o\u201d, principalmente para as camadas mais desfavorecidas, que foram aprendendo a achincalhar todo princ\u00edpio que se inscrevesse com as ins\u00edgnias dos Direitos Humanos, -num verdadeiro e inconsciente tiro no p\u00e9 \u2013 e, que certamente, contribu\u00edram para formar esta confusa horda bolsonarista aplaudida por uma burra e cruel elite econ\u00f3mica..<\/p>\n<p>Sim, essa nefasta massa amorfa que se espalhou como praga tenta amorda\u00e7ar mais uma vez a opini\u00e3o do teatro, demonizar as express\u00f5es da cultura de matriz africana presente no samba, no nosso Carnaval. Com a pretens\u00e3o de ser dona do corpo alheio, aposta na moral de \u201ctoda a nudez castigada\u201d, e castra toda a express\u00e3o do feminino, decretando, ridiculamente, o que seriam as cores da mulher e as cores do homem, inviabilizando a exist\u00eancia de escolas de dan\u00e7a, invadindo exposi\u00e7\u00f5es de pintura para vendar os olhos de quem se abre para outras realidades. Buscam, com sua pauta moral, cortar todos os planos t\u00e3o bem gravados na mem\u00f3ria dos estudantes e criadores de escolas de cinema como a Darcy Ribeiro ou, atrav\u00e9s da pr\u00f3pria Ancine, que perdeu a independ\u00eancia e foi invadida com o objetivo de promover um cerco a todas as produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas que, legitimamente, nos levam \u00e0 uma releitura da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds. Que se cale pois, Marighella!!<\/p>\n<p>O Brasil manteve, sorrateiramente em suas institui\u00e7\u00f5es, os algozes e simpatizantes dos algozes, aqueles que for\u00e7aram o ex\u00edlio de tanta gente boa e competente da educa\u00e7\u00e3o, das artes e das ci\u00eancias, que for\u00e7aram uma \u201cfuga de c\u00e9rebros e cora\u00e7\u00f5es\u201d t\u00e3o conveniente aos regimes autorit\u00e1rios. O desconcertante \u00e9 constatar que, at\u00e9 mesmo alguns artistas famosos, que namoraram com a Ditadura atuam hoje como atuava o\u00a0<span lang=\"PT-BR\">capit\u00e3o<\/span>-do-mato, que servia aos senhores de escravos numa triste p\u00e1gina de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim, caros amigos, se \u201ca coisa aqui t\u00e1 preta\u201d ser\u00e1 bom contar com este Caderno!! Pois \u00e9 saud\u00e1vel reconhecer os degraus que todos os bons trabalhadores da cultura, que nos precederam, constru\u00edram contribuindo com o que \u00e9 a pr\u00f3pria identidade de um povo com talento para a alegria e a diversidade.<\/p>\n<p>Para falar de arte, comportamento e cotidiano, entrela\u00e7ados com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social do Brasil j\u00e1 n\u00e3o temos aqui o pessoal do JB, ou das revistas de Humor e S\u00e1tira Pol\u00edtica sobre as quais, por certo, tamb\u00e9m poder\u00edamos falar em futuras edi\u00e7\u00f5es desse Caderno. J\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 com Lispector, Drummond, Sabino, Heliodora, Mill\u00f6r, Ver\u00edssimo, Henfil, Motta&#8230;<\/p>\n<p>Aqui somos Al\u00edcia e Alice, Marco, Jac, Contente, Valerio, Victor, Dayse, Guido, Lessa, Clodoaldo, Gilson, Patr\u00edcio, Juana e todos os que est\u00e3o chegando n\u00e3o s\u00f3 com seus textos, mas tamb\u00e9m com seus desenhos, podcasts, apoio t\u00e9cnico e moral, tradu\u00e7\u00f5es, v\u00eddeos e todas as formas e meios de resist\u00eancia n\u00e3o-violentos que esperamos sejam a nossa caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>Bem-vindos!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pessoas que estavam no m\u00e9tier das diversas modalidades art\u00edsticas da minha gera\u00e7\u00e3o se deliciavam com os suplementos culturais que sa\u00edam, sempre aos domingos, nos maiores jornais do pa\u00eds. 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